1
MODERNA GRAMÁTICA Portuguesa
COMPANhIA EDITORA NACIONAl
#
ÍNDICE
INTRODUÇÃO
Que é uma líNgua, ?
A língua. é um fenómeno cultural .
Modalidades de uma língua: língua falada e língua escrita ...........
Língua geral e língua regional
Objeto da Gramática
DivisÃo da Gramática
Partes da Gramática
Objeto da Estilística
FONÉTICA E FONÉMICA
A) ProduçÃo dos fonemas e sua classificaçÃo
1 - Fonética descritiva
Fonemas........................................................
Fonemas não são letras
Fonética e fonémica. ...
Aparelho fonador ..............................................
Como se produzem os fonemas ..........................
Fonemas surdos e sonoros ...............................
Vogais e consoantes
Classificação das vogais
Elevação da língua: quinto critério para a classificação das vogais 35
~à-is Encontros vocálicos: ditongos, tritongos, hiatos 36
Classificação das consoantes
En~ontro consonantal
Diiràfo
Letra diacrítica
Apêndice:
Encontros de fonemas que produzem efeito desagradável ao
ouvido: colisão, eco, hiato, cacofonia ........................
B) Ortoepia .................I
Vogais ...............................................................
Consoantes ...........................................................
Ligação dos
vocábulos........................................................... ...
C) Prosódia
Prosódia ...
Sílaba .....
Quantidade
Acentuação
Acento de intensidade ...
Posição do acento tÔnico
Acento de intensidade e sentido do vocábulo ..........................
Acento principal e acento secundário .................................
Acento de insistência e emocional 1
Acento de intensidade na frase ......................................
Vocábulos tônitoà'~e átonos: os
clíticos ................................
Conseqüências da próclise ............................................
2
Vocábulos que oferecem dúvidas quanto à posição da sílaba tônica . . .
Vocábulos que admitem dupla prosódia ..............................
D) Ortografia
o alfabeto ..........................................................
K, w, Y ............................................................
H ...................................................................
Consoantes mudas
se ...........
Letras dobradas ......................................................
Vogais nasais ...............
Ditongos ......
Hiatos ........
Parónimos e vocábulos de grafia. dupla ..............................
Nomes próprios
Apóstrofo .....
Hífen ..........
Divisão silábica
Emprego das iniciais maiúsculas ......................................
Sinais de pontuação
Regras de acentuação
Acento diferencial .. -
11 - MORFOLOGIA
A) Classes de vocábulos
1 - Substantivo
Concretos e abstratos
Próp)rios e comuns ..
2 - Adjetivo
Adjetivo .............................88
Adjetivo explicativo e restritivo ....88
Substantivação do adjetivo ...........88
Flexões do........................adjetivo ........... em de nomes
próprios a comuns 74
Substantivo coletivo . , .............
Formação do plural do substantivo
Género do substantivo ................
Grau.............................................................. .
.............
3 - Artigo
Artigo ...............................94
Espécies de artigo
4 - Pronome
Classificação dos pronomes
Pronomes pessoais
Pronomes possessivos
Pronomes demonstrativos
Pronomes indefinidos
Pronomes interrogativos
Pronomes relativos
5 - Numeral
3
Numeral
Espécies de numeral
6 - Verbo
Verbo ......
Pessoas do verbo
Tempos do verbo
Modos do verbo
Vozes do verbo
Voz passiva e passividade
Formas nominais do verbo
Conjugar um verbo
Verbos regulares, irregulares e anómalos
Verbos defectivos e abundantes ..
Locução verbal: verbos auxiliares
Auxiliares causativos e sensitivos
Elementos estruturais do verbo: os sufixos e desinências verbais
Tempos primitivos e derivados ..
A sílaba tMica dos verbos: formas rizotânicas e arrizotônicas ....
Alterriância vocálica ou metafonia.
Verbos notáveis quanto à pronúncia ou flexão ..................
Variações gráficas na conjugação ...............................
Erros freqüentes na conjugação de alguns verbos ................
Paradigma dos verbos regulares .................................
Conjugação de verbos auxiliares comuns ........................
Conjugação composta ...............134
Conjugação do verbo pôr ....................................... 136
Conjugação de um verbo composto na voz passiva: ser amado 138
Conjugação de um verbo na voz reflexiva: apiedar-se 139
Conjugação de um verbo com pronome oblíquo átono: tipo pô-lo 142
Conjugação dos verbos irregulares .144
1a conjugação .................................................
2.a conjugação .................................................
3.a conjugação .................................................
7 - Advérbio e os denotativos
Advérbio ..........................
Locução adverbial ................
Circunstáncias adverbiais ..........
Os vocábulos denotativos .........
Advérbios de base nominal e pronominal ..................
Gradação dos advérbios
8 - Preposição
Preposição ......................................................
Locução prepositiva ......
Acúmulo de preposições ..................
Combinação e contração de preposição com outras palavras .....
A preposição e sua posição ....................................
Principais preposições e locuções prepositivas ..................
9 - Conjunção
Conjunção .....................
Tipos de conjunção ............................................
Locução conjuntiva ............
4
Conjunções coordenativas .......................................
Conjunções subordinativas ......................................
Que excessivo ..................................................
Conjunções e expressões enfáticas ...............................
#
10 - Interjeição
Interjeição
Locução interjetiva .
B) 1 - Estrutura dos vocábulos
Vocábulo e morfema. ....................................
os elementos mórficos
Radical ....
Desinéncias nominais e verbais ......................................
Tema e vogal temática ..............................................
Afixos: prefixos e sufixos ....
Vogais e consoantes de ligação
justaposição ................
Aglutinação ...
Conceito de raiz ou radical primário .................................
Palavras cognatas ......
Constituintes imediatos .
Variantes dos elementos mórficos .....
Neutralização nos elementos mórficos
Subtração nos elementos mórficos ....
Acumulação nos elementos mórficos; ...
Fusão nos elementos mórficos .........
Suplementação nos elementos mórficos
A intensidade, a quantidade e o timbre e os elementos mórficos ......
2 - Formação de palavras
Palavras indivisíveis e
divisíveis ......................................
Palavras divisíveis simples e compostas .
Processos principais de formação de palavras: composição e derivação
Derivação .....................................................
sufixos ............................ ..
Prefixos ...............................................................
Correspondência entre prefixos e elementos latinos e gregos
Derivação
parassintética ..............................................
Outros processos de formação de palavras: formação regressiva, abreviaOo,
reduplicação e conversão ....
Hibridismo ............................................................
Radicais gregos mais usados em português ...........................
Famílias etimológicas de radical latino ...............................
III - SINTAXE
A) Noções gerais
Que é oração .........................194
Entoação oracional ...................194
A importância da situação e do contexto 196
Constituição das orações .
Estruturação sintática: objeto da sintaxe .............
5
A oração na língua falada e na língua escrita ........
Sintaxe e estilo: necessidade sintática e possibilidade
estilística ........
Tipos de oração .....................................................
B) O período simples ...............................................
C) Núcleo
1 - Termos essenciais da oração
Sujeito .........................................................
Predicado .......................................................
Omissão do sujeito ou do predicado ............................
Sujeito indeterminado .........
Orações sem sujeito .........
Os principais verbos impessoais .................................
- Tipos de predicado: verbal, nominal e verbo-nominal
Predicativo .....................................................
Verbos de ligação ...............................................
3 - Constituição do predicado verbal
Verbo intransitivo ..............................................
Verbo transitivo ................................................
Espécie de complementos verbais ................................
Sentidos do objeto direto ......................................
Sentidos do objeto indireto .....................................
A preposição como posvérbio ..................................
Objeto direto preposicionado ....................................
Objeto direto interno ..........................................
Concorrência de complementis diferentes ........................
4 - Complementos nominais
a) Substantivos ..................................................
b) Adjetivos ....................................................
5 - Adjunto: seus tipos .....................
Adjunto adnominal .....................
Adjunto adverbial , .....................
Advérbios de base nominal ou pronominal 212
6 - Agente da passiva *
7 - Aposto: seus tipos
Aposto ..........................................................
Aposto em referência a uma oração inteira ......................
Aposto circunstancial ............................................
8 - Vocativo .......................................................
D) O período composto
1 - Orações independentes e dependentes
Oração independente ............................................
Oração dependente ..............................................
2 - Oração principal ...............................................
6
Mais de uma oração principal ....
Oração principal não é a 1.a oração .............................
Oração principal nem sempre é a do sentido principal .............
Tipos de orações independentes: coordenadas e intercaladas
As orações dependentes são subordinadas ........
Coordenação ....................................................
Subordinação ...................................................
Classificação das orações quanto à ligação entre si ...............
3 - Interrogação direta e indireta ....
orações coordenadas conectivas ......
5 ~ Orações intercaladas ............................................
6 - Orações subordinadas
Substantivas: Funções sintáticas exercidas pelas substantivas .......
Características das orações substantivas .....
Adjetivas: Função sintática exercida pelas adjetivas .............
Adjetivas restritivas e explicativas ...............................
Outros sentidos das orações adjetivas ............................
Adverbiais: Função sintática exercida pelas adverbiais .............
7 - Orações reduzidas
Que é oração reduzida ..........................................
Orações reduzidas independentes .................................
Orações reduzidas dependenter
a) Substantivas ..............
b) Adjetivas ., ..............
c) Adverbiais ................
Orações reduzidas fixas ...........
Orações reduzidas do tipo: Deixei-o entrar ....................
Quando o infinitivo não constitui oração reduzida ............
Quando o gerúndio e o particípio não constituem oração reduzida
APÉNDICE:
Particularidades de estruturação sintática oracional ...........
E) Sintaxe de classes de ~as
1 - Emprego do artigo
Emprego do artigo definido
Emprego do artigo indefinido
Artigo partitivo, .................................................
2 - Emprego do pronome
Pronome pessoal: empregos e particularidades ..........
Ele como objeto direto .................................
Fun" e empregos do pronome se .....................
Combinação de pronomes átonos ........................
7
Função do pronome átono em Dou-me ao trabalho ......
Pronome possessivo: seu e dele para evitar confusão ...............
Posição do pronome possessivo ......
Possessivo para indicar aproximação ..
Valores afetivos do possessivo ........
Emprego do pessoal pelo possessivo
Possessivo expresso por uma locução
Possessivo em referência a um possuidor de sentido indefinido ......
Repetição do possessivo ...
Substituição do possessivo pelo artigo definido ..................
Possessivo e as expressões de tratamento do tipo: Vossa Excelência . .
Pronome demonstrativo .........................................
Demonstrativos referidos à noção de espaço ......................
Demonstrativos referidos à noção de tempo ......................
Demonstrativos referidos a nossas próprias palavras ...............
Reforços de demonstrativos ......................................
Outros demonstrativos e seus empregos ...................
Posição dos demonstrativos ..............................
Pronome indefinido: empregos e particularidades ....
Pronome relativo: empregos e particularidades ........
3 - Emprego.do, verbo
Emprego de tempos e modos:
Indicativo, .......................................
Subjuntivo ......................................................
Imperativo .: -.* --- * *
Emprego das formas nominais ....
Emprego do infinitivo (flexionado e sem flexão) .................
APÊNDICE:
Passagem da voz ativa para passiva e vice-versa
4 - Emprego de preposições
1) . A ...........................................................
Emprego do à acentuado (crase)
2) Até
3) Com
4) Contra
5) De ...
6) Em ...
7) Entre ........
8) Para ........
9) Por (e per) .
9 - r-ordincia
Concordância: considerações rais 295
Concordância nominal:
A - Concordância de vocábulo para vocábulo 296
B - Concordância de vocábulo para sentido 298
C - Outros casos de concordância:
1) um e outro, nem um nem outro
2) mesmo, próprio, só
3) leso . .
4) anexo
8
5) meio
6) possível .......................................
7) a olhos vistos
8) é necessdrio paciência
9) alguma coisa boa ou alguma coisa de bom
10) um pouco de luz e uma pouca de luz
11) Concordância do pronome
12) Nós por eu, vós por tu
131 Alternância entre adietivo e advérbio
14) Particípios que passaram a preposição e advérbio
15) Concordância com numeral ......................
Concordincia. verbal:
A - Concordância de vocábulo para vocábulo
B ~ Concordância de vocábulo para sentido
C - Outros casos de concordância:
#
1) com pronomes pessoais .............................
2) sujeito ligado por série aditiva enfática
3) sujeito ligado por com
4) sujeito ligado por nem
5) sujeito ligado por ou
6) a maioria dos homens
11) pronomes relativos .................................
12) verbos impessoais ..................
13) dar aplicado a horas .............
14) alugam-se casas ....................
15) concordância na locução verbal .....................
16) não... senéio ......................
17) concordância com títulos no plural .................
18) concordância no aposto .............................
6 - Regência .................................
1 ) Isto é para eu fazer ...........................................
2) pedir Para ...................................................
3) Está na hora da onça beber água ..............................
4) Migrações de preposições ......................................
5) Complementos de termos de regências diferentes ..............
6) Emprego de relativos precedidos de preposição ................
7) Relação de regências de alguns verbos e nomes ...............
7 - Colocação: ordem direta e inversa ............................
Colocação dos termos na oração e das orações no período ........
Colocação de pronomes átonos ....................................
Explicação da colocação dos pronomes átonos no Brasil ...........
APêNDICE:
I -
Figuras de sintaxe
1) Elipse
9
2) Pleonasmo, ...................................................
3) Anacoluto ....................................................
4) Antecipação ..................................................
5) Braquilogia ...................................................
6) Haplologia sintática ...........................................
7) Contaminação sintática ........................................
8) Expressão expletiva ou de realce ..............................
Vícios e anomalias de linguagem ................................
1) Solecismo ....................................................
2) Barbarismo ..................................................
Idiotismo ........................................................
IV - PONTUAçãO
Ponto de exclamação .......*
Reticências ..........................................................
Aspas ......................
Travessão ...................
Vírgula .....................
Ponto e vírgula ............
Ponto .................................
Ponto parágrafo .....................................................
Asterisco ...........................................
Alínea .............................................
V - SEMANTICA
Semântica ...................................................
Espécies de alteração semântica ..............................
Pequena nomenclatura de outros aspectos semânticos ........
VI - NOÇõES ELEMENTARES DE ESTILíSTICA
A nova Estilística ..........................
Estilística e Retórica .....................
Análise literária e análise estilística .......
Traços estilísticos .......
Traço estilístico e erro gramatical ..................................
Campo da Estilística .
VII - NOÇõES ELEMENTARES DE VERSIFICAÇÃO
Poesia e prosa
Enjambement
Versificação regular eÁrregular
Ritmo poético
1) Número fixo de sílabas:
Como se contam as sílabas de um verso 353
Versos agudos, graves e esdrúxulos ...353
Fenômenos correntes na leitura dos versos: sinérese, diérese, elisão,
crase e ectlipse
o ritmo e a pontuação do verso
Expedientes mais raros na contagem (Ias sílabas
2) Número fixo de sílabas e pausas
10
Versos de uma a doze sílabas ..........................
3) Rima: perfeita e
imperfeita ...........................
Rimas consoantes e toantes ............................
Disposição das rimas ..............................................
4) Aliteração ...
5) Encadeamento
6) Paralelismo
7) Estrofação
8) Verso livre
9) Recitação .............................
Exemplos de análise estilística ............
1) Um soneto de Antônio Nobre ...........
2) Um soneto de Machado de Assis .........
APêNDICE
Prefácio
AO ESCREVER ESTA Moderna Gramática Portuguesa foi nosso intuito
i . levar ao magistério brasileiro num compêndio escolar escrito em estilo
simples, o resultado dos progressos que os modernos estudos de
linguagem
alcançaram,no estrangeiro e em nosso país. Não se rompe de vez com
uma tradição secular: isto explica por que esta Moderna Gramática traz
uma disposição da matéria mais ou menos conforme o modelo clássico
A nossa preocupação não residiu aí mas na doutrina. Encontrarão os
colegas de magistério, os alunos e quantos se interessam pelo ensino
e
aprendizado do idioma um tratamento novo para muitos assuntos im rtantes
que não poderiam continuar a ser encarados pelos prismas por
que
a tradição os apresentava. Com a humildade necessária a tais empresas,
sabemos que as pessoas competentes poderão facilmente verificar que
fizemos uma revisão em quase todos os assuntos de que se compõe este
livro, e muitos dos quais encontraram aqui um desenvolvimento ainda
não conhecido em trabalho congênere. Por outro lado, a esta altura do
progresso que a matéria tem tido, não poderíamos escrever esta Moderna
Gramática sem umas noções, ainda que breves, sobre fonêmica e
estilística.
Isto nos permitiu, na última, tratar da análise literária, que entre
nós
passa às vezes confundida com análise estilística ressaltamos os
objetivos
desta e convidamos os nossos colegas de disciplina a que dela se sirvam
num dos escopos supremos de sua missão: educar o sentimento estético
do,aluno Na arte relativa à estruturação dos vocábulos e sua formação,
pretendemos trazer para a gramática portuguesa os excelentes estudos
que a lingüística americana tem feito sobre tão im. rtante ca ítulo
Seguimos a Nomenclatura Gramatical Brasileira. Os termos que aqui se
encontrarem e lá faltam não se explicarão por discordância ou desres
peito; é que a NGB não tratou de todos os assuntos aqui ventilados.
#
11
A orientação científica por que se norteia esta nossa Moderna Gramática
não seria possível sem a lição dos mestres (seria ocioso citá-los)
que, dentro e fora do Brasil, tanto têm feito pelo desenvolvimento da
disciplina. Devemos-lhes o que de melhor os leitores encontrarem neste
livro, e a eles, em cada citação, prestamos sincera homenagem. Elegemos,
entre eles, um dos mais ilustres para dedicar-lhe o nosso trabalho de hoje,
aquele que para nós nos é tão caro pelo muito que contribuiu para nossa
formação lingüística: M. Said Ali. No ano em que seus discípulos e
admiradores comemoram o 1.o centenário de seu nascimento, não poderíamos
deixar de levar ao mestre e amigo o testemunho de nossa profunda
amizade e gratidão.
INTRODUÇÃO
Que é uma língua
Entende-se por língua ou idioma o sistema de símbolos vocais arbitrários
com que um grupo social se entende.
Uma língua pode ser instrumento particular de um povo único, como
acontece com o chinês, o romeno, ou comum a mais de uma nação. Este
é o caso do português, que serve a Portugal, ao Brasil e colônias ultramarinas
lusas.
Este fato se explica historicamente pelos capítulos de expansão e
colonização dos povos. Falamos o português como língua oficial porque,
ao lado de outras instituições culturais, os portugueses no-la deixaram
como traço da civilização que aqui fundaram depois de 1500.
A língua é um jen&n~ cultural
A língua não existe em si mesma: fora do homem é uma abstração,
e no homem é o resultado de um património cultural que a sociedade a
que pertence lhe transmite. "É evidente - ensina-nos Sapir - que, até
certo ponto, o indivíduo humapO está predestinado a falar, mas em virtude
da circunstância de não ter nascido meramente na natureza, e sim
no regaço de uma sociedade, cujo escopo racional é chamá-lo para as
suas tradições" (1).
Modalidades de uma língua
Uma língua de civilização apresenta as seguintes modalidades:
a) língua falada: instrumento de comunicação cotidiana, que, sem
preocupação artística, tem a seu dispor os múltiplos recursos lingüísticos
(1) E. SAPiR, A Linguagem (trad. brasileira de J. MATOSO CAMARA jr.).
17-18.
23
#
12
da entoação e extralingüísticos da mímica, englobados na "situação" em
que se acham falante e ouvinte;
b) língua escrita: instrumento de comunicação menos freqüente em
que o escritor tem de suprir os recursos que estão à disposição da língua
falada. Foge, por isso, muitas vezes às expressões comuns da linguagem
ordinária para fins estéticos e expressivos. Na língua escrita a
"situação"
tem de ser criada através da ordenação especial das idéias. "Isto é o que,
segundo Bally, dá à língua escrita sua fisionomia particular: e assim se
explica por que não é e por que não será jamais idêntica à língua falada.
Pode-se dela aproximar, pode copiá-la, porém essa cópia é sempre uma
transposição ou uma deformação. Sentidos particulares dados a vocábulos
vagos, criação de vocábulos novos, conservação de outros que estão a ponto
de morrer, ressurreição de vocábulos já há muito tempo fora de circulação,
fenômenos semelhantes no tratamento da sintaxe e da construção das orações,
etc., etc... Exagerando um pouco, poder-se-ia dizer que a língua
escrita
é "acrônica": longe de dar uma idéia do estado contemporâneo de um
idioma, combina, num amálgama, um pouco heteródito, os diversos estágios
por que passou o idioma"(').
Os escritores modernos - uns com certo exagero - têm procurado
diminuir a distância entre a língua falada e a escrita.
O ponto culminante deste afastamento é a língua literária, que é
um aspecto da língua escrita, mas que com esta não se confunde. É o
instrumento de que se utilizam os escritores nas suas obras; exige um
cultivo especial e um ideal superior de expressão, além de estar sujeita
aos preceitos das modas dominantes.
Falar com termos da língua escrita, mormente do seu aspecto literário,
no trato normal de todos os dias, provoca um defeito de adequação
lingüística a que se- dá o nome de preciosismo.
Língua geral e língua regional
A língua espalhada por grande extensão de terra pode apresentar particularidades
cujo conjunto caracteriza a língua regional, e os traços
lingüísticos
que aí ocorrem recebem o nome de regionalismos.
Objeto da Gramática
Mas dentro da diversidade das línguas ou falares regionais se sobrepõe
um uso comum a toda a área geográfica, fixada pela escola e utilizada
pelas pessoas cultas: é isto o que constitui a língua geral, língua padrão
ou oficial do país.
(1) Ch. BALLY, Le Langage et la Vie, 112.
24
#
r13
a
o
Cabe à Gramática registrar os fatos da língua geral ou padrão, estabelecendo
os preceitos de como se fala e escreve bem ou de como se pode
falar e escrever bem uma língua.
Daí ser a Gramática, ao mesmo tempo, uma ciência e uma arte.
Assim sendo, o gramático não é um legislador do idioma nem tampouco
o tirano que defende uma imutabilidade- do sistema expressivo.
Cabe-lhe ordenar os fatos lingüísticos da língua padrão na sua época, para
servirem às pessoas que começam a aprender o idioma também na sua
época.
Divisão da Gramatica
A Gramática pode estudar: a) uma época determinada, b) uma
seqüência de fases evolutivas de um idioma ou c) de vários idiomas.
A que interessa mais de perto à comunidade social, pela sua utilização
imediata de código de bem falar, é a que estuda apenas a fase contemporánea
do idioma, por isso chamada gramática expositiva, normativa
ou tão-somente grámatica.
A Gramática que se preocupa com os aspectos b) e c) formam o
que chamamos, respectivamente, Gramática Histórica e Gramática Comparada,
e divergem da Gramática anterior porque são apenas obra de
ciência.
Partes da Gramatica
A Gramática estuda:
a) os sons da fala: Fonética e Fonêmica
b) as formas: Morfologia
c) as construções: Sintaxe
d) os sentidos e suas alterações: Semdntica(l).
Objeto da Estilística
Estilística é um campo novo dos estudos de linguagem que procura
investigar o sistema expressivo que o idioma põe a serviço do falante e
sua eficiência estética.
Todos estes ramos do estudo e da pesquisa dos fatos da linguagem
fazem parte de uma disciplina maior conhecida pelo nome de Ciência
da Linguagem ou Lingüística.
(1) A Nomenclatura oficial põe de lado a Fonémica, a SemMica e
a.Esfilística.
25
#
#
14
1 - Fonetica e fonêmica
, A) Produção dos fonemas e sua classificação
I -
F ÊTICA DESCRI IVA
Fonemas. - Chamam-se fonemas os sons elementares e distintivos
que o homem produz quando, pela voz, exprime seus pensamentos e
emoções.
Fonemas não são letras. - Desde logo uma distinção se impõe: não
se há de confundir fonema com letra. Fonema é uma realidade acústica,
realidade que nosso ouvido registra; enquanto letra é o sinal empregado
para representar na escrita o sistema sonoro de uma língua. Não há
identidade perfeita, muitas vezes, entre os fonemas e a maneira de representá-
los na escrita, o que nos leva facilmente a perceber a
impossibilidade
de uma ortografia ideal. Temos, como veremos mais adiante, sete vogais
orais tônicas, mas apenas cinco símbolos gráficos (letras): a, e i, o,
u.
Quando queremos distinguir um e tônico aberto de um e tônico fechado
- pois são dois fonemas distintos - geralmente utilizamos sinais subsidiários:
o acento agudo (fé) ou o circunflexo (vê). Há letras que se escrevem,
por várias razões, mas que não se pronunciam, e portanto não representam
a vestimenta gráfica do fonema; é o caso do h em homem ou oh !
Por outro lado, há fonemas que se ouvem e que não se acham registrados
na escrita; assim, no final de cantavam, ouvimos um ditongo em -am cuja
semivogal não vem assinalada /cantávãw/. A escrita, graças ao seu convencionalismo
tradicional, nem sempre espelha a evolução fonética. Neste
livro, diferençamos a letra do fonema, pondo este entre barras; dessarte
indicaremos o e aberto e e fechado da seguinte maneira: /é/, /é/.
Fonética e Fonèmica. - Na atividade lingüística, o importante para
os falantes é o som, e não a série de movimentos articulatórios que o
determina. Assim sendo, enquanto a análise fonética se preocupa tão-
#
somente com a articulação, a fonêmica atenta apenas para o SOM que,
reunindo um feixe de traços que o distingue de outro som, permite a
comunicação lingüística. A fonética pode reconhecer, e realmente o faz,
diversas realizações para o 1t1 da série ta-te-ti-to-tu; a fonêmica não
leva
em conta as variações (que se chamam alofones), porque delas não tomam
conhecimento os falantes de língua portuguesa. Um fonema admite uma
gama variada de realizações fonéticas que vai até a conservação da inte15
gridade do vocábulo: quando isto não ocorre, diz-se que houve mudança
de fonema. O /1/ admite várias realizações no Brasil, de norte a sul
(e estas variantes não interessam à analise fonêmica, que deveria ter
primazia em nosso estudo de língua); mas haverá mudança de fonernas
quando se não puder fazer a oposição mal/mau. Como bem ensina Matoso
Câmara, "o fonema, entendido como um feixe de traços distintivos, individualiza-
se e ganha realidade gramatical pelo seu contraste com outros
feixe~ em idênticos ambientes fonéticos. Não é, pois, a diferença
articulatória
e acústica que distingue primariamente dois fonemas, senão a possibilidade
de determinarem significações distintas numa mesma situação
fonética. Compreende-se assim que um mesmo fonema possa~variar amplamente
na sua realização, conforme o ambiente fonético ou as peculiaridades
do sujeito falante" (1).
Fonêmica não se opõe a fonética: a primeira estuda o número de
oposições utilizadas e suas relações mútuas, enquanto a fonética experimental
determina a natureza física e fisiológica das distinções
observadas(2).
Aparelho fonador. - Nós não temos um aparelho especial para a
fala; produzimos os fonemas servindo-nos de órgãos do aparelho respiratório
e da parte superior do aparelho digestivo. A esses órgãos da fala,
constitutivos do aparelho fonador, pertencem, além de músculos e nervos:
os brônquios, a traquéia, a laringe (com as cordas vocais), a faringe,
as
fossas nasais e a boca com a língua (dividida em ápice, dorso e raiz),
as
bochechas o palato duro (ou céu da boca), o palato mole (ou véu
palatino) com a úvula ou campainha, os dentes (mormente os anteriores)
com os alvéolos, e os lábios.
Em português, como na maioria dos idiomas, os fonemas são produzidos
graças à modificação que esses órgãos da fala impõem à corrente de
ar que sai dos pulmões. Línguas há, entretanto, que se servem da corrente
inspiratória (entrando o ar nos pulmões) para produzir fonemas, que
são conhecidos pelo nome de cliques. Produzimos cliques quando fazemos
os movimentos bucais, acompanhados da sucção de ar na boca para o
beijo, o muxoxo e certos estalidos como o que serve para animar a caminhada
dos cavalos, mas não os utilizamos como sons da fala em português.
(1) Para o Estudo da Fonémica Portuguesa, 44-45.
(2) B. MALMBERG, La Phonétique, 116.
28
P-1
#
APARELHO FONADOR
DENTES Irl
16
CARNE DA
LARINGE
CORDAS
VOCAIS
_M_
AD
---FOSSAS NASAIS
POSIÇÃO NORMAL
POSIÇÃO PARA 1,9
NASAIS e
--- EPIGLOTE
Como se produzem os fonemas. - A corrente de ar que vem dos
pulmões passa pela traquéia e chega à sua parte superior que se chama
laringe, conhecida vulgarmente como pomo-de-adão. Na laringe se acham,
horizontalmente, duas membranas mucosas elásticas, à maneira de lábios:
as cordas vocais, por cujo estreito intervalo, denominado glote, a
corrente
de ar tem de passar para ganhar a faringe, e daí ou totalmente pela boca
(fonemas orais), ou parte pela boca e parte pelas fossas nasais (fonemas
nasais), chegar à atmosfera. É esta corrente expiratória que, modificada
pelos órgãos da fala, é responsável pela produção dos fonemas.
Fonemas surdos e sonoros. - Quando a corrente de ar se dirige
à glote, esta pode encontrar-se aberta, fechada ou quase fechada. No primeiro
caso, a corrente de ar passa livremente, sem provocar a vibração
das cordas vocais. O fonema que, nestas circunstâncias, se produz é chamado
surdo: /s/, /f/, /x/, /t/ /k/, etc. Se a glote está fechada ou quase
fechada, a corrente de ar, ao forçar a passagem, provoca a vibração das
cordas vocais, produzindo os fonemas sonoros. São sonoras todas as vogais
e certas consoantes como IzI, /v/, /j/, /d/, /g/, etc.
Em muitos casos podemos perceber a vibração das cordas vocais,
pondo de leve a ponta do dedo no porno-de-adão e proferindo um fonema
sonoro, como /z/, /v/, /j/, tendo o cuidado de não acompanhá-lo de
29
#
vogal. Sentimos nitidamente um tremular que denota a vibração das
C(
cordas vocais. Se proferimos um fonema surdo, como /s/, /f/, /x/, om o
cuidado apontado acima, não sentimos o tremular. Podemos ainda repetir
a experiência tapando os ouvidos. Só com os fonemas sonoros ouvimos
um zumbido característico da vibração das cordas vocais.
Vogais e consoantes. - A voz humana se compõe de tons (sons
musicais) e ruídos, que o nosso ouvido distingue com perfeição. Caracte17
rizam-se os tons, quanto às condições acústicas, por suas vibrações periódicas.
Esta divisão corresponde, em suas linhas gerais, às vogais (= tons)
e às consoantes (= ruídos). As consoantes podem ser ruídos puros, isto
é, sem vibrações regulares (correspondem. às consoantes surdas), ou ruídos
combinados com um tom laringeo (consoantes sonoras)(').
Quanto às condições fisiológicas de produção, as vogais são fonemas
durante cuja articulação a cavidade bucal se acha completamente livre
para a passagem do ar. As consoantes são fonemas durante cuja produção
a cavidade bucal está total ou parcialmente fechada, constituindo, assim,
num ponto qualquer, um obstáculo à salda da corrente expiratória.
OBSERVAÇÃO: Só por suas condições acústicas e fisiológicas de produção
é que se
distinguem as vogais das consoantes. Por imitação dos gregos, os antigos
gramáticos definiam
a vogal pela sua função na sílaba: elemento necessário e suficiente
para formar
uma sílaba. E daí chegavam à conceituaçáo deficiente de consoante: fonema
sem existência
independente, que só se profere com uma vogal. Sabemos de idiomas
em que há
sílabas constituídas apenas de consoantes e em que uma consoante pode fazer
as vezes
de vogal(2).
Na língua portuguesa a base da silaba ou o elemento siliibico é a vogal;
os elementos
assiliibicos aio a consoante e a semivogal, que estudaremos mais adiante.
Classificação das vogais. - Classificam-se as vogais, segundo a Nomenclatura
Gramatical Brasileira, de acordo com quatro critérios:
a) quanto à zona de articulação;
b) quanto à intensidade;
c) quanto ao timbre;
d) quanto ao papel das cavidades bucal e nasal.
a) Quanto à ZONA DE ARTICULAÇÃo as vogais podem ser média, anteriores
e posteriores.
Com a boca ligeiramente aberta e a língua na posição quase ol
repouso, proferimos o fonema /a/, que é o que exige menor esforço e cons.
titui a vogal média. Se daí passarmos à série /é/ - /é/ - /i/, notarem
(1) B. MALMBERG, La Phonétique, 20.
(2) L. ROUDET, Éléments de Phonétique GMérale, 75-76.
30
#
1 como em vi
VOGAIS ANTERIORES
18
POSIÇÃO DOS LÁBIOS
E (aberto) como em é
E (fechado) como em dê
POSIÇÃO DA ÚNGUA
(*) Extraído dos Elementos de Língua Pdiría de J. MAT050 CÂMARA JR.
31
#
VOGAIS POSTERIORES(*)
POSIÇÃO DOS LÁBIOS
O (aberto) como em pá
O (fechado) como em avô
- U como em tu
(0) J- MAT060 CAMARA JR., ibid.
32
POSIÇÃO DA LíNGUA
#
1
que o dorso da língua se eleva, recuando em direção ao véu do paladar,
ANTERIORES
que a ponta da língua se eleva, avançando em direção ao palato duro, o
que determina uma diminuição da abertura bucal e um aumento da abertura
da faringe. A série /é/ - /é/ - /i/ constitui as vogais anteriores.
Se passarmos da vogal média /a/ para a série /6/ - /ô/ - /u/, notaremos
o que provoca uma diminuição da abertura bucal e um arredondamento
progressivo dos lábios. A série /6/ - /ô/ - /u/ forma as vogais posteriores.
P/ lu/
/a/
MÉDIA
19
- POSTERIORES
b) Quanto à INTENSIDADE as. vogais podem ser tônicas ou átonas,
Vogal tônica é aquela em que recai o acento tônico da palavra: avó, paga,
tímido.
Vogal átona é a inacentuada: avó, paga, tímido. As vogais átonas
podem estar antes da tônica (pretônicas): avó, pagar, ou depois (postônicas):
tímido.
Nos vocábulos de maior extensão fonética, mormente nos derivados
e nos verbos seguidos de pronome átono, pode aparecer, além da tônica,
à de ande intensidade a u recebe o nome de vogal subtônica:
~. ' ~r, b, ~ -1
polidamente, cegamente, louvar-te-tei.
c) quanto ao TIMBRE as vogais podem ser abertas, fechadas e reduzidas.
Timbre é o efeito acústico resultante da distância entre o dorso da língua
e o véu do paladar, funcionando a cavidade bucal como caixa de resso-
A gravura mostra a posiçlo das vogais /a/, /u/ e 11/. Note-se o fecha
mento do canal bucal na articulaçlo do /u/ e do /i/ com movimento da
cpiglote e elevaçAo da língua em direção ao palato (E. ~iL, Wie
wir h 1
sprec en, 5).
#
nância. O timbre é o traço distintivo das vogais. Na vogal de timbre
aberto a língua se acha baixa: /a/ tônico, /é/, /6/. Na vogal de timbre
fechado a língua se eleva: /é/, /6/, /i/, /u/- A vogal de timbre reduzido
é proferida debilitada, anulando-se a oposição entre aberta e fechada.
A
distinção entre abertas e fechadas só se dá nas vogais tônicas e
subtônicas;
nas átonas desaparece a diferença entre /6/ e /Ô/, /é/ e /é/, e o /a/
reduzido é proferido com menos nitidez, como se pode depreender comparando-
se os dois tipos em casa, onde o primeiro é aberto e o segundo,
reduzido. Quase sempre no fim das palavras, as vogais átonas e e o se
enfraquecem e soam, respectivamente, /i/ e /u/('). Assim temos sete
vogais tônicas orais (/a/, /é/, /é/, /i/, /6/, /6/, /u/), cinco vogais
átonas
orais (/a/, /e/, /i/, /o/, /u/) e três vogais reduzidas orais (/a/, /i/,
/u/). Também são reduzidas as vogais átonas nasais: antigo, sentar, limpeza,
combate, fundar(2).
OBSERVA~ftl:
1.a)Não temos no Brasil o a fechado oral tônico dos portugueses como em cada,
para, mas.
20
2.a)Na pronúncia normal brasileira, as vogais nasais são fechadas ou reduzidas
(estas quando átonas).
d) quanto ao papel das CAVIDADES BUCAL e NASAL as vogais podem
ser orais e nasais. São orais aquelas cuja ressonância se produz na boca.
Há sete vogais tônicas orais (/à/, /é/, /é/, /i/, /6/, /ô/, /u/), cinco
orais
átonas, por não haver aqui distinção entre /é/ e /é/, jó/ e /Ô/ (/a/, /e/,
/i/, /o/, /u/) e três reduzidas (/a/, /i/, /0). São nasais as vogais que,
em sua produção, ressoam nas fossas nasais. Há cinco vogais nasais (/à/,
/é/, /!/, /õ/, /ú/): lã, canto, campina, vento, ventania, límpido,
vizinhança,
conde, condessa, tunda, pronunciamos.
Quanto ao timbre, as nasais tônicas e subtônicas são fechadas e as
átonas reduzidas.
OBSERVAÇÃO: Na pronúncia normal brasileira soam quase sempre como nasais
as
vogais seguidas de m, n e principalmente nh: cama, cana, banha, cena, fina,
homem,
Antônio, úmido, unha. Assim não distinguimos as formas verbais terminadas
em -amos
e -emos do presente e do pretérito do indicativo: agora cantamos, ontem
cantamos;
agora lemos, ontem lemos.
(1) Daí ser possível uma mudança ortográfica do tipo quasi -+ quase;
tribu -+ tribo. Mu.
dou-se a letra, mas não o fonema.
(2) Na realidade as reduzidas não estâo cientificamente formuladas pela
NGB, e o melhor
seria bani-las. Em muitos casos das chamadas reduzidas o que temos
na realidade é mu.
dança ou troca de fonema.
34
#
ABERTAS FECHADAS RED
orais orais nasais ora
11) A: pá, caveira, cúlido, pia- -
cidamente ............
2) E:fé,tela,pérola,cafezal
vê, negro,
péssego
avó, povo,
lóbrego, globinho
4) 1: .........li, vida, lí21
rico
5) U: ........luz, tudo,
lúgubre
3) O: pó, voto, glóbulo, fortezinho
.............
roma, canto,
lâmpada
lembro,
vento
ponto, tõmbola
fim, tinta,
límpido
fundo, cumpro
casa
verde
globinho
lápis, júri
vírus
nasais
ímã, cantinho
engolir
comprida,
continua
tinteiro
álbum
Elevação da língua: quinto critério para classificação das vogais. -
A Nomenclatura Gramatical Brasileira não levou em conta a elevação
gradual da língua, o que distingue as vogais em: 1 - vogal baixa: /a/;
2 - vogais médias com dois graus de elevação: /é/, /61 e /é/, /6/; 3 -
vogais altas: JiI, /u/. Entre as nasais desaparecem os dois graus de
elevação das vogais médias.
OR A IS(')
u /
#
22
6/
6
a
Altas
Médias
Baixa
NASAIS
/ a /
1 1 1 11 Altas
é 6 Médias
Baixa
Se não estabelecermos este quinto critério para a classificação das
vogais teremos de por num mesmo plano fonemas diferentes, como 151
e li!/, /E/ e /!/, o que não é correto.
~5, - -
l~i (1) Cf. J. MAT~ CAmAxA, Curso da Língua
Pátria, 11, 121.
35
#
QUADRO DA CLASSIFICAÇAO DAS VOGAIS
VOGAIS
anteriores: /é/, /é/, /i/
1) quanto à zona de articulação média: /a/
posteriores: /6/, /6/, /u/
abertas: /a/, /é/, /61
2) quanto ao timbre fechadas: /é/, /ôl, /i/, lu/
reduzidas: /a/, /i/, lu/
orais: /a/, /é/, /é/, /i/, /61, /6/,
4) quanto à intensidade .
5) quanto à elevação da lingua .. {
3) quanto ao papel das cavidades
bucal e nasal .........
/u/
nasais: /âl, /é/, /!/, /õ/, Iral
tônicas
átonas
23
baixa /a/
médias: /é/, /6/, /é/, /ôl
altas /i/, /u/
Semivoga,is. Encontros vocálicos: ditongos, tritongos e hiatos. -
Chamam-se semivogais as vogais i e u (orais ou nasais)(') quando assilábicas,
as quais acompanham a vogal numa mesma sílaba. Os encontros
vocálicos dão origem aos ditongos, tritongos e hiatos. Representamos as
semivogais i (e) por /y/ e u (o) por /w/.
DITONGO é o encontro de uma vogal e de uma semivogal ou vice-versa,
na mesma sílaba: pai., mãe, água, cárie, mágoa, rei.
Sendo a vogal a base da sílaba ou o elemento silábico, é ela o som
vocálico que, no ditongo, se ouve mais distintamente. Nos exemplos dados
são vogais: pAi, mÃe, ágUA, cáriE, MágOA, rEi.
Os ditongos podem ser:
a) crescentes e decrescentes
b) orais e nasais
Crescente é o ditongo em que a semivogal vem antes da vogal: agua
cárie, mágoa.
Decrescente é o ditongo em que a vogal vem antes da semivogal: pai,
mae, rei.
Como as vogais, os ditongos são orais (pai, água, cárie, mágoa, rei
ou nasais (mãe).
Os ditongos nasais são sempre fechados, enquanto os orais podem ser
abertos (pai, céu, rói, idéia) ou fechados (meu, doido, veia).
Nos ditongos nasais são nasais a vogal e a semivogal, mas só se coloca
o til sobre a vogal: mãe.
(1) Em lugar de i ou u, em certos casos, se pode grafar a semivogal e
ou o, respectiva.
mente, em observância às convenções do nosso sistema ortográfico vigente.
36
#
L-
~s
LS
21,
in
35
ía,
ai
ci)
ser
:)ca
tiva24
Principais ditongos crescentes:
Orais
Nasais
1) Jya/: glória, pátria, diabo, área, nívea
2) /ye/ (=yi): cárie, calvície
3) /yéJ: dieta
4) Jyo/: vário, médio, áureo, níveo
5) 1 yól: mandioca
6) /y6/: piolho
7) /wa/: água, quase, dual, mágoa, nódoa
8) lwil: lingüiça, tênue
9) Jwó/: qüiproquó
10) /wô/: aquoso
11) /wo/ (= uu): oblíquo
12) /wé/: coelho
13) /wé/: eqüestre. goela
14) /yu/: miúdo (4)
1) /yâJ: criança
2) /wâ/: quando
3) /wê/: freqüente, qüinqüénio, depoente
4) /w11: argüindo, qüinqüênio, moinho
Os principais ditongos decrescentes são:
1) Jay1: pa4 baixo, traidor
2) Jay/ (a fechado e, às vezes, nasalado): faina, paina, andaime
3) /aw/: pau, cacaus, ao
4) JéyJ: réis, coronéis
5) /éy/: lei, jeito, fiquei
6) /éw/: céu, chapéu
7) /éw/: leu, cometeu
8) /iwJ: viu, partiu
9) /óyJ: herói, anzóis
10) JôyJ! boi, foice
11) low/: vou, roubo, estouro
12) JUY1: fui, azuis
Nasais
1) /ãy/: alemães, cãibra
2) 11w/: pão, amaram (= amárâo)
3) 1"1: bem (= bêi), ontem (= ontêi)
(9) Em muitos destes casos pode ser discutivel a existência de ditongos
crescentes "por
mer indecisa e variável a sonoridade que se dá ao primeiro fonema. Certo
é que tais ditongos
me observam mais facilmente na hodierna pronúncia lusitana do que na
brasileira, em que
#
25
a vogal (= semivogal), embora fraca, costuma entretanto conservar
sonoridade bastante sensível"
(5. ALI, Gr4M. SOC., 17).
37
#
4) /õyj: põe, sen6es
5) lúy/: mui (= míli), muito (= milito)
NOTA: Nos ditongos nasais decrescentes Ey, dy (Cf. SOUSA, Trechos, 320,
18, onde
vãs rima com mães) e Jw, a semivogal pode não vir representada na escrita.
Escrevemos
a interjeição hem! ou hein t, sendo que, a rigor, a primeira grafia é mais
recomendável.
TRITONGO é o encontro de uma vogal entre duas semivogais numa
mesma sílaba. Os tritongos podem ser orais e nasais.
ORAIS
1) /wayj: quais, paraguaio
2) /wey1: enxagüei, averigüeis
3) /wiwl: delinqüiu
4) lwowl. apaziguou
OBsnvAçXo: Nos tritongos nasais l~I e lwélyl a última semivogal pode
não vir
,representada graficamente: minguam, enxágüem.
NASAIS
1) /wâwl: minguam, saguão, quão
2) /wéy/: delinqüem, enxágüem
3) jwóyj: saguões
HiATo é o encontro de duas vogais em sílabas diferentes por guardarem
sua individualidade fonética: salda, caatinga, moinho.
Em português, como em muitas outras Unguas, nota-se uma tendência
para evitar o hiato, através da ditongação ou da crase.
OBSERVAÇõES:
1.a)Desenvolvem-se um jy/ semivogal (chamado em gramática iode) ou jw/ semi.
vogal (chamado vau) nos encontros formados por ditongo decrescente
Seguido
de vogal final ou ditongo átono: praia = prai-ia; cheia = chei-ia;
tuxaua
tuxau-ua; goiaba = goi-iaba.
2.a)"NOS hiatos cuja primeira vogal for u e cuja segunda vogal for final
de vocábulo
(seguida ou não de s gráfico), o desenvolvimento do vau variará
de
acordo com as necessidades expressionais ou as peculiaridades
26
individuais"('):
nua = nu-a ou nu-ua; recue = re-cu-e ou re-cu-ue; amuo = amu-o ou
amu-uo.
3.a)"Os encontros ia, ie, io, ua, ue, uo finais, átonos, ~idos, ou não, de
s, classificam-
se quer como ditongos, quer como hiatos, uma vez que ambas as
emissões
existem no domínio da Língua Portuguesa: histó-ri-a e histó-ria;
sé-ri-e e sé-rie;
pá-ti-o e pá-tio; ár-du-a e ár-dua; tê-nu-e e tê-nue; vá-cu-o e vá-cuo"
(2).
4.a) Autores há que também consideram hiato quando se trata de uma vogal
e uma
. semivogal, como no caso de goiaba, jóia, etc. Outros consideram dois
ditongos.
goi-ia-ba, jói-ia.
Nos encontros vocálicos costumam ocorrer dois fenômenos: a diérese
e a sinérese.
Chama-se DIÉRESE à passagem de semivogal a vogal, transformando,
assim, o ditongo num hiato: trai-çéío = tra-i-çéío; vai-da-de =
va-i-da-de;
cai = ca-i.
Chama-se SINÉRESE à passagem de duas vogais de um hiato a - um
ditongo crescente: su-a-ve = sua-ve; pi-e-do-so = pie-do-so; lu-ar = luar.
(1) Normas Para a Língua Falada no Teatro, 485-63.
(2) Nomenclatura Gramatical Brasileira, 16.
38
#zzz
A sinérese é fenÔmeno bem mais freqüente que a diérese. A poesia
antiga dava preferência ao hiatismo, enquanto, a partir do século xvi,
se
nota acentuada predomináncia: do ditonguismo (sinérese). É claro que os
poetas modernos continuaram a usar a diérese, mormente como efeito
estilístico-fônico para a ênfase, a idéia de grandeza, etc. No seguinte
verso
de Machado de Assis auréola com quatro sílabas acentua o tamanho descomunal
indicado pela leitura lenta: "Pesa-me esta brilhante auréola de
Classificação das consoantes. - De acordo com a Nomenclatura
Gramatical Brasileira classificam-se as consoantes de acordo com quatro
a) quanto ao modo de articulação;
b) quanto à zona de articulação;
c) quanto ao papel das cordas vocais;
d) quanto ao papel das cavidades bucal e nasal
a) quanto ao MODO DE ARTICULAçÃo as consoantes podem ser oclusivas
e constritivas, e estas se subdividem em fricativas, laterais, vibrantes
27
e
nasais. O obstáculo que, na cavidade bucal, os órgãos impõem à corrente
expiratória pode ser de dois tipos, ou os órgãos da boca estão dispostos
de tal modo que impedem completamente a saída do ar, ou permitem
parcialmente que a corrente expiratória chegue à atmosfera. No primeiro
caso, dizemos que as consoantes são oclusivas; no segundo, constritivas.
As
constritivas são fricativas quando a corrente expiratória, passando por
entre os órgãos que formam o obstáculo parcial, produz um atrito à maneira
de fricção: /f/, /v/, IsI, IzI, lx/, /j/. São constritivas laterais
quando a passagem da corrente expiratóría, obstruída pela aproximação
do ápice ou dorso da língua aos alvéolos da arcada dentária superior ou
ao palato, escapa pelos lados da cavidade bucal: 11/, /lh/. São
constritivas
vibrantes quando o ápice da língua contra os alvéolos ou a raiz da língua
contra o véu do paladar executa movimento vibratório rápido, abrindo e
fechando a passagem à corrente expíratóría: /r/ (simples) e /rrj (múltipla).
São constritivas nasais quando, pelo abaixamento do véu palatino
e um abrimento do nasal, as consoantes ressoam nas fossas nasais. Temos
três consoantes nasais: a bilabial /m/, a línguodental /n/ e a palatal
Inh/.
b) quanto à ZONA DE ARTicuLAçÃo as consoantes podem ser
1) bilabiais (lábio contra lábio): /p/, /b/, /m/.
2) labiodentais (lábio inferior e arcada dentária superior): /fl, /v/.
3) linguodentais (língua contra arcada dentária superior): /t/, /d/, /n/
4) alveolares (língua em direção ou contra os alvéolos): /s/, /z/, /1/
5) palatais (dorso da língua contra o céu da boca): /x/, /j/. 11h1, jnh/
6) velares (raiz da língua contra o véu do paladar): 1k1, /g
#
OBSERVAÇõES:
1.a)0 /11 inicial da sílaba é nitidamente alveolar, enquanto o final é
proferido
relaxado, quase velar, mas tendo-se o cuidado de não fazê-lo igual
a u. Nas
ligações com a vogal inicial de outro vocábulo, soa como alveolar.
2.a) O Irrj alveolar pode ser
proferido como velar, graças ao maior recuo da língua.
3.a)As linguodentais /tj e /d/ seguidas de i podem palatalizar-se: tinta
e digw
podem soar jtxintaj e /djigno/. Evite-se o exagero destas
palatalizações.
c) quanto ao papel das CORDAS VOCAIS as consoantes podem ser surdas
e sonoras.
Surdas: /p/, ffi, /ti, /s/, /xl, /k/.
Sonoras: /b/, /v/, jdj, Izi, /j/, /gj, /m/, /n/, jnh/, /I/, /lh/, /r/,
jrr/.
28
São sonoras as consoantes vibrantes, nasais e o ]li lateral.
d) quanto ao papel das CAVIDADES BUCAL e NASAL as consoantes podem
ser orais e nasais. São nasais /m/, /n/, inh/.
As outras são orais.
QUADRO DE CLASSIFICAÇÃO DAS CONSOANTES
surda: /p/
sonora: 1b1
OCLUSIVAS d t surda: /t/
ingito en ais-sonora: /d/
surda: 1k1
sonora: 1g1
bilabiais
velares
CONSOANTES -
fricativas
CONSTRITIVAS
vibrantes (alveolares)
labiodent4is
alveolares
palatais
alveolar: /I/
palatal: /lh/
bilabial: /m/
linguodental: /n/
palatal: /nh/(l)
surda: jf/
sonora: /v1
surda: /s/
sonora, jz1
surda: /x/
sonora: J1
simples: /r/
múltipla: Irrj
(1) Para fugir a uma oposiçâo errónea surdalsonoralnasal, preferimos,
ainda com a
aquiescência da NGB, colocar as nasais entre as constritivas. i-lá autores
que fazem das nasais
uma classe à parte, ou as põem entre as oclusivas, critérios também
defensáveis.
#
29
40
#
Encontro consonantal. - Assim se chama o seguimento imediato de
duas ou mais consoantes de um mesmo vocábulo. Há encontros consoninticos
pertencentes a uma sílaba ou a sílabas diferentes. Os primeiros
terminam por 1 ou r: li-vro, blu-sa, pro-sa, cla-mor; rit-mo, pac-to,
af-ta,
ad-mi-tir.
O encontro consonantal /cs/ é representado graficamente pela letra
x: anexo, fixo.
1
São mais raros em nossa língua os seguintes encontros consonânticos
1
4,
existentes em vocábulos eruditos. Estes encontros são separáveis, salvo
os que aparecem no início de vocábulos:
bd: lamb-da
bs: ab-so-lu-to
q: sec-ção
dm: ad-mi-tir
gn: dig-no
mn: mne-mô-ni-co
ft. af-ta
pn: pneu. pneu-mA-ti-co
Ps: psiu
Pt: ap-to
tm: ist-mo
tn: 6t-ni-co
Tais encontros merecem especial cuidado porque, na pronúncia dest,
preocupada, tendem a constituir duas sílabas pela intercalação de uma
vogal:
advogado e não adivogado ou adevogado
absoluto e não abissoluto
admirar e não adimirar
alta e não dfita
ritmo e não rítinto
pneu e não Peneu
indigno e não indíguino
O desejo de corrigir o engano leva muitas vezes à omissão de vogal
de certos vocábulos:
30
adivinhar e não advinha r '
subentender e não subtender
Dígrafo. - Não se há de confundir dígrafo com encontro consonantal.
Dígrafo é o emprego de duas letras para a representação gráfica de uni

fonema: passo (cf. paço), CHá (cf. xá), maNHã, paLHa, ENviar, MANdar.
Há dígrafos para representar consoantes e vogais nasais('). Os
dígrafos para consoantes são os seguintes, todos inseparáveis, com exceção
de rr e ss, sc, sç, xc:
ch: chá
lh: malha
nh: banha
sc: nascer
sç: nasça
(1) Destas últimas não cogita a NGB.
xc: exceto
rr: carro
ss: passo
qu: quero
#
gu: guerra
41
#
Para as vogais nasais :
am ou an.- campo, canto
em ou en: tempo, vento
im ou in: limbo, lindo
om ou on: ombro, onda
um ou un: tumba, tunda
Letra diacrítica. - É aquela que se junta a outra para lhe dar um
valor fonético especial e constituir um dígrafo. Em português as letras
diacríticas são h, r, s, c, ç, u para os dígrafos consonantais e m, e n
para
os dígrafos vocálicos: cHá, carRol Passo, quero, campo, ONda.
OBsERvAçXo: Daí se tiram as seguintes conclusões aplicáveis à análise
fonética:
1.a) Não há ditongo em qUero;
2.a) M e n não são fonemas consonánticos nasais em caMpo, oNda, etc.;
31
3.2) Qu e gu se classificam como 1k1 e /gl, respectivamente.
2 - FONÉTICA EXPRESSIVA
Os fonemas com objetivos simbólicos
Muitas vezes utilizamos os fonemas para melhor evocar certas representações.
É deste emprego que surgem as aliterações, as onomatopéias e os
vocábulos expressivos.
Aliteração é a repetição de fonema igual ou parecido para descrever
ou sugerir acusticamente o que temos em mente expressar.
O sossego do vento ou o barulho ensurdecedor do mar ganham maior
vivacidade através da aliteração dos seguintes versos:
"As asas ao sereno e sossegado vento" (utilização do fonema fricativo
alveolar sonoro
e surdo).
"Bramindo o negro mar de longe brada" (utilização principal dos fonemas
b, r
e d).
Onomatopéia é o emprego de fonema em vocábulo para descrever
acusticamente um objeto pela ação que exprime.
São freqüentes as onomatopéias que traduzem as vozes dos animais e
os sons das coisas:
O tique-taque do relógio, o marulho das ondas, o zunzuna-r da abelha,
o arrulhar
dos pombos.
Vocábulo expressivo é o que não imita um ruído, mas sugere a idéia
do ser que se quer designar: romper, Jagarelar, tremeluzir, jururu.
42
#
O TO
AP DICE
Encontros de fonemas que produzem efeito desagradável ao Ouvido. -
Muitas vezes certos encontros de fonemas produzem efeito desagradável
que repugna o ouvido e, por isso, cumpre evitar, sempre que possível.
Esses defeitos são mais perceptíveis nos textos escritos porque a pessoa
que os lé nem sempre faz as pausas e as entonações que o autor utilizou,
com as quais diminui ou até anula os encontros de fonemas que geram
sons desagradáveis.
Entre os efeitos acústicos condenados estão: a colisão, o eco, o hiato,
e a cacofonia.
i , R
32
-i
Colisão é o encontro de consoantes que produz desagradável efeito
acústico:
"Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus! não seja já" (CASIMIRO DE ABREU, Obras, 73).
Eco é a repetição, com pequeno intervalo, de palavras que terminam
de modo ídéntico:
"Estas palavras subordinam frases em que se exprime condição necessária
à real!-
zaoo ou não realização da açáo principal".
Hiato. - O hiato de vogais tônicas toma-se desagradável principalmente
quando formado pela sucessão de palavras:
Hoje há aula.
?1 Cacofonia ou cacófato é o encontro de sílabas de duas ou mais pak
lavras que forma um novo termo de sentido inconveniente ou ridículo
tin relação ao contexto:
1
*Ora veja como ela está estendendo as mãozinhas inexperientes para a
chama das
(CAMILO CASTELO BRANCO, A Queda de um Anjo, 102).
È oportuna a lição de Said Ali:
Ç"Repara-se, hoje, com certo exagero, na cacofónia, resultante da junção
da sílaba
li Ç de um vocábulo com a palavra ou parte da palavra imediata. Não se
liga,
nor importância à cacofonia quando esta se acha dentro de um mesmo
formada por algumas das suas sílabas componentes. O mal aqui é
ia que expressões não se dispensam, nem se substituem. Muitas vezes,
ia menos ridícula do que a vontade de percebê-la... O estudante
evite,
semelhantes combina~ de palavras, assim como quaisquer outras
nascer uns longes de cacofonia, e não se preocupe com descobri-los
nos
na
tanto, a me
Meibulo, sendo
~ediável, po
~ a cacofon
e que puder,
e
!~:a=e possam
jutt08% (Gramática Secundária, 306-7.)
4) Ortoepia
Ortoepia é a parte da gramática que trata da correta pronúncia dos
V,
33
#
Nnemas.
43
#
Preocupa-se não apenas com o conhecimento exato dos valores fonéticos
dos fonemas que entram na estrutura dos vocábulos, considerados
isoladamente ou ligados na enunciação da frase, mas ainda com o ritmo,
a entoação e expressão convenientes à boa elocução.
Vogais. - Quanto à emissão das vogais, na pronúncia normal brasileira,
observemos que:
a) São fechadas as vogais nasais; por isso não distinguimos as formas
verbais terminadas em -amos e -emos do pres. e pret. perf. do indicativo
da 1.a e 2.a conjugações.
b) Soam muitas vezes como nasais as vogais seguidas de m, n e principalmente
nh: cama, cana, banha, cena, fina, Antônio, unha
OBsERvAçÃo: Sem nasalidade proferem-se as vogais desses e de vários
out,os
cábulos: emitir, emisÁrio, eminente, energia, enaltecer, Enaldo, etc.
c) Soam quase sempre como orais as vogais precedidas de m, n ou nh:
mata, nata, companhia, milho. Assim não tem cabimento a pronúncia
nasalada do mas /más/. Entretanto, mui e muito se proferem Jmúi/,
/múito/.
d) Soam igualmente o a artigo, a preposição, a pronome e o a resultante
de crase. Não se alonga o à, salvo, muito excepcionalmente, se
houver necessidade imperativa, para a inteligência da frase, caso em que
o resultante da crase poderá ser pronunciado com certa tonícidade e
ênfase" (Normas, 481).
e) São reduzidas as vogais e e o átonas finais, que soam lil e
respectivamente: frente, carro.
f) São oscilantes /e/, /i/, /é/, /1/, /o/, /iu/, /ó/, /ú/ reduzidos pretônicos
em numerosos vocábulos, oscilação que corresponde "a uma graduação
de freqüência de meio cultural, de nível social ou de tensão
psíquica do indivíduo falante" (Normas, 482): pedir: /pedir/ ou /pidir/;
-estudo: /estudu/ ou /istudu/; sentir: /sentir/ ou /sintir/; costura:
/costura/
ou /custura/; compadre: /compadre/ ou /cumpadre/. Neste caso estão
as preposições com e por, que, salvo nas situações enfáticas, devem ser
pro.
nunciadas /kú/ e lpur/. Fazem exceção muitos vocábulos eruditos e os
34
compostos de entre: embriogenia, hendíade, hexágono, entremei . O(1).
g) Em linguagem cuidada, evita-se a oscilação de que anteriormente
se falou, quando tem valor opositivo, isto é, serve para distinguir dois
vocábulos de sentido diferente: eminente / iminente; emigrar / 'migrar;
descrição / discrição.
(1) ANTzNoa NASCENTES, Idioma Nacional, 14.
44
#
h) O u depois de g ou q ora é vogal ou semivogal (e aí se profere),
ora é componente de dígrafo (e aí não se pronuncia). Entre outras deve
ser proferido nas seguintes palavras depois do g: agüentar, ambigüidade,
apaziguar, argüição, argüir, bilíngüe, consangüíneo, contigüidade,
ensangüentado,
exigüidade, lingüeta, lingüista, redargüir, sagüi ou sagüim
ungüento, ungÜiforme
Não se deve proferir o u depois do g em: distinguir, exangue, extinguir,
langue, pingue (= gordo, fértil, rendoso).
É facultativo pronunciá-lo em: antigüidade ou antiguidade; sangüíneo
ou sanguíneo; sangüinário ou sanguinário; sangüinoso ou sanguinoso.
Profere-se o u depois do q em: aqui ' cola, conseqüência, delinqüência
delinqüir, eqüestre, eqüevo, eqüidistante, eqüino (= cavalar), eqüitativo
eqüipolente (também equipolente), freqüência, iniqüidade, loqüela, obli
qüidade, qüercina, qui . ngentésimo,
Tarqüínio, tranqüilo, ubiqüidade.
Não se profere o u, depois do
qüinqüênio, qüiproquó, seqüência
equilíbrio, equinócio, equipar, equiparar, equitação., equ oco,
extorquir,
inquérito, inquirir, liquidificador, sequioso, quérulo, questão,
quibebe.
É facultativo pronunciá-lo em: antiqüíssimo ou antiquíssimo; equidade
ou equidade; eqüivalente ou equivalente; eqüivaler ou equivaler;
liquidação ou liqüidação; liqüidar ou liquidar; líqüido ou líquido; retorqüir
ou retorquir.
Diz-se quatorze ou catorze, sendo a primeira mais generalizada entre
i) Em muitos vocábulos há dúvidas quanto ao timbre das vogais. Recomendamos
timbre aberto para o e em: acerbo, Aulete, anelo, badejo,
caterva, cetro, cerne, cervo, coeso, coevo, coleta, cogumelo, confesso,
duelo,
destra, espectro, eqüevo, flagelo, ileso, indefesso, medievo,
paredro, prelo, primevo, relho, septo, servo, Tejo, terso.
35
elmo, obsoleto,
É fechado em: acervo, adrede, alameda, amuleto, anacoreta, bofete,
caminhoneta, cerebelo, cateto, cerda, corbelha, devesa, defeso,
escaravelho,
efebo, fechar (e suas formas fecho, fechas, feche, etc.), ginete, grumete,
indefeso, interesse (s.), ledo, lerdo, lampejo, labareda, magneto, palimpsesto,
panfleto, pez, quibebe, reses, retreta, Roquete, sobejo,
veneta
vereda, vinheta, versalete, vespa, vedeta, verbete, xerez, xepa. As
autoridades
recomendam o timbre fechado em pese (na expressão em que pese
a) e colmeia (mas a pronúncia com timbre aberto é generalizada entre
Tem timbre aberto o o tônico de: canoro, coldre, (de) envolta, dolo
'. forum, hissope, imoto, inodoro, manopla, molho, piloro, probo, suor
1
Tem timbre fechado o o tônico de: aboio, alforje, algoz, boda, bodas
cochicholo, chope, cachopa, choldra, corça, desporto, filantropo, loa,
lorpa
Mausolo, misantropo, odre, serôdio, teor, torpe.
#
i) Quanto aos ditongos, cumpre notar: ai, ei e ou devem guardar,
na pronúncia cultivada, sua integridade, não se exagerando o valor do
ou u, nem os eliminando, como o faz o povo: caixa, queijo, ouro.
Soa como ditongo nasal ão a sílaba átona final -am: amam.
Soam como ditongo nasal 6 as sílabas -em, -ém, -en, -ens de muitos
vocábulos: bem, vem; vintém, ninguém; vens, homens; armazéns, parabéns.
Normalmente ditongamos, pelo acréscimo de um i, as vogais tônicas
finais seguidas de -z ou -s. Assim não fazemos a diferença entre pás.,
paz
e país; más e mais; rapaz e jamais; vãs e mães. Os poetas brasileiros nos
dão bons exemplos destas ditongações,
Só por imitação dos poetas lusitanos (porque dizem téíy), entre os brasileiros,
a rima tem e mãe aparece às vezes, como em Casimiro de Abreu:
"O país estrangeiro mais belezas
Do que a pátria, não tem;
E este mundo não val um só dos beijos
Tão doces duma mãe." (Obras, ed. S. DA SILVEiRA, 73)
1) Quanto aos hiatos observemos que se desenvolve um i ou u semivogais
nos encontros formados por ditongo decrescente seguido de vogal
final ou ditongo átono: praia prai-ia; tuxaua tuxau-ua; goiaba goi-iaba;
bóiem bói-icm (cf. Normas, 486).
O mesmo desenvolvimento das referidas semivogais nos hiatos cuja
primeira vogal seja i ou u tônicos e cuja segunda vogal seja final de vocábulo,
"variará de acordo com as necessidades expressionais ou as peculiaridades
individuais" (Normas, 485-6): via: vi-a ou vi-ia; lu-a: lu-a ou
lu-ua.
36
Consoantes. - Soam levemente as consoantes b, c, d, g, s, t quando
finais de vocábulos- sob, Moab, Isaac, Cid, Uf, Gog, fórceps, Garrett.
Nos vocábulos eruditos as terminações átonas -ar, -er, -en, -ex e -on
devem guardar sua integridade em pronúncia: atj6far, esfíncter, índex,
cólon,
O 1 final de sílaba é proferido relaxado, quase velar, mas tendo-se o
cuidado de não fazè-lo igual a u: nacional.
Na palavra sublinhar e derivados o 1 deve ser pronunciado separa
mente do b.
O -r múltiplo alveolar pode ser proferido como velar, graças ao mai
recuo da língua, e até com articulação dorso-uvular (portanto mais carre.
gado ainda), embora as Normas não a recomendem na pronúncia cui.
dada: mar, avermelhar. Nas palavras ab-rupto, ab-rogar, ad-rogar, su
rogar, e derivados, o r deve ser pronunciado múltiplo -e separado, isto
sem fazer grupo com a consoante anterior.
O m final pode guardar sua integridade de pronúncia, não nas
zando o e anterior, no vocábulo totem, admitindo a grafia tóteme.
46
#
bem-amado e bem-aventurado, nasaliza o e anterior, e não se liga ao a
seguinte.
As linguodentais d e t, seguidas de i, podem palatizar-se, evitando-se,
entretanto, o exagero (articulação africada linguopalatal): dia, tia.
O s soa aproximadamente como se fora i, inas sem exagero, antes de
b, d, g, i, 1, m, r e v: desjejum, deslizar, esmo, asno, esbarrar,
esdrúxulo,
engastar, desregrar, desvão. Como bem acentua o Prof. Antenor Nascentes('),
em outros pontos do país o s, nestes casos, soa aproximadamente
como /Z/.
Antes de c, f, p, q, t, x e ainda no fim de vocábulo que não se ligue
ao seguinte, o s tem som próximo de /x/: descampado, esfregar, respeito,
esquivo, deste, desxadrezar. Em outros pontos do país, segundo o mestre
anteriormente citado, o s nestas circunstáncias é sibilante, como na
palavra selva.
Tem o som de /z/ entre vogais nos compostos do prefixo trans
(transatlântico, transação, transitivo, etc.) e na palavra obséquio e
derivados.
Em transe (que se grafa também trance), subsídio, subsidiar,
subsistir, subsistência e outros da mesma família, o s pode soar como
sibilante (como em selva) ou como jzj. Se o elemento a que se prefixa
trans- começa por s, não se up ica esta consoante, que será proferi a
como sibilante: Transilvânia e derivados, transiberiano. No final -simo
(de vigésimo, trigésimo, etc.) soa como jzj.
Escrevendo-se aritmética (com t), é mais usual proferir esta consoante.
Pode-se ainda grafar arimética.
X tem quatro valores: 1) fricativo palatal como em xarope; 2) fricativo
alveolar sonoro como em exame; 3) fricativo alveolar surdo (= ss)
como em auxílio; 4) vale por /ks/ e /kz/ como em anexo e hexámetro.
X soa /z/ nas palavras: exação, exagero, exalar, exaltar, exame,
exangue, exarar, exasperar, exato, exautorar, executar, exegese,
37
exegeta,
exemplo, exéquias, exeqüível, exercer, exercício, exército, exaurir,
exibir,
exigir, exilar, exílio, exímio, existir, êxito, éxodo, exógeno, exonerar,
exow,
exorbitar, exorcismo, exórdio, exornar, exótico, exuberar,
exuberante,
exultar, exumar, inexordvel.
Soa como /s/ em: auxílio, máxima, Maximiliano, Maximino, máximo,
Ípróximo, sintaxe, trouxe, trouxeram, trouxer.
Soa como jks/ ou /kz/, conforme o caso, em: afluxo, anexo, axila,
Áxis, axiômetro, complexo, convexo, crucifixo, doxologia, fixo, flexão,
fluxo, hexãmetro (também soa como /z/), hexaedro, hexágono (também
wa como ffi), hexassílabo, índex, intoxicar, léxico, maxilar, nexo,
máxime,
~Mix, ortodoxo, óxido, prolixo, oxigênio, paradoxo, reflexo, sexagendrio,
1 , sexagésimo, sexo, silex, tórax, tóxico.
Nr (1) Idioma Nacional, 27.
Í
47
#
É proferido indiferentemente como /ks/ ou /s/ em: apoplexia, axioma
e defluxo.
Vale por /s/ no final de: cálix, Félix, fênix e na locução adverbial
a flux.
O z em fim de palavra que não se ligue à seguinte, soa levemente
chiado: luz, conduz.
Entre os casos particulares, são de notar:
• ch em Anchieta e derivados soa chiado;
• cz de czar (que também pode se escrever tzar) deve ser proferido como
/ts/; o lh de Alhambra não constitui dígrafo como em malha; deve-se
proferir o vocábulo como se não houvesse o h;
o w do nome Darwin e dos derivados (darwinismo, darwinista, etc.) soa
como /ul.
Sc e xc soam como /s/ em palavras como nascer, descer, crescer, excelência,
exceto, excelso.
Os encontros consonânticos devem ser pronunciados com valores fonéticos
próprios, sem intercalação de e ou i: pseudônimo, pneumático,
mnemônico apto, elipse, absoluto, admissão, adjetivo, ritmo, afta,
indigno,
recepção, advogado, accessível (ao lado de acessível), secção (ao lado
de seção).
Ligação dos vocábulos. - Cuidado especial merece a boa articulação
dos fonemas, mormente finais e iniciais, na seqüência dos vocábulos com
que nos comunicamos com os nossos semelhantes, desde que uma pausa
não os separe.
a) VOGAIS OU DITONGOS FINAIS DE VOCÁBULO COM VOCAIS OU DITONGOS
38
INICIAIS DE VOCÁBULO.
Quando a palavra termina por vogal tônica e o vocábulo Seguinte
começa com vogal ou ditongo tônicos, nbrInalmente se respeita o hiato
interverbal: ali há, lá houve, li ontem.
Se a vogal final é tônica e o vocábulo seguinte começa por vogal ou
ditongo átonos, proferimos normalmente o hiato; mas pode ocorrer, muitas
vezes, a ditongação se a vogal átona for i ou e ou u ou o:
segui aquela; já ouvi; lá ironizei; vê umedecer.
OBSERVAÇÃO: Evita-se a ditongaçáo quando daí resultar uma seqüência de
sílabas
tônicas: boné usado, 1d iremos.
Se a vogal final é átona e o vocábulo seguinte começa por vogal tônica,
normalmente se respeita o hiato: essa hora, terreno árido.
Neste caso pode ainda ocorrer a fusão (crase) das duas vogais
forem idênticas (essa fusão produz certo alongamento da vogal indic
48
#
aqui pelo mácronou a ditongação, se a vogal átona final for i, e
ou U, o:
terra árida: ter/ra/á/rida ou ter/rã/ri/da
esse ano: es/se/a/no ou es/sea/no.
OBSERVAÇXO: Chama-se crase a fusão de dois ou mais sons iguais num só.
Se a vogal final e a inicial do vocábulo seguinte são átonas, pode
ocorrer hiato, ditongo, crase ou elisão.
OBSERVAÇÃO: Elisão é o desaparecimento de uma vogal final átona em virtude
do
contacto com a vogal inicial do vocábulo seguinte.
1)haverá hiato, fusão ou elisão se a vogal átona final for a e a inicial
for a ou à:
hiato. ca/sa/a/ma/rella
casa amarela { clrlase:' ca/sã/ma/re/la
elisào: ca/sa/ma/re/la
hiato: calsa/ari/te/rijor
casa anterior { crase: ca/sãn/te/ri/or
elisão: calsanIte/ri/or
2)haverá hiato ou elisão se a vogal átona final for a e a vogal inicial
e, 2, O, 6:
roda esportiva hiato: ro/dales/porIti/va
{ eliséio: roldes/por/tilva
39
porta entreaberta hiato: por/ ta/en/ trea/ber/ ta
{ elisào: por/tenltrea/ber/ta
haverá hiato, ditongo ou elisão se a vogal átona final for a e a inicial
i (e), í (é), v (o), u (õ):
hiato: cer/ta/ilda/de
certa idade ditongo: cer/tai/dalde
{ elisão: cer/ti/da/de
hiato: cerlta/in/di/fe/ren/ça
certa indiferença ditongo: cer/tain/di/fe/ren/ça
elisdo: cerltin/di/fe/renlça
4)haverá hiato ou ditongo se a vogal átona final for i (e) e a inicial
qualquer uma, exceto i (e):
júri arnik-;v hiato: Ju/rija/milgo
ditongo: ju/ria/milgo
livre arbítrio hiato: li/vre/arlbí/ trio
{ ditongo: li/vriar/bí/ trio
49
#
5) haverá hiato, crase ou elisão se
a vogal átona final for
inicial i (e) ou i (é):
hiato- lilvre/imfpren/sa
livre imprensa cr se: li/vrln/pren/sa
{ cissão': lilvrinlprenlsa
i (e) e a
6) haverá hiato, ditongo ou
elisão se a vogal átona final for u (o u):
hiato: sari/to/Aríltó/nio
Santo Antônio ditongo: sanltoanltôlnio
elisdo: san/tan/tólnio
medo horrível hiato: meldolhorIrílvel
{ ditongo: me/duorIrílvel
7) haverá hiato, crase ou elisão
se a vogal final for u (o) e a inicial u:
OBSERVA96ES:
umano {hiato: ve/lholhulma/no
velho h crase: ve/lhú/ma/no
elisão: ve/lhulma/no
hiato: a/vilso/urlgenlte
1
40
aviso urgente { crase: alvilsúr/gen/te
elisão: alvi/surIgen/te
1.a)Ocorrem os fenômenos acima apontados com os vocábulos iniciados por ditongos
decrescentes, por iniciar por vogal. Em vez de ditongo, teremos
tritongo.
hiato., jei/to/ai/ro/so
jeito airoso (cf. 6) tritongo: jei/tuailrolso
{ elisgo: jei/tai/ro/so
2.a)A preposição para pode reduzir-se a pra (e não p'ra), hoje usada até entre
literatos. Esta forma quando seguida do artigo ou pronome o, a, os, as
e com
ele combinada, é grafada respectivamente pro, pra (para a), Pros, pras.
3.11) Pelo se reduz a pio (mais comum em Portugal), forma que, combina a com
o
artigo ou pronome o, a, os, as, é grafada pio, pia, pios, pias. Entre
portu- 1
gueses ouve-se ainda pro e pros com o aberto.
4.a)A preposição com pode ter a nasalidade enfraquecida e combinar-se com o,
a,
os, as, dando origem às formas co, ca, cos, cas, empregadas mais com
freqüência
na linguagem familiar e vulgar, de Portugal. É o que se chama ectlipse.
b) CONSOANTE FINAL DE VOCÁBULO
COM FONEMA INICIAL DE VOCÁBULO.
A consoante final de uma palavra seguida de vogal inicial (ou semivogal),
sem pausa intermediária, deve ser Proferida como se fosse intervocdlica,
isto é, liga-se a uma vogal obedecendo às normas id
estabelecidas:
"De um sentir aventurado"
"É talvez a voz mimosa"
1---,
"Gentil infante, engraçado"
"Que dás honra e valor"
1_~
50
#
A consoante final b (em sob, por exemplo) seguida de outra consoante
inicial deve ser proferida sem aparecimento de um i ou e intermédio:
Sob luzes d'esperança
Sob fúria.
Se o vocábulo seguinte começa por vogal (ou senEvogal), pode o b
final ligar-se silabicamente a ela ou direta ou com apoio de i ou e (redu41
zido), o que é mais comum entre nós:
Sob os céus (ao-bos-céw ou ao-bios-céus).
Quando a consoante que termina o vocábulo é igual à que inicia o
vocábulo seguinte (o que ocorre com 1 ou r), ouvem-se os dois fonemas:
Incrível ldbia (in-cri-vel-lá-bia)
Temor repentino (te-mor-re-pen-ti-no).
O s final soa aproximadamente como se fora J/, mas sem exagero,
era ligação com vocábulo iniciado por b, d, g, i, 1, m, n, r, v e z,
ouvindo-se
os dois fonemas:
os braços, os dedos, as gengivas, dois jeitos, as luzes, os meninos,
as nuvens, os
ventos, os zumbidos.
O s final soa aproximadamente como se fora /x/, mas sem exagero,
em ligação com vocábulo iniciado por c., p, q, s, t, x e ch, ouvindo-se
os
dois fonemas:
três cadernos, os felizes, as pessoas, as queixas,
as secas, os tempos, os xaropes, os chás.
As consoantes x e z finais são tratadas como /s/ final, nas ligações:
faz medo (z = j), faz calor (z = x).
O n final de vocábulo, como cánon, íon, cíclotron, deve ser proferido
sem nasalizar fortemente a vogal anterior, conforme vimos; nas ligações
com outro vocábulo, guarda este valor quando é seguido de consoante:
cdnon bíblico.
Seguido de vogal (ou setnivogal) liga-se silabicamente a esta, como
se fosse inicial de sílaba: cânon antigo.
't O m final de bem-aventurado, bem-amado e semelhantes nasaliza a
~, vogal anterior, não se ligando à seguinte, como se fosse inicial de
sílaba.
Quando o artigo indefinido ou numeral uma é seguido de vocábulo
começando por m não se deve proferir o m, soando, portanto, úa, forma
com que, às vezes, aparece grafado (evite-se a forma u'a):
uma mensagem, uma mão.
#
C) Prosódia
Prosódia é a parte da fonética que trata da correta acentuação e
entoação dos fonemas.
A preocupaçãj maior da prosódia é o conhecimento da sílaba predominante,
chamada tônica.
42
Sílaba. - Sílaba é um fonema ou grupo de fonemas emitido num só
impulso expiratório.
Em português, o elemento essencial da sílaba é a vogal.
Quanto à sua constituição, a sílaba pode ser simples ou composta, e
esta última aberta (ou livre) ou fechada (ou travada).
Diz-se que a sílaba é simples quando é constituída apenas por uma
vogal: e, há.
Sílaba composta é a que encerra mais de um fonema: ar (vogal +
consoante), lei (consoante + vogal + semivogal), vi (consoante + vogal),
ou (vogal + semivogal), mas (consoante + vogal + consoante).
A sílaba composta é aberta (ou livre) se termina em vogal: vi; é
fechada (ou travada) em caso contrário, incluindo-se a vogal nasal, porque
nasalidade vale por um travamento de sílaba: ar, lei, ou, mas, um.
Quanto ao número de sílabas dividem-se os vocábulos em:
a) monossílabos (se têm uma
sílaba): é, há, mar, de, dê;
b) dissílabos (se têm duas sílabas):
casa, amor, darás, voce;
c) trissílabos (se têm três
sílabas): cadeira, átomo, rápido, cômodo;
d)polissílabos (se têm mais de três sílabas): fonética, satisfeito, camaradagem,
inconvenientemente.
Quanto à posição, a sílaba pode ser inicial, medial e final, conforme
apareça no início, no interior ou no, final do vocábulo:
10 né ti ca
inicial niedial niedial final
Quantidade. - Quantidade é a duração da vogal e da'consoante.
Dátinguem-se as vogais e consoantes breves (se a pronúncia é rápida) das
vogais e consoantes longas (se a pronúncia é demorada). Assinalamos a
vogal breve com o sinal ---que se denomina braquia ou brdquia, e a longa
com o sinal - chamado mácron: à (a breve), à (a longo).
Há línguas onde a quantidade desempenha importante papel, para
distinguir vocábulos e formas gramaticais, como em latim, em inglês ou
alemão. Em latim, rosã (com a breve) não tem o mesmo sentido e ap icação
gramatical de rosã (com a longo), distinguindo-se, pela quantidade,
52
#
1,
1 i:
à
i t
o nominativo do ablativo, por exemplo. "Em inglês xíp e xíp (que se
43
escrevem ship e sheep) significam, respectivamente, navio e carneiro"(').
Em português, a quantidade é pouco sentida e não exerce notável
papel na caracterização e distinção dos vocábulos e formas gramaticais.
Só excepcionalmente alongamos vogais e consoantes, como recursos estilísticos
para imprimir ênfase, e constitui um dos grandes auxiliares da
oratória:
"Se pudéssemos, nós que temos experiência da vida, abrir os olhos dessas
mariposinhas
tontas... Mas é inútil. Encasqueta-se-lhes na cabeça que o amor,
o amoor, o
1 amooor é tudo na vida, e adeus" (MONTEnto LOBATO, Cidades Mortas, 147).
BARbaridade!
Acentuação é o modo de proferir um som ou grupo de sons com
mais relevo do que outros.
Este relevo se denomina acento. Diz-se que o acento é de intensidade
(acento de força, acento dinâmico, acento expiratório ou icto), quando
o
relevo consiste no maior esforço expiratório. Diz-se que o acento é musical
(acento de altura ou tom), quando o relevo consiste na elevação ou maior
altura da voz.
O português e as demais línguas românicas, o inglês, o alemão, são
línguas de_ acento de intensidade; o latim e o grego, por outro lado, possuem
acento musical.
O acento de intensidade se manifesta no vocábulo conside,~ado isoladamente
(acento vocabular) ou ligado na enunciação da frase (acento
frásico).
Acento de intensidade. - Numa palavra nem todas as sílabas são
proferidas com a mesma intensidade. Em sólida, barro, poderoso, material,
há uma sílaba que se sobressai às demais e, por isso, se chama tônica:
sólida, barro, poderoso, material. As outras sílabas se dizem átonas e
podem estar antes (pretônicas) ou depois (postônicas) da tônica:
Po -
átona
pretônica
de - ro so
átona tônica átona
pretônica postônica
Dizemos que nas sílabas fortes repousa o acento tônico do vocábulo
(acento da palavra ou acento vocabular).
Existem ainda as sílabas semifortes chamadas subtônicas que, por
questões rítmicas, compensam o seu afastamento da sílaba tônica, fazendo
que se desenvolva um novo acento de menor intensidade - acento secundário
-. Delas nos ocuparemos mais adiante.
Posição do acento tônico. - Em português, quanto à posição do
acento tônico, os vocábulos de duas ou mais sílabas podem ser:
(1) SAID ALI, Gram. Sec., 15.
53
#
44
a)oxítonos: o acento tônico recai na última sílaba: material,
princ~
b)paroxítonos: o acento recai na penúltima sílaba: barro, Poderoso,
Pedro;
C) proparoxítonos: o acento tônico recai na antepenúltima sílaba:
sólida, felicíssimo.
OBURVAÇõES: Em estu~amo-lo o acento tônico aparece na pré-antepenúltima
sílaba, porque os monossílabos átonos formam um todo com o vocábulo a que
se ligam
foneticamente. É por isso que fd-lo é paroxítono e admiras-te,
proparoxftono (cf.
pág. 55).
Em português, geralmente a sílaba tônica coincide com a sílaba tônica
da palavra latina de que se origina.
Há vocábulos, como os que vimos até agora, que têm individualidade
fonética e, portanto, acento próprio, ao lado de outros sem essa individualidade.
Ao serem proferidos acostam-se ou ao vocábulo que vem antes ou
ao que os seguei Por isso, são chamados cliticos (que se inclinam), e serão
proclíticos se se inclinam para o vocábulo seguinte (o homem, eu sei, vai
ver, mar alto, não viu) ou enclíticos, se para o vocábulo anterior
(vejo-me,
dou-a, fiz-lhe).
Os cliticos são geralmente monossilábicos que, por não terem acento
próprio, também se dizem átonos. Os monossilábicos de individuali a e
fonética se chamam t6nicos.
Alguns dissílabos podem ser também clíficos ou átonos: para (reduzido
a pra) ver, quero Crer, quero porque quero.
A tonicidade ou atonicidade de monossilabos e de alguns dissílabos
depende sempre do acento da frase (cf. pág. 55).
Acento de intensidade e sentido do vocábulo. - O acento de intensidade
desempenha importante papel lingüístico, decisivo para a significação
do vocábulo. Assim, sábia é adjetivo sinônimo de erudita; sabia é
forma do pret. imperfeito do indicativo do verbo saber; sabiá é substantivo
designativo de conhecido pássaro.
Acento principal e acento secundário. - Em rapidamente a sílaba
ra possui um acento de intensidade menos forte que o da sílaba men, e se
ouve mais distintamente do que as átonas existentes na palavra. Dizemos
que a sílaba men contém o acento principal e ra o acento secundário da
palavra. A sílaba em que recai o acento secundário chama-se, como vimos,
subt6nica.
Geralmente ocorre o acento secundário na sílaba radical dos vocábulos
polissilábicos derivados, cujos primitivos possuam acento principal:
RÁpido
- rapidamente.
54
#
45
Acento de insãténcia e emocional. - O português também faz emprego
do acento de intensidade para obter, com o chamado acento de
insistência, notáveis efeitos. Entra em jogo ainda a quantidade da vogal
e da consoante, pois, quando se quer enfatizar uma palavra, insiste-se
mais demoradamente na sílaba tônica. Os escritores costumam indicar na
grafia este alongamento enfático repetindo a vogal da sílaba tônica:
"Os dois garotos, porém, esperneiam com a mudança de mie: - Mentira 1...
Mentiiiiira!... Mentiiiiiiiiiira! - bem cada um para seu lado" (HUMBERTO
DE CAMPOS,
Sombras que Sofrem, 32).
"encasqueta-se-lhes na cabeça que o amor, o amoor, o amooor é tudo na
vida e
adeus" (MoNmuRo LoBATo, Cidades Mortas, 147).
O acento de insistência pode cair noutra sílaba, diferente da tônica:
maravilhosa, formidável, inteligente, miserável.
Como bem acentua Roudet, a causa essencial do fenômeno dó recuo
do acento "parece ser a falta de sincronismo entre a emoção e sua expressão
através da linguagem. A emoção se adianta à palavra e reforça a voz
desde que as condições fonéticas o permitem" (1).
Este acento de insistência não tem apenas caráter emocional; adquire
valor intelectual e ocorre ainda para ressaltar uma distinção, principalmente
com palavras derivadas por prefixação ou expressões com preposições
de sentidos opostos.
São fatos subjetivos e não objetivos.
Os problemas de importação e de exportação.
Com dinheiro ou sem dinheiro.
Acento de intensidade na frase. - Isoladas, as palavras regulam sua
sílaba tônica pela etimologia; mas na sucessão de vocábulos, deixa de
prevalecer o acento da palavra para entrar em cena o acento da frase ou
frásico, pertencente a cada grupo de força.
Chama-se grupo de força à sucessão de dois ou mais vocábulos que
constituem um conjunto fonético subordinado a um acento tônico predominante:
A casa de Pedrol é muito grande. Notamos aqui, naturalmente,
dois grupos de força que se acham indicados por barra. No primeiro, as
palavras a e de se incorporam a casa e Pedro, ficando o conjunto subordinado
a um acento principal na sílaba inicial de Pedro, e um acento
secundário na sílaba inicial de casa. No segundo grupo de força, as palavras
é e muito se incorporam foneticamente a grande, ficando o conjunto
subordinado a um acento principal na sílaba inicial de grande e outro
secundário, mais fraco, na sílaba inicial de muito.
(1) AMments de Phondtique Gdnirale~ 252.
55
#
46
É quase sempre fácil determinar a sílaba tônica de cada grupo de
força; o difícil é precisar, em certos casos, o ponto de divisão entre
dois
grupos sucessivos(').
A distribuição dos grupos de força e a alternância de sílabas proferidas
mais rápidas ou mais demoradas, mais fracas ou mais fortes, conforme
o que temos em mente expressar, determinam certa cadência do contexto
à qual chamamos ritmo. Prosa e verso possuem ritmo. No verso o ritmo
é essencial e específico; na prosa apresenta-se livre, variando pela
iniciativa
de quem fala ou escreve (2).
Vocábulos tônicos e átonos: os clíticos. - Nestes grupos de força
certos vocábulos perdem seu acento próprio para unir-se a outro que os
segue ou que os precede. Dizemos que tais vocábulos são clíticos (que se
inclinam) ou átonos (porque se acham destituídos de seu acento vocabulgr).
Aquele vocábulo que, no grupo de força, mantém sua individualidade
fonética é chamado tônico. Ao conjunto se dá o nome de vocábulo
fonético: o rei lurrey/; deve estar Idevistarj.
Os clíticos se dizem proclíticos se precedem o vocábulo tônico a que
se incorporam para constituir o grupo de força:
o reill ele dissell bom livro11 deve estar
Dizem-se enclíticos se vêm depois do vocábulo tônico:
disse-me // ei-lo // falar-lhe
Em português são geralmente átonas e proclíticas as seguintes classes
de vocábulos:
1) artigos (definidos ou indefinidos, combinados ou não com preposição):
o homem // um homem do livro
2) certos numerais: um livro três vezes // cem homens //
etc.
3) pronomes adjuntos antepostos
(demonstrativos, possessivos, indefinidos, interrogativos):
este livro 11 meu livro 11 cada dia // que fazer?
4) pronomes pessoais antepostos: ele vem 111 eu disse
5) pronomes relativos
6) verbos auxiliares
7) certos advérbios (já vi, não posso, etc.)
8) certas preposições (a, de, em, com, por, sem, sob, para)
9) certas conjunções: e, nem, ou, mas, que, se, como, etc.
São enclíticas as formas pronominais me, te, se, nos, vos, o, a, os,
as,
lhe, lhes, quando pospostas ao vocábulo tônico.
(1) NAvARiRo TomÁs, Manual de Pronunciacidn EspatIola, 29, n. 1.
(2) Na língua portuguesa moderna predomina a seqüência progressiva, que
consiste em
apresentar, de preferéncia, a OeclaraçAo no fim (o predicado), o
determinado antes do deer.
47
minante, o que se torna cÔmodo aos interesses de compreensão do
interlocutor.
56
#
Muitas vezes, uma palavra pode ser átona ou tônica, conforme sua
posição no grupo de força a que pertence. Em o arco desaparece, o subitantivo
arco é tônico; em o arco-íris('), passou a átono proclítico.
Em grande homem, alto mar, os adjetivos são átonos; em homem
grande, mar alto, já são os substantivos que se atonizam. Em eu lhe disse,
os dois pronomes pessoais são átonos proclíticos; em disse-lhe eu, o pronome
eu conserva seu acento próprio. Todo este conjunto de fatos são
devidos a fenômenos de fonética sintática.
Conseqüências da próclise. - Os vocábulos átonos proclíticos, perdendo
o seu acento próprio para se subordinarem ao do tônico, seguinte,
resistem menos à pressa com que são proferidos. e acabam por sofrer
reduções no seu volume fonético. Dentre os numerosos exemplos de próclise
lembraremos aqui:
a)a passagem de hiato a ditongo, em virtude de uma vogal passar a
semivogal (sinérese):
Tuas, normalmente dissilábico, tem de ser proferido com uma sílaba
nos seguintes versos de Gonçalves Dias, graças à próclise:
"E à noite, quando o céu é puro e limpo,
Teu chão tinges de azul, - tuas ondas correm."
Boa (ou boas), em próclise, transforma a vogal o em semivogal, que
chega, na língua popular, a desaparecer:
"Outros suas terras em boa paz regeram
Armando-as com boas leis, e bons Preceitos." (ANTÔNio ~UtA, Poemas);
"bas noite nhozinho" (CARDOSO, Maleita, 281) (2).
b) desaparecimento da vogal da primeira sílaba de um dissílado;
para > pra: Isto é pra mim.
C) desaparecimento da sílaba final de um dissílabo:
1) santo > são (diante dos nomes começados por consoante), São Paulo,
São Pedro;
2) cento > cem: cem páginas;
3) grande > grã, grão: Grã-Bretanha, grão-vizir;
4) tanto > tão: tio grande;
5) quanto > quão: quão belo.
d) outras reduções como senhor > seu: seu João.
Vocábulos que oferecem dúvidas quanto à posição da sílaba tônica.
- Silabada é o erro na acentuação tônica de um vocábulo.
(1) Por isso, nos compostos, para determinaçâo da posição do acento tônico,
leva-se em
48
consideração a última palavra. Dessarte, é oxitono couve-flor e paroxItono
arco-íris.
(2) Exemplos extraidos de SOUSA DA SILVEIRA, Fonética Sintática, 97-98.
57
#
Numerosos vocábulos existem que oferecem dúvida quanto à posição
da sílaba tônica.
São oxítonos:
São paroxítonos:
alanos
alcácer, alcáçar
algaravia
âmbar
Andronico
arcediago
arrátel
avaro
avito
aziago
azimute
barbaria
batavo
cânon
caracteres
cenobita
clímax
croniossomo
decano
edito (lei, decreto)
alo6s
Cister
harkm
Gibraltar
masseter
faz-se mister ( =necessário)
Monroe
erudito
esquilo
estalido
exegese
filantropo
flébil
fluido (ui ditongo)
fórceps
fortuito (ui ditongo)
gólflo
49
gratuito (ui ditongo)
gúmex
hissope
hosana
Hungria
ibero
impío (cruel)
inaudito
índex
látex
Nobel
novel
recém
refém
ruim
sutil
ureter
Madagáscar (também
#
oxítono)
maquinaria
matula (súcia; famel)
misantropo
necropsia
néctar
nenúfar
Normandia
onagro
opimo
pegada
policromo
pudico
quiromancia
refrega
sótIO
subida honra
tulipa
São proparoxítonos (incluindo-se os vocábulos terminados por ditongo
crescente):
acônito Androcies barbárie
ádvena andrógino bátega
acródromo anélito bávaro
aerólito anémona bígamo
ágape anódino bímano
álacre antídoto boémia
álcali antifona bólido
álcool antífrase bràmane
alclone ápode cáfila
50
alcoólatra areópago cérbero
alibi (latinismo) aríeteCleópatra.
alvíssaras arquétipo condómino
âmago autóctone cotilêdone
amálgama ávido crástino
ambrósia azáfama crisântemo
anátema azêrnola Dámocles
58
#
escâncaras (às
estratégia
etfope
éxodo
fac-símile
fagócito
faràndula
férula
fíbula.
gárrulo
grandíloquo
acróbata
alópata
anídrido
hieróglifo
nefelíbata.
Oceánia
ortoépia
projétil
réptil
reseda (é)
sóror
Dário
Gándavo
homília
geodésia
zángáo
acrobata
alopata
anidrido
hieroglifo,
nefelibata
Oceania
ortoepia
projetil
reptil
resedi
soror
Dario
Gandavo
51
homilia
geodesia
zanglo
pântano
páramo,
Pégaso
périplo
pléiade (-a)
prístino
prófugo
pródromo
protótipo
quadrúmano
réquiem
resffilego (s.)
revérbero,
1) O alfabeto português consta fundamentalmente de vinte e três letras:
2) Além dessas letras há três que só se podem usar em casos especiais:
k, w, y.
3) O h é substituído por qu antes de e e i e por e antes de outra qualquer
#
4) Emprega-se em abreviaturas e símbolos, bem como em palavras
estrangeiras
de uso internacional: K. = potássio; Kr. = criptônio; kg = quilograma;
km = quilômetro;
Àw = quilowatt; kwh = quilowatt-hora, etc.
5) Os derivados portugueses de nomes próprios estrangeiros devem
escrever-se
de acordo com as formas primitivas: frankliniano, kantismo, kleperiano,
perkinismo, etc.
6) O w substitui-se, em palavras portuguesas ou aportuguesadas, por u
ou v,
conforme o seu valor fonético: sanduíche, talvegue, visigodo, etc.
7) Como símbolo e abreviatura, usa-se em kw = quilowatt; W = oeste ou
tungstênio; w = watt; ws = watt-segundo, etc.
8) Nos derivados vernáculos de nomes próprios estrangeiros, cumpre
adotar as
formas que estão em harmonia com a primitiva: darwinismo, wagneriano,
zwinglianista,
etc.
9) o y, que é substituído pelo i, ainda se emprega em abreviaturas e
como
símbolo de alguns termos técnicos e científicos: Y. = ítrio; yd = jarda,
etc.
10) Nos derivados de nomes próprios estrangeiros, devem usar-se as
formas que
se acham de conformidade com a primitiva: byroniano, maynardina,
52
taylorista, etc.
III - H
11) Esta letra não é propriamente consoante, mas um símbolo que, em razão
da etimologia e da tradição escrita do nosso idioma, se conserva no
princípio de
várias palavras e no fim de algumas interjeições: haver, hélice,
hidrogênio, hóstia,
humildade; hão, hem ? puh !; etc.
12) No interior do vocábulo, só se emprega em dois casos: quando faz
parte do
ch, do lh e do nh, que representam fonemas palatais, e nos compostos em
que o
segundo elemento, com h inicial etimológico, se une ao primeiro por meio
do hífen:
chave, malho, rebanho; anti-higiênico, contra-haste, pré-histórico,
sobre-humano, etc.
OBSERVAÇÃO: Nos compostos sem hífen, elimina-se o h do segundo elemento:
anarmônico,
biebdomaddrio, coonestar, desarmonia, exausto, inabilitar, lobisomem,
reaver, etc.
13) No futuro do indicativo e no condicional, não se usa o h no último
elemento,
quando há pronome intercalado: amá-lo-ei, dir-se-ia, etc.
14) Quando a etimologia o não justifica, não se emprega: arpeio
(substantivo),
ombro, ontem, etc. E mesmo que o justifique, não se escreve no fim de
substantivos
e nem no começo de alguns vocábulos que o uso consagrou sem este símbolo,
andorinha,
erva, feld, inverno, etc.
15) Não se escreve h depois de c (salvo o disposto em o n.O 12) nem depois
de P, r e t: o ph é substituído por f, o ch (gutural) por qu antes de e
ou i e
por c antes de outra qualquer letra: corografia, cristão; querubim,
química; farmácia,
fósforo; retórica, ruibarbo; teatro, turíbulo; etc.
IV - Consoantes mudas
16) Não se escrevem as consoantes que se não proferem: asma, assinatura,
ciência,
diretor, gindsio, inibir, inovação, ofício, ótimo, salmo, e não asthma,
assignatura,
sciencia, directorÁ gymnasio, inhibir, innovação, officio, optimo,
psalmo.
OBsERvAÇKO: Escreve-se, porém, o s em palavras como descer, florescer,
nascer, etc., e o x
em vocábulos como exceto, excerto, etc., apesar de nem sempre se
pronunciarem essas consoantes.
17) Em sendo mudo o P no grupo mpc ou mpt, escreve-se nc ou nt: assuncionis
assuntà, presunção, prontificar, etc.
53
60
#
18) Devem-se registrar os vocábulos cujas consoantes facultativamente
se pronunciam,
pondo-se em primeiro lugar o de uso mais generalizado, e em seguida
o outro.
Assim, serão consignados, além de outros, estes: aspecto e aspeto,
característico e
caraterístico, circunspecto e circunspeto, conectivo e conetivo, contacto
e contato, corrupção
e corrução, corruptela e corrutela, dactilografia e datilografia,
espectro e
espetro, excepcional e excecional, expectativa e expetativa, infecção e
infeção, optimismo
e otimismo, respectivo e respetivo, secção e seção, sinóptico e
sinótico, sucção
e stição, sumptuoso e suntuoso, tacto e tato, tecto e teto.
V - S C
19) Elimina-se o s do grupo inicial sc: celerado, cena, cenografia,
ciência, cientista,
cindir, cintilar, ciografia, cisão, etc.
20) Os compostos dessa classe de vocábulos, quando são formados em nossa
língua,
são escritos sem o s antes do e: anticientífico, contracenar, encenação,
etc.; mas,
quando vieram já formados para o vernáculo, conservam o s: consciência,
cônscio,
imprescindível, insciente, ínscio, multisciente, néscio, presciência,
prescindir, proscénio,
rescindir, rescisão, etc.
VI - Letras dobradas
21) Escrevem-se rr e ss quando, entre vogais, representam os sons simples
do r
e s iniciais; e cc ou cç quando o primeiro soa distintamente do segundo:
carro, farra,
massa, passo; convicção, occipital, etc.
22) Duplicam-se o r e o s todas as vezes que a um elemento de composição
terminado
em vogal se segue, sem interposição do hífen, palavra começada por
uma
daquelas letras: albirrosado, arritmia, altíssono, derrogar,
prerrogativa, pressentir, ressentimento,
sacrossanto, etc.
VII - Vogais nasais
23) As vogais nasais são representadas no fim dos vocábulos por ti (às),
im (ins),
54
om (ons), um (uns): ali, cás, flautim, folhetins, semitom, tons, tutum,
zunzuns, etc.
24) O ê1 pode figurar na sílaba tônica, pretónica ou átona: gaM,
cristãmente, maçá,
drfã, romanzeira, etc.
25) Quando aquelas vogais são iniciais ou mediais, a nasalidade é
expressa por
m antes do b e p, e por n antes de outra qualquer consoante: ambos, campo;
contudo,
enfim, enquanto, homenzinho, nuvenzinha, vintenzinho, etc.
VIII - Ditongos
26) Os ditongos orais escrevem-se com a subjuntiva i ou u: aipo, cai,
cauto,
degraus, dei, fazeis, idéia, mausoléu, neurose, retorqüiu, rói, sois, sou,
50u10, uivo,
usufrui, etc.
OBSERVAÇKO: Escrevem-se com i, e não com e, a forma verbal fui, a 2.a
e 3.a pessoa do
singular do presente do indicativo e a 2.a do singular do imperativo dos
verbos terminados
em uir: aflui, fruis, retribuis, etc.
27) O ditongo ou alterna, em numerosos vocábulos, com oi: balouçar e
baloiçar,
calouro e caloiro, dourar e doirar, etc. Cumpre registrar em primeiro lugar
a forma
que mais se usa, e em seguida a variante.
61
#
28) Escrevem-se assim os ditongos nasais: de, ai, tio, am, em, en (8),
6e, Ui (Pro.
ferido ili): mie, pêles, cílibra, acórtíflo, irmdo, ledozinho, amam, bem;
bens, devem,
põe, repões, muito, etc.
CIBURVAÇõES:
l.a) Dispensa-se o til do ditongo nasal ui em mui e muito.
2.a) Com o ditongo nasal do se escrevem os monossílabos, tónicos ou não,
e os polissílabos
oxítonos: cão, dão, grdo, ndo, quão, são, tdo; alcordo, capitão,
cristdo, então, irmão,
sendo, sentirão, servirão, viverão, etc.
3.a) Também se escrevem com o ditongo do os substantivos e adjetivos
paroxítonos, acentuando-
se, porém, a sílaba tónica: órfão, órgão, sótáo, etc.
4.a) Nas formas verbais anoxítonas se escreve qm: amaram, deveram,
partiram, puseram, etc.
5.a) Com o ditongo nasal de se escrevem os vocábulos oxítonos e os seus
derivados; e os
55
anoxítonos primitivos grafam-se com o ditongo di: capitães, mdes,
pdezinhos; clibo,
zdibo, etc.
6.a) O ditongo nasal éi(s) escreve-se em ou en(s), assim nos monossílabos
como nos polis.
sílabos de qualquer categoria gramatical: bem, cem, convém, convéns,
mantém, manténs,
nem, sem, virgem, virgens, voragem, voragens, etc.
29) Os encontros vocálicos átonos e finais que podem ser pronunciados
como
ditongos crescentes escrevem-se da seguinte forma; ea (áurea), co
(cetáceo), ia (colônia),
ie (espécie), io (exímio), oa (nódoa), ua (contínua), ue (tênue), uo
(tríduo), etc.
IX - Hiatos
30) A La, 2.a, 3.a pessoa do singular do presente do conjuntivo e a 3.a
pessoa do
singular do imperativo dos verbos em oar escrevem-se com oe e não oi:
abençoe,
amaldiçoes, perdoe, etc.
31) As trés pessoas do singular do presente do conjuntivo e a &a do
singular
do imperativo dos verbos em uar escrevem-se com ue, e não ui: cultue,
habitues,
preceitue, etc.
X - Parênimos e vocábulos de grafla dupla
32) Deve-se fazer a mais rigorosa distinção entre os vocábulos parõnimos
e os de
grafia dupla que se escrevem com e ou com i, com o ou com u, com c ou q,
com ch
ou x, com g ou i, com s, ss ou c, ç, com s ou x, com s ou z e com os diveisos
valores do x.
33) Deve-se registrar a grafia que seja mais conforme à etimologia do
vocábulo
e à sua história, mas que esteja em harmonia com a prosódia geral dos
brasileiros,
nem sempre idêntica à lusitana. E quando há dois vocábulos diferentes,
v. g., ura
escrito com e e outro escrito com i, é necessário que ambos sejam
acompanhados da
sua definição ou do seu significado mais vulgar, salvo se forem de
categorias grama.
ticais diferentes, porque, neste caso, serão acompanhados da indicação
dessas categorias.
Ex.: censório, adj. Cf. Sensório, adj. e s.m.
Assim, pois, devem w inscritos vocábulos como: antecipar, criador,
criança, criar,
diminuir, discriciondrio, dividir, filintiano, filipino, idade, igreja,
igual, imiscuir-se,
invés, militar, ministro, pior, quase, quepe, tigela, tijolo, vizinho,
etc.
56
34) Palavras como cardeal e cardial, desfear e desfiar, descrição e
discrição, destinto
e distinto, meado e miado, recrear e recriar, se e si serão consignadas
com o necessário
esclarecimento e a devida remissão. Por exemplo: descrição, 9.f.: ação
de descrever.
Cf. discrição. Discrição, s.f.: qualidade do que é discreto. Cf.
descrição.
35) Os verbos mais usados -em ear e iar serão seguidos das formas do
presente
do indicativo, no todo ou em parte.
62
#
36) De acordo com o critério exposto, far-se-á rigorosa distinção entre
os vocábulos
que se escrevem:
a)com o ou com u: frdgua, lugar, mágoa, manuelino, polir, tribo, urdir,
veio
(v. ou substantivo), etc.
b)com c ou q: quatorze (seguido de catorze), cinqüenta, quociente (seguido
de
cociente), etc.
C)com ch ou x: anexim, bucha, cambaxirra, charque, chimarrão, coxia,
estrebuchar,
faxina, flecha, tachar (notar; censurar), taxar (determinar a taxa;
regular),
xícara, etc.
d)com g ou i: estrangeiro, jenipapo, genitivo, gíria, jeira, jeito, jibóia,
firau, laranjeira,
lojista, majestade, viagem (subst.), viajem (do verbo viajar),
etc.
C)com s, is ou c, ç: dnsía, anticéptico, boça (cabo de navio), bossa
(protuberância;
aptidão), bolçar (vomitar), bolsar (fazer bolsos), caçula, censual
(relativo a
censo), sensual (lascivo), etc.
OtazavAçÃo: Não se emprega ç em início de palavras.
com s ou x: espectador (testemunha), expectador (pessoa que tem
esperança),
experto (perito; experimentado), esperto (ativo; acordado), esplêndido,
esplendor,
extremoso, flux (na locução a flux), justafluvial, justapor, misto,
etc.
g)com s ou z: alazdo, alcaçuz (planta), alisar (tornar liso), alizar (s.m.),
anestesiar,
autorizar, bazar, blusa, brasileiro, buzina, colíseu, comezinho, cortês,
dissensão,
empresa, esfuziar, esvaziamento, frenesi (seguido de frenesim), garcês,
57
guizo
(9.m.), improvisar, irisar (dar as cores do íris a), irizar (atacar [o
iriz] o cafezeiro),
lambuzar, luzidio, mazorca, narcísar-se, obséquio, pezunho,
prioresa, rizotônico,
sacerdotisa, sazão, tapiz, trdnsito, xadrez, etc.
OISILAVAÇUS:
La)E sonoro o s de obséquio e seus derivados, bem como o do prefixo trans,
em se lhe
"Indo vogal, pelo que se deverá indicar a sua pronúncia entre
parénteses; quando,
porém, a esse prefixo se segue palavra iniciada por s, só se escreve
um, que se
profere como se fora dobrado: obsequiar (ze), transocednico (zo),
transecular (se),
transubstanciação (su); etc.
2.a)No final de sílaba átona, seja no interior, seja no fim do vocábulo,
emprega-se o s
em lugar do z: asteca, endes, mesquita, etc.
37) O x continua a escrever-se com os seus cinco valores, bem como nos
casos em
que pode ser mudo, qual em exceto, excerto, etc. Tem, pois, o som de:
IP) ch, no princípio e no interior de muitas palavras: xàirel, xerife,
xícara, ameixa;
enxoval, peixe, etc.
OssiavAçÁo: Quando tem esse valor, não será indicada a sua pronúncia entre
parénteses.
Í 2.0) cs, no meio e no fim de várias palavras: anexo, complexidade, convexo,
bórax,
Utex, sílex, etc.
~I V) z, quando ocorre no prefixo exo ou ex seguido de vogal: exame, êxito,
êxodo,
1 exosmose, exotérmico, etc.
~ V) ss: aproximar, auxiliar, máximo, proximidade, sintaxe, etc.
5,0) s final de sílaba: contexto, fénix, pretextar, sexto, textual, etc.
~i
38) No final de sílabas iniciais e interiores se deve empregar o s em
vez do x,
1
'. quando não o precede a vogal e: justafluvial, justaposiç&o, misto,
sistino, etc.
63
#
XI - Nomes próprios
39) Os nomes próprios personativos, locativos e de qualquer natureza,
58
sendo
portugueses ou aportuguesados, estão sujeitos às mesmas regras
estabelecidas para os
nomes comuns.
40) Para salvaguardar direitos individuais, quem o quiser manterá em
sua assinatura
a forma consuetudinária. Poderá também ser mantida a grafia original
de quaisquer
firmas, sociedades, títulos e marcas que se achem inscritos em
registro público.
41) Os topônimos de origem estrangeira devem ser usados com as formas
vernáculas
de uso vulgar; e quando não têm formas vernáculas, transcrevem-se
consoante as
normas estatuídas pela Conferência de Geografia de 1926 que não
contrariarem os
princípios estabelecidos nestas Instruções.
42) Os topônimos de tradição histórica secular não sofrem alteração
alguma na sua
grafia, quando já esteja consagrada pelo consenso dititurno dos
brasileiros. Sirva de
exemplo o topônimo Bahia, que conservará esta forma quando se aplicar em
referência
ao Estado e à cidade que têm esse nome.
OBSERVAÇÃO: Os compostos e derivados desses topônimos obedecerão às
normas gerais do
vocabulário comum.
XIII - Apóstrofo
44) Limita-se o emprego do apóstrofo aos seguintes casos:
1.0)Indicar a supressão de uma letra ou letras no verso, por exigência da
metrificação:
c'roa, esp'rança, ofrecer, 'star, etc.
2.0) Reproduzir certas pronúncias populares:
'td, 'teve, etc.
3.0) Indicar a supressão da vogal,
já consagrada pelo uso, em certas palavras compostas
ligadas pela preposição de: copo-d'água (planta, lanclic),
galinha-d'água, méied'água,
olho-d'água, pau-d'água (árvore, ébrio), pau-d'alho,
pau-d'arco, etc.
OBsEitvAçÃo: Restringindo-se o emprego do apóstrofo a esses casos,
cumpre não se.use dele
em nenhuma outra hipótese. Assim, não será empregado:
a)nas contrações das preposições de e em com artigos, adjetivos ou pronomes
demonstrativos,
indefinidos, pessoais e com alguns advérbios: dei (em aqui-dei-rei);
dum, duma (a par
de de um, de uma), num, numa (a par de em um, em uma); dalgum, dalguma
(a par de
de algum, de alguma), nalgum, nalguma (a par de em algum, em alguma);
dalguém, nalguém
(a par de de alguém, em alguém); doutrem, noutrem (a par de de
outrem, etn
outrem); dalgo, dalgures (a par de de algo, de algures); daquém, dalém,
dacolá (a par de
59
de aquém, de além, de acolá); doutro, noutro (a, par de de outro, em
outro); dele, dela,
nele, nela; deste, desta, neste, nesta, daquele, daquela, naquele,
naquela; disto, nisto, da.
quilo, naquilo; daqui, daí, dacolá, donde, dantes, dentre; doutrora
(a par de de outrora),
noutrora; doravante (a par de de ora avante); etc.
b)nas combinações dos pronomes pessoais; mo, ma, mos, mas, to, ta, tos,
tas, lho, lha,
lhos, lhas, no-lo, no-los, no-las, vo-lo, vo-la, vo-los, vo-las.
C)nas expressões vocabulares que se tornaram unidades fonéticas e
sernáriticas: dessarte,
destarte, homessa, tarrenego, tesconjuro, vivalma, etc.
d)nas expressões de uso constante e geral na linguagem vulgar: co, coa,
ca, cos, cas, com
(= com o, com a, com os, com as), pio, pia, pios, pias (= pelo, pela,
pelos, pelas),
Pra (= para), pro, pra, pros, pras (= para o, para a, para os, para
as), etc.
XIV - Hífen
45) Só se ligam por hífen os elementos das palavras compostas em que
mantém a noção da composição, isto é, os elementos das palavras compostas
%W
mantêm a sua independência fonética, conservando cada um a sua própria
porém formando o conjunto perfeita unidade de sentido.
64
#
) Dentro desse princípio, deve-se empr ar o hífen nos se intes casos
1,0)Nas palavras compostas em que os elementos, com a sua acentuação própria,
não
conservam, considerados isoladamente, a sua significação, mas o
conjunto constitui
uma unidade semántica: água-marinha, arco-íris, galinha-d'água,
couve-flor,
pára-choque, porta-chapéus, etc.
1.a) Incluem-se nesta norma os compostos
em que figuram elementos foneticamente redu
1 1 L -ado su-sue
zidos: be -Prazer, i-sues e, ma pe ste, etc.
2.a)0 antigo artigo el, sem embargo de haver perdido o seu primitivo sentido
e não ter
vida à parte na língua, une-se por hífen ao substantivo rei, por ter
este elemento
60
evidéncia semântica
3.a)Quando se perde a noção do composto, quase sempre em razão de um dos
elementos
não ter vida própria na língua, não se escreve com hífen, mas
aglutinadamente:
abrolhos, bancarrota, fidalgo, vinagre, etc.
4.a) Como as locuções não têm unidade
de sentido, os seus elementos não devem ser unidos
por hífen, seja qual for a categoria gramatical a que elas pertençam.
Assim, escre , ve-sc,
v.g., vós outros (locução pronominal), a desoras (locução adverbial),
a fim de (locuçáo
prepositiva), contanto que (locução conjuntiva), porque essas
combinações vocabulares
não são verdadeiros compostos, não formam perfeitas unidades
semânticas.
Quando, porém, as locuções se tornam unidades fonéticas, devem ser
escritas numa só
palavra: acerca (adv.), afinal, apesar, debaixo, decerto, defronte,
depressa, devagar,
5-a
As formas verbais com pronomes enclíticos ou mesoclíticos e os vocábulos
compostos
cujos elementos são ligados por hífen conservam seus acentos gráficos:
amá-lo-d, amáreis-
me amásseis-vos, devê-lo-ia, fd-la-emos, pó-las-íamos,
2,0)Nas formas verbais com pronomes encliticos ou mesocliticos: ama-lo (amas
e lo),
amá-lo (amar e lo), dê-se-lhe, fá-lo-d, oferecê-la-ia, repô-lo-eis,
serenou-se-te, traz-me
3.0)Nos vocábulos formados pelos prefixos que representam formas adjetivas,
com
anglo, greco, histórico, ínfero, latino, lusitano, luso, póstero,
súpero, etc.: anglO
brasileiro, greco-romano, histórico-geogrófico, ínfero-anterior,
latino-americano
lusitano-castelhano, luso- brasileiro, póstero-palatal,
stipero-posterior, etc.
OBSERVAÇÃO: Ainda que esses elementos prefixais sejam reduções de
adjetivos, não perden
sua individualidade morfológica, e r Isso devem unir-se por hífen, como
sucede com
austro (= austríaco), dólico (= dolicocéfalo), euro (= europeu), telégrafo
(= telegráfico), etcaustro-
húngaro, dólico-louro, euro-africano, telégrafo-postal, etc.(1)
V)Nos vocábulos formados por sufixos que representam formas adjetivas, como
açtc,
guaçu e mirim, quando o exige a pronúncia e quando o primeiro elemento
acaba
em vogal t da aficamente: andd-açu amoré-guaçu anaid-mirim, capim-açu,
61
etc.
a)auto, contra, extra, infra, intra, neo, proto, pseudo, semi e ultra, quando
se
lhes seguem palavras começadas por vogal, h, r oualmirante, extra-oficial,
infra-hepático, intra-ocular, neo-republicarto, proto-revo-
.~ 7
(1) Mas, no próprio texto do PVOLP, encontramos contradições a êste
principio, como:
#
OBSERVAÇÃO: A única exceçào a esta regra é a palavra extraordindrio,
que já está consagrada
pelo uso.
b)ante, anti, arqui e sobre, quando seguidos de palavras iniciadas por h,
r ou
s: ante-histórico, anti-higiênico, arqui-rabino, sobre-saia, etc.
C) supra, quando se lhe segue palavra encetada por vogal, r ou s: supra-axilar,
supra-renal, supra-seráível, etc.
d) super, quando seguido de palavra principiada por h ou r: super-homem,
superrequintado,
etc.
C) ab, ad, ob, sob e sub, quando seguidos de elementos iniciados por r:
ab-rogar,
ad-renal, ob-reptício, sob-roda, sub-reino, etc.
f)pan e mal, quando se lhes segue palavra começada por vogal ou h:
pan-asidtico,
pan-helenismo, mal-educado, mal-humorado, etc.
g)bem, quando a palavra que lhe segue tem vida autônoma na língua ou quando
a pronúncia o requer: bem-ditoso, bem-aventurança, etc.
h) sem, sota, soto, vice, vizo, ex (com o sentido de cessamento ou estado
anterior),
etc.: sem-cerimônia, sota-piloto, soto-ministro, vice-reitor, vizo-rei,
ex-diretor, etc.
i)pós, pré e pró, que têm acento próprio, por causa da evidência dos seus
significados
e da sua pronunciaçáo, ao contrário dos seus homógrafos
inacentuados,
que, por diversificados foneticamente, se aglutinam com o segundo
elemento:
pós-meridiano, pré-escolar, pró-britdnica; mas pospor, preanunciar,
procônsul,
etc.
XV - Divisão silábica
47) A divisão de qualquer vocábulo, assinalada pelo hífen, em regra se
faz pela
soletração, e não pelos seus elementos constitutivos segundo a etimologia.
48) Fundadas neste princípio `geral, cumpre respeitar as seguintes
normas:
62
La) A consoante inicial não seguida de vogal permanece na sílaba que
a segue:
cni-do-se, dze-ta, gno-ma, mne-mô-ni-ca, pneu-mii-ti-co, etc.
2.a) No interior do vocábulo, sempre se conserva na sílaba que a precede
a consoante
não seguida de vogal: ab-di-car, ac-ne, bet-sa-mi-ta, daf-ne,
drac-ma, ét-ni-co,
nup-ci-al, ob-fir-mar, op-ção, sig-ma-tis-mo, sub-por, sub-ju-gar, etc.
3.a) Não se separam os elementos dos grupos consortânticos iniciais de
sílabas nem
os dos digramas ch, ffi, nh: a-blu-çdo, a-bra-sar, a-che-gar, fi-lho,
ma-nhLI, etc.
OBSERVAÇÃO: Nem sempre formam grupos articulados as consonAncias bi e
br: nalguns casos
o 1 e o r se pronunciam separadamente, e a Isso se atenderá na partição
do vocábulo; e as
consoantes di, a não ser no tempo onomatopéico dlim, que exprime toque
de campainha,
proferem-se desligadamente, e na divislo silábica ficará o hífen entre
essas duas letras. Ex.:
,sub-lin-gual, jub-rogi~r, ad-le-gaçdo, etc.
4.a) O sc no interior do vocábulo biparte-se, ficando o s numa sílaba,
e o e na
silaba, imediata: a-do-les-cen-te, con-va-les-cer, des-cer, ins-ci-ente,
pres-cin-dir, res-ci-são,
etc.
OBSERVAÇÃO: Forma sílaba com o prefixo antecedente o s que precede
consoantes: abs-tra-ir,
ads-cre-ver, ins-cri-çáo, ins-pe-tor, inç-tru-ir, in-ters-d-cio,
pers-pi-car, subi-cre-ver, subi-ta-be-Le-cer,
etc.
5.a) O s dos prefixos bis, cis, des, dis, trans e o x do prefixo ex não
se separam
quando a sílaba seguinte começa por consoante; mas, se principia por vogal,
formam
sílaba com esta e separam-se do elemento prefixal: bis-ne-to,
cis-pla-ti-no, des-li-gar, distra-
çtlo, trans-por-tar, ex-tra-ir; bi-sa-vô, ci-san-di-no,
de-ses-pe-rar, di-sen-té-ri-co, transa-
tlân-ti-co, e-xér-ci-to, etc.
66
#
6.a) As vogais idênticas e as letras cc, cç, rY e ss separam-se ficando
uma na sílaba
seguinte: ca-a-tin-ga, co-or-de-nar, du-ún-vi-ro, fri-ís-simo, ge-e-na,
in-te-lec-ção, oc-cipi-
tal, pror-ro-gar, res-sur-gir, etc. .
OMERVAÇÃO: As vogais de hiatos, ainda que diferentes uma da outra, também
63
se separam:
a-ta-ti-de, cai-ais, ca-t-eis, ca-ir, do-er, du-e-lo, fi-el, flu-iu,
flu-ir, gra-ti-na, je-su-í-ta, te-ai,
mi-ú-do, po-ei-ra, ra-i-nha, ia-ú-de, vi-ví-eis, vo-ar, etc.
7.a) Não se separam as vogais dos ditongos - crescentes e decrescentes
- nem as
dos tritongos: ai-ro-so, a-ni-mais, ati-ro-ra, a-ve-ri-güeis, ca-iti,
cru-éis, en-iei-tar, fo-ga-réu,
lu-giu, gló-ria, guai-ar, i-guais, ia-mais, jói-as, ó-dio, quais, sd-bio,
sa-guêlo, £a-gu6es,
sti-bor-nou, ta-fuis, vd-rio, etc.
OBSERVAÇAO: Não se separa do u precedido de g ou q a vogal que o segue,
acompanhada,
ou não, de consoante: am-bí-guo, e-qui-va-ler, guer-ra, u-bí-quo, etc.
XVI - Emprego das iniciais maiúsculas
49) Emprega-se letra inicial maiúscula:
1.0) No começo do período, verso ou citação direta. Disse o Padre Antônio
Vieira:
"Estar com Cristo em qualquer lugar, ainda que seja no Inferno, é estar
no Paraíso".
"Auriverde pendão de minha terra
que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que à luz do sol encerra
As promessas divinas da Esperança..." (CAsTRo ALvEs)
OnaravAçÁo: Alguns poetas usam, à espanhola, a minúscula
quando a pontuação o permite, como se vê em CAsTiLHo:
"Aqui, sim, no meu cantinho,
vendo rir-me o candeeiro,
gozo o bem de estar sozinho
o esquecer o mundo inteird'.
no princípio de cada verso,
2.0) Nos substantivos próprios de qualquer espécie - antropôrtimos,
topôninos,
patronímicos, cognomes, alcunhas, tribos e castas, designações de
comunidades religiosas
e políticas, nomes sagrados e relativos a religiões, entidades mitológicas
e astronômicas,
etc.: José, Maria, Macedo, Freitas, Brasil, América, Guanabara, Tieté,
AtIdrítico, Antoninos,
Afonsinhos, Conquistador, Magndnimo, Coração de Leão, Sem Pavor,
Deus, Jeovd,
Alá Assunção, Ressurreição, júpiter, Baco, Cérbero, Via Ldctea, Canopo,
Vênus, etc.
OBSERVAÇóES:
1.a)As formas onomásticas que entram na composição de palavras do
vocabulário comum
escrevem-se com Inicial minúscula quando constituem, com os elementos
a que se
ligam por hífen, uma unidade semAntica: quando não constituem unidade
64
semántica
devem ser escritas sem hífen e com Inicial maiúscula: dgua-de-coldnia,
jogo-de-barro,
maria-rosa (palmeira), etc.; além Andes, aquém Atidntico, etc.
2.a)Os nomes de povos escrevem-se com Inicial minúscula, não só quando
designam habitantes
ou naturais de um estado, província, cidade, vila ou distrito,
mas ainda quando
representam coletivamente uma nação*. amazonenses, baianos,
estremenhos, fluminenses,
guarapuavamos, jequicenses, Paulistas, pontalenses, romenos, russos,
suíços, uruguaios,
venezucianos, etc.
3.0) Nos nomes próprios de eras históricas e épocas notáveis: Héjira,
Idade Média,
Quinhentos (o século xvi), Seiscentos (o século xvii), etc.
OBSERVAÇAO: os nomes dos meses devem escrever-se com inicial minúscula:
janeiro, fevereiro,
março, abril, maio, junho, julho, agosto, setembro, outubro, novembro,
dezembro.
67
#
4.0) Nos nomes de vias e lugares públicos: Avenida de Rio Branco, Beco
do Carmo,
Largo da Carioca, Praia do Flamengo, Praça da Bandeira, Rua Larga, Rua
do Ouvidor,
Terreiro de São Francisco, Travessa do Comércio, etc.
5.0) Nos nomes que designam altos conceitos religiosos, políticos ou
nacionalistas:
Igreja (Católica, Apostólica, Romana), Nação, Estado, Pátria, Raça, etc.
OBSFRVAÇÃO: Esses nomes se escrevem com inicial minúscula quando são
empregados
em sentido geral ou indeterminado.
6.0) Nos nomes que designam artes, ciências, ou disciplinas, bem como
nos que
sintetizam, em sentido elevado, as manifestações do engenho e do saber:
Agricultura,
Arquitetura, Educação Física, Filologia Portuguesa, Direito, Medicina,
Engenharia,
História do Brasil, Geografia, Matemática, Pintura, Arte, Ciência,
Cultura, etc.
OBsERvAçÃo: Os nomes idioma, idioma pUrio, língua, língua portuguesa,
vernáculo e outros
análogos escrevem-se com inicial maiúscula quando empregados com especial
relevo.
7.0) Nos nomes que designam altos cargos, dignidades ou postos: Papa,
Cardeal,
65
Arcebispo, Bispo, Patriarca, Vigário, Vigário-Geral, Presidente da
República, Ministro
da Educação, Governador do Estado, Embaixador, Almirantado, Secretário
de Estado, etc.
8.0) Nos nomes de repartições, corporações ou agremiações, edifícios
e estabelecimentos
públicos ou particulares: Diretoria Geral do Ensino, Inspetoria
do Ensino Superior,
Ministério das Relações Exteriores, Academia Paranaense de Letras,
Círculo de
Estudos "Bandeirantes", Presidência da República, Instituto Brasileiro
de Geografia e
Estatística, Tesouro do Estado, Departamento Administrativo do Serviço
Público, Banco
do Brasil, Imprensa Nacional, Teatro de Silo José, Tipografia Rolandiana,
etc.
9.0) Nos títulos de livros, jornais, revistas, produções artísticas,
literárias e científicas:
Imitação de Cristo, Horas Marianas, Correio da Manhã, Revista Filológica,
Transfiguração
(de Rafael), Norma (de Bellini), Guarani (de Carlos Gomes), O
Espírito das Leis
(de Montesquieu), etc.
OBSERVAÇÃO: Não se escrevem com maiúscula inicial as partículas
monossilábicas que se acham
no interior de vocábulos ou de locuções ou expressões que têm iniciais
maiúsculas: Queda do
Império, O Crepúsculo dos Deuses, Histórias sem Data, A Mão e a Luva, Festas
e Tradições
Populares do Brasil, etc.
1OP) Nos nomes de fatos históricos e importantes, de atos solenes e de
grandes
empreendimentos públicos: Centenário da Independência do Brasil,
Descobrimento da
América, Questão Religiosa, Reforma Ortográfica, Acordo Luso-Brasileiro,
Exposição
Nacional, Festa das Mies, Dia do Município, Glorificação da Língua
Portuguesa, etc.
OBSERVAÇAO: os nomes de festas pagãs ou populares escrevem-se com
inicial minúscula:
carnaval, entrudo, saturnais, etc.
11.0) Nos nomes de escolas de qualquer espécie ou grau de ensino:
Faculdade de
Filosofia, Escola Superior de Comércio, Ginásio do Estado, Colégio de
Pedro II, Institituto
de Educação, Grupo Escolar de Machado de Assis, etc.
12.0) Nos nomes comuns, quando personificad" ou individuados, e de seres
morais
ou fictícios: A Capital da República, a Transbrasiliana, moro na Capital,
o Natal de
Jesus, o Poeta (Caniões), a ciência da Antiguidade, os habitantes da
Península, a Bon66
dade, a Virtude, o Amor, a Ira, o Medo, o Lobo, o Cordeiro, a Cigarra,
a Formiga, etc,
OBSERVAÇÃO: Incluem-se nesta norma os nomes que designam atos das
autoridades da República,
quando empregados em correspondência ou documentos oficiais: A Lei
de 13 de maio, o
Decreto n.O 20.108, a Portaria de 15 de junho, o Regulamento n.* 737, o
Acórdão de 3 de
agosto, etc.
13.0) Nos nomes dos pontos cardeais, quando designam regiões: Os povos
do Oriente;
o falar do Norte é diferente do falar do Sul; a guerra do Ocidente, etc.
68
#
OBSERVAÇÃO! Os nomes dos pontos cardeais escrevem-se com iniciais
minúsculas quando
disignam direções ou limites geográficos: Percorri o país de norte a sul
e de leste a oeste.
14.0) Nos nomes, adjetivos, pronomes e expressões de tratamento ou
reverência: D.
(Dom ou Dona), Sr. (Senhor), Sr.a (Senhora), DD. ou Dig.mo (Digníssimo),
MM. ou
M.--- (Meritíssimo), Rev.", (Reverendíssimo), V. Rev.a (Vossa Reverência),
S.E. (Sua
Eminência), V. M. (Vossa Majestade), V. A. (Vossa Alteza), V. S." (Vossa
Senhoria), V.
Ex1. (Vossa Excelência), V. Ex.a Rev.--- (Vossa Excelência
Reverendíssima), V. Ex.---
(Vossas Excelências), etc.
OBSERVAÇÃO: As formas que se acham ligadas a essas expressões de
tratamento devem ser
também escritas com iniciais maiúsculas: D. Abade, Ex.--- Sr.a Diretora,
Sr. Almirante, Sr.
Capitão -de-Mar-e-Guerra, MM. juiz de Direito, Ex.--- e Rev.--- Sr.
Arcebispo Primaz, Magnífico
Reitor, Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Eminentíssimo
Senhor Cardeal, Sua Majestade
Imperial, Sua Alteza Real, etc.
15.0) Nas palavras que, no estilo epistolar, se dirigem a um amigo, a
um colega, a
uma pessoa respeitável, as quais, por deferência, consideração ou respeito,
se queira
realçar por esta maneira: meu bom Amigo, caro Colega, meu prezado Mestre,
estimado
Professor, meu querido Pai, minha amordvel Mie, meu bom Padre, minha
distinta Diretora,
caro Dr., prezado Capitão, etc.
67
XVJI - Sinais de pontuação
50) ASPAS. - Quando a pausa coincide com o final da expressão ou sentença
que se acha entre aspas, coloca-se o competente sinal de pontuação depois
delas, se
encerram apenas uma parte da proposição; quando, porém, as aspas abrangem
todo
o período, sentença, frase ou expressão, a respectiva notação fica
abrangida por elas:
"Aí temos a lei", dizia o Florentino. "Mas quem as há de segurar?
Ninguém." (Rui BARBOSA.)
"Mísera, tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume 1"
"Por que não nasci eu um simples vaga-lume?" (MACHADO DE Assis.)
51) PARÊNMES. - Quando uma pausa coincide com o início da construção
parentética,
o respectivo sinal de pontuação deve ficar depois dos parênteses,
mas, estando
a proposição ou a frase inteira encerrada pelos parênteses, dentro deles
se põe a competente
notação:
"Não, filhos meus (deixai-me experimentar, uma vez que seja, convosco,
este suavíssimo nome); não: o coração não é tão frívolo, tão exterior,
tão
carnal, quanto se cuida." (Rui BARBOSA.)
"A imprensa (quem o contesta?) é o mais poderoso meio que se tem
inventado para a divulgação do pensamento." (Carta inserta nos Anais da
Biblioteca Nacional, vol. 1)". (CARLOS DE LAET.)
52) TRAVESSÃO. - Emprega-se o travessão, e não o hífen, para ligar
palavras ou
grupos de palavras que formam, pelo assim dizer, uma cadeia na frase: O
trajeto
Maud-Cascadura; a estrada de ferro Rio-Petrópolis; a linha aérea Brasil-A
rgen tina;
o percurso Barcas-Tijuca, etc.
53) PONTO FINAL. - Quando o período, oração ou frase'termina por
abreviatura,
não se coloca o ponto final adiante do ponto abreviativo, pois este, quando
coincide
com aquele, tem dupla serventia. Ex.: "O ponto abreviativo põe-se depois
das palavras
69
#
indicadas abreviadamente por suas iniciais ou por algumas das letras com
que se
representam, v.g.: V.Sa; II.---;Ex.a, etc." (Dr. Ernesto Carneiro
68
Ribeiro.)
Aprovadas unanimemente na sessão de 12 de agosto de 1943.
JOSk CARLOS DE MACIDO SOARES
Presidente da Academia Brasileira de Letras
(Das Instruç5es para a Organizaçáo do
Vocabulário Ortográfico da Língua Nacional)
Regras de acentuação
A - Monossilabos
Levam acento agudo ou circunflexo os monossílabos terminados em,
a) - a, - as: já, lá, vás
b) - e, - es: fé, lê, pés
c) - o, - os: pó, dá, pós, sós
B - Vocábulos de mais de uma sílaba
OXíTONOS (ou agudos)
Levam acento agudo ou circunflexo os oxítonos terminados em:
a) - a, - as: caid, vatapd, ananás, caraids
b) - e, - es: você, café, pontapés
c) - o, - os: cipó, jiló, avó, carijós
d) - em, - ens: também, ninguém, vinténs, armazéns
Daí, sem acento: aquí, caqui, poti, caiu, urubus.
2 - PAROXíTONOS (OU graves)
Levam acento agudo ou circunflexo os paraxíltonos terminados em:
a) - i, - is: júri, cáqui, beribéri, lápis, tênis
b) - us: vênus, vírus, bônus
OBSERVAÇÃO: Não há nome paroxítono terminado em -tt: o único existente
até
há pouco era tribu, que hoje se escreve com o: tribo, tribos.
c) - r: caeáter, revólver, éter
d) - 1: útil, amável, nível, têxtil (não téxtil)
e) - x: tórax, Iênix, ônix
1) - n: éden, hífen (mas: edens, hifens, sem acento)
70
#
g) - um, uns: médium, álbuns
h) - ão, ãos: órgão, órfão, órgãos, órfãos
i) - à, - às: órfa, ímã, órfãs, ímãs
j) - ps: bíceps, fórceps
3 - PROPAROXíTONOS (ou esdrúxulos)
69
Lev-am acento agudo ou circunflexo todos os proparoxítonos: cálido,
tépido, cátedra, sólido, límpido, cômodo.
4 - CASOS ESPECIAISa) São sempre acentuados os ditongos abertos éi, éu,
ói
idéia, Galiléia, hebréia, Coréia
céu, véu
dói, herói, constrói, apóio
Não se acentuam os encontros vocálicos fechados, com exceção de ôo:
pessoa, patroa, coroa, boa, canoa
teu, judeu, camafeu
vôo, enjôo, perdôo, corôo
b)Levam acento agudo o i e u, quando representam a segunda
vogal tônica de um hiato, desde que não formem sílaba com
r, 1, m, n, z ou não estejam seguidos de nh
saúde., viúva, saída, caído, faísca, aí, Grajaú
raíz (mas, raízes), paul, ruim, ruins, rainha, moinho
c) Não leva acento a vogal tônica dos
ditongos iu e ui
caeu, retribuiu, tafuis, pauis
d) A 3.a pessoa de alguns verbos se grafa da seguinte manei
3.a Pess. sing.
1) termina em - em (monossílabos):
ele tem - eles têm; ele vem - eles vêm
2) termina em - ém
3.a pess. plural
- IM %
- éM
ele contém - eles contém; ele convém - eles convê
3)termina em - é (crê, lê,
dê, vê e derivados):
ele crê - eles crêem;
71
- éeM
ele revê - eles revêem
#
e)Levam acento agudo ou circunflexo os vocábulos terminados por
ditongo oral átono, quer descrescente ou crescente:
ágeis, devêreis, jóquei, túneis, área, espontâneo,
ignorância, imundície, lírio, mágoa, régua, tênue
70
Leva acento agudo ou circunflexo a forma verbal terminada em
a, e, o tônicos, seguida de lo, Ia, los, Ias :
fá-lo, fá-los, movê-lo-ia, sabê-lo-emos, trá-lo-ds.
OBSERVAÇÃO: Pelo último exemplo, vemos que se o verbo estiver no futuro
poderá
haver dois acentos: arná-lo-leis, pô-lo-ás, fá-lo-famos.
g)Não levam acento os prefixos paroxítonos terminados em -r e -i:
inter-helênico, super-homem, semi-histórico.
h)Leva trema o u dos grupos gue, gui, que, qui quando for pronunciado
e átono: agüentar, argüição, eloqüência, tranqüilo, freqüência.
OBSERVA~&S:
1.~) Se o u for pronunciado e tônico leva, nestes
grupos, acento agudo:
argúi, argúis, averigúe, averigúes, obliqúe, obliqúes.
2.a) Se o u átono já levar trema, dispensar-se-á nos verbos, o acento
agudo:
a) na vogal tônica seguinte:
Pres. ind.: arguo, argúis, argúi, argüimos, argüis, argúem
Pret. perf.: argüi, argüiste, argüiu, etc.
b)na vogal tônica dos verbos terminados em -qüe, -qües, -qüem: apropinqüe,
apropinqües, delinqüem.
Sem razão, nosso sistema ortográfico manda-nos acentuar a sílaba tônica
dos verbos
terminados em -güe, -gües, -güem, como se houvesse outro modo de proferir
tais
palavras:
enxágüe, enxágües, enxágüem
i) Leva acento circunflexo diferencial a sílaba tônica da 3.a pess. s.
do pretérito perfeito pôde, para distinguir-se de pode, forma da mesma
pessoa do presente do indicativo.
72
#
Il - Morfologia
A) Classes de vocábulos
1 - SUBSTANTIVO
Substantivo é o nome com que designamos seres em geral - pessoas,
71
animais e coisas.
Concretos e abstratos. - Os substantivos se dividem em concretos e
abstratos. Os concretos são próprios e comuns.
Substantivo CONCRETO é o que designa ser de existência independente:
casa, mar, sol, automóvel, filho, mãe.
Substantivo ABSTRATO é o que designa ser de existência dependente:
prazer, beijo, trabalho, saída, beleza, cansaço.
Os substantivos concretos nomeiam pessoas, lugares, animais, vegetais,
minerais e coisas.
Os substantivos abstratos designam ações (beijo, trabalho, saída, cansaço),
estado e qualidade (prazer, beleza), considerados fora dos seres,
como se tivessem existência individual.
Próprios e comuns. - Substantivo PRóPRIO é o que designa individualmente
os seres, sem referência a suas qualidades:
Pedro, Brasil, Rui Barbosa.
Substantivo comum é o que designa o ser como pertencente a uma
classe com o mesmo conjunto de qualidades:
casa, mas, sol, automóvel.
Não é qualquer coisa que pode receber o nome de casa, mar, sol ou
automóvel. É necessário que observemos nesses seres certas
características
73
#
para que sejam assim designados. já nos substantivos próprios não se dá
atenção a essas qualidades. O nome Pedro, ou Brasil, ou Rui Barbosa,
nada nos dizem a respeito dos seres designados; são apenas distintivos
individuais que, só por coincidência, se podem aplicar a outras pessoas
ou lugares.
Passagem de nomes próprios a comuns. - Não nos prendemos apenas
à pessoa ou coisa nomeada; observamos-lhe qualidades e defeitos que se
podem transferir a um grupo mais numeroso de seres. Os personagens
históricos, artísticos e literários pagam o tributo de sua fama com o desgaste
do valor individualizante do seu nome próprio, que por isso, passa
a
comum. Por esta maneira é que aprendemos a ver no judas não só o
nome de um dos doze apóstolos, aquele que traiu Jesus; é também a
encarnação mesma do traidor, do amigo falso, em expressões do tipo:
Fulano é um judas.
Desta aplicação geral de um nome próprio temos vários outros exemplos:
dom-joão (homem formoso; galanteador; irresistível às mulheres),
tartufo (homem hipócrita; devoto falso), cicerone (guia de estrangeiros,
dando-lhes informações que lhes interessam), benjamim (filho predileto,
geralmente o mais moço; o mais jovem membro de uma agremiação; prende-
se ao personagem bíblico que foi o último e predileto filho de Jacó),
áfrica (façanha; proeza; revive as façanhas dos antigos portugueses nessas
72
terras).
Passam a substantivos comuns os nomes próprios de fabricantes, e
de lugares onde se fazem ou se fabricam certos produtos: estradivários
(= violino de Stradivárius), guilhotina (de J. Inácio Guillotin), macadame
(do engenheiro Mac Adam), sanduíche (do conde de Sandwich),
havana (charuto; em Portugal havano), champanha (da região francesa
Champagne), cambraia (da cidade francesa de Cambray).
Substantivo coletivo. - É o que se aplica aos seres considerados em
conjunto: congregação, turma, exército, multidão, povo, rebanho, lataria.
São coletivos usuais:
a) CONJUNTO DE PESSOAS:
Alcatéia, bando, caterva, corja, horda, fardndula, malta, quadrilha,
récova, súcia,
turba de ladrões, desordeiros, de assassinos, malfeitores e vadios.
Associação, clube, comício, comissão, congresso, conselho, convenção,
corporação,
grêmio, sociedade de pessoas, reunidas para fim comum.
Assistência, auditório, concorrência, aglomeração, roda de assistentes,
ouvintes ou
espectadores.
Cabido de cônegos de uma catedral.
Caravana de viajantes.
Claque, torcida de espectadores para aplaudir ou patear.
Clientela de clientes, de advogados, de médicos, etc.
74
#
Comitiva, cortejo, séquito ou séqüito, acompanhamento de pessoas que
acompanham
outra por dever ou cortesia.
Comunidade, confraria, congregação, irmandade, ordem de religiosos.
Concílio, conclave, consistório, sínodo, assembléia de párocos ou de
outros padres.
Coro, conjunto, bando de pessoas que cantam juntas.
Elenco de artistas de uma companhia, peça ou filme.
Equipagem, marinhagem, companha, maruja, tripulação de marinheiros.
Falange de heróis, guerreiros, espíritos.
Junta de credores, de médicos.
Pessoal de uma fábrica, repartição pública ou escola, loja.
Plêiade ou plêiada de poetas, artistas, talentos.
Ronda de policiais que percorrem as ruas velando pela ordem pública.
Turma de estudantes, trabalhadores, médicos.
. b) GRUPO DE ANIMAIS:
Alcatéia de lobos, panteras ou outros animais ferozes.
Bando, revoada de aves, pardais.
Ufila de camelos.
Cardume, boana, corso (6), manta de peixes.
73
Colmeia, enxame, cortiço de abelhas.
Correição, cordão de formigas.
Fato, rebanho de cabras.
Fauna, conjunto de animais próprios de uma região.
Gado, conjunto de animais criados nas fazendas.
junta, abesana, cingel, jugo, jugada de bois.
Lote de burros, grupos de bestas de carga.
Malhada, avidrio, rebanho de ovelhas.
Manada de cavalos, porcos, éguas.
Matilha de cães.
Ninhada, rodada de pintos.
Nuvem, miríade, onda, praga de gafanhotos, maribondos, percevejos.
Piara, vara de porcos.
Récova, récua de cavalgaduras.
Rebanho, armento, armentio, grei, maromba de bois, ovelhas.
. c) GRUPO DE COISAS:
Acervo, chorrilho, enfiada de asneiras, de tolices. Acervo também se
aplica aos bens
materiais: É grande o acervo da Biblioteca Nacional.
literários
Antologia, analecto, crestomatia, coletdnea, florilégio, seleta de
trechos
ou científicos.
Aparelho, baixela, serviço de chá, café, jantar.
Arquipélago, grupo de ilhas.
Armada, esquadra, frota de navios de guerra.
Bateria, fileira de peças de artilharia.
75
#
Braçada, braçado, buquê, ramo, ramalhete (é), festão de flores.
Cacho de uvas, de bananas.
Cancioneiro de canções. É erro empregar o vocábulo como sinônimo de
cantor em
enfessões como cancioneiros rom nticos.
Carrada de razões.
Chuva, chuveiro, granizo, saraiva, saraivada de balas, de pedras, de
setas.
Coleção de selos, de quadros, de medalhas, de moedas, de livros.
Constelação de estrelas.
Cordilheira, cadeia, série de montes, de montanhas.
Cordoalha, cordame, enxárcia de cabos de um navio.
Feixe, lia, molho (6) de lenha, de capim.
Fila, fileira, linha de cadeiras.
Flora, conjunto de plantas de uma determinada região.
Galeria de quadros, de estátuas.
Gavela ou gabela, paveia, feixe de espigas.
Herbdrio, coleção de plantas para exposição ou estudo.
Hinário de hinos.
Instrumental de instrumentos de orquestra, de qualquer ofício mecânico,
74
de
cirurgia.
Mobília, mobiliário de móveis.
Monte, montão de pedras, de palha, de lixo.
Penca de bananas, de laranjas, de chaves.
Pilha, ruma de livros, de malas, de tábuas.
Réstia de cebolas, de alhos.
Seqüência, série de cartas do mesmo naipe.
Troféu de bandeiras.
OBs. Para outros coletivos consulte-se o dicionário.
Formação do plural dos substantivos
Em português há dois números gramaticais: singular e plural. O singular
indica o objeto ou coleção em si; o plural denota-os indicando mais
de um.
a) Formação do plural com acréscimo de s.
Forma-se o plural acrescentando-se s aos nomes terminados por-
1 - vogal ou ditongo oral: livro, livros; lei, leis,, caid, cajás;
2 - ditongos nasais ãe e ão (átono): mãe, mães; bênção, bênçãos;
3 - vogal nasal i: ímã, ímãs, irmã, irmãs;
4 - m (grafando-se ns): dom, dons.
OBSERVAÇÃO: Totem, também grafado tóteme, tem os plurais totens e tótemes
(cf. pág. 46).
76
#
b) Formação do plural com acréscimo de es.
Acrescenta-se es para formar o plural dos nomes terminados por:
1 - s (em sílaba tônica): ás, ases; freguês, fregueses.
Cós serve para os dois números e ainda possui o plural coses.
2 - z (em sílaba tônica): luz, luzes; giz, gizes.
3 - r: cor, cores; elixir, elixires; revólver, revólveres.
c) Plural dos nomes terminados em n.
Acrescenta-se e ou es. Melhor fora dar-lhes uma feição mais de acordo
com a nossa língua. Damos uma pequena lista, pondo entre parênteses
a forma que deve substituir a irregular terminada em -n :
abdômen (abdome): abdomens ou abdômenes.
certâmen (certame): certamens ou certâmenes.
dólmen (dolmem): dolmens ou dálmenes.
espécimen (espécime): espécimens ou especímenes.
germen (germe): germens ou gérmenes.
hífen (hifem): hífens ou hífenes.
pólen (polem): polens ou pólenes.
75
regimen (regime): regimens ou regímenes.
Cdnon, melhor grafado, cdnone, faz c~nes.
éden (melhor seria, edem, mas não registrada no PVOLP) passa a edens.
NoTA.Recorde-se que apenas são acentuados os paroxítonos terminados em
-n e
não os em -ns. Daí: hífen mas hífens (sem acento agudo).
d) Plural dos nomes terminados em ão.
Repartem-se estes nomes por três formas de plurais:
1) ões (a maioria deles):
coração, corações; questão, questões; melão, melões; razão, razões.
2) ães:
cio, cães; capelão, capelães; alemão, alemães; capitão, capitães;
escrivão, escrivães; tabelião,
tabeliães; pão, pães; maçapão, maçapães; mata-cão, mata-cães; catalão,
catalães.
3) ãos:
chão, chãos; cidadão, cidadãos; cristão, cristãos; desvão, desváos; grão,
grãos; irmão,
irmãos; mão, mãos; pagão, pagãos e os paroxítonos apontados em a) 2.
77
#
Muitos nomes apresentam dois e até três plurais:
aldeão aldeãos aldeões aldeâes
ancião anciâos auciões . anciães
charlatão charlatÁles charlatães
corrimão corrimãos corrimões
cortesão cortesãos cortesões
deão deâos deões deâes
ermitáo ermitâos ermitões ermitães
furo fulos fuões
guardilo guardiões guardiães
refrão refrãos refrães
sacristão sacristãos sacristães
truão truões truács
vilão vilãos vilões viláes
vulcão vulcãos vulcões
e) Plural dos nomes terminados em ai, ol, ul.
Trocam o 1 por is :
carnaval, carnavais; lençol, lençóis; álcool, álcoois; paul, pauis
(a-ú).
76
Notem-se os casos particulares:
1 - cônsul e mal fazem cônsules e males.
2 - cal e aval fazem cales (=cano) e cais, avales (mais comum em Portugal),
avais.
3 - real ( = moeda) faz réis.
Plural dos nomes terminados em il.
Os terminados em 41 átono fazem o plural trocando iI por -eis:
Fóssil, fósseis.
Se o 41 for tônico, trocam o 1 por s:
funil, funis.
Réptil e projétil, como paroxítonos, fazem répteis e projéteis; como
oxítonos, reptil e
projetil fazem reptis e projetis.
g) Plural dos nomes terminados em el.
tônico:
Fazem o plural em -eis se o final do singular for átono e -éis se for ~
nível, níveis, móvel, móveis.
papel, papéis; coronel, coronéis.
Mel faz meles ou méis; fel faz feles ou féis.
h) Plural dos nomes terminados em x (= ce)
Os terminados em -x com o valor do ce (final com que podem tam.
Um ser grafados) fazem o plural em -ces:
cdlix (ou cólice), Álices; apêndix (ou apêndice), apêndices.
78
#
Palavras que não variam no plural., - Não variam no plural os nomes
terminados em: a) s (em sílaba átona; palavras sigmáticas): o pires, os
pires; o lápis, os lápis.
Simples faz símpleces ou, o que é mais comum, não varia. Cais e xis
são invariáveis, o cais, os cais; o xis, os xis;
b) x (com o valor de cs): o tórax, os tórax; o ônix, os ônix.
OBUIRVAÇõEs: Alguns vocábulos com x = c$ possuem a variante em -ce: índex
ou
índice; ápex ou ápice; códex ou códice. Seus plurais elo respectivamente
índices, códices,
dpices. Aliás, elo preferíveis as grafias índice, dpice e códice, no
singular.
77
Plurais com alteração de o fechado para o aberto (metafonia). -
Muitas palavras com o fechado tônico, quando passam ao plural, mudam
esta vogal para o aberto:
miolo - miolos.
Dentre as que apresentam
esta mudança (chamada
vogal tônica lembraremos aqui as mais usuais:
abrolho
antolho
caroço
choco
corcovo
coro
corpo
corvo
despojo
destroço
escolho
esforço
fogo
forno
foro
fosso
imposto
jogo
Miolo
mirolho
olho
osso
ovo
POÇO
Continuam com o fechado no plural
porco
porto
posto
povo
reforço
rogo
sobrolho
socorro
tijolo
torto
troco
troço
acordo esboço logro
adorno esposo morro
#
78
almoço estorvo repolho
alvoroço ferrolho rolo
arroto fofo sogro
bota forro soldo
bojo gafanhoto sopro
bolo globo soro
bolso gorro toco
cachorro gosto toldo
caolho gOzo topo
coco horto torno
contorno jorro transtorno
metafonia) na
Não sofrem alteração os nomes próprios e os de família: os Diogos,
os Mimosos, os Raposos, os Portos.
79
#
Plurais com deslocação do acento tônico. - Há palavras que, no
plural, mudam de sílaba tônica:
caráter
espécimen
júnior
júpiter
Lúcifer
sênior
caracteres
especímenes
juniores
jupíteres
Lucíferes
seniores
O plural sorores é de soror, oxítono, que se estende a sóror.
Alterações de sentido entre o singular e o plural. - Normalmente,
o plural guarda o mesmo sentido do singular. Isto não acontece, porém,
em algumas palavras:
bem (o que é bom) bens (propriedades)
féria (produto do trabalho diário) férias (dias de descanso)
"Onde não se preza a honra se desprezam as honras" (MARQUÊS DE MARICÁ).
Estão nestes casos os nomes que no plural indicam o casal: os pais
(pai e mãe), os irmãos (irmão e irmã), os reis (rei e rainha).
79
Palavras só usadas no plural. - Eis as principais:
afazeres
alvísSaras
anais
arredores
avós (antepassados)
belas-artes, belas-letras
confins
endoenças
exéquias
férias
núpcias
trevas
víveres
nomes de naipes: copas,
ouros, espadas, paus
Plural dos nomes de letras. - Os nomes de letras vão normalmente
ao plural, de acordo com as normas gerais.
Escreve com todos os efes e erres
Coloquemos os pingos nos is
N.B. Xis serve para singular e plural. Podemos ainda indicar o plural
das letras
com a sua duplicação: ff, rr, ii.
Este processo ocorre em muitas abreviaturas:
E.E.U.U. (Estados Unidos, também representado por EUA, Estados Unidos
da
América, ainda U.S.A.).
Plural dos nomes terminados em -zinho. - Põem-se no plural os
dois elementos e suPrime-se o s do substantivo:
#
80
#
animalzinho = animal + zinho
animaizinhos
coraçUzinho = coraçjo + zinho
coraçoezinhos
florzinha = flor + zinha
80
florezinhas
Plural das palavras substantivadas. - Qualquer palavra pode substantivar-
se, isto é, passar a substantivo:
o sim, o não, o quê, o pró, o contra
Tais palavras vão normalmente ao plural:
os sins, os nios, os quês, os prós, os contras.
Enqua ram-se neste caso os nomes que exprimem número:
Na sua caderneta há três setes e dois oitos.
Fazem exceção os terminados em -s (dois, três, seis), -z (dez) e mil,
que são invariáveis.
Quatro seis e cinco dez.
Plural dos nomes compostos. - Merece especial atenção o plural dos
nomes compostos, uma vez que as dúvidas e vacilações são freqüentes.
Sem pretendermos esgotar o assunto, apresentamos os seguintes critérios:
A - SOMENTE O úLTIMO ELEMENTO VARIA:
a) nos compostos grafados ligadamente:
fidalgo - fidalgos
girassol -girassóis
madressilva - madressilvas
pontapé - pontapés
b) nos compostos com as formas adjetivas grão, grã e bel:
grão-prior - grào-priores
gra-cruz - grá-cruzes
bel-prazer - bel-prazeres,
c)nos compostos formados de verbo ou palavra invariável seguida
de substantivo ou adjetivo:
furta-cor -furta-cores
beija-flor -beija-flores
abaixo-assinado - abaixo-assinados
alto-falante - alto-falantes
vice-rei - vice-reis
ex-diretor -ex-diretores
ave-maria - ave-marias
81
#
d)nos compostos de três ou mais elementos, não sendo o 2.0 elemento
uma preposição:
bem-te-vi - bem-te-vis
e) nos compostos cujos elementos denotam
81
sons de coisas:
reco-reco - reco-recos
tique-taque -tique-taques
B - SOMENTE O PRIMEIRO ELEMENTO VARIA:
a) nos compostos onde haja preposição,
clara ou oculta:
pé-de-moIeque - pés-de-moleque
ferro-de-abrir-lata - ferros-de-abrir-lata
mula-sem-cabeça - muIas-sem-cabeça
cavalos-vapor (=de, a vapor) - cavalos-vapor
b)nos compostos de dois substantivos, onde o segundo exprime a
idéia de fim, semelhança:
navio-escola - navios-escola (= para escola)
salário-família - salários-familia
manga-rosa - mangas-rosa (= semelhante
a rosa)
peixe-boi - peíxes-boi
C - AMBOS OS ELEMENTOS VARIAM:
Nos compostos de dois substantivos, de um substantivo e um adjetivo
ou de um adjetivo e um substantivo:
carta-bilhete
guarda-civil
guarda-mor
amor-perfeito
cabra-cega
gentil-homem
segunda-feira
D - FicAm INVARIAVEIS:
a) as frases substantivas:
cartas-bilhetes
guardas-civis
guardas-mores
amores-perfeitos
cabras-cegas
gentio-homens
segundas-feiras
* estou-fraca (ave) - as estou-fraca
* náo-sei-que-diga - os nâo-sei-que-diga
* disse-me-disse - os disse-me-disse
* bumba-meu-boi - os bumba-meu-boi
b) nos compostos de verboe palavra invariável:
os ganha-pouco
os pisa-mansinho
os cola-tudo
82
• paha-pouco
• pisa-mansinho
• cola-tudo
82
#
c) nos compostos de verbos de sentido oposto:
• leva-e-traz - os leva-e-traz
• vai-volta - os vai-volta
E - ADMITEM MAIS DE UM PLURAL:
fruta-pjo: frutas-plo, fruta-pies
guarda-marinha: guardas-marinha ou guardas-marinhas(l)
padre-nosso: padres-nossos ou padre-nossos
ruge-ruge: ruges-ruges ou ruge-ruges
salvo-conduto: salvos-condutos ou salvo-condutos
Gênero do substantivo. - A nossa língua conhece dois géneros: o
masculino e o feminino.
São masculinos os nomes a que se pode antepor a palavra o:
o linho, o sol, o raio, o prazer, o filho, o beijo
São femininos os nomes a que se pode antepor
a palavra a:
a flor, a casa, a mosca, a nuvem, a mãe
Formação do feminino
Podemos distinguir, na indicação do sexo feminino, os seguintes
processos:
a) com a mudança ou acréscimo na terminação:
1 - os terminados em -o mudam o -o em -a:
filho filha
aluno aluna
menino -menina
gato - gata
2 - os em -ão mudam a terminação, uns em 4, outros em -oa e outros
em -ona (se denotam seres aumentados):
anão - anã
cidadão - cidadã
irmão - irmã
ermitio - ermitoa
hortelão - horteloa
leão - leoa
83
chorão - chorona
pedinchão - pedinchona
valentão - valentona
3 - os em -or formam geralmente o feminino com acréscimo de a
doutor - doutora
professor - professora
OBSERVAÇÃO: Outros, terminados em -eira: arrumadeira, lavadeira,
faladeira (a par
de faladora).
(1) Rejeita-ac, sem razão, o plural guarda-marinhas.
83
#
variam:
Variam:
4 - os em -e uns ficam invariáveis, outros mudam o -e em -a, Não
amante, cliente, constituinte, doente, habitante,
inocente, ouvinte, servente, etc.*
alfaiate - alfaiata
infante - infanta (também aparece invariável)
governante - gover
i
presidente - presid, =a também aparece invariável
parente - parenta
monge - monja
5 - os em -és., -1, -z acrescentam a :
freguês - freguesa
português - portuguesa
juiz - juiza
6 - indicam o sexo feminino
-essa, -isa :
abade - abadessa
alcaide - alcaidessa (ou alcaidina)
barão - baronesa
bispo - episcopisa
conde - condessa
cônego canonisa
cônsul consulesa
diácuno - diaconisa
doge - dogesa, dogaresa, dogaressa
druida - druidesa, druidisa (em
84
O. Bilac)
zagal - zagala
oficial - oficiala
vocábulos derivados por meio de -esa,
duque - duquesa
etíope - etiopisa
jogral - jogralesa
papa papisa.
píton. pitonisa
poeta - poetisa
príncipe - princesa
prior - priora, prioresa
profeta - profetisa
sacerdote - sacerdotisa
visconde - viscondessa
7 - não se enquadram nos casos precedentes:
ateu - atéia
ator - atriz
avô - avó
capiau - capioa
condestável. - condestabeleza
confrade - confreira
czar /pron. tçar/ - czarina(l)
dom - dona
egeu - egéia
#
embaixador - embaixatriz
europeu - européia
felá - felaína
filisteu - filistéiafrade
- freira
galo - galinha
(1) Também grafado: txar - uarina.
giganteu - gigantéia
grou. - grua
guri - guria
ilhéu - ilhoa
imperador - imperatriz
judeu - judia
landgrave - landgravina
marajá - marani
mandarini - mandarina
maestro - maestrina
peru - perua
pierr6 - pierrete
85
pigmeu - pigméia
raja ou rajá - râni ou rani
rapaz - rapariga
84
#
I
rei rainha
réu ré
sandeu - sandia
silfo - sílfide
sultão - sultana
tabaréu, - tabaroa,
herói - heroína
b) com palavras diferentes para um e outro sexo (heterônimos):
1 - Nomes de pessoas:
cavaleiro - amazona
cavalheiro - dama
compadre - comadre
frei - sóror, soror, sor
genro - nora
homem - mulher
marido - mulher
2 - Nomes de animais:
bode -cabra
boi - vaca
burro - besta
cão - cadela
c) feminino com auxílio de outra palavra
padrasto - madrasta
padre - madre
padrinho - madrinha
pai - mãe
patriarca - matriarca
rico-homem - rica-dona
carneiro - ovelha
cavalo égua
veado veada, cerva (é)
zangão, zárigão - abelha
Há substantivos que têm uma só forma para os dois sexos:
86
estudante, consorte, mártir
São por isso chamados comuns de (ou a) dois. Tais substantivos
distinguem o sexo pela anteposição de o (para o masculino) e a (para o
feminino):
• estudante - a estudante
• camarada - a camarada
• mártir - a mártir
de dois:
Os nomes terminados em -ista e muitos terminados em -e são comuns
o capitalista - a capitalista; o doente - a doente.
Também nomes próprios terminados em -i (antigamente ainda -Y) são
comuns tanto a homens como a mulheres:
Darci, Juraci
#
Enquadram-se neste grupo os nomes de animais para cuja (fi-tinção
de sexo empregamos as palavras macho e fêmea:
cobra macho; jacaré fêmea
85
#
Podemos ainda servir-nos de outro torneio:
o macho da cobra; a fêmea do jacaré.
Estes nomes de animais se chamam epicenos.
d) sobrecomuns
São nomes de um só gênero gramatical que se aplicam, indistintamente,
a homens e mulheres:
o algoz, o carrasco, o cônjuge, a criatura, o ente, a pessoa,
o ser, a testemunha, o verdugo, a vítima.
Gênero estabelecido por palavra oculta. - São masculinos os nomes
de rios, mares, montes, ventos, lagos, pontos cardeais, meses, por subentendermos
estas denominações:
O (rio) Amazonas, o (oceano) Atidntico, o (vento) bóreas, o (lago) Lddoga,
o
(mês) abril.
87
Por isso são normalmente femininos os nomes de cidades, ilhas:
A bela (cidade) Petrópolis. A movimentada (ilha) Governador.
Nas denomina" de navios depende do termo subentendido: o
(transafláritico)
Argentina, a (corveta) Belmonte, etc.
Notem-se os seguintes géneros:
o (vinho) champanha (e não a champanha!), o (vinho) madeira, o (charuto)
havana, o (café) moca, o (gato) angord, o (cão) terra-nova.
Mudança de sentido na mudança de gênero. - Há substantivos que
são masculinos ou femininos, conforme o sentido com que se achem
empregados:
• cabeça (parte do corpo) o cabeça (o chefe)
• capital (cidade principal) o capital (dinheiro, bens)
• língua (órgão muscular; idioma) - o língua • lotaçdo (capacidade de um
carro, navio, sala, etc.) - o lotação (forma abreviada
de aut• moral (parte da filosofia; moral de um fato;
conclusão) - O Moral (conjunto de
nossas faculdades morais; ánimo)
• rádio (a estação) - o rádio (o aparelho)
• voga (moda; popularidade) - o voga (o remador)
Gêneros que podem oferecer dúvida:
a) São masculinos:
Os nomes de letra de alfabeto, clã, champanha, dó, eclipse, formicida,
grama (unidade
de peso), jãngal, jângala, lança-perfume, milhar, pijama, proclama,
saca-rolhas,
sanduíche, sósia, telefonema, soma (o organismo tomado como expressão
material--- em
oposição às funçôes psíquicas).
86
#
11 b) São femininos:
Aguardente, análise, fama, cal, cataplasma, cólera, cólera-morbo, coma
(cabeleira
e vírgula), dinamite, elipse, faringe, fruta-pâo, gesta (= façanha),
libido, polé, preá,
síndrome, tíbia, variante e os nomes terminados em -gem (exceção e
personagem que
pode ser masc. ou feminino).
c) São indiferentemente masculinos ou femininos:
Ágape, avestruz, caudal, crisma, diabete, gambá, hélice, íris, juriti,
igarité, lama ou
lhama, laringe, ordenança, personagem, renque, sabiá, sentinela, soprano,
suástica, tapa,
88
trama (intriga), víspora.
Masculinos com mais de um feminino. - Além dos já apontados no
decorrer da lição, lembraremos ainda os mais usuais:
1 aldeão - aldeã, aldeoa
deus deusa, déia (poét.)
diabo diaba, diabra, diáboa
elefante - elefanta, elefoa, aliá
javali javalina, gíronda
ladrão ladra, ladrona, ladroa
melro méiroa, melra
motor motora, motriz (adj.)
pardal pardoca, pardaloca. pardaleja
parvo párvoa, parva
polonês - polonesa, polaca
varão - varoa, virago, matrona
vilão - vilã, viloa
OBSERVAÇÃO: As oraçôes e os vocábulos tomados materialmente são
considerados
como do número singular e do género masculino-. É bom que estudes; o sim;
o não.
Grau do substantivo. - Os substantivos apresentam-se com a sua
significação aumentada ou diminuída:
homem - homenzarrão - homenzinho
A M3 estabelece dois graus de significação do substantivo:
a) aumentatívo: homenzarrão
b) diminutivo(l): homenzinho
A indicação gradual do substantivo se realiza por dois processos:
a)sintético - consiste no acréscimo de um final especial chamado sufixo
aumentativo ou diminutivo: homenzarrão, homenzinho;
b)analítico - consiste no emprego de uma palavra de aumento ou diminuição
(grande, enorme, pequeno, etc.) junto ao substantivo: homem
grande, homem pequeno.
Aumentativos e diminutivos afetivos. - Fora da idéia de tamanho,
as formas aumentatívas e diminutivas podem traduzir o nosso desprezo,
a nossa critica, o nosso pouco caso para certos objetos e pessoas:
poetastro,-p.oliticalho, livreco, padreco, coisinha
) Evite-se cuidadosamente o erro diminuitivo (com i).
87
#
89
Dizemos então que os substantivos estão em sentido pejorativo.
A idéia de pequenez se associa facilmente à de carinho que transparece
nas formas diminutivas:
paizinho, mãezinha, queridinha.
2 - ADJETIVO
Adjetivo é a expressão modificadora que denota qualidade, condição
ou estado de um ser:
"Oceano terrível, mar imenso
De vagas procelosas que se enrolam
Floridas rebentando em branca espuma
Num pólo e noutro pólo" (G. DIAS).
Locução adjetiva - é a expressão formada de preposição + substantivo
com valor de um adjetivo:
Homem de coragem = homem corajoso
Livro sem capa = livro desencapado
"Era uma noite medonha,
Sem estrelas, sem luar" (G. DIAS).
Homem de cor
Note-se que nem sempre encontramos um adjetivo de sentido perfeitamente
idêntico ao de locução adjetiva:
Colega de turma.
Adjetivo explicativo e restritivo (1). - O adjetivo pode ser explicativo
ou restritivo.
EXPLICATIVO é o que designa uma qualidade, condição ou estado essencial
ao ser:
Homem mortal - Água mole - Gelo frio
RESTRITIVO o que designa qualidade, condição ou estado acidental ao ser:
Homem bom - Água morna - Gelo pequeno
Substantivação do adjetivo. - Certos adjetivos são empregados sem
qualquer referência a nomes expressos como verdadeiros adjetivos. A esta
passagem de adjetivos a substantivos chama-se substantivação:
"A vida é combate
que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos,
Só pode exaltar" (G. DIAS).
(1) A NGB não divide os adjetivos em explicativos e restritivos,
fizemo-lo aqui porque
esta distinção é necessária para casos de pontuação, de sintaxe e de
estilística (cf. págo. 228-229).
88
#
90
Flexões do adjetivo. - Como o substantivo, o adjetivo pode variar
em número, gênero e grau.
Número do adjetivo. - O adjetivo acompanha o número do substantivo
a que se refere:
aluno estudioso, alunos estudiosos.
O adjetivo portanto, conhece os dois números que vimos no substantivo:
o singular e o plural.
, Formação do plural dos adjetivos
Aos adjetivos se aplicam as mesmas regras de plural dos substantivos.
Quanto aos adjetivos compostos, lembraremos que normalmente só o
último varia:
amizades luso- b rasileiras, reuniões lítero-musicais.
Variam ambos os elementos, entre outros exemplos, surdo-mudo,
verde-claro, verde-escuro, verde-gaio: surdos-mudos, verdes-claros,
verdesescuros,
verdes-gaios.
Gênero do adjetivo. - O adjetivo concorda também em gênero com
o substantivo a que se refere. Conhece, assim, os gêneros comuns, ao substantivo:
masculino e feminino.
Formação do feminino dos adjetivos. - Os adjetivos uniformes são
s que apresentam uma só forma para acompanhar substantivos masculinos
femininos. Geralmente
e -z:
povo lusíada
breve exame
trabalho útil
objeto ruim
estabelecimento
homem audaz
conto simples
estes uniformes terminam em -a, -e, -1, -m, -r,
- nação lusiada
- breve prova
- ação útil
- coisa ruim
modelar - escola modelar
- mulher audaz
- história simples
Exceções principais: andaluz, andaluza; bom, boa; chim, china; espanhol,
91
espanhola.
Quanto aos biformes, isto é, que têm uma forma para o masculino e
tra para o feminino, os adjetivos seguem de perto as mesmas regras que
ntamos para os substantivos. Lembraremos aqui apenas os casos
ncipais:
89
#
a) Os terminados em -és -or, e -u acrescentam no feminino um a, na
maioria das vezes.
chinês, chinesa; lutador, lutadora; cru, crua.
Exceções: 1) cortês, descortês, montés e pedrês são invariáveis; 2)
incolor, multicor,
sensabor, melhor, menor, pior e outros são invariáveis. Outros em -dor
ou -tor apresentam-
se em -triz: motor, motriz (a par de motora, conforme vimos nos
substantivos);
outros terminam em -eira: trabalhador, trabalhadeira (a par de
trabalhadora). Superiora
(de convento) usa-se como substantivo. 3) hindu é invariável; mau
fab) Os terminados em -eu passam, no feminino, a -dia:
europeu, européia; ateu, atéia.
Exceções: judeu, judia; sandeu, sandia
tabaréu faz tabaroa; réu faz ré.
c) Alguns adjetivos também, no feminino, mudam a vogal tônica fechada
o para aberta:
laborioso, laboriosa; disposto, disposta.
Grau do a efivo. - Há três graus na qualidade expressa pelo
adjetivo: positivo, comparativo e superlativo* PosiTivo enuncia
simplesmente a qualidade:
O rapaz é cuidadoso.
* comPARATivo compara qualidade entre dois ou mais seres estabelecendo:
a) uma igualdade:
b) uma superioridade:
c) uma inferioridade:
o rapaz é tão cuidadoso quanto (ou como) os outros.
à rapaz é mais cuidadoso que (ou do que) os outros.
o rapaz é menos cuidoso que (ou do que) os outros.
O SUPERLATIvO pode:
92
a) ressaltar, com vantagem ou desvantagem, a qualidade do ser em rela.
ção a outros seres:
Q rapaz d o mais cuidadoso dos (ou dentre
os) pretendentes ao emprego.
o rapaz d o menos cuidadoso dos pretendentes.
b) indicar que a qualidade do ser ultrapassa a noção comum que temos
dessa mesma qualidade:
O rapaz é muito cuidadoso.
O rapaz é cuidadosíssimo.
90
#
No primeiro caso, a qualidade é ressaltada em relação ou comparação
com os outros pretendentes. Diz-se que o superlativo é relativo.
Forma-se o superlativo relativo com a intercalação do adjetivo nas
fórmulas o mais ... de (ou dentre), o menos ... de (ou dentre).
No segundo caso, a superioridade é ressaltada sem nenhuma relacão
com outros seres. Diz-se que o superlativo é absoluto ou intensivo
O superlativo absoluto pode ser analitico ou sintético.
Forma-se o analítico com a anteposição de palavra intensiva (muito,
extremamente, extraordinariamente, etc.) ao adjetivo: muito cuidadoso.
O sintético é obtido por meio do sufixo -issimo (ou outro de valor
intensivo) acrescido ao adjetivo no grau positivo: cuidadosíssimo.
Quanto ao sentido, cuidadosíssimo diz mais, é mais enfdtico do que
muito cuidadoso. Na linguagem coloquial, se desejamos que o superlativo
absoluto analítico seja mais enfático, costumamos repetir a palavra inten-
O meio termo entre estes dois superlativos (muito cuidadoso - cuidadosíssimo)
é obtido com a fórmula mais do que cuidadoso:
"Estas e outras argüições, complicadas com os procedimentos mais do que
dspero
da expulsão do coleitor Castracani em 1639, não concorreram pouco para
alienar de
todo o ânimo das populações_" (R. DA SiLvA, Hist. Port, IV, 75-6).
Alterações gráficas no superlativo absoluto. - Ao receber o sufixo
intensivo, o adjetivo no grau positivo pode sofrer certas modificações
cuidadosacuidadosissima
elegante - elegantíssimo
cuidadoso - cuidadosissim
b) os terminados em -vel mudam este final para -bil:
93
c) os terminados em -m e -jo passam respectivamente a -n e a?
A ra estes casos, outros há onde os superlativos se prendem às form
#
acre - acérrimo
amargo amaríssimo
amigo amicíssimo
antigo antiqüíssimo
áspero aspérrimo
benéfico - beneficentíssimo
benévolo - benevolentíssimo
célebre - celebérrimo
célere - celérrimo
cristão - cristianíssimo
cruel - crudelíssimo
difícil dificílimo
doce dulcíssimo
fiel fidelíssimo
frio frigidíssimo
geral generalíssimo
honorífico - honorificentíssimo
humilde humílimo
incrível incredibilíssimo
inimigo inimicíssimo
íntegro integérrimo
livre - libérrimo
magnífico - magnificentíssimo,
magro - macérrimo
malédico - maledicentíssimo
maléfico maleficentissimo,
malévolo malevolentíssimo
mísero - misérrimo
miúdo minutíssimo
negro nigérrimo
nobre - nobilíssimo
parco - parcíssimo,
pessoal - personalíssimo
pobre - paupérrimo
pródigo prodigalíssimo
provável probabilíssimo
público publicíssimo
sábio - sapientíssimo
sagrado sacratíssimo
salubre salubérrimo
são - saníssimo
simples - simplicíssimo
soberbo - superbíssimo
tenaz tenacíssimo
tétrico tetérrimo
94
Ao lado do superlativo à base do termo latino, pode circular o que
procede do adjetivo no grau positivo acrescido da terminação -íssimo:
agílimo - agilíssimo
antiqüíssimo antiguíssimo
crudelíssimo cruelíssimo
dulcissimo - docissimo
facílimo - facilíssimo
humílimohumildíssimo
Inacérrimo magríssimo
nigérrimonegríssimo
paupérrimo - pobríssimo
OBs.: Chamamos a atenção para as palavras terminadas em -io não precedido
de
e que, na forma sintética, apresentam dois is
sério - seriíssimo
precdrio - precariíssimo
#
frio - friíssimo
necessário - necessariÍssimo
Tendem a fixar-se as formas populares seríssinio (coisa seríssinza),
necessaríssimo e semelhantes, com Um i apenas
Comparativos e superlativos irregulares. - Afastam-se dos demais na ~
sua formação de comparativo e superlativo os adjetivos seguintes:
Positivo Comparativo de Superlativo
superioridade absoluto relativo
bom melhorótimo o melhor
mau piorpéssimo o pior
grande maiormáximo o maior
pequeno menormínimo o menor
(*) "A falsa noticia do falecimento de Gonçalves Dias teve a boa
conseqüència de mover
o Governo a aliviar-lhe à situaçáo material, que era prerarissima- (M.
BANDEIRA, Poesia e
Prosa, ed. Aguilar, 11, 778).
92
a
c
V:
95
Q
tig
a(
#
Não se diz mais bom nem mais grande em vez de melhor e maior
mas podem ocorrer mais pequeno, o mais pequeno, mais mau, por meno1~.
o menor, pior.
Ao lado dos superlativos o maior, o menor, figuram ainda o máximo
e o mínimo que se aplicam a idéias abstratas e aparecem ainda em expressões
científicas, como a temperatura máxima, a temperatura mínima, máximo
divisor comum, mínimo múltiplo comum, nota máxima, nota
mi níma.
Em lugar de mais alto e mais baixo usam-se os comparativos superior
e inferior; por o mais alto e o mais baixo, podemos empregar os superlativos
o supremo ou o sumo, e o ínfimo.
Comparando-se duas qualidades, ou ações, empregam-se mais bom,
inais mau, mais grande e mais pequeno em vez de melhor, pior, maior,
menor:
É mais bom do que mau (e não: é melhor do que mau)
A escola é mais grande do que pequena
Escreveu mais bem do que mal
Ele é mais bom do que inteligente.
Por fim, assinalemos que depois dos comparativos em -or (superior,
inferior, anterior, posterior, ulterior) se usa a preposição a
Superior A ti, inferior AO livro, anterior A nós
Repetição de adjetivo com valor superlativo. - Na linguagem coloquial
pode-se empregar, em vez do superlativo, a repetição do mesmo
adjetivo:
O dia está belo belo (= belíssimo)
Ela era linda linda (= lindíssima).
Proferindo-se estas orações, dá-se-lhes um tom de voz especial para
melhor traduzir a idéia superlativa expressa pela repetição do adjetivo.
Geralmente consiste na pausa demorada na vogal da sílaba tônica.
Comparações em lugar do superlativo. - Para expressarmos mais
vivamente o elevado grau de uma qualidade do ser, empregamos ainda
comparações que melhor traduzem a idéia superlativa:
Pobre como já (= paupérrimo), feio como a necessidade (feiíssimo), claro
como
água, escuro como breu, esperto como ele só, malandro como ninguém.
Usam-se ainda certas expressões não comparativas: podre de rico,
feio a mais não poder, grande a valer.
Adjetivos diminutivos. - As formas diminutivas de adjetivos podem
96
adquirir valor de superlativo:
Blusa amarelinha, garoto bonitinho; "É bem feiozinho, benza-o Deus, o
tal teu
amigo 1" (A. DF. AzFwDo).
93
I
#
3 - ARTIGO
Artigo é a palavra que se antepõe aos substantivos que designam
seres determinados (o, a, os,, as) ou indeterminados (um, uma, uns, umas).
Daí a divisão dos artigos em definidos (que são o, a, os, as) e indefinidos
(um, uma, uns, umas):
quero o livro.
Quero um livro.
No primeiro caso, o substantivo designa um livro determinado e
conhecido, inconfundível para a pessoa que fala ou escreve.
No segundo, o substantivo designa um livro qualquer dentre outros,
Precedido, de artigo definido pode também o substantivo exprimir a
espécie inteira:
o homem é mortal.
Não se trata aqui de um homem determinado, mas, sim, uma referência
ao ser humano em geral.
Nem sempre se evidencia a oposição entre o, a, os, as e um, uma, uns,
umas, porque os artigos aparecem em construções dos mais variados
valores.
4 - PRONOME
Pronome é a expressão que designa os seres sem dar-lhes nome nem
qualidade, indicando-os apenas como pessoa do discurso.
Pessoas do Ocurso. - Três são as pessoas do discurso: a que fala
(1.a pessoa), a ~~m que se fala (2.a pessoa) e a pessoa ou coisa de que
se
fala (3.a pessoa).
Classificação dos pronomes. - Os pronomes podem ser: pessoais, ',
i
possessivos, demonstrativos (abarcando o artigo definido), indefinidos
(abarcando o artigo indefinido), interrogativos e relativos.
PRONOME SUBSTANTIVO, e PRONOME, ADJETIVO. - O pronome pode aparecer
em referência a substantivo claro ou oculto:
Meu livro é melhor que o teu.
Meu e teu são pronomes porque dão idéia de posse em relação à pessoa
97
do discurso: meu (1.a pessoa, a que fala), teu (2.a pessoa, a com que se
fala). Ambos os pronomes estão em referência ao substantivo livro que
vem expresso no início, mas se cala no fim por estar perfeitamente claro
ao falante e ouvinte. Esta referência a substantivo caracteriza a
função,,,
94
#
adjetiva de certos pronomes. Muitas vezes, sem que tenha vindo expresso
anteriormente, dispensa-se o substantivo, como em: Dar o seu a seu dono
(onde ambos os pronomes possessivos são adjetivos).
já em: Isto é melhor que aquilo, os pronomes isto e aquilo não se
referem a nenhum substantivo, mas fazem as vezes dele. São, por isso,
, pronomes substantivos.
1
Há pronomes que são apenas substantivos ou adjetivos, enquanto
i~ outros podem aparecer nas duas funções.
Pronomes pessoais. - Os pronomes pessoais designam as três pessoas
~ do discurso:
1.a pessoa: eu (singular), nós (plural),
2.a pessoa: tu (singular), vós (plural) e
3.a pessoa: ele, ela (singular), eles, elas (plural).
O plural nós indica eu mais outra ou outras pessoas, e não eu + eu.
As formas eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles, elas, que funcionam como
,; sujeito, se dizem retas. A cada um destes pronomes pessoais retos,
corres-
,, ponde um pronome pessoal oblíquo que funciona como complemento e
11 pode apresentar-se em forma átona ou forma tônica. Ao contrário das
, formas átonas, as tõnicas vêm sempre presas a preposição:
PRONOMES PESSOAIS ~3 PRONOMES PESSOAIS OBLfQUOS
átonos (sem prepos.)tônicos (c/prep.)
Singular: 1.a pessoa: eu me mim
2.a pessoa : tu te ti
k 3.a pessoa: ele, ela lhe, o, a, se ele, ela, si
Plural : 1.a pessoa: nós nos nós
2.a pessoa: vós vos vós
eles, OW, si
3.a pessoa: eles, elas lhes, os, as, se
Exemplos de pronomes oblíquos átonos:
~*Queixamo-nos da fortuna (destino) para desculpar a nossa preguiça?'
(Marquês de-
MAJUCÁ).
`A melhor companhia acha-se em uma escolhida livraria" (IDEM).
!Ixemplos de pronomes oblíquos tônicos:
98
_*Os nossos maiores inimigos existem dentro de nós mesmos: são os nonos ,
vícios
paixbu" (IDEM).
.ÀA& virtudes se harmonizam, os vícios discordam entre si" (wEm).
Se a preposição é com, dizemos comigo, contigo, consigo, conosco,
e não: com mi, com ti, etc. Empregam-se, entretanto, com nós
com vós quando estes pronomes tônicos vêm seguidos de mesmos, pró-
~,rios, todos, outros ou oraçao adjetiva.
95
#
PRONOME -OBLíQUO REFLEXIVO. - É o pronome oblíquo da mesma pessoa
do pronome reto, significando a i esmo a ti mesmo etc.:
PRONOME OBLíQUO RECíPROCO. - É representado pelos pronomes nos
vos, se quando traduzem a idéia de u ao outro recibrocamente
PRONOME DE TRATAMENTO - Existem ainda formas de tratamento
indireto de 2.a pessoa que levam o verbo para a 3.a pessoa. São os cha
A estes I)ronomes de tratamento r)ertencem as formas de reverência
que consistem em nos dirigirmos às pessoas pelos seus atributos ou quali-
Vossa Alteza (V. A., para príncipes, duques
Vossa Eminência (V. Em.a, para cardeais)
Vossa Excelência (V. Ex.a, para altas patentes militares, ministros,
Presidente da República,
pessoas de alta categoria, bispos e arcebispos)
Vossa Magnificência (para reitores de universidade)
Vossa Majestade (V. M., para reis, imperadores)
Vossa Onipotência (para Deus - não se usa abreviadamente)'
Vossa Reverendíssima (V. Rev.ma, Dara os sace otes)
Vossa Senhoria (V. s.a, para oficiais até coronel, funcionários graduados,
pessoas de
1.a) Emprega-se vossa Alteza (e demais) quando 2.a pessoa, isto é, em
relação
a quem falamos, emprega-se Sua Alteza (e demais) quando 3.a pessoa, isto
é, em
A A- 4r_ 1
2.a) Você, hoje usado familiarmente, é a redução da forma de
reverência.Foss
Mercê. Caindo o pronome vós em desuso, só usado nas orações e estilo solene,
99
em
3.a) O substantivo gente, precedido do artigo a e em referência a um
grupo d
pessoas em que se inclui a que fala, ou a esta sozinha, passa a pronome
e se emprev
fora da linguagem cerimoniosa. Em ambos os casos o verbo fica na 3.a pessoa
d(
"È verdade que a gente, às vezes, tem cí as suas birras" (ALEXANDRE
HERCULANO
#
Pronomes possessivos. - São os que indicam a posse em referência
às três pessoas do discurso:
SINGULAR: 1.a pessoa: meti minha meus minhas
2.a pessoa : teu tua teus tuas
3.a pessoa: seu sua seus suas
PLURAL: 1.a pessoa: nosso nossa ?IOSSOS nossas
2.a pessoa: vosso vossa vossos vossas
3.2 pessoa: seu sua SeUs suas
Pronomes demonstrativos. - São os que indicam a posição dos seres
em relação às três pessoas do discurso.
Esta localização pode ser no tempo, no espaço ou no discurso:
1.a pessoa este, esta, isto
2.a pessoa esse, essa, isso
3.a pessoa: aquele, aquela, aquilo
Este livro é o livro que está perto da pessoa que fala; esse livro é
o
que está longe da pessoa que fala ou perto da pessoa com quem se fala;
aquele livro é o que se acha distante da 1.a e da 2.a pessoa.
Nem sempre se usam com este rigor gramatical os pronomes demons-
. trativos; muitas vezes interferem situações especiais que escapam à
disciplina
da gramática.
São ainda pronomes demonstrativos o, mesmo, próprio, semelhante
e tal.
O (com as variações a, os, as) equivale a isto, isso, aquilo, aquele,
aquela, aqueles, aquelas.
Não sei o que dizes.
o que me pedes é impossível.
"Sigam-me os que forem brasileiros".
Não o consentirei jamais.
O pronome o, perdido o seu valor essencialmente demonstrativo e
posto antes de substantivo, como adjunto, recebe o nome de artigo definido.
Assim é que a gramática, no exemplo seguinte, considera o primeiro
os artigo definido e o segundo pronome demonstrativo:
100
"Os homens de extraordinários talentos são ordinariamente os de menor juízo"
(Marquês
de MARICÁ).
Mesmo, próprio, semelhante e tal têm valor demonstrativo quando
denotam identidades ou se referem a seres e idéias já expressas anterior-
,mente, e valem por esse, essa, aquele, aquela, isso, aquilo:
"Depois, como Pádua falasse ao sacristão baixinho, aproximou-se deles; eu
fiz a mesma
coisa" (M. DE Assis, D. Casmurro, 87).
*Não paguei uns nem outros, mas saindo de almas cândidas e verdadeiras tais
promessas
são como a moeda fiduciária..." (IDEM, ibid, 202).
É proibido dizeres semelhantes coisas.
97
#
Mesmo e próprio aparecem ainda reforçando pronomes pessoais:
Ela mesma quis ver o problema.
Nós próprios o dissemos.
"Tal faço eu, à medida que me vai lembrando, convindo à construção ou
reconstrução
de mim mesmo" (M. DE Assis, ibid., 203).
Pronomes indefinidos. - São os que se aplicam à 3.a pessoa quando
tem sentido vago ou exprimem quantidade indeterminada.
. Funcionam como pronomes indefinidos substantivos, todos invariáveis:
alguém, ninguém, tudo, nada, algo, outrem.
"Ninguém mais a voz sentida
Do Trovador escutoul" (G. Dus).
São pronomes indefinidos adjetivos, todos variáveis, com exceção de
cada: nenhum, outro (também isolado), um (também isolado), certo,
qualquer (só variável em número: quaisquer), algum, cada:
"As tiras saem-lhe das mãos, animadas e polidas. Algumas trazem poucas emendas
ou nenhumas" (M. DE Assis, Vdrias Histórias, 274).
"A vida a uns, a morte confere celebridades a outros (Marquês de M~CA).
Aplicam-se a quantidades indeterminadas os indefinidos, todos variáveis
com exceção de mais e menos: muito, mais, menos, pouco, todo,
algum, tanto, quanto, vdrios, diversos:
Mais amores e menos confiança (nunca menas!).
Com pouco dinheiro compraram diversos presentes.
Isto é o menos que se pode exigir.
Muito lhe devo.
Erraste por pouco.
Quantos não en ram neste caso 1
IOBsERY,kçXo: O pronome indefinido um pode ser usado como substantivo,
prin101
èipalmente nas locuç5es do tipo cada um, qualquer um. Como adjetivo recebe
o nome
de artigo indefinido.
As duplas quem... quem, qual... qual, este... este, um... outro
com sentido distributivo também são pronomes indefinidos:
"Qual se abisma nas 16bregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
com esperanças mil nas idéias acesas" (BOCAGE).
Isto é: um se abisma. . . outro discorre.
Muitas vezes a posição da palavra altera seu sentido e sua classificação:
Certas pessoas (pron. indef.) não chegam na hora certa (adjetivo), mas
em certas
horas (pron. indefinido).
Algum livro (= certo livro). Livro algum (= nenhum livro).
98
#
Em outras épocas algum podia ter sentido afirmativo ou negativo
independente de sua posição:
"Desta gente refresco algum tomamos" (CAMUs, Lustadas, V, 69).
Refresco algum = algum refresco.
"Vós a quem somente algum perigo
Estorva conquistar o povo imundo" (imm, ibid., VII, 2).
Algum perigo = nenhum perigo.
LocuçÃo PRONOMINAL INDEFINIDA. - É o grupo de palavras que vale
por um pronome indefinido. Eis as principais locuções: cada um, cada
qual, qualquer um, quem quer, quem quer que, o que quer que, seja
quem for, seja qual for, quanto quer que, o mais, alguma coisa.
"As verdades não parecem as mesmas a todos, cada um as vê em ponto diverso
de perspectiva" (Marquês de MARICÁ).
Pronomes interrogativos. - São os pronomes indefinidos quem, que,
qual e quanto, que se empregam nas perguntas:
Quem veio aqui?
"Que cabeça, senhora?"
Que compraste?
Qual autor desconhece?
Qual consideras melhor?
Quantos vieram?
Quantos anos tens?
Em lugar de que pode-se usar a forma enfática o que:
"Agora por isso, o que será feito de frei Timóteo?1 Era naquele tempo
um frade
guapo e alentado 1 O que será feito dele?" (A. HERcuLANo, Lendas e
Narrativas, II, 135)_
102
Quem refere-se a pessoas, e é pronome substantivo. Que refere-se a
"' pessoas ou coisas, e é pronome substantivo (com o valor de que coisa?)
, , ou pronome adjetivo (com o valor de que espécie?) Qual e também que,
indicadores de seleção, normalmente são pronomes adjetivos:
Em qual livraria compraremos o presente?
Em que livraria compraremos o presente?
Ressalta-se ainda a seleção antepondo ao substantivo no plural a
expressão qual dos, qual das:
Em qual dos livros encontraste o exemplo ?
OBSERVAÇÃO: Estes interrogativos saem normalmente dos pronomes
indefinidos e
1 por isso costumam ser chamados indefinidos interrogativos. Aparecem
ainda nas exciallmçõc,
e neste caso o que adquire sentido francamente intensivo: Que susto
levei 1
~(Compare-se com: "Que cabeça, senhora?").
Diz-se interrogação direta a pergunta que termina por ponto de inter-
Jogação e se caracteriza pela entoação ascendente: Quem veio aqui?
99
#
Interrogação indireta é a pergunta que: a) se faz indiretamente e
para a qual não se pede resposta imediata; b) é proferida com entoação
normal descendente; c) não termina por ponto de interrogação; d) vem
,depois de verbo que exprime interrogação ou incerteza (perguntar, indagar,
não saber, ignorar, etc.):
Quero saber quem veio aqui.
Eis outros exemplos de interrogação indireta começados pelos pronomes
interrogativos já citados:
Ignoro que cabeça, senhora.
Indagaram-me que compraste.
Perguntei-te por que vieste aqui.
Não sei qual autor desconhece.
Desconheço qual consideras melhor.
Indagaram quantos vieram.
Pronomes relativos. - São os que normalmente se referem a um
termo anterior chamado antecedente:
Eu sou o freguês que por último compra o jornal.
(0 que se refere à palavra freguês.)
Os pronomes relativos são: qual, o qual (a qual, os quais, as quais),
cujo (cuja, cujos, cujas), que, quanto (quanta, quantos, quantas), onde.
Quem se refere a pessoas ou coisas personificadas e sempre aparece
precedido de preposição. Que e o qual se referem a pessoas ou coisas.
103
Que e quem funcionam como pronomes substantivos. O qual aparece
como substantivo ou adjetivo:
As pessoas de quem falas não vieram.
O ônibus que esperamos está atrasado.
Não são poucas as alunas que faltaram.
Este é o assunto sobre o qual falará o professor.
Não vi o menino, o qual menino os colegas procuram.
A casa onde moro é espaçosa.
Cujo, sempre com função adjetiva, exprime que o antecedente é possuidor
do ser indicado pelo substantivo a que se refere:
Ali vai o homem cuja casa comprei
(a casa do homem).
Quanto tem por antecedente um pronome indefinido (tudo, todo,
todos, todas, tanto):
Esqueça-se de tudo quanto lhe disse.
100
#
PRONOMES RELATIVOS SEM ANTECEDENTE. - Os pronomes relativos quem
e onde podem aparecer com emprego absoluto, sem referência a antecedentes:
Quem tudo quer tudo perde.
Dize-me com quem andas e eu te direi quem és.
Moro onde mais me agrada.
Quem, assim empregado, é considerado como do gênero masculino
do número singular:
Quem com ferro fere com ferro será ferido.
OBSERVAÇÃO: Os relativos sem antecedentes também se dizem relativos
indefinidos.
Muitos autores preferem, neste caso, subentender um antecedente adaptável
ao contexto.
Interpretando quem como a pessoa que, onde como o lugar em que, assim
substituem:
Quem tudo quer tudo perde = a pessoa que tudo quer tudo perde.
Este duplo modo de encarar o problema tem repercussões diferentes na
classificação
das orações subordinadas, conforme veremos na pág. 221.
5 - NUMERAL
Numeral é a palavra que denota nome de número.
"A vida tem uma só entrada: a saída é por cem portas"
(Marquês de MARICÁ).
104
Tipos de numeral. - Dividem-se os numerais em cardinais, ordinais,
multiplicativos e fracionórios.
Cardinais são osque exprimem a quantidade em si mesma ou a
quantidade certa dos seres. Respondem à pergunta quantos? quantas?.-
um, dois, três, quatro, cinco, etc.
OBSERVAÇÃO: Em vez de dois, duas, podemos empregar o numeral dual ambos,
ambas, se os seres são nossos conhecidos ou já foram expressos
anteriormente:
Ambas as casas já foram alugadas.
Ordinais são os que denotam o número de ordem dos seres numa série:
primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto, etc.
OBSERVAÇÃO: Oltimo, penúltimo, antepenúltimo, anterior, posterior,
derradeiro, antero-
posterior e outros que tais, ainda que exprimam posição do ser, não
têm correspondência
entre os numerais e por isso devem ser considerados meros
adjetivos.
Multiplicativos são os que exprimem a multiplicidade dos seres. Os,
mais usados são:
duplo ou dobro, triplo ou tríplice, quádruplo,
quintuplo, sêxtuplo,
séptuplo, óctuplo, nônuplo, décuplo, cêntuplo.
101
#
Fraciondrios são os que indicam frações dos seres:
avos.
OBURVAÇõFJ:
1.a) Emprega-se ainda conto, em lugar de milhílo, na expressão conto
de réis.
2.a) Podem ser grafados com li ou [h os seguintes cardinais: bililo (ou
bilháo),
trililo, quatrilião, quintililo, sextililo, setililo, octililo. As formas
com lh alo mais
_freqüentes.
meio, terço, quarto, quinto, sexto, sétimo, oitavo, nono, décimo, vigésimo,
centésimo,
milésimo, milionésimo, empregados como equivalentes de metade, terça
parte, quarta
parte, etc.
105
Para muitos fracionários empregamos o cardinal seguido da palavra
onze avos, treze avos,
Lista dos principais ordinais com o
primeiro
segundo
terceiro
quarto
quinto
sexto
aétimo
I
oitavo
nono
décimo
undécimo ou décimo primeiro -
duodécimo ou décimo segundo -
décimo terceiro
décimo quarto
Vigésimo
vigésimo primeiro
trigésimo
quadragésimo
qüinquag ' ésimo
sexagésimo
septuagésimo, setuagésimo
octogésimo
nonagésimo
centésimo
ducentésimo
trecentésimo
quadringentésimo
qüingent4simo
seiscentésimo, sexcentésimo
septingentésimo, setingentésimo
octingentésimo
nongentésimo, noningentésimo
milésimo
dez milésimos
cem milésimos
milionésimo
bilionésimo
quinze avos, etc.
cardinal correspondente:
um
dois
trés
#
106
quatro
cinco
seis
sete
oito
nove
dez
onze
doze (e não douze 1)
treze
quatorze, catorze
vinte
vinte e um
trinta
quarenta
cinqüenta
sessenta
setenta
oitenta
noventa
cem
duzentos
trezentos
quatrocentos
quinhentos
seiscentos
setecentos
oitocentos
novecentos
mil
dez mil
cem mil
um milhão
um bilhâo
102
#
. 3.a) A tradição da língua estabelece que, se o ordinal é de 2.000 em
diante, o
primeiro numeral usado é cardinal: 2345.2 - a duas milésima trecentésima
quadragésima
quinta. A língua moderna, entretanto, parece preferir o primeiro
numeral como
ordinal, se o número é redondo: décimo milésimo aniverário.
6 - VERBO
Verbo é a palavra que, exprimindo ação ou apresentando estado ou
mudança de um estado a outro, pode fazer indicação de pessoa, número,
tempo, modo e voz.
Caetaremos é uma forma verbal, porque exprime uma ação (a de
107
cantar), exercida (referência à voz) pela 1.a pessoa (referência à pessoa)
do plural (referência ao número), do presente (referência ao tempo) do
indicativo (referência ao modo).
As pessoas do verbo. - Geralmente as formas verbais indicam as três
pessoas do discurso, Para o singular e o pluxal-
1.a pessoa do singular:
" pessoa do singular:
3.a pessoa do singular:
eu canto
tu cantas
ele canta
La pessoa do plural: nós cantamos
2.a pessoa do plural: vós cantais
3.a pessoa do plural: eles cantam
Os tempos do verbo. - São:
a)PREsENTE - em referência a fatos que se passam ou se estendem
ao momento em que falamos:
eu canto;
I
b) PRETÉRrro - em referência a fatos anteriores ao momento em que
falamos e subdividido em imperfeito, perfeito e mais-que-perfeito:
cantava (imperfeito), cantei (perfeito) e
cantara (mais-que-perfeito);
C) FUTURO - em referência a fatos ainda não realizados e subdividido
em futuro do presente e futuro do pretérito4
cantarei (futuro do presente),
cantaria (futuro do pretérito).
Os modos do verbo. - São:
a) INDICATIVO - em referência a fatos reais:
canto, cantei, cantarei
103
#
b) SUBJUNTIVO - em referência a
fatos duvidosos, prováveis, possiveis,
etc.
talvez cante, se cantasse
C) IMPERATIVO -
108
etc.:
exprime ordem, pedido, convite, conselho, súplica,
cantai.
As vozes do verbo. - São:
a) ATIVA : forma em que o verbo se apresenta para normalmente
indicar que a pessoa a que se refere pratica a ação. A pessoa diz-se neste
caso, agente da ação verbal:
eu escrevo a carta, tu visitaste o
primo, nós plantaremos a árvore.
b) PASSIVA: forma verbal que indica que a pessoa recebe a ação
verbal. A pessoa, neste caso, diz-se paciente da ação verbal:
A carta é escrita por mim, o primo foi visitado por ti, a árvore será
plantada por nós.
A passiva pode ser analítica (formada com um dos verbos ser, estar,
ficar seguido de particípio) ou pronominal (formada com verbo acompanhado
do pronome oblíquo se, que se chama, no caso, pronome
apassivador):
A casa foi alugada (passiva analítica).
Aluga-se a casa (passiva pronominal).
A passiva analítica difere da passiva pronominal em dois pontos:
1) pode apresentar o verbo em qualquer pessoa, enquanto a pronominal
só se constrói na 3.a pessoa:
Eu fui visitado pelos meus parentes.
Nós foinos visitados pelos parentes.
2) pode seguir-se de uma expressão que denota o agente da
passiva, enquanto a pronominal, no português moderno, a dispensa obrigatoriamente:
Eu fui visitado pelos parentes.
Aluga-se a casa (não se diz aluga-se a casa pelo proprietário).
OBSERVAÇÃO: Em construções do tipo batizei-me, chamas-te José, há
professores
que vêem passiva pronominal com pronomes oblíquos de 1.a e 2.a pessoa.
Outros, porém,
não pensam assim, e interpretam o fato como um emprego da voz reflexiva,
indicando
11 uma atitude de aceitação consciente do nome dado ou do batismo recebido-
(j. MATOSO
CÂMARA, Diciondrio, 36).
c) REFLEXIVA: forma verbal que indica que a pessoa é, ao mesmo
tempo, agente e paciente da ação verbal, formada de verbo seguido de
pronome oblíquo de pessoa igual à que o verbo se refere:
eu me visto, tu te feriste, ele se enfeita,
104
#
109
O verbo empregado na forma reflexiva diz-se pronominal.
OBSERVAÇõES:
1.a) Com verbos como atrever-se, indignar-se, queixar-se, ufanar-se,
admirar-se, não
se percebe mais a ação rigorosamente reflexa, mas a indicação de que a
pessoa a que
o verbo se refere está vivamente afetada. Com os verbos de movimento ou
atitudes
da pessoa "em relação ao seu próprio corpo" como ir-se, partir-se, e outros
como
servir-se, onde o pronome oblíquo empresta maior expressividade à frase,
também não
se expressa a ação reflexa. Alguns gramáticos chamam ao pronome oblíquo,
nestas
últimas circunstâncias, pronome de realce.
2.a) A voz reflexiva, no plural, pode assumir sentido de reciprocidade:
Eles se odeiam (isto é, um odeia o outro).
Voz passiva e passividade. - É preciso não confundir voz passiva
e passividade. Voz é a forma especial em que se apresenta o verbo para
indicar que a pessoa recebe a ação:
Ele foi visitado pelos amigos.
Alugam-se bicicletas.
Passividade é o fato de a pessoa receber a ação verbal. A passividade
pode traduzir-se, além da voz passiva, pela ativa, se o verbo tiver sentido
passivo:
Os criminosos recebem o merecido castigo.
Portanto nem sempre a passividade corresponde a voz passiva(').
Formas nominais do verbo. - Assim se chamam o infinitivo, o particípio
e o gerúndio, porque, ao lado do seu valor verbal, podem desempenhar
função de nomes. O infinitivo pode ter função de substantivo
(recordar é viver = a recordação é vida); o particípio pode valer por
um adjetivo (homem sabido) e o gerúndio por um advérbio ou adjetivo
(amanhecendo, sairemos = logo pela manhã sairemos; água fervendo =
água fervente). Nesta função adjetiva o gerúndio tem sido apontado
como galicismo; porém, é antigo na língua este emprego.
As formas nominais do verbo, Lom exceção do infinitivo, não definem
as pessoas do discurso e, por isso, são ainda conhecidas por formas
infinitas.
Possuem desinências nominais idênticas às que caracterizam a flexão dos
nomes.
O infinitivo português, ao lado da forma infinita, isto é, sem indicação
da pessoa do discurso, possui outra flexionada:
Infinito sem flexão
Cantar
Infinito flexionado
Cantar eu
110
Cantares tu
Cantar ele
Cantarmos nós
Cantardes vós
Cantarem eles
(1) Assim sendo, não se pode falar em voz passiva diante de linguagens
do tipo osso duro
de roer. Houve aqui, se interpretarmos roer = de ser roído, apenas
passividade, com verbo na
voz ativa. Sobre o sentido ativo ou passivo do infinitivo, veja-se página
244.
105
#
As formas nominais do verbo se derivam do tema (radical + vogal
temática) acrescido das desinências:
a) -r: para o infinitivo: canta-r,
vende-r, parti-r.
b) -do: para o particípio: canta-do, vendi-do (cf. pág. 113), parti-doc)
-ndo: para o gerúndio: canta-ntio,
vende-ndo, parti-ndo.
OBsERvAçXo: O verbo vir (e derivados) forma também o seu particípio com
a
desinéncia -do; mas, pelo desaparecimento da vogal temática i,
apresenta-se igual ao
gerúndio: vindo (por vin-i-do) e vindo (vi-ndo).
Conjugar um verbo. - É dizê-lo, de acordo com um sistema determinado,
em todas as suas formas nas diversas pessoas, números, tempos,
modos e vozes.
Em português temos três conjugações caracterizadas pela vogal
temática:
1.a conjugação - vogal temática a: amar, falar, tirar.
2.a conjugação - vogal temática e: temer, vender, varrer.
3.a conjugação - vogal temática i: partir, ferir, servir.
O~AÇÃo: Não existe a 4.a conjugação; por é um verbo da 2.a conjugação
cuja
vogal temática desapareceu no infinitivo.
Verbos regulares, irregulares e anômalos. - Díz-se que um verbo é
regular quando se apresenta de acordo com o modelo de sua conjugação:
cantar, vender, partir. No verbo regular também o radical não varia.
Tem-se o radical de um verbo privando-o, no infinito sem flexão, das terminações
-ar, -er, -ir:
am-ar, fal-ar, tir-ar, tem-er, vend-er, varr-er, part-ir, fer-ir,
serv-ir.
Irregular é o verbo que, em algumas formas, apresenta variação no
radical ou na flexão, afastando-se do modelo da conjugação a que pertence:
a) variação no radical em comparação com o infinitivo:
ouvir - ouço; dizer - digo; perder - perco;
111
b)variação na flexão, em relação ao modelo: estou (veja-se canto),
estás (veja-se cantas, um tônico e outro átono).
Os irregulares se dividem em fracos e fortes. Fracos são aqueles cujo
radical do infinitivo não se modifica no pretérito: sentir - senti; perder
-
perdi.
Fortes são aqueles cujo radical do infinitivo se modifica no pretérito
perfeito: caber - coube; fazer - fiz.
Os irregulares fracos apresentam formas iguais no infinitivo flexionado
e futuro do subjuntivo:
Infinitivo
Sentir
Sentires
Sentir
Sentirmos
Sentirdes
Sentirem
106
Futuro do Subjuntivo
Sentir
Sentires
Sentir
Sentirmos
Sentirdes
Sentirem
#
Os irregulares fortes não apresentam identidade de formas entre o
infinitivo flexionado e o futuro do subjuntivo:
Infinito flexionado
Caber
Caberes
Caber, etc.
Futuro. do Subjuntivo
Couber
Couberes
Couber, etc.
OBsnvAçÃo: Não entram no rol dos verbos irregulares aqueles que, para
conservar
o som, têm de sofrer variação de grafia:
carregar - carrego - carreguei - carregues
ficar - fico - fiquei - fique
Não há portanto os irregulares gráficos.
Anômalo é o verbo irregular que apresenta, na sua conjugação, radicais
primários diferentes: ser (reúne o concurso de dois radicais, os
verbos
112
latinos sedère e êsse) e ir (reúne o concurso de três radicais, os verbos
latinos ire, vadère e ésse).
Outros autores consideram anômalo o verbo cujo radical sofre alteraçoes
que o não podem enquadrar em classificação alguma: dar, estar, ter,
haver, ser, poder, ir, vir, ver, caber, dizer, saber, por, etc.
Verbos defectivos e abundantes. - DEFEc:rivo é o verbo que, na
sua conjugação, não apresenta todas as formas: colorir, precaver-se,
reaver, etc.
A defectividade verbal é devida a várias razões, entre as quais a
eufonia e a significação. Entretanto, a defectividade de certos verbos
não
1 se assenta em bases lógicas. Se a tradição da língua dispensa, por dissonante,
a 1.a pessoa do singular do verbo colorir (coloro), não se mostra
igualmente exigente com a 1.a pess. do singular do verbo colorar. Por
outro lado, o critério de eufonia pode variar com o tempo e com o gosto
dos escritores; daí aparecer de vez em quando uma forma verbal que a
'1
amática diz não ser usada.
~ Quase sempre faltam as formas rizotônicas dos verbos defectivos.
.Suprimos, quando necessário, as lacunas de um defectivo empregando um
sinônimo (derivado ou não do defectivo): Eu recupero (para reaver);
eu redimo (para remir).
x~
Há os seguintes grupos de verbos defectivos, em português:
a)os que não se conjugam nas pessoas em que depois do radical
aparecem a ou o :
i
banir, brandir, carpir, colorir, delir, explodir, fremer (ou fremir),
haurir, ruir,
exaurir, abolir, demolir, puir, delinqüir, fulgir, feder, aturdir,
bramir, jungir, esculpir,
extorquir, impingir, pruir, retorquir, soer, espargir.
Tais verbos também não se empregam no pres. do subjuntivo, imperativo
negat., e no imperat. afirmat. só apresentam as segundas pessoas
do
sing. e pl.
107
f
I
#
b)os que se usam unicamente nas formas em que depois do radical
vem i :
adir, aguerrir, emolir, empedernir, esbaforir, espavorir, exinanir,
falir, fornir, remir,
ressequir, revelir, vagir, florir, renhir, garrir, inanir, ressarcir,
transir, combalir.
113
c) oferecem particularidades especiais:
precaver (-se) e reaver. No pres. ind. só. têm as primeiras pessoas
do plural : precavemos, precaveis; reavemos, reaveis.
Imperativo: precavei, reavei.
Faltam-lhes o imperat. neg. e pres. do subj. No restante conjugam-se
normalmente.
2 - adequar, antiquar : cabem-lhes as mesmas observações feitas ao
grupo anterior.
3 - grassar e rever (=destilar): só se usam nas terceiras pessoas.
derno são:
OBSERVAÇõES:
1.a) Muitos verbos apontados outrora como defectivos são hoje conjugados
integralmente:
agir, advir, compelir, desmedir-se, discernir, embair, emergir,
imergir, fruir,
polir, prazer, submergir. Ressarcir (cf. b) e refulgir (que alguns
gramáticos só mandam
conjugar nas formas em que o radical é seguido de e ou i) tendem a ser
empregados
como verbos completos.
2.a) Os verbos que designam vozes de animais geralmente só aparecem lias
terceiras
pess. do sing. e plural, em virtude de sua significação, e são arrolados
como defectivos.
3.a) Também são considerados defectivos os verbos impessoais (pois não
se referem
a sujeito), que só são empregados na terceira pess. sing.: Chove muito,
Relampeja.
Quando em sentido figurado, os verbos desta observação, como os da anterior,
conjugam-
se em quaisquer pessoas: Chovam as bênçaos do céu.
ABUNDANTE é o verbo que apresenta duas ou três formas de igual
valor e função: havemos e hemos; constrói e construi; pagado e pago;
nascido, nato, nado (pouco usado).
Normalmente esta abundância de forma ocorre no particípio.
Os principais verbos que gozam deste privilégio, no português moa)
comprazer e descomprazer:
Pret. perf. ind. : comprazi, comprazeste, comprazeu, etc. ou comprouve,
comprouveste,
comprouve, etc.
M.-q-perf. ind. : comprazera, comprazeras, comprazera, etc. ou comprouvera,
comprouveras,
comprouvera, etc.
Imperf. subj. - comprazesse, comprazesses, comprazesse, etc. ou comprouvesse,
comprouvesses,
comprouvesse, etc.
114
Fut. subj. : comprazer, comprazeres, comprazer, etc. ou comprouver,
comprouvews,
comprouver, etc.
108
#
b) construir e seu grupo:
Pres. ind. : construo, construis (ou constróis), construi (ou constrói),
construímos,
construis, construem (ou constroem).
Imper. afirm. : construi tu (ou constrói).
Assim se conjugam desconstruir, destruir, estruir, reconstruir.
c) entupir e desentupir:
Pres. ind. : entupo, entupes (ou entopes), entupe (ou entope), entupimos,
entupis,
entupera (ou entopem).
Imper. afirm. : entupe (ou entope), entupi.
OBSERVAÇÃO: O o das formas abundantes é de timbre aberto.
d) haver:
Pres. ind. : hei, hás, há, havemos (ou hemos), haveis (ou heis), hão.
Imper. afirm. : há, havei.
e) ir:
Pres. ind. : vou, vais, vai, vamos (ou imos), ides (is é forma antiga),
vão.
f) querer e requerer:
Pres. ind.: quero, queres, quer (ou quere), queremos, quereis, querem,
requeiro,
requeres, requer (ou requere), requeremos, requereis, requerem.
Quere e requere são formas que só têm curso em Portugal; quere é criação
recente
(séc. xix-xx, sem adoção geral) e requere é forma já antiga na língua,
sendo requer
de data recente.
g) valer:
Pres. ind. : valho, vales, vale (ou val), valemos, valeis, valem.
Val é forma antiga e ainda hoje corrente, maxime em Portugal.
h) imperativo dos verbos em -zer, -zir.
Podem perder o -e na 2.a pessoa sing.: faze tu (ou faz); traduze tu (ou
traduz).
São freqüentíssimos os exemplos literários com os verbos dizer, fazer,
trazer e traduzir.
i) particípio de numerosos verbos.
Existe grande número de verbos que admitem dois (e uns poucos até
115
três) particípios: um regular, terminado em -ado (1.a conjugação) ou -ido
(2.a e 3.a conjugação, cf. pág. 113), e outro irregular, proveniente do
latim ou de nome que passou a ter aplicação como verbo. Eis uma relação
dessas formas duplas de particípio, indicando-se entre parênteses se
ocorrem
com a voz ativa ou passiva, ou com ambas:
Infinitivo Particípio regularParticípio irregular
aceitar aceitado (a., p.)aceito (p.), aceite (p.)
assentar assentado (a., p)assento (p.), assente (p.)
entregar entregado (a., p.)entregue (p.)
enxugar enxugado (a., p.) enxuto (p.)
109
#
expressar expressado (a., p.)expresso (p.)
expulsar expulsado (a., p.)-pulso (P.)
fartar fartado (a., p.)farto (P.)
findar findado (a., p.)findo (P.)
ganhar ganhado (a., p.)ganho (a., p.)
gastar gastado (a.) gasto (a., p.)
isentar isentado (a.) isento (p.)
juntar juntado (a., P.)junto (a., P.)
limpar limpado (a., P.)limpo (a., p.)
matar matado (a.) morto (a., P.)
pagar pagado (a.) pago (a., p.)
salvar salvado (a., P.)salvo (a., P.)
acender acendido (a., p.)aceso (P.)
desenvolver desenvolvido (a., P.)desenvolto (a., p.)
eleger elegido (a.) eleito (a., P.)
envolver envolvido (a., p.)envolto (a., p.)
prender prendido (a., p.)preso (p.)
suspender suspendido (a., p.)suspenso (p.)
desabrir desabrido desaberto
erigir erigido (a., p.)erecto (p.)
exprimir exprimido (a., P.)expresso (a., p.)
extinguir extinguido (a., p.)extinto (p.)
frigir frigido (a.) frito (a., p.)
imprimir imprimido (a., P.)impresso (a., p.)
inserir inserido (a., p.)inserto (a., p.)
tingir tingido (a., p.)tinto (p.)
OBSERVAC16ES :
1.a) Em geral emprega-se a forma regular, que fica invariável com os
auxiliares
ter e haver, na voz ativa, e a forma irregular, que se flexiona em gênero
e número,
com os auxiliares ser, estar e ficar, na voz passiva.
Nós temos aceitado os documentos.
Os documentos têm sido aceitos por nós.
Há outros particípios, regulares ou irregulares, que se usam
116
indiferentemente na
voz ativa (auxiliares ter ou haver) ou passiva (auxiliares ser, estar,
ficar), conforme
se assinalou entre parénteses.
2.a) Há una poucos particípios irregulares terminados em -e, era geral
de introduçáo
recente no idioma: entregue (o mais antigo), aceite, assente,
empregue (em
Portugal).
Locução verbal. Verbos auxiliares. - Chama-se locuçjo verbal a
combinação das diversas formas de um verbo auxiliar com o infinitivo,
gerúndio ou particípio de outro verbo que se chama principal: hei de
estudar, estou estudando, tenho estudado. Muitas vezes o auxiliar em.
presta um matiz semántico ao verbo principal, dando origem aos chamados
aspectos do verbo.
Entre o auxiliar e o verbo principal no infinito pode aparecer ou
não uma preposição (de, em, por, a, para). Na locução verbal é somente
o auxiliar que recebe as flexões de pessoa, número, tempo e modo: haveremos
de fazer, estavam por sair, iam trabalhando, tinham visto.
110
palavras são compostas. Estes radicais podem ser livres, isto é, usados
independentemente na língua (como guarda-chuva) Ou Presos, isto é, não
são usados isoladamente (como agrícola ~ agr + i +cola, lanigero
lan + i + gero).
Nas palavras compostas com radicais livres, do tipo guarda-chuva,
persiste, como é fácil de observar, a individualidade de seus componentes.
Esta individualidade se traduz: a) na escrita, pela mera justaposição de
um radical a outro, normalmente separados por hífen; b) na pronúncia,
pelo fato de ter cada radical seu acento tônico, sendo o último o mais
forte e o que nos orienta na classificação da posição do acento nas palavras
compostas (por isso que couve-flor é oxítono e guarda-chuva é paroxítono)(').
Em tais casos dizemos que as palavras são compostas por justaposição.
Chamamos aglutinação o processo de formar palavras compostas pela
fusão ou maior integração dos dois radicais subordinados a um só acento
tônico: planalto, fidalgo, lanigero, agrícola.
"A adaptação da primeira palavra pode ser de quatro espécies: 1)
mudança da parte final em relação à mesma palavra quando isolada; ex.:
lobis - (comparar - lobo, em lobisomem); 2) redução da palavra ao seu
elemento radical; ex.: Planalto, onde plan- é o radical de plano (o composto
indica um solo plano e alto numa montanha); 3) elemento radical
alterado em relação à palavra quando isolada; ex.: vinicultura (vip-, mas
vinh- em vinha "árvore da uva")- 4) elemento radical que não aparece
em português em palavra isolada; ex.: agricultura (a agr corresponde, em
palavra isolada, campo) (2).
* A segunda palavra pode ocorrer com as seguintes alterações: "1) com
mudança na parte final; ex.: monocórdio (instrumento de uma só corda);
117
2) com o elemento radical alterado; ex.: vinagre (um vinho que é acre);
3) com um elemento radical diverso do que a correspondente palavra
isolada; ex.: agrícola (ao elemento de composição cola corresponde a idéia
de habitar ou cultivar)"(8).
Conceito de raiz ou radical primário. - Chama-se raiz, em gramá.
tica descritiva, ao radical primário ou irredutivel a que se chega dentro
da língua portuguesa e comum a todas as palavras de uma mesma família.
Se tomarmos um vocábulo como desregularizar(4), facilmente podemos
surpreender diversos graus de radical; o primeiro, destacando-se-lhe
a vogal temática e a desinència de infinito, é desregulariz- (que aparece
em desregularização); este radical pode ser reduzido, por destaques suces-
(1) Cf. pág. 57 n. 1.
(2) J. MAToso CA~A Jr., Teoria da ~liso Léxica, 95.
(3) Cf. J. MAToso CAmAxA Jr., Teoria da Andlise Léxica, 95.
(4) U J. MAToso CUARA Jr., Diciondrio de Fatos Gramaticais , 177. Para
estudos mais
adia~tados veja-se SAussuRz, Cours de Linguistique Générale, 253 e E. NmA,
Morphology (cap.
de introduçáo).
170
#
sivos, a: regulariz (sem o prefixo) > regular (sem a desinéncia) > regul
(cf. o latim regúla) > reg (que aparece em reger, régua). Este último
radical que constitui o elemento irredutível e comum a todas as palavras
do grupo chama-se primário e coincide, em relação à língua atual, com
a raiz. Regul- é um radical secundário (ou do 2.0 grau), como regularum
radical terciário (ou do 3.0 grau), e assim por diante.
OBSERVAÇÃO: Não interessa à gramática descritiva o conceito de raiz'
do ponto
de vista histórico, que só é válido para a gramática histórica. Há
freqüentes divergências
entre o estabelecimento de uma raiz dentro dos dois tipos de gramática;
assim é que
enquanto para a histórica não há raiz ed- em comer (do latim comedere,
de edere
comer), a descritiva a estabelece em com- (cf. com-ida, com-flão,
com-flança).
A raiz ou radical primário pode apresentar variação ou variações;
assim, a raiz reg- se altera em regr- (em regra, regrar, desregrar).
Palavras cognatas. - Chamam-se cognatas as palavras que pertencem
a uma família de raiz e significação comuns: corpo, corporal, incorporar,
corporação, corpúsculo, corpanzil; fugir (em foges, temos a raiz
alterada),
fugaz, refúgio, subterfúgio, trânsfuga.
Constituintes imediatos. - Em análise mórfica é importante ter em
conta o princípio dos constituintes imediatos para que não se façam confusões
no plano descritivo da classificação morfológica e se estabeleçam
118
as possíveis gradações de estrutura. Assim é que diante de uma forma
como descobrimento não iremos enquadrá-la no grupo das palavras chamadas
parassintéticas (considerando des + cobri + mento); trata-se de um
derivado secundário cujos constituintes imediatos são o radical
secundário
descobri- e o sufixo ment (o). Em arduamente desprezaremos a desinência
de feminino -a- (válida no vocábulo árdua) e analisaremos os constituintes
imediatos: ardua+mente, sendo ardua- o radical secundário. Também
em desrespeitosamente os constituintes imediatos são desrespeitosa (por
destaques sucessivos > respeitosa > respeit > speit, este último radical
primário ou raiz). Em cantorezinhos temos os constituintes imediatos
cantor (es) e zinho (s), depois cantor e finalmente cant-or. Nessa gradação
de elementos componentes de uma estrutura morfológica, nota-se que
há certa ordem em sua distribuição; destacam-se primeiro, como nos
constituintes imediatos, os elementos externos característicos da flexão,
seguidos
de elementos internos característicos do processo de transformação
dos vocábulos. Em nosso último exemplo, os externos de natureza flexional
são r?,resentados pelas desinências de plural: cantor (es) e
zinho(s),
enquai elementos internos são indicados pelos sufixos diminutivos
de cantor-zinho (derivação sufixal) e pela desinència de nome de agente
em cant-or (derivação sufixal).
Variantes dos elementos mórficos. - É comum a variante de determinado
elemento mórfico. Assim, altera-se a raiz em reger (reg-) e regra
(regr-) ou fazer (faz-) e fiz; a desinência modo-temporal do pretérito
imperfeito
-va- (na 1.a conjugação) ou -a- (na 2.a e 3.a conj.) passa a -ve-
171
#
ou -e-, respectivamente, na 2.a pessoa do plural, pelo contato do i de
is da
desinência pessoal (amavas, amáveis, vendias, vendíeis; partias,
partíeis)'.
A forma livre caber (em descaber) apresenta, por exemplo, uma
variante mórfica presa -ceber (em receber; perceber, etc).
Tais variantes se chamam alomorfes.
Neutralização nos elementos mórficos. - já vimos que os elementos
mórficos são dotados de significação externa (como o radical) ou interna
puramente de noção gramatical (como o sufixo ou a desinência). Chama-
se neutralização ao desaparecimento, na palavra, de uma indicação que
anula a oposição entre ela e dada palavra de outra classe ou a aproximação
entre dada palavra e o seu paradigma. A neutralização pode ocorrer, principalmente,
por homonímia ou por desaparecimento do elemento mórfico.
Exemplo de homonímia: a) a vogal temática da 2.a conj. é, como vimos
na página 113, e; esta vogal, entretanto, passa a i no pret. imperfeito
e no
particípio, o que anula a oposição com a 3.a conj., porque ficam iguais
nestas formas: vendia, partia; vendido, partido; b) por outro lado a vogal
temática da 3.a conj. (i) passa a e quando átona, isto é, 2.a e 3.a pessoa
119
singular e 3.a pessoa do plural do pres. ind. e 2.a pessoa sing. imperativo,
anulando a oposição entre a 2.a e 3.a conjugações: partes, vendes; parte,
vende; pai-tem, vendem; parte tu, vende tu. Também em falaram a análise
mórfica auxiliada pelo contexto dirá existir a 3.a pessoa pl. do pret.
perf.
ind. (fal-a-ram), ou do pret. m-q.-perf. (fal-a-ra-m).
Exemplos de desaparecimento: a) pelo queda da vogal temática do
verbo vir (i), anula-se a oposição entre o gerúndio e o particípio (cf.
pag.
185): vindo (gen), vindo (part.); b) pela queda da vogal temática no
infinitivo por, este verbo ficou aparentemente afastado da 2.a conj., chegando,
durante muito tempo, a constituir pretexto para falsa 4.a conj.
em
português. Cf. pág. 106.
Em pires, como nos paroxítonos com s no final, há neutralização do
número, cuja depreensão só é permitida pelo contexto.
Subtração nos elementos mórficos. - Até aqui temos visto a indicação
de uma noção gramatical através de uma adição de determinado
elemento mórfico: livros (onde s é desinência de plural), amas (onde s
é
desinência de 2.a pess. sing.).
Mas a indicação pode nascer da subtração de determinado elemento
mórfico. Assim dizemos que livro é singular (uma noção gramatical) embora
não haja desinência especial; é a oposição com o plural livros que
nos leva a classificar livro como singular. Também a forma verbal ama
pertence à 1.a ou 3.a pess. sing., pela comparação com amas ou qualquer
outra pessoa do plural.
Dizemos então que o elemento mórfico é subtrativo ou zero(').
(1) Cf. E. NIDA, Morphology, e J. MATOSO CÂMARA JR., Princípios de
Lingüística Geral,
75 e 90.
I
172
#
Acumulação nos elementos mórficos. - Muitas vezes um elemento
mórfico utilizado para certa noção pode, por acumulação, servir também
para determinar outra noção desprovida de elemento característico (elemento
mórfico subtrativo). As desinências de pessoas especiais para o
pret. perfeito (-i, -ste, -u, -stes, -ram) - cf. pág. 114, acumulam as
funções
de desinência modo-temporal por não existir nestas formas verbais. Assim
é que, embora haja elemento mórfico subtrativo, sabemos que cantei,
vendi e parti, por exemplo, estão na 1.a pess. sing. (função essencial
da
desinência i) do pret. perf. ind. (função acumulativa da referida
desinência).
Fusão nos elementos mórficos. - Os elementos mórficos podem
120
combinar-se por justaposição ou por fusão. Em livros juntou-se ao radical
primário a desinência de número -s-, justaposta. No plural canais (canal
+ es) ou funis (funil + es) a integração do radical e desinència é
mais
íntima, não permitindo a análise dos dois elementos fundidos. No primeiro
exemplo (cana-i-s) a fusão deu origem a um ditongo, enquanto no
segundo (funis) favoreceu uma crase (funil + es = funi (l)es > funiis
> funis). Na 1.a pess. sing. e 2.a pess. pl. do pret. perf. da 3.a conjug.
há crase resultante da fusão da vogal temática com a desinência pessoal:
parti ( < partii), partis ( < partiis).
A aglutinação é um caso de fusão e, às vezes, pode ser tão íntima que
o sentimento de linguagem moderno não perceba os dois elementos justapostos
que a análise histórica patenteia. Dessarte, a gramática descritiva
vê em relógio uma palavra simples, cujo radical é relog-; a histórica
remonta aos dois radicais hora lógio (isto é, máquina que "diz a hora")
(1).
O sufixo adverbial -mente foi primitivamente um substantivo de forma
livre que se juntava aos femininos de adjetivos: boa mente, clara
mente; depois houve maior integração dos dois elementos porque a forma
livre passou a ser usada como afixo (forma presa) formador de advérbios.
Foi desta aplicação de um vocábulo como forma presa (afixo) que se
originaram, para o português, o futuro do presente (trabalharei) e do
pretérito (trabalharia), pois se uniram ao infinito (trabalhar) o presente
e o pret. imperfeito do verbo haver (dar hei, dar hia, por havia).
Passando as formas do verbo haver a constituir parte da desinência
modo-temporal (trabalharei desdobra-se em trabalh-a-re-i, trabalharia em
trabalh-a-ria, cf. pág. 114), a gramática descritiva considera as nossas
duas
formas de futuro como tempo simples.
Suplementação nos elementos mórficos. - O ponto alto de uma
irregularidade em relação ao paradigma da forma regular de determinado
elemento mórfico é o processo chamado suplementação (ou alternância
supletiva), que consiste em suprir uma forma com outra oriunda de
(1) J. MATOSO CAMARA Jr., Teoria da Análise Léxica, 95.
I
173
#
radical diferente. O nosso verbo ser é anômalo (cf. Pág. 107) porque, nas
suas flexões, pede o concurso de dois verbos: esse e sedére; também ir
está
neste caso, pois, além de suas formas próprias, possui as dos verbos vadére
e esse.
A intensidade, a quantidade e o timbre e os elementos mórficos. -
Muitas vezes, em lugar de uma forma lingüística, a intensidade, a quantidade
e o timbre servem para ressaltar uma noção gramatical. já vimos,
na pág. 54, como o acento intensivo se mostra decisivo para distinguir
o
121
adjetivo, o verbo e o substantivo em sábia, sabia e sabiá.
A maior demora numa sílaba em regra traduz uma ênfase no significado
da palavra (cf. pág. 55):
"Idiota 1 Trezentos e sessenta contos não se entregam nem à mão de Deus
Padre 1
Idiota 1 Idioota 1... Idi~ota...- (M. LOBATO, Cidades Mortas, 219).
A desinència do mais-que-perfeito do indicativo -ra- (variante -re, cf.
pág- 113) difere da semelhante que ocorre no futuro do presente, Porque
aquela é átona e esta é tônica: cantara (cant-a-ra) e cantará (cant-a-rá),
cantaras (cant-a-ra-s) e cantarás (cant-a-rá-s).
A mudança de timbre concorre com a desinéncia da palavra para
caracterizar o gênero, o número ou a pessoa do verbo: caroço (singular
com o tônico fechado) --> caroços (plural com o tônico aberto).
ovo -> ovos; firo --> feres. Em avdlavó a mudança de timbre foi o único
elemento
empregado para distinguir o gènero. Em Portugal, em geral, é o timbre
aberto
ou fechado da vogal tônica que distingue a 1.a pess. plur. do presente
do ind. e do
pret. perfeito dos verbos da 1.a e 2.a conjugações: levamos (à) (presente) ,
levamos (à)
(pretérito), devemos (é) (presente), devemos (é) (pretérito). No Brasil
não fazemos
em regra esta distinção, que fica, em geral, a cargo de advérbio adequado.
B) 2 - Formação de palavras
Palavras indivisíveis e divisíveis. - INDIVISNEL é a palavra que só
possui como elemento mórfico o radical: mar, sol, ar, é, hoje, lápis,
livro.
DIVISíVEL é a palavra que, ao lado do radical, pode desmembrar-se em
outro ou outros elementos mórficos:
mares (mar-e-s), alunas (alun-a-s), trabalUvamos (trabalh-d-va-mos).
Palavras divisíveis simples e compostas. - Diz-se SIMPLEs a palavra,
divisível que só possui um radical. Os outros elementos mórficos que a
compõem ou são de significação puramente gramatical ou acrescentam
ao radical a idéia subsidiária que denotam os afixos (prefixos ou sufixos).
Por causa desta nova aplicação de sentido que os afixos comunicam
ao radical, as palavras simples se dividem em primitivas e derivadas.
174
#
Primitiva é a palavra simples que não resulta de outra dentro da
língua portuguesa:
livro, belo, barcDerivada é a palavra simples que resulta de outra
fundamental:
livraria, embelezar, barquinho.
122
ComposTA é a palavra que possui mais de um radical:
guarda-chuva, lanigero, planalto, fidalgo.
Tanto as palavras simples (primitivas ou derivadas) como as com.
postas podem ser acrescidas de desinéncias, que servem para exprimir uma
categoria gramatical (flexão) que, nos nomes e pronomes, traduz as noções
de género e número e, nos verbos, número, pessoa, tempo e modo:
a) primitivas flexionadas: livros, meninas
b) derivadas flexionadas: livrarias, meninadas
c) compostas flexionadas: couves-flores, guarda-livros, fidalgas
Quando a palavra é constituída de vários elementos mórficos, cabe,
antes de mais nada, estabelecer o princípio dos constituintes imediatos
(cf.
pág. 171). Analisando, por exemplo, fidalgotes, estabeleceremos que a
palavra é primeiramente formada de fidalgote + desinéncia do plural s,
através de fidalg(o) + sufixo diminutivo -ote e finalmente da locução
filho de algo.
Proceam de formação de palavras. - Dois são os principais processos
de formação de palavras em português:
a) composição
b) derivação
A COMPOSIÇÃO consiste na criação de uma palavra nova composta por
meio de duas ou mais outras cujas significação depende das qIje encerram
as suas componentes.
1) Substantivo + substantivo:
a) C~ENAÇÃO: 1 - (quando o determinante precede): mãe-pdtria,
papel-moeda;
2 - (quando o determinante vem depois): peixe-espada, carro-dormitório,
couve-flor,
b) SUBORDINAÇÃO: arco-íris, estrada de ferro, pdo-de-ló.
2) Substantivo + adjetivo (ou vice-versa):
aguardente, obra-prima, fogo-fátuo, belas-artes, baixa-mar,
boquiaberto.
3) Adjetivo + adjetivo:
surdo-mudo, luso-brasileiro, auriverde.
175
#
4) Pronome + substantivo:
Nosso Senhor, Sua Excelència.
5) Numeral + substantivo (inclusive numeral latino):
onze-letras (alcoviteira), segunda-feira, bisneto, trigêmeo,
sesquícentenário
123
(sesqui = um e meio).
6) Advérbio (bem, mal, sempre) + substantivo, adjetivo ou verbo:
benquerença, benquisto, bem.querer, malcriação (inutilmente corrigido
para má-criação),
malcriado, sempre-viva.
7) Verbo + substantivo.
lança-perfume, porta-voz, busca-pé, passa-tempo.
8) Verbo + verbo ou verbo + conjunção + verbo:
vaivém, leva-e-traz, corre-corre.
9) Verbo + advérbio:
pisa-mansinho, ganha-pouco.
10) Um grupo de palavras ou uma frase inteira pode condensar-se numa
classe de palavra:
um Deus-nos-acuda, mais vale um toma que dois te darei, os
disse-me-disse.
Como já vimos na pág. 170, a associação dos componentes das palavras
compostas se pode dar por:
a) justaposição: guarda-roupa, mãe-pátria, vaivém.
b) aglutinação: planalto, auriverde, fidalgo.
"Na análise mórfica de um composto por justaposição, separam-se
primeiramente as duas palavras, e, depois, procede-se à separação de cada
uma delas, se são divisíveis"(').
Derivação. - Derivação consiste em~ formar palavras de outra primitiva
por meio de afixos.
Os afixos; se dividem, em português, em prefixos (se vêm antes do
radical) ou sufixos (se vêm depois). Daí a divisão em derivação prefixal
e sufixal.
DERivAçÃo SUFIXAL: livraria, livrinho, livresco.
DERIVAÇÁO PREFIXAL: reter, deter, conter.
OBsERvAçÃo: Como vimos na pág. 169, os prefixos assumem um valor
significativo
que empresta ao radical um novo sentido, patenteando, assim, a sua natureza
de ele.
mento mórfico de significação externa subsidiária.
Baseados nisto, a gramática antiga e vários autores modernos fazem da
prefixação
um processo de composição de palavras.
(1) J. MATOSO CÂmARA Jr., Teoria da Andlise Léxica, 94.
176
#
124
Sufixos. - Os sufixos dificilmente aparecem com uma só aplicação;
em regra, revestem-se de múltiplas acepções e empregá-los com exatidão,
adequando-os às situações variadas, requer e revela completo conhecimento
do idioma. A noção de aumento corre muitas vezes paralela à de coisa
grotesca e se aplica às idéias pejorativas: poetastro, mulheraça. Os
sufixos
que formam nomes diminutivos traduzem ainda carinho: mãezinha, paizinho,
maninho. Por fim, cabe assinalar que temos sufixos de várias
procedências, sendo os latinos e gregos os mais comuns.
I - Principais sufixos formadores de substantivos.
1) Para a formação de nomes de agente:
-dor, -tor, -sor, -or: narrador, genitor, ascensor, cantor
-nte estudante, requerente, ouvinte
-ista dentista, jornalista
-eira, -eiro : lavadeira, padeiro
-dria, -drio : bibliotecária, secretário
2) Para a formação de nomes de ação ou resultado de ação; estado;
qualidade:
a) Derivados de verbo:
-ção, -são : coroação, perdição, compreensão
-mento : casamento, descobrimento
-ura, -dura, -tura : feitura, mordedura, formatura
-ança (-dncia), -ença (-ência): mudança, esperança. parecença, abundância
b) Derivados de substantivo:
-ada laçada, braçada
-ura cintura
c) Derivados de adjetivos :
-ismo : charlatanismo, civismo
-tude, -dão: amplitude, amplidão, solidão
-ura : doçura, brancura
-e.-a, -ez: beleza, viuvez
3) Para significar lugar, meio, instrumento:
-douro, -doura: bebedouro, manjedoura _or corredor
-tério : necrotério 41 covil
-tório : dormitório 1
4) Para significar abundància, aglomeração, coleção:
-aria, -ario, -cria : cavalaria, infantaria (ou infanteria), casario
-al: laranjal, cipoal
-edo : arvoredo
-io: mulherio
-ame, -ume, -um: velame, ers-um, mulherum, hornum, negrume
-agem : folhagem
-ada boiada
-aço chumaço
177
#
125
5) Para significar causa produtora, lugar onde se encontra ou se faz
a coisa denotada pela palavra primitiva:
-drio : relicário, herbanário
-eiro, -eira : açucareiro, chocolateira
-aria : livraria, mercearia
6) Para formar nomes de naturalidade:
-ano, -Jo, -eu: pernambucano, coimbrâo, liebreu, caldeu.
-ense, -és: cearense, (português -enho: estremenho)
-ista : paulista
-ol: espanhol
-oto: minhoto (6)
-ato: maiato (natural de Maia)
-ino: platino, bragantino
-eiro : brasileiro
-eta : lisboeta
7) Para formar nomes que indicam maneira de pensar; doutrina que
alguém segue; seitas; ocupação relacionada com a coisa expressa pela palavra
primitiva:
-ismo: cristianismo, classicismo
-ista : socialista, espiritista
-ano: maometano, anglicano
8) Para formar outros nomes técnicos usados nas ciências:
-ite: emprega-se para as inflamações. pleurite, rinite, bronquite.
-ema: é utilizado nos modernos estudos de linguagem com o sentido de
"mínima
unidade distintiva": fonema (menor unidade de som); morfema (menor unidade
significativa de forma).
-oso e -ico: distinguem óxidos, anídridos, ácidos e sais, reservando-se
o último para
os compostos que encerrem maior proporção do metalóide empregado; ex.:
cloreto
mercuroso, cloreto mercúrico. Ato, -eto, -ito formam nomes de s.-.is:
cIorato, cloreto,
clorito. Ex.: clorato de potássio, cloreto de sódio. Para os sais de
enxofre usa-se o
radical sulf: sulfeto, sulfito, e não sulfur, que é forma latina. Ex.:
sulfato de quinino,
hipossulfito de sódio. Para os de fósforo usa-se o radical fosf, para os
de flúor flu: fosfato,
fluato. Para os de carbônio, o uso vulgar aceitou as formas carbonato,
bem
derivada, e carbureto (em vez de carboneto), que denota influência
francesa. Ex.: bicarbonato
de sódio, carbureto de cálcio. Énio caracteriza carbonetos de
hidrogénio, ex : :
acetilênio, etilênio, metilênio, etc. Ilio aparece em certos compostos
126
chamados radicais
químicos, como amílio, metílio, etc. Ina se encontra em alcaIóides e
álcalis artificiais,
ex.: atropina, alcalóide da beIadona; cafeína, do café; cocaína, da coca;
codeína, da
papoula; conicina, da cicuta; estricnina, da noz-vômica; morfina, da
papoula; nicotina,
do fumo; quinina, da quina; teína, da árvore do chá, etc.: anilina,
alizarina, etc. Io
aparece em corpos simples, ex.: silício, telúrio, selénio, sódio, potássio,
etc. O1 se
encontra em derivados de hidrocarbonetos, ex.: fenoI, naftol, etc. A
mineralogia e a
geologia têm também sufixos tomados em sentidos particulares: -ita para
espécies
minerais, ex.: pirita; -ito para as rochas, ex.: granito e -ite para
fósseis, ex.: amonite(l).
-oma designa tumor: epitelioma
(1) ANTzNoR NASCZNTZS, O Idioma Nacional, 3.a ed., 123-124.
178
#
II - Principais sufixos de nomes aumentativos e diminutivos:
1) Aumentativos:
-do, -zão : cadeiráo, homenzão
-arro, -arrão, -zarrão : naviarra, bebarro, santarrão, coparráo,
homenzarrão
-eirílo : vozeirão
-aço, -aça : ricaço, barcaça, copaço
-astro : poetastro, politicastro
-alho, -alha, -alhão: politicalho, muralha, grandalháo
-anzil : corpanzil
-dzio : copázio
-uça: dentuça
-eima: guleima, guloseima, boleima
-anca: bicanca
-asco : penhasco
-az: fatacaz
-ola : beiçola
-orra : cabeçorra
-eirílo: chapeirlo, toleirão
2) Diminutivos:
-inho, -zinho, -im, -zim : livrinho, florzinha, espadim, valzim (1)
-ito, xito : copito, amorzito
-ico: namorico, veranico
-isco : chuvisco, petisco
-eta, -ete, -eto : saleta, diabrete, livreto
127
-eco : livreco, padreco
-ota, -ote, -oto : ilhota, caixote, perdigoto
.ejo: lugarejo, animalejo
-acho : riacho, fogacho
-ela : magricela
-iola : arteríola
-ola : camisola (também tem sentido aumentativo quando designa a camisa
longa de dormir), rapazola (cf. -íola)
-ucho: gorducho, papelucho
-ebre : casebre
-ula, -ulo, -cula, -culo: nótula, glóbulo, radícula, corpúsculo
-alho, -elho, -ilho, -olho, -ulha : ramalho, rapazelho, pesadilho,
ferrolho, bagulho
-aça, -aço, -iça, -iço : fumaça, caniço, nabiça
-el: cordel
(1) Se o vocábulo é masculino e termina em -a, este a reaparece quando
se lhe acrescenta
o sufixo -inho. O mesmo acontece se é feminino em -o ou singular
em -3: Jarbas -.> Jarbinhas;
Carmo (Jolo do) --> Carminho; o Maia -+ o Mainha. (Nota que me
foi fornecida por
Martinz de Aguiar.)
179
#
III - Principais sufixos para forinar adjetivos:
-(d)io, -(d)iço: fugidio, movediço (todos tirados do tema do particípio
-vel, -bil: notável, crível, solúvel, flébil, ignóbil
-ento, -(1)ento: cruento, corpulento
-oso: bondoso, primoroso
-onho: medonho, risonho
-az: mordaz, voraz
-udo: barrigudo, cabeçudo
4cio : acomodatícío
-drio, -eiro : diário, ordinário, verdadeiro, costumeiro
-ano: humano
-esco, -isco: dantesco, principesco, mourisco
-ático: problemático, aromático
-eno terreno
-ico público
-engo : mulherengo, avoengo
-al, -ar: anual, escolar
-aico : prosaico
-estre : campestre
-este : celeste
-douro: vindouro, imorredouro
-tório : expiatório, satisfatório
-ivo : afirmativo, lucrativo
-eícea,, -úceo (em família de plantas) : liliáceas, papilonáceos
128
IV - Principais sufixos para foi-mar verbos:
1) Para indicar ação que deve ser praticada ou dar certa qualidade
a uma coisa (verbo causativo):
-ant (ar): quebrantar
-it (ar): periclitar, debilitar
-iz (ar): civilizar, humanizar, realizar
2) Para indicar ação repetida (verbos freqüentativos):
-aç (ar): espicaçar, adelgaçar
ej (ar): mercadejar, voejar
3) Para indicar ação pouco intensa (verbos diminutivos):
it(ar): saltitar, dormitar
OBSERVAÇÃO: Muitos verbos exprimem esta idéia por se formarem de nomes
diminutivos:
petisco + ar = petiscar; chuvisco + ar = chuviscar; cuspinho +
ar =
cuspinhar.
4) Para indicar início de ação ou passagem para um novo estado ou
qualidade (verbos incoativos):
ec(er): alvorecer, anoitecer, apodrecer, endurecer, enfurecer
esc (er): florescer
180
#
V - Sufixo para formar advérbio:
-mente (junta-se a adjetivo na forma feminina, quando houver):
claramente, sinceramente, sossegadamente, simplesmente, horrivelmente,
enormemente,
primeiramente.
OBSERVAÇÃO: Os nomes terminados em -és e alguns terminados em -or, porque
110 português antigo só tinham uma forma para os dois gêneros, não se
apresentam
110 feminino: portuguesmente, superiormente.
Os advérbios em -mente podem ser distribuídos em três classes, conforme
o sentido
(10 adjetivo de que se forma(l):
1) exprimem uma idéia de qualidade: claramente, sinceramente,
simplesmente,
horrivelmente;
2) exprimem uma idéia de quantidade ou medida: copiosamente,
imensamente,
enormemente;
129
3) exprimem uma idéia de relação de dois seres independente um do outro;
entre
as idéias de relação citamos as de tempo e lugar: primeiramente,
anteriormente,
atualmente.
Prefixos. - Os principais prefixos que ocorrem em português são de
procedência latina ou grega, sendo que muitos dos primeiros correspondem
a preposições portuguesas. Ainda que os prefixos latinos tenham o mesmo
sentido de seus correspondentes gregos, formando assim palavras sinônimas,
estas em regra não se podem substituir mutuamente, porque têm
esferas semânticas diferentes.
Assim é que transformação e metamorfose, circunferência e periferia,
composição e síntese são sinônimos, a rigor, mas não se aplicam indistintamente:
transformação, por exemplo, é de emprego mais amplo que metamorfose.
PREFIXOS E ELEMENTOS LATINOS
abs, ab (afastamento, separação): abstrair, abuso
ad, a (movimento para aproximação; adicionamento; passagem para outro
estado; às
vezes não tem significação própria): adjunto, apor
OBSERVAÇÃO: Não confundir com o a sem significação de certas palavras
como
alevantar, assentar, atambor
ante (anteriormente, procedência - no tempo ou no espaço): ante-sala,
antelóquio,
antegozar, antevéspera
ambi (duplicidade): ambigüidade, auibidestro
bem, ben (bem, excelência de um fato ou ação): bendizer, benfazejo
circum, circu (em roda de): circunferência, circulação
áç (posição aquém): cisalpino, cisatlântico, cisandino
OBSERVAÇÃO: Ocorre como antônirao de trans: transatlântico -
cisatlântico.
com, con-, co- (companhia, sociedade, concomitincia): compadre,
companheiro, condutor,
colaborar
(1) H. NILSSON-EHLF, Les Adverbes en -tnepit compliments Wun verbe, 17-18.
181
#
contra (oposição, situação fronteira; o a final pode passar a o diante
de certas derivações
do verbo): contramarchar, contrapor, contramuro, controverter.
Em contradança
não ocorre o prefixo contra; o vocábulo nos veio do francês
contredanse,
do inglês country-dance (dança rústica), por etimologia popular, talvez
130
devida ao
fato de os pares se defrontarem uns com os outros (daí o francês contre).
de- (movimento para baixo, separação,
intensidade, negação): depenar, decompor. Às
vezes alterna com des-: decair - descair
de(s)-, di(s)- (negação, ação contrária, cessação de um ato ou estado,
separação, abla O,
intensidade): desventura, discordância, difícil (dis + fácil),
desinfeliz, desfear
(= fazer muito feio), demudar (= mudar muito)
es-, e-, ex- (movimento para
fora, mudança de estado, esforço): esvaziar, evadir, expatriar,
expectorar, emigrar, esforçar
OBSERVAÇÃO: Às vezes alterna-se com des-: escampado - descampado;
esguedelhar
- desguedelhar; esmaiar - desmaiar; estripar e destripar
em-, en-; e-, in- (movimento para dentro, passagem para um estado ou forma,
guarnecimento,
revestimento): embeber, enterrar, enevoar, ingerir
extra- (fora de, além de; superioridade; o a final passa, às vezes, a o):
extradição,
extralegal, extrafino, extroverter
im-, in-, i- (sentido contrário, negação, privação): impenitente,
incorrigível, ilegal,
ignorância, imigrar
intra- (posição interior, movimento para dentro; o a final passa, às vezes,
a o):
intramuscular, introverter, introduzir
inter-, entre (posição no meio, reciprocidade): entreter, interpor,
intercâmbio
ob-, o- (posição em frente): obstar,
opor
per- (através de, coisa ou ação completa, intensidade): percorrer,
perfazer, perdurar,
persentir (sentir profundamente)
pos- (posição posterior, no tempo e no espaço): postónico, pós-escrito
pre- (anteriormente, antecedência, superioridade): prefácio, prever,
predomínio
pro- (movimento para frente, em lugar de, em proveito de): progredir,
projeção
re- (movimento para trás, repetição,
reciprocidade, intensidade): regredir, refazer, ressaudar
(saudar mutuamente), ressaltar, rescaldar (escaldar muito)
retro- (para trás): retroceder, retroagir
semi- (metade de, quase, que faz as vezes de): semicírculo, semiliárbaro,
semivogal
so., sob-, sub-, sus-, su- (em
baixo de, imediatamente abaixo num cargo ou função;
inferioridade, ação pouco intensa): soterrar, sobestar, submarino,
sustentar, supor
sobre-, super-, supra- (posição superior, saliência, parte final de um
ato ou fenômeno;
em seguida; excesso): sobrestar, superfície, supracitado, superlotado
soto-, sota- (posição inferior, inferioridade; logo após): sotopor,
sotomestre, sota-voga,
trans-, tras-, tres-, tra-, tre- (além de, através de, intensidade):
131
transportar, traduzir,
transladar, trespassar, tresler, tresgastar
OBSMVAÇõES:
1.a) Não se há de confundir três (numeral) com tres (de trans):
tresdobrar
(triplicar);
2.a) Às vezes trans é empregado como antónimo de cis: transalpino e
transandino,
por exemplo, opõem-se a cisalpino
e cisandino;
3.a) Também em certas palavras se podem alternar as variantes deste
prefixo:
transpassar, traspassar, trespassar.
ultra- (além de, excesso, passar além de): ultrapassar, ultrafino
vice-, vis- (em lugar de, imediatamente abaixo num cargo ou função):
vice-presidente,
visconde
182
i
I
I
f
I
#
PREFIXOS E ELEMENTOS GREGOS
a, an, este último antes de vogal (privação, negação, insuficiência,
carência, contradição):
afônico, anemia, anônimo, anóxia, amoral
ana (inversão, mudança, reduplicaçâo): anabatista, anacrônico, analogia,
anatomia
anfi (duplicidade, ao redor, dos dois lados): anfíbio, anfibologia,
anfiteatro
anti (oposição, ação contrária): antídoto, antártico, antípodas,
anti-aéreo
apo (afastamento): apologia, apocalipse
arqui, arce (superioridade hierárquica, primazia, excesso): arquiduque,
arquimilionário,
arcediago
cata (movimento para baixo): catacumba, catarata, católico
di (duplicidade): dilema, dissílabo, ditongo
did (através de): diálogo, diagrama
OBsERvAçÃo: Pensando-se que didIogo é conversa de dois, tem-se empregado
erradamente
triálogo para conversa de três.
132
dis (dificuldade): dispepsia, disenteria
ec-, ex-, exo-, ecto (exterioridade, movimento para fora): eczema, exegese,
êxodo, exógeno,
ectoderma
en-, em-, e- (interioridade): encômio, encíclica, enciclopédia, emblema,
elipse
endo (movimento em direção para dentro): endocarpo, endovenosa
epi (sobre, em cima de): epiderme, epitáfio
eu (excelência, perfeição, bondade): eufonia, euforia, eufemismo
hemi (metade, divisão em duas partes): hemiciclo, hemisfério
hiper (excesso): hipérbole, hipérbato
hipo (posição inferior): hipocrisia, hipótese, hipoteca
meta (mudança, sucessão): metamorfose, metáfora, metonímia
para (proximidade, semelhança, defeito, vício, intensidade): parábola,
paradigma, paralela,
paramnésia
peri (em torno de): perímetro, período, periscópio
pro (anterioridade): prólogo, prognóstico, profeta
pros (adjunção, em adição a): prosélito, prosódia
proto- (início, começo, anterioridade): protótipo, proto-história,
proto-mártir
poli- (multiplicidade): polissílabo, politeísmo
sin-, sim-, (conjunto, simultaneidade): sinagoga, sinopse, simpatia,
silogeu
tele- (distância, afastamento, controle feito a distância): telégrafo,
telepatia, teleguiado.
Correspondência entre prefixos e elementos latinos e gregos.
LATINOS
des, in : desleal, infeliz
contra: contrapor
ambi: ambigüidade
a b : abuso
bi (s): bilabial
trans: transparente, transformação
183
GREGOS
a, an: amoral, anemia
anti : antipatia
anfi: anfibologia
apo : apogeu
di: dissilabo
did, meta: diáfano, metamorfose
#
in . ingressar
intra : intramuscular
133
ex : exportar
super, supra : superfície, supralingual,
superlotar
bene benefício
semi semicírculo
sub: subterrâneo
*ad : adjetivo
circum : círcunfêrencia
de: depenar
CUM : composição
en : enc6falo
endo. endovenoso
ec, ex : ~xoto
epi, hiper: cpiderme, hipertrofia
eu : eufonía
hemi hemisfério
hipo hipótese
para paralelo
peri periferia
cata catarata
sin : síntese
Derivação parassintética. - Chama-se derivação parassintética aquela
que consiste em formar vocábulos com o auxílio simultâneo de prefixo e
sufixo: anoitecer, endurecer, empobrecer, enriquecer.
Este processo é normalmente formador de verbos que saem de substantivos
(anoitecer) ou de adjetivos (endurecer).
Os prefixos que em geral entram nos parassintéticos são es-, em- e a-.
Com em- predomina a idéia de "Passar de um estado a outro": enriquecer
(passar a rico).
O princípio dos constituintes imediatos (cf. pág. 171) facilmente
estabelece a inexistência de parassintéticos em formas como deslealdade,
descobrimento ou injustiça. A NGB não agasalhou os parassintéticos.
Outros processos de formação de palavras. - Além dos processos
gerais típicos de formação de palavras, possui o português mais os seguintes:
formação regressiva, abreviação, reduplicação e conversão.
Intimamente relacionada com a derivação temos a formação regressiva,
que consiste em criar palavras por analogia, através de subtração de algum
sufixo' dando a falsa impressão de serem vocábulos derivantes; de atrasar
tiramos atraso, de embarcar, embarque; de pescar, pesca; de gritar, grito.
Assim também os vocábulos rosmaninho e sarampão foram tomados, respectivamente,
como-diminutívo e aumentativo, e daí se tiraram as formas
regressivas rosmano e sarampo, como falsos primitivos.
O Prof. Saíd Ali distribui os vocábulos de formação regressiva em
quatro grupos:
"1.0)Masculino em -o: atraso, assento, emprego, vôo, esforço, choro, degelo,
remo,
mergulho, suspiro, mando, confronto, rodeio, galanteio, festejo,
gargarejo, etc.
2~0) Masculino em -e: embarque,
desembarque, combate, corte, toque, etc.
3.0)Feminino em -a: amarra, pesca, sobra, súplica, leva, engorda, desova,
renúncia,
134
rega, esfrega, entrega, escolha, etc.
4.0)Masculinos e femininos: pago, paga, custo, custa, troco, troca, achego,
achega,
grito, grita, ameaço, ameaça"(1).
(1) Gram. Ser., 163.
184
#
Várias são as aplicações dos verbos auxiliares da língua portuguesa:
1 - ter, haver (raramente) e ser (mais raramente) se combinam
com o particípio do verbo principal para constituírem novos tempos, chamados
compostos, que, unidos aos simples, formam o quadro completo
da conjugação da voz ativa. Estas combinações exprimem que a ação
verbal está concluída.
Indicativo
Temos nove formas compostas:
a) pretérito perfeito composto: tenho ou hei cantado, vendido, partido;
b) pretérito maís-que-perfeito: tinha ou havia cantado, vendido, partido;
c) futuro do presente composto: terei ou haverei cantado, vendido,
partido;
d) futuro do pretérito composto: teria ou haveria cantado, vendido,
partido;
Subjuntivo
e) Pretérito Perfeito: tenha ou haja cantado, vendido, partido;
f) Pretérito mais-que-perfeito : tivesse ou houvesse cantado, vendido,
partido;
g) futuro composto: tiver ou houver cantado, vendido, partido;
Formas nominais
h) infinitivo composto: ter ou haver cantado, vendido, partido;
i) gerúndio composto: tendo ou havendo cantado, vendido, partido.
O verbo ser só aparece em combinações que lembram os depoentes
latinos, sobretudo com verbos que denotam movimento: "Os cavaleiros
eram partidos caminho de Zamora" (A. F. de Castilho, Quadros Históricos,
1, 101). Era chegada a ocasião da fuga. Sio passados três meses.
2 - ser, estar, ficar se combinam com o particípio (variável em
gênero e número) do verbo principal para constituir a voz passiva (de
ação, de estado e mudança de estado): é amado, está prejudicada, ficaram
rodeados.
3 - os auxiliares acurativos se combinam com o infinitivo ou gerúndio
do verbo principal para determinar com mais rigor os aspectos do
momento da ação verbal que não se acham bem definidos na divisão geral
135
-de tempo presente, passado e futuro:
a) início de açjo: começar a escrever, por-se a escrever, etc.;
b) iminéncia de açjo: estar para (por) escrever, etc.;
c)desenvolvimento gradual da ação; duraçjo: estar a escrever, andar
escrevendo, vir escrevendo, ir escrevendo, etc.
OBSERVAÇÃO: No Brasil prefere-se a construção com gerúndio (estar
escrevendo),
-enquanto em Portugal é mais comum o infinitivo (estar a escrever).
III
#
d)repetição de ação: tornar a escrever, costumar escrever (repetição
habitual), etc.;
e)término de ação: acabar de escrever, cessar de escrever, deixar de
escrever, parar de escrever, vir de escrever, etc.
Vir de + infinitivo é construção antiga no idioma e valia por voltar
de (ou
chegar) + infinitivo: "De amor dos lusitanos encendidas/ Que vêm de
descobrir o
novo mundo" (CAmõEs, Lusíadas, lX, 40). Depois passou a significar acabar
de + infinítivo
e, porque em francês ocorre emprego semelhante, passou a ser,
neste sentido,
condenado como galicismo pelos gramáticos: "eu, aos doze anos, vinha de
perder meu
pai" (CAmiLo apud H. GRAÇA, Factos da Linguagem, 462).
4 - os auxiliares modais se combinam com o infinitivo ou gerúndio
do verbo principal para determinar com mais rigor o modo como se
realiza ou se deixa de realizar a ação verbal:
a)necessidade, obrigação, dever: haver de escrever, ter de escrever,
dever escrever, precisar (de) escrever, etc.
OBSERVAÇÃO: Em vez de ter ou haver de + infinitivo, usa-se ainda, mais
modernamente,
ter ou haver que + infinitivo: Tenho que estudar. Neste caso,
que, como
introdutor de complemento de natureza nominal, funciona como verdadeira
preposição.
Não se confunda este que preposição com o que pron. relativo em construçóes
do
tipo. nada tinha que dizer, tenho muito que fazer, etc. Para esta última
linguagem,
ver o que se disse na pág. 245.
b) Possibilidade ou capacidade:
poder escrever, etc.
c)vontade ou desejo: querer escrever, desejar escrever, odiar escrever,
136
abominar escrever, etc.
d)tentativa ou esforço: buscar escrever, pretender escrever, tentar
escrever, ousar escrever, atrever-se a escrever, etc.
e) consecução: conseguir escrever,
lograr escrever, etc.
f) aparência, dúvida: parecer escrever,
etc.
g)movimento para realizar um intento futuro (próximo ou remoto):
ir escrever, etc.
h) resultado: vir a escrever, chegar
a escrever, etc.
Vir a + infini , tivo de certos verbos tem quase o mesmo sentido do verbo
principal
empregado sozinho: Isto vem a traduzir a mesma idéia (= isto por fim traduz
a mesma
idéia). Vir a ser pode ainda ser sinônimo de tornar-se: Ele veio a ser
famoso.
NorrA FINAL - Nem sempre a aproximação de dois ou mais verbos constitui
uma
locução verbal; a intenção da pessoa que fala ou escreve é que determinará
a existência
da locução. "Por exemplo, na frase: queríamos colher rosas, os
verbos queríamos
colher constituirão expressão verbal se pretendo dizer que queríamos
colher rosas e
não outra flor, sendo rosas o objeto da declaração. Se, porém, pretendo
dizer que o
que nós queríamos era colher rosas e não fazer outra cousa, o objeto da
declaração é
colher rosas e a declaração principal se contém incompletamente em
queríamos" (JosÉ
OITICICA, Manual de Análise, 202-203).
112
#
Auxiliares causativos e sensitivos. - Assim se chamam os verbos
deixar, mandar, fazer e sinônimos (causativos) e ver, ouvir, olhar, sentir
e sinônimos (sensitivos) que, juntando-se a infinitivo ou gerúndio, não
formam locução verbal, mas, muitas vezes, se comportam sinteticamente
como tal.
Elementos estruturais do verbo: desinências e sufixos verbais. - Ao
radical do verbo, que é o elemento que encerra a sua significação, se juntam
as formas mínimas chamadas desinências para constituir as flexões do
verbo, indicadoras da pessoa e número, do tempo e modo.
Chama-se vogal temática aquela indicadora da conjugação:
137
1.a a : cant-a-r
2.a . : vend-e-r
3.a i: part-iA vogal temática presa ao radical
constitui o tema:
canta-r, vende-r, parti-r.
Nem todas as formas verbais possuem a vogal temática, como, por
exemplo, a 1.a pessoa singular do presente do indicativo e do subjuntivo.
As vogais e e a em cant-e, vend-a, paft-a são desinências temporais (veja
abaixo). Outras vezes a vogal temática sofre variação: o a passa a e no
pret. perf. do ind. da 1.a conj. em contato com i, e passa a o em contato
com u; cant-ar, cant-e-i, cant-o-u; o e passa a i no pret. imperfeito do
ind.
e particípio da 2.a conjugação: vend-e-r, vend-i-a, vend-i-do. A vogal
temática
i da 3.a conjugação passa a e quando átono, no pres. ind. (2.a e 3.a
sing. e 3.a plural) e imperativo (2.a p.): part-e-s, part-e, part-e-m,
part-e.,
se é tônico, nos mesmos casos, funde-se com o i da desinência is da 2.a
pessoa do plural: partis por part-i-is.
O tema é a parte da palavra pronta para receber o sufixo ou a
desinência.
Sufixo verbal é o que entra na formação dos verbos derivados:
salt-it-ar, real-iz-ar, etc. (Cf. pág. 180).
As desinências modo-temporais são:
a)va(ve) caracteriza o imperfeito do indicativo da 1.a conjugação:
canta-va (1);
b)-a- (e), variação do anterior, caracteriza o imperfeito do indicativo
da 2.a e 3.a
conjugação: devi-a, parti-a;
C)-ra- (re) átono caracteriza o mais-que-perfeito do indicativo:
canta-ra, vende-ra, parti-ra; cantá-reis;
d) -sse caracteriza o imperfeito do subjuntivo: canta-sse, vende-sse,
parti-sse;
(1) Pomos entre parènteses a variante
do morferna ou alomorfe. (V. pág. 210).
113
#
e)-ra- (re) tônico caracteriza o futuro do presente: canta-re-i,
canta-rá-s, canta-rã-o, deve-re-i; parti-re-i;
f)-ria- (rie) caracteriza o futuro do pretérito: canta-ria, deve-ria,
parti-ria;
9) -e- caracteriza o presente
do subjuntivo da 1.a conjugação: cant-e;
h) -a- caracteriza o presente
do subjuntivo da 2.a e 3.a conjug.: vend-a,
part-a;
i) -r- caracteriza o futuro
do subjuntivo: canta-r, vende-r, parti-r.
138
OBSERVAÇõES:
1.a) Nem todas as formas verbais se apresentam com desinéncias e vogal
temática.
2.a) As características temporais terminadas em -a (imperf., m.-q.-Perf.
do ind.
e futuro apresentam esta vogal alterada em e na 2.a pessoa do plural, graças
ao contato
com a desinéncia pessoal -is que provoca a ditongação eis: eu cantava,
vós cantílveis;
eu devia, vós devíeis; eu partia, vós pardeis; eu cantara, vós cantáreis;
eu cantaria, vós
cantaríeis). O mesmo ocorre com a 1.a pess. do fut. do presente:
cant-a-re-i.
3.a) As desinências pessoais (d. abaixo) do pretérito perfeito servem,
por acumulação,
para caracterizar o tempo do verbo.
As desinências número-pessoais são:
PLURAL
1.a Pessoa: -, -o (só no pres. ind.), -i (96 no pret. perf. do
ind. e
futuro do presente) (1)
SINGULAR 2.a pessoa: -5, -es (96 no fut. do subj. e inf. flex.), -ste
(só no pret.
perf. do ind.)
3.a pessoa: -, -u (só no pret. perf. do ind.)
1.8 pessoa: -mos
2.a pessoa: -is -des (só no fut. do subj., ínf. flex. e pres. do
ind.
de alguns verbos irregulares), -stes (só no pret. perfeito
do
ind.), -i (no imperativo)
3.a pessoa: -m (indica que a vogal precedente é natal), -em (só
no
futuro do subj. e inf. flex.), -ram (só no pret. perfeito
do indicativo)
Observaçjes sobre as desinIncias número-pessoais.
1.a pessoa do singular: geralmente falta a desinéncia de 1.a pessoa
do singular, exceto no presente do indicativo, onde aparece a desinéncia
-o:
cant-o, vend-o, part-o
No pretério perfeito do indicativo e futuro do presente aparece a
desinéncia -i :
cante-i, vend-i, part-i
canta-re-i, vende-re-i, parti-re-i
2.a pessoa do singular: a desinéncia é -s; no futuro do subjuntivo e
infinitivo aparece -es e no pretérito perfeito do indicativo -ste :
cant-a-s, cant-a-r-es, cant-a-ste.
vend-e-s, vend-e-r-es, vend-e-ste.
part-e-s, part-i-r-es, part-i-ste.
139
(1) O travessia Indica ausência de desinéncia.
114
#
3.a pessoa do singular: geralmente falta a desinência de 3.a pess. do
singular; só o pretérito perfeito do indicativo é que apresenta -u :
cant-o-u, vend-e-u, part-i-u
1.2 pessoa do plural: a desinéncia é sempre -mos:
cant-a-mos, vend-e-mos, part-i-mos
2.a pessoa do plural: a desinéncia é -is; aparece -des no futuro do
subjuntivo, infinitivo flex. e no presente do indicativo de alguns verbos
irregulares (ter, vir, por, ver, rir, ir); o pret. perfeito do indicativo
apresenta
-stes e o imperativo -i (na 3.a conj. há crase com a vogal temática):
cant-a-is, vend-e-is, part-is
cant-a-r-des, vend-e-r-des, part-i-r-des
cant-a-stes, vend-e-stes, part-i-stes
cant-a-i, vend-e-i, part-i.
3.a pessoa do plural: a desinéncia é -m, que nasaliza a vogal precedente;
no futuro do subjuntivo e infinitivo aparece em; o pret. perfeito
do indicativo apresenta -ram :
cant-a-m, vend-e-m, part-e-m
cant-a-r-em, vend-e-r-em, part-i-r-em
cant-a-ram, vend-e-ram, part-i-ram
OBsERvAçXo: No futuro do presente dá-se uma ditongação; a nasalidade
é indicada
por til e se sobrepóe à característica temporal:
cant-a-rão, vend-e-rIto, part-i-Mo
Tempos primitivos e derivados. - No estudo dos verbos, principalmente
dos irregulares, torna-se vantajoso o conhecimento das formas
verbais que se derivam de outras chamadas primitivas.
1 - Praticamente do radical da 1.a pessoa do presente do indicativo
sai todo o presente do subjuntivo, bastando que se substitua a vogal final
por e, nos verbos da 1.a conjugação, e por a nos verbos da 2.a e 3.a
conjugações:
Presente do indicativo Presente do subjuntivo
Exceções :
cantar canto cante
vender vendo venda
partir parto parta
140
ser sou seja ir vou vá
dar dou dê querer quero queira
estar estou esteja saber sei saiba
haver hei haja
115
#
2 - Praticamente da 2.a pessoa do singular e plural do presente do
índicativo saem a 2.a pessoa do singular e plural do imperativo, bastando
OBSERVAÇÃO: Os verbos em -zer ou -zir podem perder, tia 2.-a
pessoa do singula
ainda o e final, quando o z não é precedido de consoante: faze (ou faz)
tu, traduz
O imperativo em português só tem formas apenas para as segundas
pessoas; as pessoas que faltam são supridas pelos correspondentes do presente
subjuntivo. Não se usa o imperativo de 1.a pessoa do singular. As
terceiras pessoas do imperativo se referem a você, vocês e não a eles.
Também
não se usa o imperativo nas orações negativas; neste caso empregam-se
as formas correspondentes do presente do
subjuntivo:
3 - Do tema do pretérito perfeito do indicativo (que praticamen
acha suprimindo a desinência pessoal da 1.a pessoa do plural ou 2.a
se
p. do singular) saem
a) o mais-que-perfeito do indicativo,
com o acréscimo de -ra (re): ra
ra-s, ra, ra-mos; re-is; ra-m;
b) o imperfeito do subjuntivo,
com o acréscimo de -sse: sse, sse-s, sse,
sse-mos, sse-is, sse-m;
c) o futuro do subjuntivo, com o
r-des, r-em.
acréscimo de -r: r, r-es, r, i--mos,
Tepna do Pret. Perf. M.-q.-Perf. ind. Imperf, subi, Fut. subi.
vi (-mos) % ira visse vir
N ie (-mos) N iera N iesse vier
coube (-mos) coubera coubesse couber
puse (-mos) pusera pusesse puser
fo (-mos) fora fosse for
141
4 - Do infinitivo não flexionado se formam:
a) o f uturo do presente, com
o acréscimo ao tenia de ra (re) tônico:
re-i, rá-s, rã, re-mos, re-is, rã-o
116
#
b)o futuro do pretérito, com o acréscimo de -ria (rie): ria, ria-s, -ria,
ria-mos, ríe-is, ria-m.
Infinitivo
cantar
Futuro do presente
cantarei
cantarás
cantará
cantaremos
cantareis
cantarão
Futuro do pretério
cantaria
cantarias
cantaria
cantaríamos
cantaríeis
cantariam
Exceções: dizer, fazer, trazer, que fazem direi, farei, trarei, diria,
faria, traria.
c) O imperfeito do indicativo,
com o acréscimo de -va (ve), na 1.a
conj., e -a(e), na 2.a e 3.a: cant-a-va, cant-a-va-s, cant-a-va,
cant-á-va-mos,
cant-á-ve-is, cant-a-va-m
vend-i-a, vend-i-a-s, vend-i-a, vend-f-a-mos, vend-í-e-is, vend-i-a-m
part-i-a, part-i-a-s, part-i-a, part-í-a-mos, part-í-e-is, part-i-a-m.
A parte, temos:
a) ser (era, eras, etc.)
b) ter (tinha, tinhas, etc.)
c) vir (vinha, vinhas, etc.)
d) por (punha, punhas, etc.)
A sílaba tônica nos verbos: formas rizotônicas e arrizotónicas. - Ri142
ZOTÔNICA é a forma verbal cuja sílaba tônica se acha numa das sílabas do
radical:
quero, canto, canta, vendem, feito.
radical:
ARRIZOTÔNICA é a forma verbal cuja sílaba tônica se acha fora do
queremos, cantais, direi, vendido.
A língua portuguesa é mais rica de formas rizotônícas.
São normalmente rizotônicas: a) as três pessoas do singular e a 3.a
do plural do presente do indicativo a do subjuntivo, e as correspondentes
do imperativo; b) os particípios irregulares; c) a 1.a pessoa e 3.a
singular
do pretérito perfeito dos verbos irregulares fortes: coube, fiz, fez.
Nos verbos defectivos em geral faltam as formas rizotônicas.
Em vista do exposto, as três pessoas do singular e a 3.2 do plural do
pres. do indic. e subjuntivo têm sempre acentuada a penúltima sílaba:
frutifico, vociferas, sentencia, trafegam.
Exceções:
a)resfolegar e tresfolegar fazem ~esffilego, resfólegas, resfólega, resfólegam,
etc. Existem ainda as formas reduzidas resfolgar e tresfolgar,
de acentuação regular: resfolgo, tresfolgo, etc.
#
117
#
b)mobiliar faz mobilio, mobílias, mobília, mobiliamos, mibiliais,
mobiliam; mobilie, mobilies, mobilie, etc. Existem ainda as formas
mobilar (1) e mobilhar que se conjugam de acordo com a regra
geral: mobilo, mobilas; mobilho, mobilhas, etc.
Mobilar é forma de pouca aceitação entre brasileiros: "Eu vivia
encantonada na sala da frente, que ia de oitão a outro, com várias sacadas
para o largo, mobiliada (atenção revisor: não ponha 'Inobilada', que é
palavra que eu detesto) com uma cama-de-vento, uma cadeira e um lavatório
de ferro" (MANUEL BANDEIRA) (2).
Alternincia vocálica ou metafonia. - Assim se chama a mudança
de timbre que sofre a vogal do radical de um vocábulo na forma rizotônica.
Muitos verbos da língua portuguesa apresentam este fenômeno:
ferver: fervo, ferves, ferve, fervemos, fervem (o e tónico é fechado
na La pess.
143
do sing. e na 1.a e 2.a pess. do plural; nas outras, é de timbre aberto).
Na 1.a conjugaçao:
aberta:
a) a vogal a, não seguida de m,
n ou nh, vassa a ser proferida bem
falar: falo, falas, fala, falamos, falais, falam
chamar: chamo, chamas, chama, chamamos, chamais, ch am
b) ao e fechado corresponde e aberto, exceto quando não vem seguido
de m, n, nh, i, x, ch, Ih
levar. levo, levas, leva, levamos, levais, levam
remar: remo, remas, rema, remamos, remais, r am
alvejar: alvejo, alvejas, alveja, alvejamos, alvejais, alvejam
Pretextar: pretexto, pretextas, pretexta, pretextamos, pretextais,
pretextam
fechar: fecho, fechas, fecha, fechamos, fechais, fecham
aparelhar: aparelho, aparelhas, aparelha, aparelhamos, aparelhais,
aparelham
Exceções: invejar (tem e aberto); chegar, ensebar não sofrem metafonia.
Pesar, no sentido de causar tristeza, desprezar, é arrolado também
como exceção; porém, no Brasil, o uso mais corrente é conjugá-lo como
levar. Os gramáticos recomendam-no com e fechado: pesa, pesam; pese,
pesem, etc. (é verbo defectivo, só usado nas terceiras pessoas).
(1) No Brasil só por imitação literária aparece este verbo. Dele nos
diz Manuel Bandeira:
"Este lusitanismo está sendo Introduzido por certos revisores à revelia
doe autora; ;já me enxer
taram a antipática palavra numa traduç&o minha, mas eu juro que não a
escrevi, nem jamais
a escreverei: escreverei sempre 'mobiliada- (Poesia e Prosa, ed, Aguilar,
li, 441),
(2) Poesia e Prosa, 11, 459-460, ed. Aguilar.
118
#
c) a vogal o passa a o aberto quando não seguida de m, n, nh ou o
verbo não termina por -oar:
tocar: toco, tocas, toca, tocamos, tocais, tocam
sonhar: sonho, sonhas, sonha, sonhamos, sonhais, sonham
Perdoar: perdôo, perdoas, perdoa, perdoamos, perdoais, perdoam.
Na 2.a conjugação:
a) as vogais tônicas e e o soam com timbre aberto na 2.a e 3.a pessoa
144
do singular e na 3.a do plural do pres. do ind. e na 2.a pess. sing. do
imperativo afirmativo, salvo se vierem seguidas de m, n ou nh:
dever: devo (é), deves (é), deve (é), devemos, deveis, devem (é)
roer: rói, roei (6)
volver: volvo (6), volves (6), volve (6), volvemos, volveis, volvem
(6)
temer: temo (é), temes (é), teme (é), tememos, temeis, temem.
comer: como (6), comes (6), come (6), etc.
Exceções: querer e poder têm a vogal tônica aberta na 1.a pess. do sing.
Na 3.a conjugação:
a) a vogal e, última do radical, sofre alternáricias diversas quando
nela recai o acento tônico:
1 - passa a i na 1.a pess. do sing. do indic., e em todo o presente do
subj. e e aberto na 2.a e 3.a pess. sing. e 3.a do plural do pres. do indic.
e 2.a pess. sing. do imperativo nos verbos:
aderir, advertir, aferir, assentir, auferir, compelir, competir,
concernir, conferir, con-
~ir, consentir, convergir, deferir, desferir, desmentir, despir,
desservir, diferir, digerir,
discernir, dissentir, divergir, divertir, expelir, ferir, impelir,
ingerir, mentir, preferir,
pressentir, preterir, proferir, prosseguir, referir, refletir, repelir,
repetir, seguir, servir,
sugerir, transferir, vestir:
vestir: visto, vestes, veste, etc.
OBszRvAçÃo: Se o e for nasal mantém-se inalterável, exceto na 1.a pess.
singular
do pres. do ind. e em todo o pres. do subj., onde passa a i: sentir: sinto,
sentes,
sente, etc.
2 - passa a i nas três pessoas do singular e terceira do plural do
pres. ind., em todo o pres. do subj. e imperativo, salvo, neste, a 2.a
pess. pl.:
agredir, cerzir, denegrir, prevenir, progredir, regredir, transgredir,
e remir (este defectivo;
cf. 108).
Pres. ind.: agrido, agrides, agride, agredimos, agredis, agridem
Pres. subi.: agrida, agridas, agrida, etc.
1-P. afirmat.: agride, agrida, agridamos, agredi, agridam
119
#
145
3 - os verbos medir, pedir, despedir, impedir e derivados têm e i
aberto nas formas rizotônicas, isto é, nas três pessoas do singular e 3.a
do plural do presente do indicativo e subjuntivo, e no imperativo afirmativo,
exceto, neste, na 2.a pessoa do plural:
Medir - pres. ind.: meço, medes, mede, medimos,
medis, medem
pres. subj.: meça, meças, meça, etc.
imper. afirm.: mede, meça, meçamos, medi, meçam.
4 - Os verbos aspergir, emergir, imergir e submergir têm e tônico
fechado na 1.a pessoa do singular do presente do indicativo (e formas que
daí se derivam); têm e aberto na 2.a e 3.a do singular e 3.a do plural
do
presente do indicativo (e formas que daí se derivam):
aspergir: asperjo (é), asperges (é),
asperge (é), aspergimos, aspergis, aspergem (é).
b) a vogal o sofre também alternâncias diferentes, quando nela recai
o acento tônico:
1 - Passa a u na 1.8 pessoa sing. do pres. ind., em todo o pres.
subj. e no imperativo, salvo, neste, a 2.a pess. do singular e plural;
e pa
a o aberto na 2.a e 3.a sing. e 3.a do plural do, pres. ind. e 2.a do singu
do imperativo:
dormir: pres. ind.: durmo, dormes, dorme, dormimos, dormis, dormem
pres. subj.: durma, durmas, durma, etc.
imper. afirm.: dorme, durma, durmamos, dormi, durmam
Assim se conjugam cobrir, descobrir, encobrir, recobrir, tossir. Dormir
e tossir são regulares no particípio: dormido, tossido.
Para a conjugação de engolir e desengolir que, a rigor, deveriam
seguir este modelo, veja-se o que se diz mais adiante.
2 - Passa a u nas três pessoas do sing. e 3.11 do plural do presente
do indicativo, em todo o pres. do subjuntivo e no imperativo afirmativo,
exceto, neste, a 2.a pessoa do plural: 1
1
sortir: pres. ind.: surto, surtes, surte, sortimos, sortis, surtem
pres. subj.: surta, surtas, surta, etc.
imperat. afirm.: surte, surta, surtamos, sorti, surtam
Por este modelo se conjugam despolir e polir (cf. pág. 108). Antigamente
seguiam este paradigma cortir e ordir, hoje grafados curtir e urdir
e de conjugação regular.
c) a vogal u da penúltima sílaba do radical passa a o aberto na VL
e 3.a pess. do singular e 3.a do plural do presente do indicativo e na
2.a
pessoa do singular do imperativo afirmativo:
acudir: pres. ind.: acudol acodes (6), acode (6), acudimos, acudis, acodem
(6) pres. subj.: acuda, acudas, acuda, etc.
imper. afirm.: acode (6), acuda, acudamos, acudi, acudam
120
#
146
Assim se conjugam bulir, cuspir, escapulir, fugir, sacudir. Consumir
e sumir têm o o fechado por estar seguido de m.
OBSERVAq6ES:
1.a) Assumir, presumir, reassumir, resumir, são regulares: Pres. ind.:
assumo, assumes,
assume, assumimos, assumis, assumem.
2.a) os verbos em -uir não apresentam alternAncias vocálicas no radical;
a 2.a e
3.a pessoa do singular do presente do indicativo têm is e i em lugar de
es e e, por
haver ditongo oral:
constituir: pres. ind.: constituo, constituis, constitui, constituímos,
constituís, constituem.
Assim se conjugam anuir, argüir, atribuir, constituir, destituir,
diluir, diminuir,
estatuir, imbuir, influir, instituir, instruir, puir (defectivo),
restituir, redargüir, ruir.
3.a) Construir, desentupir, destruir, entupir (e cognatos) seguem este
modelo ou
ainda admitem alterriância. do u em o aberto na 2.a e 3.a pessoa do sing.
e 3.a do
plural do presente do indicativo e na 2.a pessoa do sing. do imperativo
afirmativo.
Entupir e desentupir só se afastam do grupo porque apresentam es e e na
2.a e 3.a
pessoa do sing. do pres. ind.: entupo, entupes (ou entopes), entupe (ou
entope),
entupimos, entupis, entupern (ou entopem).
construo, construis (ou constróis), construi (ou constrói), construímos,
construis, construem
(ou constroem).
Estes verbos são portanto abundantes. Obstruir é, entretanto, conjugado
apenas
como constituir. Cf. obs. 2.a
4.a) Engolir, ainda que se escreva com o, segue o paradigma de acudir;
para o
Vocabulário de nossa Academia: engulo, engoles, engole, engulimos,
engulis, engolem.
Melhor fora, porém, conjugá-lo com o nas duas primeiras pessoas do plural
do pres.
do indicativo, desfazendo-se a incoerência.
d) a vogal i do radical do verbo frigir passa a e aberto na 2.a e 3.a
pess. sing. e na 3.a do plural do pres. do indicativo e na 2.a pess. sing.
do
imperativo afirra.:
Pres. ind.: frijo, freges, frege, frigimos, frigis, fregem.
Imper. afirm.: frege, frija, frijamos, frigi, frijam.
147
Verbos notáveis quanto à pronúncia ou flexão.
a) aguar, desaguar, enxaguar, minguar, apropinqua~, conjugam-se
com o seguinte modelo:
pres. ind.: águo, águas, água, aguamos, aguais, águam.
pres. subi.: ágüe, ágües, ágüe, agüemos, agüeis, ágüem.
OBSERVAÇÃO: Para o emprego do trema em apropinquar recorde-se o que se
disse na pág. 72.
b) apaziguar, averiguar, obliquar, santiguar, conjugam-se pelo seguinte
modelopres. ind.: apaziguo (ú), apaziguas (ú), apazigua (ú),
apaziguamos, apaziguais, apaziguam,
(ú).
pres. subi.: apazigúe, apazigúes, apazigúe, apazigüemos, apazigüeis,
apazigúem.
121
#
c) Magoar, conjuga-se:
pres. ind.: magôo, magoas, magoa, magoamos, magoais, magoam.
pres. subi.: magoe, magoes, magoe, magoemos, magoeis, magoezn.
d) Mobiliar, conjuga-se:
pres. ind.: mobilio, mobílias, mobília, mobiliamos, mobilia!&, mobiliam.
pres. subj.: mobilie, mobilies, mobilie, mobiliemos, mobilieis, mobiliem.
OBSERVAÇÃO: A variante mobilar apresenta-se regularmente: mobilo,
mobila, etc.
e) Resfolegar, conjuga-se:
pres. ind.: resfôlego, resfélegas, resfôlega, resfolegamos, resfolegais,
resfélegam.
pres. subi.: resfélegue, resfélegues, resfélegue, resfoleguemos,
resfolegueís, resfôleguem.
OBSERVAÇõES:
La) A forma contrata de resfolegar é resfolgar, que se apresenta
regularmente:
resfolgO, resfolgas, resfolga, etc.
2.a) o substantivo é resfôlego, proparmítono.
f) Dignar-se, indignar-se, obstar, optar, pugnar, impugnar, ritmar,
-raptar, conjugam-se:
Presente do indicativo
indigno-me (dí) obsto (6) opto (6) impugno (ú) ritmo
(1)
indignas-te (dí) obstas (6) optas (6) impugnas (ú) ritmas
(i)
indigna-se (dí) obsta (6) opta (6) impugna (ú) ritma
148
(i)
indignamo-nos obstamos optamos impugnamos ritmamos
indignais-vos obstais . optais impugnais ritmais
indignam-se (dí) obstam (6) optam (6) impugnam(d) ritmam (i)
rapto (rã), raptas (rã), rapta (rã). raptamos, raptais, raptam (rã)
g) Obviar, conjuga-se:
pres. ind.. obvio (f), obvias (i), obvia (f), obviamos, obvials,
obviam(f).
h) apiedar e moscar, conjugam-se:
apiedar - pres. ind.: apiedo, apiedas, apieda, apiedamos, apiedais,
apiedam.
O Vocabulário Oficial confunde o antigo apiadar e apiedar numa
conjugação que não aconselhamos:
pres. ind.: apiado, apiadas, apiada, apiedamos, apiedais, apíadam. (isto é,
a nas formas
rizotônicas e e nas arrizotónicas).
A mesma confusão existe, no Vocabt,lário Oficial, com moscar e
muscar (sumir-se).
pres. ind.: musco, muscas. musca, mostamos, moscais, muscam (isto é, u nas
formas
rizotónicas e o nas arrízotónícaá).
122
#
Mais certo seria conjugarmos regularmente moscar:
pres. ind.: mosco, moscas, mosca, 1n09camos, moscais, moscam; e muscar:
pres. ind.: musco, muscas, musca, muscamos, muscais, muscam. .
A correção, porém, talvez seja mais difícil, por serem muito pouco
usados moscar e muscar.
i) Verbos com os ditongos fechados ou e ei : roubar e inteirar.
Conjugam-se não se reduzindo a vogais abertas o e e, respectivamente:
Roubar
roubo (e não róbo, etc.)
roubas
rouba
roubamos
roubais
roubam
Inteirar
inteiro (e não intéro, etc.)
149
inteiras
inteira
inteiramos
inteirais
inteiram
i) Verbos com os ditongos fechados eu e oi : tipos endeusar e noivar.
Conjugam-se mantendo o ditongo sem que o e ou o o passem a timbre
aberto: endeuso, endeusas, endeusa, etc.; noivo, noivas, noiva, etc.
OBSERVAÇÃO: O verbo apoiar tinha primitivamente fechado o ditongo; hoje
é
mais corrente proferi-lo aberto, o que justifica as formas apóio, apóias,
etc.
k) Verbos com o hiato au.. ai e iu: tipos saudar, embainhar e amiudar.
Conjugam-se mantendo o hiato:
saudar embainhar amiudar
saúdo embaínho amiúdo
saúdas embaínhas amiúdas
saúda embaínha amiúda
saudamos embainhamos amiudamos
saudais embainhaís amiudais
saúdam embainham amiúdam
OBsERvAçXo: Arraigar (com hiato) passou desde cedo a arraigar (com
ditongo,
ar-rai-gar) e daí a arreigar. As formas com ditongo alo mais freqüentes,
embora
modernamente se tenha restabelecido arraigar com hiato. Saudar proferido
com ditongo
(saudo, saudas, etc.) ocorre aqui e ali nos poetas e se fixa no falar
coloquial e popular.
Verbos terminados em -zer, -zir: tipos fazer e traduzir. - Perdem o
e final na 3.a pessoa sing. do presente do indicativo e 2.a pess. sing.
do
imperativo afirmativo (este caso não é obrigatório e até, com exagero,
vem condenado pelos gramáticos), quando o z não é precedido de
consoante:
fazer: faço, fazes, faz, etc. Imp. afirm.: faze (ou faz) tu
traduzir: traduzo, traduzes, traduz, etc. Imp. afirm.: traduze (ou traduz)
tu
Mas, cerzir: cirzo, cirzes, cirze, etc.
123
#
Variações gráficas na conjugação. - Muitas vezes altera-se a maneira
de representar na escrita a última consoante do radical para conservar
o
150
mesmo som:
1 - os verbos terminados em -car e -gar mudam o c ou g em qu ou
gu, quando tais consoantes são seguidas de e :
pecar: peco, peques; cegar: cego, cegues.
2 - os verbos terminados em -cer ou -cir têm c cedilhado antes de
a ou o:
conhecer: conheço, conheces, conhece; ressarcir: ressarço, ressarces.
a ou o:
de a ou o:
3 - os verbos terminados em -çar perdem a cedilha antes do e
começar: Começo, comeces.
4 - os verbos terminados em -ger ou -gir mudam o g em i antes de
eleger: elejo, eleges; fugir: fujo, foges.
5 - os verbos terminados em -guer ou -guir perdem o u antes
erguer: ergo, ergues, erga.
conseguir: consigo, consegues, consiga.
A vogal e passa a ser grafada i quando entra num ditongo oral (verbos
em -uir): atribuo, atribuis, atribui.
VERBos iEm -ear E -iar. - Os verbos em -ear trocam o e por ei nas
Estas variaçjes gráficas não constituem irregularidades de conjugação,
não havendo, por isso, verbos irregulares gráficos.
formas rizotônicas:
Nomear: pres. ind.: nomeio, nomeias, nomeia, nomeamos, nomeais, nomeiam.
pres. subj,: nomeie, nomeies, nomeie, nomeemos, nomeeis, nomeiem.
imper. afirm.: nomeia, nomeie, nomeemos, nomeai, nomeiem.
Os verbos em -iar são conjugados regularmente:
Premiar: pres. ind.: premio, premias, premia, premiamos, premiais, premiam
pres. subj., premie, premies, premie, etc.
imper. afirm.: premia, premie, premiemos, premiai, premiem.
Cinco verbos em iar se conjugam, nas formas rizotônicas, como se
terminassem em -ear (mARio é o anagrama que deles se pode formar):
mediar: medeio, medeias, medeia, mediamos, mediais, medeiam
ansiar: anseio, anseias, anseia, ansiamos, ansiais, anseiam
remediar: remedeio, remedeias, remedeia, remediamos, remediais,
remedeiam
incendiar: incendeio, incendeias, incendeia, incendiamos, incendiais,
incendeiam
odiar: odeio, odeias, odeia, odiamos, odiais, odeiam
124
#
151
OBSERVAÇõES:
La) Enquanto no Brasil já vamos conjugando os verbos em -ear e -iar pelo
que
acabamos de expor, entre os portugueses ainda se notam vacilações em muitos
que,
grafados com -iar, deveriam seguir o modelo de premiar, mas se acostam
ao de
nomear: além do próprio premiar, agenciar, comerciar, licenciar, negociar,
penitenciar,
obsequiar, presenciar, providenciar, reverenciar, sentenciar, vangloriar,
vitoriar, evidenciar,
gloriar, diligenciar, e outros.
2.a) Hoje não fazemos distinção entre crear (tirar do nada, dar
existência) e
criar (educar, cultivar, promover o desenvolvimento), usando apenas criar
para ambos
os casos, que se conjuga como Premiar. Entre escritores modernos, porém,
podem
ocorrer exemplos de crear, conjugado como nomear.
3.a) A diferença de conjugação torna-se imperiosa nos parônimos: afear
e afiar,
arrear e arriar, estrear e estriar; vadear e vadiar, etc.
Quando grafar -ear ou -iar. - Grafam-se com -ear os verbos que
possuem formas substantivas ou adjetivas cognatas terminadas em:
a) -é, -eio, -eia, -éia :
pé - apear
passeio - passear
Exceção: fé - fiar
ceia cear
idéia idear
b) consoante ou pelas vogais átonas -a, -e -o precedidas de consoante:
mar - marear
casa - casear
Exceções: amplo - ampliar
breve - abreviar
finança - financiar
graça - agraciar
pente - pentear
branco - branquear
lume - alumiar
sede - sediar
êxtase - extasiar
1ncluem-se entre os verbos em -ear: atear, bambolear, bruxulear,
cecear, derrear, favonear, pavonear, semear, vadear.
152
Grafam-se com -ar os verbos que possuem formas substantivas cognatas
terminadas em:
a) -io, -ia:
alívio - aliviar
sócio associar
óbvio obviar
b) -tincia, -ênci&., -ença:
distância distanciar
diligência diligenciar
saciar.
delícia - deliciar
polícia - policiar
assovio - assoviar
presença - presenciar
sentença - sentenciar
#
Incluem-se no rol dos verbos em -iar: anuviar, apreciar, depreciar,
OBSMVAÇÃO: Muitas vezes~ o final -car ou -iar se pode alternar com o
simples
-ar: azular ou azulear; bajar ou bagear (produzir vagens); diferenciar
ou diferençar;
balançar ou balancear, etc.
125
#
Erros freqüentes na conjugação de alguns verbos
a) Vir e seus derivados
No presente do indicativo temos: venho, vens, vem, vimos (e não
viemos), vindes, vêm.
No pretérito perfeito do indicativo: vim, vieste, veio, viemos, viestes,
vieram.
O gerúndio é igual ao particípio, porque neste desapareceu a vogal
temática: vindo (vi-rido) e vindo (vin-i-do).
Notem-se estes erros comuns nos derivados de vir, no pret. perf. ind.:
Os guardas interviram na discussão (por intervieram).
A professora interviu no caso (por interveio).
O futuro do subjuntivo é vier: Quando eu vier... (e não vir).
b) Ver e seus derivados
153
Prover não se conjuga como ver no:
pret. perf. ind.: provi, proveste, proveul PrO~051 provestes, proveram.
m.-q.-Perf. ind.: provera, prover^ provera, provéramos, provêrcis,
proveram.
imperj. subj.: provesse, provesses, provesse, provéssemos, provêsseis,
provessem.
fut. subi.: prover, proveres, prover, provermos, proverdes, proverem.
particípio: provido.
Rever é conjugado por ver; por isso está errada a flexão em:
A aluna reveu (em vez de reviu) a prova.
Antever é conjugado como ver e, por isso, enganou-se o nosso Casimiro
de Abreu ao escrever:
"Quem antevera (com e) que dum povo a ruína
Pelo seu próprio rei cavada fosse?" (Obras, 34, ed. S. DA SILVEIRA).
O futuro do subjuntivo é vir:
Quando eu vier à cidade e vir oportunidade de comprá-lo, então o farei
(e não ver!).
c) Precaver-se. 1
É verbo defectivo que nada tem com ver ou vir; por isso evite-se dizer
Eu me precavejo ou Eu me precavenho.
Precavefam-se ou Precavenham-se.
Para sua conjugação, veja-se pág. 108.
d) Reaver.
É verbo defectivo, derivado de haver, que à se conjuga nas formas
em que este possui -v-. Não se deve dizer:
Eu reavejo ou Eu reavenho.
Cuidado especial merece também o pret. perf.: reouve, reouveste,
reouveram.
126
#
Por isso evitem-se empregos. como: eu reavi, ele reaveu, etc. Cf.
Pág. 1 OS.
e) Ter e seus derivados
Deter, derivado de ter, conjuga-se como este. Logo está errada a frase:
O policial deteu (por deteve!) o criminoso.
f) Por e seus derivados.
Opor é derivado de por e por ele se modela na conjugação. Assim
enganou-se o poeta Porto-Alegre nestes versos, usando opor em vez de
opuser :
"Se aos paternos errores de contraste,
E à minha influição opor virtudes" (Colombo, 11, 154 apud S. SiLvEraA,
154
Obras de
Casimiro de Abreu, 34).
g) Estar e seus derivados.
Sobrestar é derivado de estar e por ele se conjuga; porém, costuma-se
ver modelado pelo verbo ter, como se fosse sobrester. Assim n~O está certo
o seguinte exemplo de Alberto de Oliveira:
"Deixando a enferma, sobrestenho o passo- (Poesias, 4.a série, apud S.
SILVEIRA, ibid.).
h) Haver-se e avir-se.
Estes verbos têm empregos diferentes. Haver-se significa:
1) proceder, portar-se :
"Ele, porém, houve-se com a maior delicadeza" (M. DE Assis, Brds Cubas,
364).
2) ser chamado a ordem, entrar em disputa com alguém, conciliar, (ha
ver-se com alguém), e aparece nas ameaças:
Ele tem de se haver comigo.
"Aquele que sobre ti lançar vistas de amor ou de cobiça, comigo se haverd"
(MARTINS
PENA, Comédias, 139 apud S. SiLvEmA, Liç6es, 361).
Avir-se é sinÔnimo de haver-se, no sentido 2), isto é, significa entrarem
acordo com, conciliar:
"Lá se avenham os sorveteiros com Boileau" (FILINTo EUSIO, Obras, V,
46 apud
R. BAR~, Réplica, 391 nota).
Desavir-se é o contrário de avir-se:
Os amigos 9e destivieram (e não se desouveram!) por muito pouco.
Erra-se freqüentes vezes empregando-se, nas ameaças, avir-se por
haver-se :
Ele tem de se avir comigo (em lugar de se haver).
127
#
Paradigma dos verbos regulares
Com destaque dos elementos estruturais
1 - Conjugação simples
I -a - Canta, 2-a - Vend-e-r 3.a - Part-ir
MODO INDICATIVO
Presente
Cant-o Vend-o Part-o
155
Cant-a-s Vend-e-s Part-e-s
Cant-a Vend-e Part-e
Cant-a-mos Vend-e-mos Part-i-mos
Cant-a-is Vend-e-is Part-is
Cant-a-m Vend-e-m Part-e-m
Pretérito imperfeito
Cant-a-va Vend-i-a
Cant-a-va-s Vend-i-a-s Part-i-a-s
Cant-a-va Vend-i-a Part-i-a
Cant-A-va-mos Vend-f-a-mos Part-i-a-mos
Cant-A-ve-is Vend-i-e-is Part-f-e-is
Cant-a-va-m Vend-i-a-m Part-i-a-m
Cant-e-i
Cant-a-ste
Cant-o-u
Cant-a-mos
Cant-a-stes
Cant-a-ram
Cant-a-ra
Cant-a-ra-s
Cant-a-ra
Cant-i-ra-mos Cant-i-re-is
Cant-a-ra-m
Cant-a-re-i
Cant-a-rd-s
Cant-a-rA
Cant-a-re-mos
Cant-a-re-is
Cant-a-rA-o
Pretérito perfeito
Vend-i
Vend-e-ste
Vend-e-u
Vend-e-mos
Vend-e-stes
Vend-e-ram
Pretérito mais-que-perfeito
Vend-e-ra
Vend-e-ra-s
VVend-e-ra
end-6-ra-mos
Vend-&re-is
Vend-e-ra-m
#
156
Futuro do presente
Vend-e-re-i
Vend-e-rA-s
Vend-e-ri
Vend-e-re-mos
Vend-e-re-is
Vend-e-ra-o
128,
Part-i
Part-i-ste
Part-i-u
Part-i-mos
Part-i-stes
Part-i-ram
Part-i-ra
Part-i-ra-s
Part-i-ra
Part-i-ra-mos
Part-i-re-is
Part-i-ra-m
Part-i-re-i
Part-i-rA-s
Part-i-rA
Part-i-re-mos
Part-i-re-is
Part-i-ri-o
#
Futuro do pretérito
Cant-a-ria
Cant-a-ria-s
Cant-a-ria
Cant-a-ria-mos
Cant-a-rie-is
Cant-a-ria-m
Cant-e
Cant-e-s
Cant-e
Cant-e-mos
Cant-e-is
Cant-e-m
Cant-a-sse
Cant-a-sse-s
157
Cant-a-sse
Cant-A-sse-mos
Cant-;i-sse-is
Cant-a-sse-m
Cant-a-r
Cant-a-r-es
Cant-a-r
Cant-a-r-mos
Cant-a-r-des
Cant-a-r-em
Cant-a tu
Cant-e você
Cant-e-mos nós
Cant-a-i vós
Cant-e-m vocés
Vend-e-ria
Vend-e-ria-s
Vend-e-ria
Vend-e-ria-mos
Vend-e-rie-is
Vend-e-ria-m
MODO SUBJUNTIVO
Premente
Vend-a
Vend-a-s
Vend-a
Vend-a-mos
Vend-a-is
Vend-a-m
Pretérito imperfeito
Vend-e-sse
Vend-e-sse-s
Vend-e-sse
Vend4-sse-mos
Vend-ê-sse-is
Vend-e-sse-m
Futuro
Vend-e-r
#
Vend-e-r-es
Vend-e-r
Vend-e-r-mos
158
Vend-e-r-des
Vend-e-r-em
MODO IMPERATIVO
Afirmativo
Vend-e tu
Vend-a você
Vend-a-mos nós
Vend-e-i vós
Vend-a-m vocês;
Negativo
Não cant-e-s tu Não vend-a-s tu
Não cant-e você Não vend-a você
Não cant-e-mos nós Não vend-a-mos nós
Não cant-e-is vós Não vend-a-is vós
Não cant.e.m vocês Não vend-a-m vocês
129
Part-i-ria
Plart-i-ria-s
Part-i-ria
Part-i-ria-mos
Part-i-rie-is
Part-i-ria-m
Part-a
Part-a-s
Part-a Part-a-mos
Part-a-is
Part-a-m
Part-i-ssc
Part-i-sse-s
Plart-i-sse
Part-f-sse-mos
Part-i-sse-is
Part-i-sse-m
Part-i-r
Part-i-r-es
Part-i-r
Part-i-r-mos
Part-i-r-des
Part-i-r-em
Part-e tu
Part-a você
Part-a-mos nós
Part-i vós
Part-a-m vocês
Não part-a-s tu
159
Não part-a você
Não part-a-mos nós
Não part-a-is vós
Não part-am vocês,
#
FoRMAS NOMINAIS
I Infinitivo
Ndo flex
Cant-a-r Vend-e-r
Flexionado
Part-i-r
Cant-a-r Vend-e.r Part-i-r
Cant-a-r-es Vend-e-r-es Part-i-r-es
Cant-a-r Vend-e-r Part-i-r
Cant-a-r-mos Vend-e-r-mos Part-i-r-mos
Cant-a-r-des Vend-e-r-des Part-i-r-des
Cant-a-r-em Vend-e-r-em Part-i-r-em
Gerfindio
Cant-a-ndo Vend-e-ndo
Particípio
Part-i-ndo
Cant-a-do Vend-i-do Part-i-do
2 - Conjugação composta(')
MODO INDICATIVO
Pretérito perfeito composto
Tenho cantado Tenho vendido Tenho partido
Tens cantado Tens vendido Tens partido
Tem cantado Tem vendido Tem partido
Temos cantado Temos vendido Temos partido
Tendes cantado Tendes vendido Tendes partido
Têm cantado Tém vendido Tém partido
Pretério mais-que-perfeito c
Tinha cantado Tinha partido
Tinhas cantado Tinhas partido
Tinha cantado Tinha partido
Tínhamos cantado Tínhamos partido
Tínheis cantado Tínheis partido
Tinham cantado Tinham partido
160
Terei cantado
Terás cantado
Terá cantado
Teremos cantado
TereU cantado
Terão cantado
Tinha vendido
Tinhas vendido
Tinha vendido
Tínhamos vendido
Tínheís vendido
Tinham vendido
Futuro do presezáte composto
Terei veudido
Terás vendido
Terá vendido
#
Teremos vendido
Tereis vendido
Terão vendido
Terei partido
Terás partido
Terá partido
Teremos partido
Terei& partido
Terão partido
(1) Sobre o emprego dos auxiliares ter e haver na conjugaçáo composta,
veja-se a pág. 111.
1.30
#
Teria cantado
Terias cantado
Teria cantado
Teríamos cantado
Terícis cantado
Teriam cantado
Tenha cantado
Tenhas cantado
Tenha cantado
Tenhamos cantado
161
Tenhais cantado
Tenham cantado
Tivesse cantado
Tivesses cantado
Tivesse cantado
Tivéssemos cantado
Tivésseis cantado
Tivessem cantado
Tiver cantado
Tiveres cantado
Tiver cantado
Tivermos cantado
Tiverdes cantado
Tiverem cantado
Ter cantado
Ter cantado
Teres cantado
Ter cantado
Termos cantado
Terdes cantado
Terem cantado
Tendo cantado
Futuro do pretérito composto
Teria vendido
Terias vendido
Teria vendido
Teríamos vendido
Terleis vendido
Teriam vendido
MODO SUBJUNTIVO
Pretérito perfeito
Tenha vendido
Tenhas vendido
Tenha vendido
Tenhamos vendido
Tenhais; vendido
Tenham vendido
Pretérito mais-que-perfeito,
Tivesse vendido
Tivesses vendido
Tivesse vendido
Tivéssemos vendido
Tivésseis vendido
Tivessem vendido
Futuro composto
#
162
Tiver vendido
Tiveres vendido
Tiver vendido
Tivermos vendido
Tiverdes vendido
Tiverem vendido
F~AS NOMINAIS
Inflnitivo
Não flexionado composto
Ter vendido
Flexionado composto
Ter vendido
Teres vendido
Ter vendido
Termos vendido
Terdes vendido
Terem vendido
Gerúndio composto
Tendo vendido
131
Teria partido
Terias partido
Teria partido
Teríamos partido
Terfeis, partido
Teriam partido
Tenha partido
Tenhas partido
Tenha partido
Tenhamos partido
Tenhais partido
Tenham partido
Tivesse partido
Tivesses partido
Tivesse partido
Tivéssemos partido
Tivésseis partido
Tivessem partido
Tiver partido
Tiveres partido
Tiver partido
Tivermos partido
Tiverdes partido
163
Tiverem partido
Ter partido
Ter partido
Teres partido
Ter partido
Termos partido
Terdes partido
Terem partido
Tendo partido
#
Conjugação de verbos auxiliares mais comuns
1 - Conjugação simples
Ser Estar Ter Haver
MODO INDICATIVO
Presente
Sou Estou Tenho Hei
És Estás Tens Hás
É Está Tem Há
Somos Estamos Temos Havemos
Sois Estais Tendes Haveis
São Estão Têm (1) Hão
Pretérito imperfeito
Era Estava Tinha Havia
Eras Estavas Tinhas Havias
Era Estava Tinha Havia
Éramos Estávamos Tínhamos Havíamos
Êreis Estáveis Tínheis Havíeis
Eram Estavam Tinham Haviam
Pretérito perfeito
Fui Estive Tive Houve
Foste Estiveste Tiveste Houveste
Foi Esteve Teve Houve
Fomos Estivemos Tivemos Houvemos
Fostes Estivestes Tivestes Houvestes
Foram Estiveram Tiveram Houveram
Pretérito mais-que-perfeito
Fora Estivera Tivera Houvera
Foras Estiveras Tiveras Houveras
164
Fora Estivera Tivera Houvera
Fôramos Estivéramos Tivéramos Houvéramos
Fôreis Estivéreis Tivéreis Houvéreis
Foram Estiveram Tiveram Houveram
Futuro do presente
Serei Estarei Terei Haverei
Serás Estarás Terás Haverás
Será Estará Terá Haverá
Seremos Estaremos Teremos Haveremos
Sereis Estareis Tereis Havereis
Serão Estarão Terão Haverão
(1) O Vocabulário Oficial só adota esta forma; porém, nos poetas pode
ocorrer a pronúncia
como dissílabo - te-em -, como dizem crêem, lêem, vêem. Ocorre o mesmo
com vê-
(de vir). Note-se, de passagem, que os dissílabos crêem, dêem, lêem são
pronúncias relativamente
modernas. As formas antigas eram; crem, dem, lem, vem.
132
#
Futuro do'pretérito
Seria Estaria Teria Haveria
Serias Estarias Terias Haverias
Seria Estaria Teria Haveria
Seríamos Estaríamos Teríamos Haveríamos
Serfeis Estarícis Terícis Haveríeis
Seriam Estariam Teriam Haveriam
MODO SUBJUNTIVO
Presente
Seja Esteja Tenha Haja
Sejas Estejas Tenhas Hajas
Seja Esteja Tenha Haja
Sejamos Estejamos Tenhamos Hajamos
Sejais Estejais Tenhais Hajais
Sejam Estejam Tenham Hajam
Pretérito imperfeito
Fosse Estivesse Tivesse Houvesse
Fosses Estivesses Tivesses Houvesses
Fosse Estivesse Tivesse Houvesse
Fôssemos Estivéssemos Tivéssemos Houvéssemos
Fósseis Estivésseis Tivésseis Houvésseis
Fossem Estivessem Tivessem Houvessem
165
Futuro
For Estiver Tiver Houver
Fores Estiveres Tiveres Houveres
For Estiver Tiver Houver
Formos Estivermos Tivermos Houvermos
Fordes Estiverdes Tiverdes Houverdes
Forem Estiverem Tiverem Houverem
MODO IMPERATIVO
Afirmativo
Sê tu Está tu , Tem tu (1) Há tu
Seja você Esteja você Tenha você Haja você
Sejamos nós Estejamos nós Tenhamos nós Hajamos nós
Sede vós Estai vós Tende vós Havei vós
Sejam vocês Estejam vocês Tenham vocês Hajam vocês
Negativo
Não sejas tu Não estejas tu Não tenhas tu Não hajas tu
Não seja você Não esteja você Não tenha você Não haja você
Não sejamos nós Não estejamos nós Não tenhamos nós Não hajamos
nós
Não sejais vós Não estejais vós Não tenhais vós Não hajais
vós
Não sejam vocês Não estejam vocés Não tenham vocês Não hajam vocês
(1) Com m final, e não com n.
133
#
FoRmAs NomINAIS
Infinitivo nlio flexionado
Ser Estar Ter Haver
Infinitivo flexionado
ser Estar Ter Haver
Seres Estares Teres Haveres
Ser Estar Ter Haver
Sermos Estarmos Termos Havermos
Serdes Estardes Terdes; Haverdes
Serem Estarem Terem Haverem
Gerfindio
Sendo Tendo Estando Havendo
166
Participio
Sido Estado Tido Havido
2 - Conjugação composta
MODO INDICATIVO
Pretérito perfeito composto
Tenho (ou hei)
Tens (ou hás)
Tem (ou há) sido, estado, tido, havido
femos (ou havemos)
Tendes (ou haveis)
Têm (ou hão)
Pretérito mais-que-perfeito composto
Tinha (ou havia)
Tinhas (ou havias)
Tinha (ou havia)
Tínhamos (ou havia tos) sido, estado, tido, havido
m
Tínheis (ou havíels)
Tinham (ou haviam)
Terei
Terás
Terá
Teremos
Tereis
Terão
Futuro do presente composto
(ou haverei)
(ou haverás)
(ou haverá) sido, estado, tido, havido
(ou hav os
(ou haver=
(ou haverão)
134
#
Teria
Terias
Teria
Teríamos
Terícis
Teriam
167
Futuro do pretérito composto
(ou haveria)
(ou haverias)
(ou haveria) sido, estado, tido, havido
(ou haveríamos)
(ou haverfeis)
(ou haveriam)
MODO SUBJUNTIVO
Pretérito perfeito
Tenha (ou haja)
Tenhas (ou hajas)
Tenha (ou haja) sido, estado, tido, havido
Tenhamos (ou hajamos)
Tenhais (ou hajais)
Tenham (ou hajam)
Pretérito mais-que-perfeito
Tivesse (ou houvesse)
Tivesses (ou houvesses)
Tívesse (ou houvesse)sido, estado, tido, havido
Tivéssemos (ou houvéssemos)~
Tivêsseis (ou houvésseis)
Tivessem (ou houvessem)
Tiver
Tiveres
Tiver
Tivermos
Tiverdes
Tiverem
Ter (ou haver)
Ter
Teres
Ter
Termos
Terdes;
Terem
Tendo
Futuro composto
(ou houver)
(ou houveres)
(ou houver) sido, estado, tido, havido
(ou houvermos)
(ou houverdes)
(ou houverem)
FoitMAS NOMINAIS
168
Infinitivo alo flexionado composto
#
sido, estado, tido, havido
Infinitivo flexionado composto
(ou haver)
(ou haveres)
(ou haver) sido, estado, tido, havido
(ou havermos)
(ou haverdes)
(ou haverem)
Gcrdndio
(ou havendo) sido, estado, tido, havido
135
#
1 - Conjugação simples
Presente
Ponho
Pões
Põe
Pomos
Pondes,
Põem
Pretérito mais-que-perf.
Pusera
Puseras
Pusera
Puséramos
Puséreis
Puseram
Presente
Ponha
Ponhas
Ponha
Ponhamos
Ponhais
169
Ponham
Afirmativo
Põe tu
Ponha você
Ponhamos nós
Ponde vós
Ponham vocês
Infinitivo, não flexionado
Por
Gerfindio
Pondo
Conjugação do verbo por
MODO INDICATIVO
Pretérito imperfeito
Punha
Punhas
Punha
Púnhamos
Púnheis
Punham
Futuro do pretérito
Poria
Porias
Poria
Poríamos
Poríeis
Poriam
#
MODO SUBJUNTIVO
Pretérito imperfeito
Pusesse
Pusesses
Pusesse
Puséssemos
Pusésseis
Pusessem
MODO IMPERATIVO
170
Negativo
Não ponhas tu
Não ponha você
Não ponhamos nós
Não ponhais vós
Não ponham vocês
FoRmAs NomINALS
Infinitivo, flexionado,
Por
Pores
Por
Pormos
Pordes
Porem
Particípio
Posto
136
Pretérito perfeito
Pus
Puseste
Pôs
Pusemos
Pusestes
Puseram
Porei
Porás
Porá
Poremos
Poreis
Porão
Futuro
Puser
Puseres
Puser
Pusermos
Puserdes
Puserem
Futuro do presente
#
2 - Conjugação composta
171
Pretérito nerfeito compost
Tenho
Tens
Tem
Temos
Tendes
Têm
posto
posto
posto
posto
posto
nnsto
Futuro do Presente composto
Terei
Terás
Terá
Teremos
Tereis
Terão
Pretérito perfei
Tenha
Tenhas
Tenha
Tenhamos
Tenhais
Tenham
Ter
posto
posto
posto
post
posto
post
nnst
finitivo não flexionado
MODO INDICATIV(:
Pretérito mais-que-perfeito composto
Tinha
Tinhas
Tinha
Tínhamos
Tínheis
172
Tinham
Futuro do pretérito composto
posto
posto
posto
posto
#
posto
nosto
Teria
Terias
Teria
Teríamos
Terleis
Teriam
MODO SUBJUNTIVO
Pretérito maiç-nue-nerf
Tivesse
Tivesses
Tivesse
Tivéssemos
Tivésseis
Tivessem
posto
posto
posto
posto
posto
nosto
FoRMAs NomINAIS
Tiver
Tiveres
Tiver
Tivermos
Tiverdes
Tiverem
Infinitivo flexionad
Ter
Teres
Ter
Termos
173
Terdes
Terem
Gerfindio comnost
Tendo
13
nost(
posto
posto
posto
posto
posto
nosto
posto
posto
posto
posto
posto
#
sto
posto
posto
posto
posto
posto
posto
Futur
posto
posto
posto
posto
posto
Dosto
#
Conjugação de um verbo composto na voz passiva:
ser amado
MODO INDICATIVO
174
Presente Pretérito Imperfeito Pretérito perf. simples
Sou amado Era amado Fui amado
És amado Eras amado Foste amado
É amado Erá amado Foi amado
somos amados Éramos amados Fomos amados
Sois amados Êreis amados Fostes amados
São amados Eram amados Foram amados
pretérito perfeito composto
Tenho sido amado
Tens sido amado
Tem sido amado
Temos sido amados
Tendes sido amados
Têm sido amados
Pret. mais-que-perfeito composto
Pretérito mais-que-perfeito, simples
Fora amado
Foras amado
Fora amado
Fôramos amados
Fóreis amados
Foram amados
Futuro do presente simples
Tinha sido amado Serei amado
Tinhas sido amado Serás amado
Tinha sido amado Será amado
Tínhamos sido amados Seremos amados
Tínheis sido amados Sereis amados
Tinham sido amados Serão amados
Futuro do presente composto
Futuro do pretérito simples
Terei sido amado Seria amado
Terás sido amado Serias amado
Terá sido amado Seria amado
Teremos sido amados Seríamos amados
Tereis sido amados Serf eis amados
Terão sido amados Seriam amados
Futuro do pretérito composto
Teria sido amado
Terias sido amado
Teria sido amado
Teríamos sido amados
Teríeis sido amados
Teriam sido amados
175
138
#
MODO SUBJUNTIVO
Presente
Seja amado
Sejas amado
Seja amado
Sejamos amados
Sejais amados
Sejam amados
Pretérito mais-que-perfeito,,
Tivesse sido amado
Tivesses sido amado
Tivesse sido amado
Tivéssemos sido amados
Tivésseis sido amados
Tivessem sido amados
Infinitivo n1o flexionado
Ser amado
Infinitivo flexionado
Ser amado
Seres amado
Ser amado
Sermos amados
Serdes amados
Serem amados
Gerfindio,
Sendo amado
Fosse
Fossa
Fosse
Fôssemos
Fósseis
Fosam
OBs£RvAçõFs sobre a voz passiva:
Pretérito imperfeito
amado
amado
176
amado
amados
amados
amados
Futuro
For amado
Fores amado
For amado
Formos amados
Fordes amados
Forem amados
FORMAs NomINAIS
Pretérito perf
#
Tenha sido
Tenhas sido
Tenha sido
Tenhamos sido
Tenhais sido
Tenham sido
amado
amado
amado
amados
amados
amados
Futuro composto
Tiver sido
Tiveres sido
Tiver sido
Tiv os sido
Tiverdes sido
Tiverem sido
amado
amado
amado
amados
amados
amados
Infinitivo não flexionado, composto
Ter sido amado
177
Infinitivo flexionado composto
Ter sido
Teres sido
Ter sido
Termos sido
Terdes sido
Terem sido
amado
amado
amado
amados
amados
amados
Gerúndio composto
Tendo sido amado
La) O particípio neste caso aparece na forma feminina se a referéncia
é feita a
ser do gênero feminino:
Ele é amado. Ela é amada.
2.a) Também nas trés pessoas do plural o particípio vai ao plural:
Voz ativa - Ela tem estudado. Elai têm estudado.
Voz passiva - Ela é amada. Elas são amadas.
3.a) Na voz passiva não, se usa o imperativo.
Conjugação de um verbo na voz reflexiva: 1 dar-se. - já vimos
#
apie
que o verbo está na voz reflexiva quando o pronome oblíquo se refere
ao pronome reto:
Eu me visto. Nós nos arrependemos. Eles se foram.
139
#
O pronome átono pode vir antes, no meio ou depois do verbo ou
verbos (se for uma conjugação composta), de acordo com certos princípios
que serão futuramente estudados:
a) prócUse: se o vocábulo átono vem antes: Ele se feriu (pronome
átono proclítico);
178
b) mesócUse: se o vocábulo átono vem no meio (dos futuros, do presente
e do pretérito): Vestir-se-á se puder. Vestir-nos-íamos se
pudéssemos
(pronome átono mesoclítico);
c) ênclise: se o vocábulo átono vem depois: queixamo-nos ao diretor
(pronome átono enclítico).
NOTA IMPORTANTE. - Se o pronome for enclítico na voz reflexiva só haverá
uma
alteração no verbo a que pertencer o pronome: perderá o s final da 1.a
pessoa do plural:
queixo-me
queixas-te
quelXa-se
queixamo-nos
queixais-vos
queixam-se.
Nas outras posições, o verbo ficará
intacto:
Nós nos queixamos.Queixar-nos-emos.
Atente-se para o seguinte modelo e para as observações feitas sobre
a impossibilidade da posposição em algumas formas:
Apiedar-se
MODO INDICATIVO
Presente Pretérito imperfeitoPretérito perfeito
apiedo-me apiedava-me apiedei-me
apiedas-te apiedavas-te apiedaste-te
apieda-se apiedava-se apiedou-se
apiedamo-nos apiedávamo-nos apiedamo-nos
apiedais-vos apiedáveis-vos apiedastes-vos
apiedam-se apiedavam-se apiedaram-se
Pretérito perfeito composto
tenho-me apiedado (1)
tens-te apiedado
tem-se apiedado
temo-nos apiedado
tendes-vos apiedado
têm-se apiedado
(1) Nunca se use pronome átono posposto a
140
Pretérito mais-que-perfeito
apiedara-me
apiedaras-te
179
apiedara-se
apieddramo-nos
apiedAreis-vos
apiedaram-se
particípio.
#
#
Pretérito mais-que-perfeito composto
tinha-me apiedado
tinhas-te apiedado
tinha-se apiedado
tínhamo-nos apiedado
tínheis-vos apiedado
tinham-se apiedado
Futuro do presente composto
ter-me-ei apiedado
ter-te-ás apiedado
ter-se-á apiedado
ter-nos-emos apiedado
ter-vos-eis apiedado
ter-se-âo apiedado
Futuro do presente
apiedar-me-ei (2)
apiedar-te-ds
apiedar-se-d
apiedar-nos-emos
apiedar-vos-eis
apiedar-se-do
Futuro do pretérito
apiedar-me-ia
apiedar-te-ias
apiedar-se-ia
apiedar-nos-famos
apiedar-vos-ieis
apiedar-se-iam
Futuro do pretérito composto
ter-me-ia apiedado
180
ter-te-ias apiedado
ter-se-ia apiedado
ter-nos-íamos apiedado
ter-vos-feis apiedado
ter-se-iam apiedado
MODO SUBJUNTIVO
NOTA: Raramente aparece pronome posposto a verbo neste modo.
Presente Pretérito imperfeitoPretérito perfeito
apiede-me apiedasse-me Não se usa pronome
apiedes-te apiedasses-te posposto a verbo
apiede-se apiedasse-se nesta formal
apiedemo-nos apiedássemo-nos
apiedeis-vos apiedásseis-vos
apiedem-se apiedassem-se
Pretérito mais-que-perfeito
tivesse-me apiedado
tivesses-te apiedado
tivesse-se apiedado
tivésserno-nos apiedado
tivésseis-vos apiedado
tivessem-se apiedado
#
Futuro composto
Não se usa pronome posposto a
verbo nestas formas 1
(1) Nunca se use pronome átono posposto a particípio.
(2) Nunca se use pronome átono posposto aos futuros do presente e do
pretérito: usar-se-á
a anteposiçáo ou a interposiçào, como veremos depois.
141
#
MODO IMPERATIVO
Afirmativo
apieda-te tu
apiede-se você
apiedemo-nos nós
181
apiedai-vos vós
apiedem-se vocês
Infinitivo não flexionado simples
apiedar-me',
apiedar-te
apiedar-se
apiedar-nos
apiedar-vos
apiedar-se
Infinito flexionado simples
apiedar-me
apiedares-te
apiedar-se
apiedarmo-nos
apiedardes-vos
apiedarem-se
Gerikidio simples
. Negativo
Não se usa pronome posposto
a verbo nesta forma 1
FoRmAs NoMINAIS
Infinitívo não flexionado composto
apiedado
apiedado
apiedado
apiedado
apiedado
apiedado
Infinito flexionado composto
ter-me apiedado
teres-te apiedado
ter-se apiedado
termo-nos apiedado
terdes-vos apiedado
terem-se apiedado
Gerúndio composto
apiedando-me tendo-meapiedado
apiedando-te tendo-teapiedado
apiedando-se tendo-seapiedado
apiedando-nos tendo-nosapiedado
apiedando-vos tendo-vosapiedado
apiedando-se tendo-seapiedado
182
Particípio
#
Não se usa pronome posposto a verbo nesta formal
Conjugação de um verbo com pronome oblíquo átono (sem ser voz
reflexiva): tipo pô-lo. - O verbo pode acompanhar-se de um pronome
oblíquo átono que não se refira ao pronome reto:
Eu o vi. Nós te admiramos. Ela o chama.
Quando os pronomes oblíquos átonos o, a, os, as estiverem depois do
verbo ou no meio modificam-se de acordo com o final a que se acham
pospostos:
142
#
a) se o verbo terminar por vogal ou semivogal, oral, os pronomes
aparecem inalterados: ponho-o, ponha-a, ponho-os, ponho-as;
b) se o verbo terminar por r, s ou z, desaparecem estas consoantes e
os pronomes assumem as formas 10.. Ia, Ios, Ias:
por o = pd-lo; póes o = p6e-lo; diz o = di-lo; deixar~o ia = deixd-lo-ia.
OBSERVAq6ES:
La) Recorde-se a acentuação dos oxItonos estudada na pág. 170.
1.a) Se o verbo termina por ns, o n passará a m: tens o = tem-lo.
c) se o verbo terminar por som nasal (m ou silaba com til), os
pronomes assumem as formas no, na, nos, nas:
p6e + o = PU-no, viram + a = viram-na.
NoTA: Se os pronomes vêm antes do verbo, não há nenhuma alteração nos
pronomes
e no verbo: Ele o p6e ali. Eu o fiz.
OBoavAçÃo: Alguns autores chamam pronominais reflexos aos verbos na voz
reflexiva e pronominais irreflexivos (ou não reflexos) aos verbos deste
parágrafo.
Atente-se para o seguinte modelo e para as observações feitas sobre
a impossibilidade da posposição em algumas formas:
pd_10
(só a conjugação simples)
183
MODO INDICATIVO
Presente Pretérito imperfeitoPretérito perfeito
ponho-o punha-o pu-lo,
pôe-lo punha-lo puseste-o
poe-no punha-o pô-10
PC)MO-10 púnhamo-lo pusemo-lo
ponde-lo púnhei-lo puseste-lo
põem-no punham-no puseram-no
Pret. ma"ue-perf.
pusera-o
pusera-lo
puserz-o
pus6ramo-lo
pusérei-10
puseram-no
Futuro do presente
p6-lo-ei (1)
P6-10-"
P6.10-A
p6-lo-emos
p6-lo-eis
P6-1040
(1) Note-se que nos futuros do presente e do pretérito há
143
Futuro do pretérito
p6-lo-ia
P6-10-ias
p6-lo-ia
#
p6-lo-famos
pb-lo-feis
p6-lo-iam.
formas verbais com dois acentos.
#
MODO SUBJUNTIVO
NoTA: raramente aparece pronome posposto a verbo neste modo.
184
Presente Pretérito imperfeito Futuro
ponha-o pusesse-o Não se usa pronome
ponha-lo pusesse-lo posposto a verbo
ponha-o pusesse-o nesta forma 1
ponhamo-lo puséssemo-lo
ponhai-lo puséssei-lo
ponham-no pusessem-no
MODO IMPERATIVO
Afirmativo
põe-no tu (1)
ponha-o você
ponhamo-lo nós
ponde-o vós (1)
ponham-no vocês
Infinitivo Gerfindio
Negativo
Não se usa pronome
posposto a verbo
nesta formal
FORMAs NomINATS
Particípio
pô-10 pondo-o Não se usa com pronome
posposto.
Conjugação dos verbos irregulares. - Na seguinte relação de verbos
apresentamos, além das formas irregulares, algumas regulares em que freqüentemente
se erra. As formas que aqui faltam e se empregam são todas
regulares.
].a CONJUGAqXO:
Dar
Pres. ind.: dou, dás, dá, damos, dais, dão.
Pret. perf. ind.: dei, deste, deu, demos, destes, deram.
M.-que-Perf. ind.: dera, deras, dera, déramos, déreis, deram.
Pres. subi.: dê, dês, dê, demos, deis, dêem.
Pret. imperf. subi.: desse, desses, desse, déssemos, désseis, dessem.
Fut. subi.: der, deres, der, dermos, derdes, derem.
Por este modelo conjuga-se desclar; circundar é, porém, regular.
Estar
Ver a lista dos verbos auxiliares.
Por este conjugam-se: sobestar. e sobrestar. São regulares os seus
derivados
constar, prestar, obstar.
(1) Recorde-se que o s final do presente do indicativo desaparece no
185
imperativo afirmatívo.
144
#
2.a CONJUGA~AO:
Caber
Pres. ind. : caibo, cabes, cabe, cabemos, cabeis, cabem.
Pret. perf. ind. : coube, coubeste, coube, coubemos, coubestes, couberam.
M.-q.-perf. ind.: coubera, couberas, coubera, coubéramos, coubéreis,
couberam.
Pret. imp. subi. : coubesse, coubesses, coubesse, coubéssemos, coubésseis,
coubessem.
Fut. subi.: couber, couberes, couber, coubermos, couberdes, couberem.
Comprazer
Ver prazer.
Crer
Pres. ind.: creio, crês, crê, cremos, credes, crêem (cf. nota da pág. 132).
Pret. perf. ind. : cri, creste, creu, cremos, crestes, creram.
Pres. subi. : creia, creias, creia, creiamos, creiais, creiam.
Pret. imp, subi. : cresse, cresses, cresse, crêssemos, crêsseis, cressem.
Fut. subi. crer, creres, CrCr, crermos, crerdes, crerem.
Imperativo Crê, crede.
Part.: crido.
Por este conjuga-se descrer.
Dizer
Pres. ind.: digo, dizes, diz, dizemos, dizeis, dizem.
Pret. perf. ind.: disse, disseste, disse, dissemos, dissestes, disseram.
M.-q.-perf. ind.: dissera, disseras, dissera, disséramos, disséreis,
disseram.
Fut. pres.: direi, dirás, dirá, diremos, direis, dirão.
Fut. pret.: diria, dirias, diria, diríamos, diríeis, diriam.
Pres. subi.: diga, digas, diga, digamos, digais, digam.
Pret. imperf. subi.: dissesse, dissesses, dissesse, disséssemos,
dissésseis, dissessem.
Fut. subi.: disser, disseres, disser, dissermos, disserdes, disserem,
Imperativo: dize, dizei.
Part. : dito.
Por este se conjugam bendizer, condizer, contradizer, desdizer, maldizer,
predizer.
Fazer
186
Pres. ind. : faço, fazes, faz, fazemos, fazeis, fazem.
Pret. perf. ind. : fiz, fizeste, fez, fizemos, fizestes, fizeram.
M.-q.-perf. ind. : fizera, fizeras, fizera, fizéramos, fizéreis, fizeram.
Fut. pres. : farei, farás, fará, faremos, fareis, farão.
Fut. pret. : faria, farias, faria, faríamos, farfeis, fariam.
Pres. subi.: faça, faças, faça, façamos, façais, façam.
Pret. imp. subi.: fizesse, fizesses, fizesse, fizéssemos, fizésseis,
fizessem.
145
I
Fut. subi.: fizer, fizeres, fizer, fizermos, fizerdes, fizerem.
Imperativo: faze, fazei (cf. 116, obs.).
Part. : feito.
Por este se conjugam afazer, contrafazer, desfazer, liquefazer,
perfazer, rarefazer,
refazer, satisfazer.
Haver
Ver a conjugação dos verbos auxiliares.
Jazer
Pret. ind. : jazo, jazes, jaz, jazemos, jazeis, jazem.
Pret. Perf. ind. : jazi, jazeste, jazeu, jazemos, jazestes, jazeram.
As outras formas - pois é totalmente conjugado - são regulares. Por este
se modela adiazer.
Ler
Pres. ind.: leio, lês, lê, lemos, ledes, lêem (cf. nota da pág. 132).
Pret. perf. ind. : E, leste, leu, lemos, lestes, leram.
M.-q.-Perf. ind. : lera, leras, lera, lêramos, lêrcis, leram.
Pres. subi. : leia, leias, leia, leiamos, leiais, leiam.
Pret. imp. subi. : lesse, lesses, lesse, lêssemos, lêsseis, lessem.
Fut. subi. : ler, leres, ler, lermos, lerdes, lerem.
Por este se conjugam reler e tresler.
Perder
Pres. ind. : perco (é), perdes, perde, perdemos, perdeis, perdem.
Pres. subi. : perca (é), percas (é), perca (é), percamos (é), percais (é),
percam (é).
Poder
Pres. ind.: posso, podes, pode, podemos, podeis, podem.
Pret. perf. ind. : pude, pudeste, pôde, pudemos, pudestes, puderam.
M.-q.-perf. ind.: pudera, puderas, pudera, pudéramos, pudéreis, puderam.
Pres. subi. : possa, possas, possa, possamos, possais, possam.
Pret. imp.: pudesse, pudesses, pudesse, pudéssemos, pudésseis, pudessem.
Fut. subi. : puder, puderes, puder, pudermos, puderdes, puderem.
187
Prazer
(Pouco usado na 1.a e 2.a pessoa)
Pres. ind. : praz, prazem.
Pret. perf. ind.: prouve, prouveram.
M.-q.-Perf. ind.: prouvera, prouveram.
Pret. imp. subi.: prouVCSSe, prouvessem.
Fut. subi.: prouver, prouverem.
Por este se conjugam aPrazer, desprazer, desaprazer, verbos que se
apresentam em
todas as pessoas. Comprazer e descomprazer são verbos completos e se
modelam por
prazer, no pret. perfeito e m.-q.-perfeito do indicativo, pret. imperfeito
e futuro do
subjuntivo podem ainda ser conjugados regularmente. Veja-se a pág. 108.
146
#
Querer
Pres. ind. : quero, queres, quer, queremos, quereis, querem.
Pret- Perf. ind.: quis, quiseste, quis, quisemos, quisestes, quiseram.
M.-q.-Perf. ind.: quisera, quiseras, quisera, quiséramos, quiséreis,
quiseram.
Pres. subi.: queira, queiras, queira, queiramos, queirais, queiram.
Pret. imp. subi.: quisesse, quisesses, quisesse, quiséssemos,
quisésseis, quisessem.
Fut. subi.: quiser, quiseres, quiser, quisei os, quiserdes, quiserem.
Part.: querido (a forma quisto só se usa em benquisto e malquisto).
A moderna forma quere, 3.a pessoa do singular, em lugar de quer, só é
usada
pelos portugueses. Normalmente não se usa o verbo querer no imperativo;
há exemplos
de querei nos Sermões do Pe. Antônio Vieira. Quando se usa pronome átono
(o, a,
os, as) posposto à 3.a pessoa do singular do presente do indicativo,
emprega-se qué-lo
ou quere-o: "Qué-lo o teu povo" (A. HERCULANO, Lendas e Narr., 1, 79).
Requerer
Pres. ind.: requeiro, requeres, requer (ou requere), requeremos,
requereis, requerem.
Pret. perf. ind.: requeri, requereste, requereu, requeremos,
requerestes, requereram.
M.-q.-Perf. ind.: requerera, requereras, requerera, requerêramos,
requerêreis,
requereram.
Pres. subi.: requeira, requeiras, requeira, requeiramos, requeirais,
requeiram.
Pret. imp. subi.: requeresse, requeresses, requeresse, requerêssemos,
requerêsseis,
188
requeressem.
Fut. subi.: requerer, requereres, requerer, requerermos, requererdes,
requererem.
Imperativo: requere, requerei.
Part. : requerido.
A 3.a pessoa do singular do presente do indicativo requer é modernamente
mais
usada que requere.
Saber
Pres. ind.: sei, sabes, sabe, sabemos, sabeis, sabem.
Pret. Perf. ind.: soube, soubeste, soube, soubemos, soubestes, souberam.
M.-q.-Perf. ind.: soubera, souberas, soubera, soubéramos, soubéreis,
souberam.
Pres. subi.: saiba, saibas, saiba, saibamos, saibais, saibam.
Pret. imp. subi.: soubesse, soubesses, soubesse, soubéssemos, soubésseis,
soubessem.
Fut. subi.: souber, souberes, souber, soubermos, souberdes, souberem.
ser
Veja a conjugação dos verbos auxiliares.
Ter
Veja a conjugação dos verbos auxiliares.
Trazer
Pres. ind.: trago, trazes, traz, trazemos, trazeis, trazem.
Pret. perf. ind.: trouxe, trouxeste, trouxe,, trouxemos, trouxestes,
trouxeram.
147
I
#
M.-q.-Perf. ind. : trouxera, trouxeras, trouxera, trouxéramos, trouxéreis,
trouxeran
Futuro do pres. : trarei, trarás, trará, traremos, trareis, trarão.
Fut. do pret. : traria, trarias, traria, traríamos, trarícis, trariam.
Pres. subi. : traga, tragas, traga, tragamos, tragais, tragam.
Pret. imp. sub ' i.: trouxesse, trouxesses, trouxesse, trouxéssemos,
trouxésseis, trouxessem.
Imperativo : traze, trazei (cf. 116, Obs.).
Valer
Pres. ind. : valho, vales, vale (ou val), valemos, valeis, valem.
Pres. subi. : valha, valhas, valha, valhamos, valhais, valham.
189
Val, por vale, é forma corrente entre os portugueses.
Como valer conjugam-se desvaler e equiivaler.
Ver
Pres. ind. vejo, vês, vê, vemos, vedes, vêem (cf. nota da pág. 161).
Pret. imp. ind. : via, vias, via, víamos, vícis, viam.
Pret. perf. ind. : vi, viste, viu, vimos, vistes, viram.
M.-q.-Perf. ind. : vira, viras, vira, víramos, víreis, viram.
Pres. subi. veja, vejas, veja, vejamos, vejais, vejam.
Pret. imp. subi. : visse, visses, visse, víssemos, vísseis, vissem.
Fut. subi. vir, viros, vir, virmos, virdes, virem.
Part. : visto.
Assim se conjugam antever, entrever, prever e rever. Prover e desprover
mode-
Iam-se por ver, exceto no pretérito perfeito do indicativo e derivados,
e particípio,
quando se conjugam regularmente.
Pret. perf. ind, : provi, provCSte, proveu, provemos, provestes,
proveram.
M.-q.-perf. ind,: provera, provetas, provera, provêramos, provêreis,
proveram.
Fut. subi. : prover, proveres, prover, provermos, proverdes, proverem.
Part. : provido.
3.a CONJUGA~AO :
Acudir
Pres. ind. : acudo, acodes, acode, acudimos, acudis, acodem.
Pret. perf. ind. : acudi, acudiste, acudiu, acudimos, acudistes, acudiram.
Pres. subi.: acuda, acudas, acuda, acudamos, acudais, acudam.
Pret. imp. subi. : acudisse, acudisses, acudisse, acudíssemos, acudísseis,
acudissem.
Imperativo : acode, acudi.
Assim se conjugam bulir, construir, cuspir, destruir, engolir(l), entupir,
escapulir,
lugir(2), sacudir, subir, sumir(3).
(1) Para seguir este modelo, melhor seria escrever engulir (com u)' A forma
engolir
o\ nos leva naturalmente à se uinte conjugação que o Vocabulário Oficial
não registra:
cpigulo, engoles, engole, engolimos (com o), engolis (com o), engolem.
(2) Leve-se em consideraçâo a mudança de g para j antes de o e a: fujo,
foges, foge, etc
(3) Conjugam-se, porém, regularmente assumir, presumir, reassumir,
resumir.
148
#
190
Construir, destruir e entupir, como verbos abundantes (cf. 109),
apresentam como
formas menos usadas, construis, construi, destrui, entupes, entupe.
Os demais verbos em udir (aludir, cludir, iludir) são regulares.
Cobrir
Pres. ind. : cubro, cobres, cobre, cobrimos, cobris, cobrem.
Pret. perf. ind.: cobri, cobriste, cobriu, cobrimos, cobristes, cobriram.
Pres. subi.: cubra, cubras, cubra, cubramos, cubrais, cubram.
Imperativo: cobre tu, cubra você, cubramos nós, cobri vós, cubram vocés.
Por este se conjugam descobrir, dormir (regular no part.: dormido),
encobrir,
recobrir e tossir (regular no part.: tossido).
Cair
Pres. ind. : caio, cais, cai, caímos, cais, caem.
P,et. imp. ind.: caía, caías, caia, caíamos, caíeis, caíam.
Pret. Perf. ind.: caiu, caíste, caiu, caímos, caístes, caíram,
M.-q--perf. ind. : caíra, caíras, caíra, caíramos, caíreis, caíram.
Fut. pres.: cairei, cairás, cairá, cairemos, caireis, cairão.
Fut. pret. : cairia, cairias, cairia, cairíamos, cairleis, cairiam.
Pres. subi. : caia, caias, caia, caiamos, caiais, caiam.
Pret. imp. subi. : caísse, caísses, caísse, caíssemos, caísseis, caíssem.
Fut. subi. : cair, caíres, cair, cairmos, cairdes, caírem.
Por este se conjugam atrair, contrair, distrair, esvair, retrair, sair,
subtrair, trair,
embair (para este último cf. pág. 108, Obs. 1.a).
Para a boa acentuaçâo deste tipo de verbos, recorde-se o que se disse na
pág. 71.
Frigir
Pres. ind.: frijo, freges, frege, frigimos, frigis, fregem.
Pres. subi.: frija, frijas, frija, frijamos, frijais, frijam.
Imperativo: frege, frija, frijamos, frigi, frijam.
Part. : frigido e frito.
Atente-se para a troca de g por i antes de a e o.
Ir
Pres. ind.: vou, vais, vai, vamos (ou imos), ides, vão.
Pret. imp. ind. ia, ias, ia, íamos, ícis, iam.
Pret. perf. ind. fui, foste, foi, fomos, fostes, foram.
M.-q.-perf. ind. fora, foras, fora, fôramos, fôreis, foram.
Fu t. pres. irei, irás, irá, iremos, ireis, irão.
Fut. pret. iria, irias, iria, iríamos, irícis, iriam.
Pres. subi.: vá, vás, .,à, vamos, vades, vão.
Pret. imp. subi. : fosse, fosses, fosse, fôssemos, fôsseis, fossem.
191
Fut. subi. : for, fores, for, formos, fordes, forem.
149
I
I
i
'K
#
Pres. ind.: meço, medes, mede, medimos, medis, medem.
Pres. subi.: meça, meças, Meça, meçamos, meçais, meçam
Pedir serve hoje de modelo para desimpedir, despedir, expedir e impedir
(que
Pres. ind.: minto, mentes, mente, mentimos, Mentis, mentem.
Pres. subi.: minta, mintas, minta, mintamos, mintais, mintam.
Por este verbo se conjugam consentir, desmentir, persentir (sentir
profundamente),
pressentir (prever), ressentir, senti
Pres. ind.: OUÇO, ouves, ouve, ouvimos, ouvis, ouvem.
Pres. subi.: ouça, ouças, ouça, ouçamos, ouçais, ouçam
Pret. Perf. : poli, poliste, poliu, polimos, polistes, poliram
Pres. subi.: pula, pulas, pula, pulamos, pulais, pulam.
Por este verbo se conjugam despolir e sortir (= abastecer, prover,
misturcombinar). Surtir (com u) é regular. surto, surtes, surte, surtimos,
surtis, surtem(l).
enquanto o progresso das ciências e das artes pule e melhora
exteriormente
o gênero humano, destruiria o intolerável egoísmo que destrói ou afeia
o formoso edifício
Pres. ind.: progrido, progrides, progride, progredimos, progredis,
progridem
(1) Significa originar, produzir efeito. Como surtir são também regulares
curtir (pouc
a
usado na 1. pessoa do singular e em todo o presente do subjuntivo) e urdir.
#
192
Pret. Perf. ind. : progredi, progrediste, progrediu, progredimos,
progredistes,
progrediram.
Pres. subi.: progrida, progridas, progrida, progridamos, progridais,
progridam.
Por este verbo se conjugam agredir, cerzir, denegrir, prevenir, regredir,
transgredir.
Remir, hoje mais usado como defectivo (cf. pág. 108), seguia outrora o
modelo de
progredir: rimo, rimes, rime, remimos, remis, rimem.
"Por 20 libras anuais a aldeia de Favaios rime todos os tributos e obtém
o
privilégio de nomear o seu juiz" (A. HERCULANo, Fragmentos, 149).
Rir
Pres. ind.: rio, ris, ri, rimos, rides, riem.
Pret. imperf. ind.: ria, rias, ria, ríamos, ríeis, riam.
Pret. Perf. ind.: ri, riste, riu, rimos, ristes, riram.
Part. : rido.
Segue este modelo o verbo sorrir.
Servir
Pres. ind. : sirvo, serves, serve, servimos, servis, servem.
Pres. subi.: sirva, sirvas, sirva, sirvamos, sirvais, sirvam.
Imperativo: serve, sirva, sirvamos, servi, sirvam.
Por este verbo se conjugam aderir, advertir, aferir, compelir, competir,
concernir,
conferir, conseguir, convergir, deferir, despir, digerir, divertir,
expelir, impelir, inserir,
perseguir, preferir, preterir, repelir, seguir, sugerir, vestir.
Submergir
Pres. ind.: submerjo (é), submerges (é), submerge (é), submergimos,
submergis,
submergem (é).
Pres. subi. :
submerjam. (é).
Imperativo :
Seguem este
submerja (ê), submerjas (e), submerja (6), submerjamos, submerjais,
submerge (é), submerja (é), submerjamos, submergi, submerjam(ê
modelo aspergir, emergir, imergir.
Vir
Pres. ind.: venho, vens, vem, vimos, vindes, vêm.
Pret. imperf. ind.: vinha, vinhas, vinha, vínhamos, vínheis, vinham.
193
Pret. perf. ind.: vim, vieste, veio, viemos, viestes, vieram.
Fut. pres.: virei, virás, virá, viremos, vireis, virão.
Fut. pret.: viria, virias, viria, viríamos, viríeis, viriam.
Pres. subi.: venha, venhas, venha, venhamos, venhais, venham.
Fut. subi.: vier, vieres, vier, viermos, vierdes, vierem.
Imperativo: vem, venha, venhamos, vinde, venham.
Gerúndio: vindo.
Part.: vindo (cf. pág, 172).
Por este modelo se conjugam advir, avir-se, convir, desavir, intervir,
provir, sobrevir.
151
#
Advérbio. - Advérbio é a expressão modificadora que denota
circunstância (de lugar, de tempo, modo, intensidade, condição, etc.
Aqui tudo vai bem (lugar e modo).
Hoje não irei lá (tempo, negação e lugar)
O aluno talvez não tenha redigido muito
O advérbio é constituído por palavra de natureza nominal ou prono
minal e se refere geralmente ao verbo
advérbio ou a uma declaração inteira:
Tosé escreve bem (advérbio em referência ao v--¥,^
ou ainda a um adjetivo, a um
José é muito bom escritor (advérbio em referência ao adjetivo bom)
José escreve muito bem (advérbio em referência ao advérbio bem).
Felizmente José chegou (advérbio em referência a toda a declaração: José
chegou;
advérbio deste tipo geralmente exprime um juizo pessoal de quem fala).
O advérbio estabelece a transição dos vocábulos variáveis para os
invariáveis; a rigor não tem flexão propriamente dita, mas há uns tantos
advérbios que admitem graus de qualidade como os nomes(')
Locução adverbial. - É o grupo geralmente constituído de
sição + substantivo que tem o valor e o emprego de advérbio:
com efeito, de graça, às vezes, em silêncio, por prazer, sem dúvida, ete.
Outras vezes o substantivo vem com acompanhante e pode ocorrer até
na verdade, de nenhum modo, em breve (subentende-se tempo), à direita (ao
lado
Freqüentemente se cala a preposição nas locuções adverbiais de tempo
194
Espingarda ao ombro (por de espingarda ao ombro), juntou-se ao grupo de
pessoas
Circunstâncias adverbiais. - As principais circunstâncias expressas
por advérbio ou locurão adverbial sã-
#
1~
6) conformidade : Fez a casa conforme
7) dúvida : Talvez melhore o tempo.
8) fim. Preparou-se para o baile.
9) instrumento: Escrever com lápis.
10) intensidade: Andou mais depressa.
11) lugar: Estuda aqui. Foi lá. Passou
pela cidade. Veio dali.
12) modo: Falou assim. Anda mal. Saiu às pressas.
13)referência: "O que nos sobra em glória de ousados e venturosos naveganteN,
míngua-nos em fama de enérgicos e previdentes colonizadores" (LATINO
COE.LHO,
Ant. Nac., 218).
14)tempo: Visitaram-nos hoje. Então não havia recursos. Sempre nos cumprimentaram.
jamais mentiu.
15) afirmação: Sim, eles virão. Realmente -,-irão.
16) negação: Não lerá sem óculos.
a planta.
Acaso encontrou o livro.
OBSERVAÇÃO: A Nomenclatura Gramatical põe os denotadores; de inclusão,
exclusão,
situação, retificação, designação, realce, etc. à parte, sem nome
especial:
1 -inclusio: também, até, mesmo, etc.: .&té o professor riu-se. Ninguém veio,
mesmo o irmão.
2 -exclusão : só, somente, -salvo, senão, apenas, etc.: Só Deus é imortal.
Apenas
o livro foi vendido.
3 - situação: Mas que felicidade. Então duvida que se falasse latim;è Pois
não
é que ele veio?
4 - retificação: aliás, melhor, isto é, ou antes, etc.: Comprei cinco, aliás,
seis
livros. Correu, isto é, voou até nossa casa.
5 - designação: Eis o homem.
6 - realce: Nós é que somos brasileiros.
7 -expletivo: lá, só, ora, que: Eu sei lá! Vejam só que coisa 1 Oh 1 que
saudade que tenho. Ora decidamos logo o negócio.
8 -explicação : a saber, por exemplo, isto é, etc.: Eram três irmãos, a saber:
Pedro, Antônio e Gilberto.
195
Advérbios de base nominal e pronominal. - O advérbio, pela sua
origem e significação, se prende a nomes ou pronomes, havendo, por isso,
advérbios nominais e pronorninais.
Entre os nominais se acham aqueles formados de adjetivos acrescidos
do sufixo mente: rapidamente (= de modo rápido).
OBSERVAÇÃO 1.a: Se o nome tem forma para masculino e feminino, junta-se
o
sufixo ao feminino. Fazem exceção alguns adjetivos terminados em és e or,
que no
português antigo só apresentavam uma forma para ambos os gêneros. Daí
dizer-se
portuguesmente (e não portuguesamente); superiormente (e não
superioramente).
OBSERVAçÃo 2.a: Numa série de advérbios, em geral só se usa a forma em
-
mente no fim: Estuda atenta e resolutamente. Havendo ênfase, pode-se
repetir o
advérbio na forma plena:
"Depois, ainda falou gravemente e longamente sobre a promessa que
fizera" (M. DF
Assis apud S. SILVEIRA, Liç6es, õ480).
153
#
2) relativos: onde (em que), quando (em que), como (por que)
li. ---
Os advérbios relativos, como os pronomes relativos, servem de ligar
a oração a que pertencem com a outra oração. Nas idéias de lugar empregamos
onde, em vez de em que, no qual (e flexões
Precedido das preposições a ou de, grafa-se aonde e dond
O sítio aonde vais é pequeno.
É bom o colégio donde saímos.
Ainda como os pronomes relativos, os advérbios relativos podem empregar-
se de modo absoluto, isto é, sem referência a antecedente (cf. pág.
Os advérbios interrogativos de base pronominal se empregam nas perguntas
diretas e indiretas (cf. pág. 222) em referência ao lugar, tempo,
Onde está estudando o primo? Ignoro onde estuda.
Quando irão os rapazes? Não sei quando irão os ravazes
Como fizeram o trabalho?(1). Perguntei-lhes como fizeram o trabalh
OBsERvAçXo: O Vocabulário Oficial preceitua que se escreva em duas
196
palavras o
advérbio interrogativo por que, por estar preocupado em indicar a origem
pronominal
do advérbio, distinguindo-o de porque conjunção. Melhor seria, seguindo
a tradição
do idioma, grafar todo porque numa só palavra. Quanto à origçm, por que
e porque
se identificam: porque (e o mesmo vale para quando e como) não se enquadra
apenas como conjunção; porque, quando e como são, em verdade "expressões
adverbiais
conjuntivas, isto é, expressões que, sem perderem a sua função adverbial,
têm conco-
Gradação dos advérbios. - Há certos advérbios, principalmente os
de modo, que podem sofrer flexão gradual, empregando-se no comparativo
e superlativo de acordo com as regras que se aplicam aos adjetivos:
a) inferioridade: Falou menos alto que (ou
do que) o irmão
b) igualdade: Falou tão alto quanto (ou como)
o irmão.
1) analítico: Falou mais alto que
(ou do que) o irmão.
2) sintético: Falou melhor (ou Pior)
que (ou do que) o irmão.
Como chovel Vela como chove.
(2) MmaiNz Dz AGUIAR, Notas e Estudos, 197.
#
a) sintético: Falou Pessimamente, altissimo, baixíssimo,
2 - SuPERLATivo dificílimo.
ABSOLUTO h) analítico: Falou muito ruim, muito alto, extremamente
baixo, consideravelmente difícil, o mais depressa
possível
(indica o limite da possibilidade).
3 - DiMINUTIVO COM VALOR DE SUP~TIVO. - Em linguagem familiar pode-se
expressar
o valor superlativo do advérbio através de sua forma diminutiva.
Andar devagarzinho (muito devagar, um tanto devagar).
Acordava cedinho e só voltava à noitinha.
Saiu agorinha.
O diminutivo das fórmulas de recomendação não indica mais lentidão
ou ligeireza da realização do fato, mas serve de expressar ou acentuar
a
recomendação:
Vá depressinha apanhar o meu chapéu.
Ê bom que estudes devagarinho.
197
O~AçÃo: Em lugar de mais bem e mais mal empregam-se melhor, pior:
"Ninguém conhece melhor os interesses do que o homem virtuoso;
promovendo
a felicidade dos outros assegura também a própria" (Marquês de MARicÁ).
Usa-se, entretanto, de mais bem e mais mal junto a adjetivos:
"Os esquadrões mais bem encavalgados foram despedidos logo em seguimento
dos
fugítivoV (A. HERcuLANo, Eurico, 224).
"Com a maça jogada às mãos ambas abalava e rompia as armas mais bem temperadas..."
(id, ibid, 108).
8 - PREPOSI(;A0
Preposiçjo é a expressão que, posta entre duas outras, estabelece uma
subordinação da segunda à primeira:
Casa de Pedro (marca uma relação de posse).
Mesa de mármore (marca uma relação de matéria de que uma coisa é feita).
Passou por aqui (marca uma relação de lugar por onde).
Casa, mesa e passou são subordinantes ou antecedentes; Pedro, mdrmore
e aqui são subordinados ou conseqüentes. O subordinante é representado
por substantivo, adjetivo, pronome, verbo, advérbio ou
interjeição:
Livro de histórias
17til a todos
Alguns de vós
Necessito de ajuda
Referentemente ao assunto
Ai de mim 1
155
#
O subordinado é constituído por substantivo, adjetivo, verbo (no infinitivo)
ou advérbio:
Casa de Pedro
Pulou de contente
Gosta de estudar
Ficou por aqui
'rem que fazer isso.
Locução preposítiva é o grupo de palavras com valor e e-"prego de
uma preposição. Er~ geral a locução prepositiva é constituída de advérbio
ou locução adverbial seguida da preposição de, a ou com
O garoto escondeu-se atrás do móvel
Não saímos por causa da chuva
• colégio ficava em frente a casa
• ofício foi redigido de acordo con? o modelo.
198
Às vezes a locução prepositiva se forma de duas preposições, como
de per (na locução de per si), até a e para com:
Foi até ao colégio
Mostrava-se bom para com todos.
Preposições essenciais e acidentais. - Há palavras que só aparecem
na língua como preposições e, por isso, se dizem treposições essenciais:
a, de, com, por, para, sem, sob, entre, etc.
SãO ACIDENTAIS as palavras que, perdendo aí seu valor e emprego primitivos,
passaram a funcionar como preposições:
durante, como, conforme, feito, exceto, salvo, visto, segundo,
mediante,
tirante, fora, afora, etc.
Só as preposições ESSENCIAIS se acompanham de formas tônicas dos
pronomes oblíquos:
Sem mim não fariam isso
Exceto eu, todos foram contemplados.
Acúmulo de preposições. - Não raro duas preposições se juntam para
dar maior efeito expressivo às idéias1 guardando cada uma seu sentido
primitivo:
Andou por sobre o mar
Estes acúmulos de preposições não constituem uma locução prepositiva
porque valem por duas preposições distintas. Combinam-se com
mais freqüência as preposições: de, para e por com entre, sob e sobre.
"De uma vez olhou por entre duas portadas mal fechadas para o interior
de
outra sala..." (CAmmo, A Queda dum Anjo, 175).
"Os deputados oposicionistas conjuravam-no a não levantar mão de sobre
os projetos
dcpredadores" (ID., ibid,),
156
#
Combinação e contração com outras palavras. - Diz-se que há
combinação quando a preposição, ligando-se a outra palavra, não sofre
redução. A preposição a combina-se com o artigo definido masculino:
a + o = ao; a + os = aos.
Diz-se que há contração quando, lia ligação com outra palavra, a preposição
sofre redução. As preposições que se contraem são: (1).
A
De
1) com o artigo definido ou pronome demonstrativo feminino:
199
a + a = à; a + as = às (esta fusão recebe o nome de crase)
2) com o pronome demonstrativo:
a + aquela = aquela; a + aquelas = àquelas (crase)
a + aquele = àquele; a + aqueles = àqueles (crase)
a + aquilo = àquilo (crase)
1) com o artigo definido masculino e feminino:
de+o=do;de +a = da;de+os = dos; de+ as =das
2) com o artigo indefinido:
de + um dum; de + uns = duns
de + uma duma; de + umas = dumas
3) com o pronome demonstrativo:
de + aquele = daquele; de + aqueles = daqueles
de + aquela = daquela; de + aquelas = daquelas
de + aquilo = daquilo
(te + esse = desse; de + esses = desses; de + este = deste; de + estes
= destes
de + essa = dessa; de + essas = dessas; de + esta = desta; de + estas =
destas
de + isso = disso; de + isto = disto
4) com o pronome pessoal:
de + ele = dele; de + eles = deles
de + ela = dela; de + elas = delas
5) com o pronome indefinido:
de + outro doutro; de + outros doutros
de + outra doutra; de + outras doutras, etc.
(1) Pode-se também considerar contração apenas o caso de crase; nos
outros diremos que
houve combinação. A NGB não tomou posição neste ponto. Na realidade o termo
combinação
é muito amplo para ficar assim restringido.
157
#
aquele = naquele; em + aquelanaquela; em + aqueles = naqu
-em + aquelas = naquelas; em + aquilo naquilo
per + lo = pelo; per + los = pelos; per + Ia = pela; per + Ias = ela
Para (pra) - com o artigo definido:
para (pra) + o = pro; para (pra) + os = pros; para (pra) + a = pra; ara
Co(m) - com artigo definido:
co (m) + o = co; co, (m) + os = cos; co (m) + a = coa; co, (m) + as = coas
200
A preposição e sua posição. - Em vez de vir entre o termo subordinante
e o subordinado, a preposição, graças à possibilidade de outra
disposição
das palavras, pode vir aparentemente sem o primeiro:
(subordinado) (subordina
Os primos estudaram com José
(subordinante)(subordinado)
Com Fosé os ibrimos estudaram
#
Principais preposições e locuções prepositivas;
a dentro para com
abaixo de dentro de como
debaixo de por dentro de conforme
em baixo de dentro em de conformidade com
por baixo de durante consoante
acerca de, cerca de emna conta de
acima de em favor de contra
de cima de em lugar de de
em cima de em prol de de acordo com
por cima de em troco de dentre
a fim de em vez de desde, dês
ante entre por
antes de exceto por meio de
através de fora de per
ao lado de a frente de quanto a, enquanto a
ao longo de em frente de em razão de
a par com junto a segundo
após junto de sem
após de para sem embargo de
à roda de mediante sob
ao redor de até a sobre
a respeito de atrás de trás
até detrás de diante de
defronte de por detrás depor diante de
por defronte de com
9 - CONJUN4~XO
Conjunção é a expressão que liga orações ou, dentro da mesm2D
oração, palavras que tenham o mesmo valor ou funçãoa) "O velho teme o futuro
e se abriga no passado" (Marquês de MAIucÁ).
(liga orações)
b) "O nascimento desiguala, mas a
morte iguala a todo0 (ID.).
(liga orações)
C) "O arrependimento é ineficaz
quando as reincidências são consecutivas" (ID.)
(liga orações)
201
d) "Muitos homens são louvados porque
são mal conhecido0 (ID.).
(liga orações)
e)"Uma velhice alegre e vigorosa é de ordindrio a recompensa da mocidadír
virtuosa" (ID.).
(liga palavras)
As sociedades humanas deixam de existir ou se dissolvem ~ os vício$
(liga orações) (liga orações)
e crimes sobrepujam as virtudes" (ID.).
(liga palavras)
Tipos de conjunção. - Dividem-se as conjunções em coordenativas
e subordinativas.
159
#
I
CÁ)ORDENATIVAS são as conjunções que ligam palavras ou orações do
mesmo valor ou função. Nos exemplos acima são conjunções coordenativas:
e, mas, ou. Em a), b) e f) as conjunções coordenativas e, mas e
ou
ligam duas orações independentes (cf. pág. 216); em e) e f) as conjunções
coordenativas ligam duas palavras do mesmo valor e função (os adjetivos
alegre e vigorosa e os substantivos vícios e crimes).
SUBORDINATIVAS são as conjunções que ligam uma oração a outra dita
principal, estabelecendo entre elas uma relação de dependência (cf. pág.
216). Nos exemplos acima, as conjunções subordinativas quando e porque
iniciam oração que se aclia subordinada à principal para indicar, a respeito
desta, uma circunstância de tempo (quando) ou de causa (porque).
OBamvAçÃo: Duas ou mais orações subordinadas podem estar coordenadas
entre
si desde que tenham o mesmo valor e função: Estudou porque queria e porque
os
pais lhe pediam (cf. pág. 219).
Locução conjuntiva - é um grupo de palavras com valor e emprego
de uma conjunção: para que, a fim de que, tanto que, por isso, por isso
que, etc.
Conjunções coordenativas. - As conjunções coordenativas podem ser:
a)ADiTivAs: quando estabelecem a ligação de palavras ou orações
sem outra idéia subsidiária: e e nem (e não):
"Um concerto de notas graves saudava o por do sol e confundia-se com
o rumor
(Ia cascata (Josá im ALENCAR).
"Não empresteis o vosso nem o alheio, não tereis cuidados nem receio"
202
(Marquês
de MARICÁ).
b) ADVERSATIVAS: quando ligam palavras ou orações que estabelecem
oposição, contraste, compensação, ressalva:
mas, porém, contudo, todavia, entretanto, senão, etc.
"Acabou-se o tempo das ressurreições, mas continua o das insurreições"
(ID.)
"E agora as entregais desta maneira não a pastores, senão a lobos"
(VIEIRA apud
A. NAscENTEs, Dificuldades de Andlise SinUtica, 7).
c)ALTERNATIVAS: quando ligam expressões e orações que ou estabelecem
uma separação ou exclusão da palavra ou oração a que se
ligam: ou, ou.. . ou, já ... id, ora. .. ora, etc.
"Quando a cólera ou o amor nos visita, a razão se despede- (ID.).
d)CONCLUSIVAS: quando ligam orações que encerram uma conclusão:
logo, pois (no meio ou no fim da oração), portanto, por isso, etc.:
Estudou, logo será recompensado.
160
#
e)EXPLICATIVAS: quando começam oração que explica a razão de
ser do que se diz na oração a que se ligam: pois (no início da
oração), que (porque), porque, porquanto:
Venha, porque desejo conversar com você.
Fazia tudo para ser agradável, pois não deixava uma pergunta sem resposta.
As explicatívas que e porque aparecem normalmente depois de orações
optativas e imperativas.
OBSERVAÇõES:
1.a) As explicativas não passam de causais coordenativas, que nem sempre
se separam
claramente das causais subordinativas que veremos adiante. "Em
certas línguas
distingue-se a causal subordinativa da causal coordenativa pela
diversidade de partícula
(em francês parce que, car; em inglês because, for; em alemão weil, denn);
em português,
empregando-se porque ou que para um e outro caso, conhece-se a diferença
pela pausa.
A causal subordinativa separa-se da oração principal por uma pausa muito
fraca (que
se representa, quando muito, por uma vírgula). A causal coordenativa
203
separa-se da
proposição anterior por uma pausa mais forte (que se figura por vírgula,
ponto e
vírgula, e até por ponto final)". (SAIo ALI, Gramática Secundária, 203).
2.a) Cumpre não confundir as conjunções explicativas; com as partículas
e locuções
explicativas do tipo de a saber, isto é, por exemplo, que, por não se
enquadrarem
nas classes de palavras estabelecidas pela gramática tradicional,
constituem um grupo
à parte, estudado na pág. 153.
Conjunções subordinativas. - As conjunções subordinativas; compreendem
dois grupos: as integrantes e as adverbiais.
As INTEGRANTES são que (nas declarações de fatos certos) e se (nas
declarações de fatos incertos e dubitativos), e servem para iniciar
orações
como sujeito, objeto, predicativo, complemento nominal, ou aposto, conforme
veremos na sintaxe.
Desejo que tudo vá bem. Não sei se tudo vai bem.
AS ADVERBIAIS iniciam orações que exprimem uma circunstância
adverbial de outra oração dita principal e se subdividem em:
1) CAUSAIS: quando iniciam oração que exprime a causa, o
a razão do pensamento na oração principal:
que (= porque), porque, como (= porque, sempre anteposta a sua principal,
no português moderno), visto que, visto como, já que, uma vez que (com
o verbo
no indicativo), desde que (com o verbo no indicativo), etc.
"A memória dos velhos é menos pronta porque o seu arquivo é muito extenso"
(Marquês de MARicÁ).
"Como ia de olhos fechados, não via o caminho" (M. DF. Assis, Memórias
Póstumas,
19).
"Desde que se fala, indeterminadamente, e no plural, em direitos
adquiridos e
atos jurídicos perfeitos, razão era que no plural e indeterminadamente
se aludisse a
casos julgados" (R. BARBOSA, Parecer, 1, 25, 2.a ed.).
161
#
IOBSERVA96ES :
1.a) já se condenou injustamente o emprego de desde que em sentido causal,

o aceitando com idéia temporal (assim que) ou condicional.
2.a) Evite-se o emprego de de vez que por não ser locução legitima.
204
2) COMPARATIVAS: quando iniciam oração que exprime o outro
termo da comparação. A comparação pode ser assimilativa ou quantitativa.
É assimilativa "quando consiste em assimilar uma coisa, pessoa, qualidade
ou fato a outra mais impressionante, ou mais conhecida"('). As conjunções
comparativas assimilativas são como ou qual, podendo estar em correlação
com assim ou tal postos na oração principal, ou ainda aparecer
.assim como :
"O medo é a arma dos fracos, como a bravura a dos fortes" (Marquês de
MAiUCÁ).
"A ignorância, qual outro Factonte, ousa muito e se precipita como ele"
(ID.).
"O jogo, assim como o fogo, consome em poucas horas o trabalho de muitos
anos" (ID.).
i
A comparação quantitativa "consiste em comparar, na sua quantidade i
ou intensidade, coisas, pessoas, qualidades ou fatos" (J. M. Cámara,
ibid.).
Há três tipos de comparação quantitativa:
a) Igualdade - introduzida por como ou quanto em correlação com
o advérbio tanto ou tio da oração principal:
"Nenhum homem é tão bom como o seu partido o apregoa, nem tão mau como
o contrário o representa" (Marquês de MAiucA).
"Nada incomoda tanto aos homens maus como a luz, a conadéncia e a razão"
(ID.).
,b) Superioridade - introduzida por que ou do que em correlação
com o advérbio mais da oração principal:
-0 orgulho do saber é talvez mais odioso que o do poder" (ID.).
-,0 homem bom espera mais do que teme, o mau receia mais do que espera"
(ID.).
c) Inferioridade - introduzida por que ou do que, em correlação com
o advérbio menos da oração principal:
"Tempos há em que é menos perigoso mentir que dizer verdades" (ID.).
3) CONCESS1VAS: quando iniciam oração que exprime que um obstáculo
- real ou suposto - não impedirá ou modificará a declaração da
oração principal: ainda que, embora, posto que, se bem que, conquanto,
apesar de que, etc.:
"Ainda que perdoemos aos maus, a ordem moral não lhes perdoa, e castiga
a
.nossa indulgéncia" (ID.). i:
(1) MAToso CAmARA, Gramdtica, 11, 48.
162
#
205
4) CONDICIONAIS (e hipotéticas): quando iniciam oração que em
geral exprime: a) uma condição necessária para que se realize ou se
deixe de realizar o que se declara na oração principal; b) um fato - real
ou suposto - em contradição com o que se exprime na principal. Este
modo de dizer é freqüente nas argumentações. As principais conjunções,
condicionais (e hipotéticas) são: se, caso, sem que, uma vez que (com o
verbo no subjuntivo), desde que (com o verbo no subjuntivo), dado que,
sem que, contanto que, etc.:
"Se os'homens não tivessem alguma cousa de loucos, seriam incapazes de
heroísmo"
(ID.).
"Se as viagens simplesmente instruíssem os homens, os marinheiros seriam
mais
instruídos" (ID.).
5) CONFORMATIVAS: quando iniciam oração que exprime um fato em
conformidade com outro expresso na oração principal: como, conforme,
segundo, consoante :
"Tranqüilizei-a como pude" (M. DE Assis, Memórias Póstumas, 174).
Fez os exercícios conforme o professor determinou.
6) CONSECUTIVAS: quando iniciam oração que exprime o efeito ou
conseqüência do fato expresso na oração principal. A conjunção consecutiva
é que, que se prende a uma expressão de natureza intensiva como
tal, tanto, tio, tamanho, posta na oração principal. Estes termos
intensivos
podem facilmente calar-se:
"Os povos exigem tanto dos seus validos, que estes em breve tempo se
enfadam
* os atraiçoam" (Marquês de MARICA).
"Os vícios são tão feios que, ainda enfeitados, não podem inteiramente
dissimilar
* sua fealdade" (ID.).
"Vive de maneira que ao morrer não te lastimes de haver vivido" (ID.).
rato é,
vive de tal maneira que (que em conseqüência ... ).
É ainda conjunção consecutiva o que depois de oração negativa para
denotar que a conseqüência se dá a todo transe, se repete sempre que
ocorrer o fato anterior (o verbo da consecutiva está no subjuntivo): ,
Não brinca que não acabe chorando.
OBSERVAÇÃO: Muitos gramáticos dão este que como conjunção condicional.
7) FINAIS: quando iniciam oração que exprime a intenção, o objetivo,
a finalidade da declaração expressa na oração principal: para que, a fim
de que, que (para que), porque (para que):
"Levamos ao Japão o nosso nome, para que outros mais felizes
implantassein
naquela terra singular os primeiros rudimentos da civilização ocidental"
(L. CoELHO,
206
Ant. Nac, 219).
163
#
8) MODAIS: quando iniciam oraçao que exprime o modo pelo qual
se executou o fato expresso na oração principal: sem que:
Fez o trabalho sem que cometesse erros graves.
OBsERvAçÃo: A Nomenclatura Gramatical Brasileira não agasalhou as
conjunções
modais e, assim, as orações modais, apesar de por o modo entre as
circunstâncias
adverbiais.
9) PROPORCIONAIS: quando iniciam oração que exprime um fato que
ocorre, aumenta ou diminui na mesma proporção daquilo que se declara
na oração principal: à medida que, à proporção que, ao passo que, (tanto
mais) ... quanto mais, (tanto mais) ... quanto menos, (tanto menos) ...
quanto mais, (tanto mais) ... menos, etc.:
"O anão quanto mais alto sobe, mais pequeno se afigura" (Marquês de
MARICÁ).
Progredia à medida que se dedicava aos estudos sérios.
10) TEMPORAIS: quando iniciam oraçao que exprime o tempo da
realização do fato expresso na oração principal. As principais conjunções
e locuções conjuntivas temporais são:
a) para o tempo anterior: antes que, primeiro que:
"Ninguém, senhores meus, que empreenda uma jornada extraordinária,
primeiro
que meta o pé na estrada, se esquecerá de entrar em conta com suas
forças"...
(Rui BARBOSA, Ant. Nac., 126).
la)para o tempo posterior (de modo indeterminado) : depois que,
quando:
quando disse isso, ninguém acreditou.
c)para o tempo posterior imediato: logo que, tanto que (hoje raro),
assim que, desde que, apenas, mal, eis que, (eis) senão quando,
eis senão que :
Logo que saíram, o ambiente melhorou.
"Apenas o tigre moribundo sentiu o odor da criança, fez uma contorção
violenta,
e quis soltar iam urro" (J. DE ALENCAR).
d)para o tempo freqüentativo (repetido): quando (com o verbo no
207
presente), todas as vezes que, (de) cada vez que, sempre que :
"Quando o povo não acredita na probidade, a imoralidade é geraP (Marquês
de
MARICÁ).
CaBsERvAçÃo: Evíte-se o erro de preceder com em o que da locução todas
as vezes
que (dizendo: todas as vezes em que).
164
i
#
e)para o tempo concomitante: enquanto, (no) entretanto que
(hoje raro):
Dormiu enquanto estava no cinema.
OBSERVAÇÃ(: Entretanto ou no entretanto são advérbios de tempo, com o
sentido
de nesse ínterim, nesse tempo, nesse intervalo:
"O aperto dos sitiados aumentava entretanto de dia para dia" (REBELO
DA SILIVA,
História de Portugal, IV, 208).
Mais modernamente entretanto passou a valer por uma conjunção
adversativa, e
por influência do advérbio, tem sido empregado precedido da combinação
no (no
entretanto). Muitos puristas condenam tal acréscimo.
f) para o tempo terminal: até que
Passeou até que se sentisse esgotado.
É conjunção temporal o que que se segue a expressões de tempo: agora
que, hoje que, então que, a primeira vez que, etc.
Agora que tudo aca~ou, posso pensar mais tranqüilamente.
Se o conjunto é proferido sem pausa, estabelece-se uma unidade de
sentido à semelhança de depois que, id que, etc., e se passa a considerar
o
todo como locução conjuntiva temporal:
Agora que tudo acabou, posso pensar mais tranqüilamente.
Que excessivo. - Sob o modelo das locuções conjuntivas finalizadas
por que, desenvolveu-se o costume de acrescentar esta partícula junto a
palavra que só por si funciona como conectivo: enquanto que, apenas que,
embora que, mal que, etc., construções que os puristas não têm visto com
bons olhos, apesar dos exemplos de escritores corretos:
porque a ~ ciência- é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto
que
o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos" (M. DF, Assis,
Memórias
208
Póstumas, 24).
Aparece ainda o que excessivo depois de expressões de sentido temporal
como:
Desde aquele (lia que o procuro.
Conjunções e expressões enfáticas. - As conjunções coordenativas
podem aparecer enfatizadas. Para esta ênfase o idioma se serve de vários
recursos. Assim, a adição pode vir encarecida das expressões do tipo:
n4o só ... mas (também)
não só ... mas (ainda)
não só ... sendo (também)
nélo só ... que também, etc.:
Ndo só se aplica ao português mas ainda ao latim.
165
#
A alternativa pode ser enfatizada pela repetição:
Ou estudas ou brincas.
já dizes sim, já dizes não.
Ora vem aqui, ora vai ali.
A série nem... nem adquire sentido aditivo negativo.
Nem estudou nem tirou boas notas (não estudou e não tirou...
Quer ... quer e ou ... ou, com o verbo no subjuntivo e tom de voz
descendente, podem denotar a concessão quando a possibilidade de ações
opostas não impede a declaração contida na oração principal:
Quer estudes quer não, aprenderás facilmente a lição.
Nas subordinadas e principais a correlação de uma expressão com o
conectivo ou outro termo da oração a que se prende, para mostrar relação
em que essas orações se acham com a circunstincia ou fato já expresso,
é
outro meio de enfatizar a interdependência oracional. Esta expressão
memorativa é constituída por advérbio ou equivalente:
"Como os sábios não adulam os povos, também estes os não promovem"
(Marquês
de MARICÁ).
"Quando os homens se desigualam, então se harmonizam" (ID.).
Embora não me digam a verdade, ainda assim perguntarei mais vezes.
"Acabemos, pois, de despertar deste mortal letargo" (EPIFANIo DIA9,
Gramática
Elementar, 119).
"Estudemos portanto, e não nos deixemos dominar pela preguiça" (RrBEiRo
Dz
VAwoN~s, Gram. Portuguesa, 251).
OBSERVAÇÃO FINAL: Maximino Maciel, levando em conta o valor adverbial
de muitas
209
palavras que em geral são apontadas como conjunção, reduziu o grupo desta
última
classe a. e, ou, mas. (Cf. Gramática Descritiva, 153).
10 - INTERJEI(;,&O
Interjeiçjo é a expressão com que traduzimos os nossos estados emotivos.
Eis as nossas principais interjeições:
1) de exclamação: viva !
2) de admiração: ah ! oh
3) de alívio: ah! ch!
4) de animação: coragem! eia! sus!
5) de apelo ou chamamento: ó! olá! aló! psit! Psiu!
6) de aplauso: bem! bravo!
7) de desejo ou ansiedade: oh! oxalá! tomara!
8) de dor física: ai! ui!
9) de dor moral: oh!
1.0) de dúvida, suspeita, admiração: hum! hem! (também hein)
11) de impaciência : arre ! irra ! apre ! puxa ! (melhor será, não registrado
oficialmente,
pucha)
166
I
#
12) de imposição de siléncio: caluda! Psiu! (demorado)
13) de repetição: bis!
14) de satisfação: upa! oba! opa!
15) de zombaria: liau!
Locução interjetiva - é um grupo de palavras com valor de interjeição:
ai de mim; ora bolas; com todos os diabos.
As interjeições são proferidas em tom de voz especial ascendente ou
descendente, conforme as diversas circunstáncias dos nossos estados
emotivos.
Quando estão combinadas com uma frase maior exclamativa, podem-se
separar da frase por meio de uma vírgula, ou por meio do ponto de
exclamação, ao qual se deve seguir, entretanto, letra minúscula:
Oh 1 que doce harmonia traz-me a brisa (CAxmo ALvEs, apud. J. MAToso
C~ JR.,
Gramática, 1, 65).
B) 1 - Estrutura dos vocábulos
Vocábulo e morfema
Vocdbulo é a menor forma livre da enunciação, constituído de um ou
mais morfernas.
Chama-se morfema a menor unidade de significação que constitui o
elemento ou os elementos integrantes do vocábulo. Os morfernas podem
210
ser livres e presos, conforme se usam independente ou dependentemente
na enunciação. Os morfernas apresentam: a) uma significação externa,
referente a noções do nosso mundo (ações, estados, qualidades, ofícios,
seres em geral, etc.), b) uma significação interna (puramente da esfera
das
noções gramaticais). A depreensão de um morfema depende de dois requisitos:
a) a significação e b) a forma fonética. É importante observarmos
que uma só forma fonética pode representar mais de um morfema:
assim -s representa o plural era as casas e a 2.a pessoa singular em cantas.
Por outro lado, um só morferna pode ter realizações fonéticas diferentes
em virtude do ambiente fonético do contexto em que se acha; por exemplo,
o morfema que corresponde à letra -s para indicar o plural em
português se realiza como jx/ diante de consoante surda (os cães), como
/j/ diante de consoante sonora (os gatos) e como /z/ diante de vogal
(os homens) (1).
(1) O estudo das diversas realizaç5es fonéticas de um dado morfema, como
é o caso do
nosso índice de plural, recebe, em língilátIca descritiva, o nome de
morfofonémica ou
morfonémica.
167
#
Os elementos mórficos. - Em português, os vocábulos se poderr
a) mar, sol, ar, é, hoje, lápis;
b) aluno alunas trabalhávamos
c) casarão, livrinho, cantor, casamento, folhagem, alemão, fertilizar,
Em a) os vocábulos não se podem reduzir a formas menores, porque
só possuem um elemento mórfico chamado radical. Radical é o núcleo
do vocábulo onde repousa a significação externa da palavra.
já nos vocábulos do grupo b) segue-se ao radical (de significação
externa) um ou mais elementos de significação interna ou puramente gra
matical. Aluno pode desmembrar-se em alun e o (1). O primeiro elemento
(radical) encerra a significação do vocábulo, cabendo ao final o rela
cioná-lo ao niorfema do gênero masculino. Em alunas o radical é alun, e
as encerra dois elementos de significação interna: 1) -a (indicador dc
Em trabalhd
gênero feminino) e 2) -s (indicador do número plural).
vamos o radical é trabalh- e os elementos mórficos de significação intern2
são: 1) -va (que caracteriza o pret. iniperf. do indicativo dos verbos
da
1.a conjugação) e 2) -mos (que caracteriza a 1.a pessoa do plural).
Os elementos mórficos de significação interna, indicadores das flexões
gramaticais, chamam-se desinências e se dividem em nominais e verbais.
211
As desinências nos nomes e em certos pronomes denotam as flexões
de gênero e número; nos verbos: número, pessoa, tempo e modo.
Muitas vezes o radical não se prende diretamente às desinências; com
pleta-o uma vogal para constituir o tema do vocábulo e por isso se chamE
Tema é_ portanto, o radical acrescido da vogal temática e qu
constitui a parte do vocábulo pronta para receber a desinência ou sufixo
Nos nomes a vogal temática (a, o, e) quase sempre coincide com a
desinências de gênero. A vogal temática o ou e se acha representada, às
vezes, por uma semivogal de um ditongo: PãO, PãES. Não têm vogal
temática os nomes terminados em consoante ou vogal tônica, e por isso se
dizem ATEMÁTICOS: ma- fé Neste caso o tema coincide com o radical
OBSERVAÇÃO: Em geral a vogal tônica final (à, é, 6, é, 6) resulta da
crase d
da vogal do radical com a temática: fé<fee<fide (m). Em análise mórfica
for
(1) Livro se desdobra em livr- e -o, porém o nIo se opõe, aqui, ao feminino
-a, cow
existe em alun-o/alun-a. Só pela oposição é que se caracteriza o morfema.
Este processo de com
#
Em regra isto se dá com muitos substantivos tirados de verbos.
A ABREVIAÇÃO consiste no emprego de uma parte da palavra pelo todo.
É comum não só no falar coloquial, mas ainda na linguagem cuidada, por
brevidade de expressão: extra por extraordinário ou extrafino.
A forma abreviada passa realmente a constituir uma nova palavra e,
nos dicionários, tem tratamento à parte, quando sofre variação de sentido
ou adquire matiz especial em relação àquela donde procede. Fotografia
e foto são sinônimos porque designam a mesma coisa, embora a
sinonímia não seja absoluta. Foto, além de ser de emprego mais corrente,
ainda serve para títulos de casas do gênero, o que não se dá com o termo
fotografia.
A REDUPLICAÇÃO, também chamada duplicação silábica, consiste na
repetição de vogal ou consoante, acompanhada quase sempre de alternáncia
vocálica, para formar uma palavra imitativa:
normal:
tique-taque, reco-reco, Pingue-pongue (que provavelmente representa o
chinês Ping-
Pang, através do inglês ping-pong, segundo SAPIR, A Linguagem, 82). Este
é o processo
geralmente usado para formar as onornatopéias (cf. pág. 42).
212
A CONVERSÃO consiste no emprego de uma palavra fora de sua função
Terrível palavra é um não. Nio consegui descobrir o pwquê da questio.
Ele é o benjamim da família. Isto prova a não-existência do erro.
Entre os casos de conversão podemos incluir a passagem de uma
parte de um grupo de vocábulos (geralmente o final) a palavra -isolada:
Ele tem certas fobias (fobia é a parte de um grupo de palavras que
designam aversão a uma coisa: fotofobia, xenofobia, hidrofobia, etc.).
Estamos no século dos ismos e das logias.
OBSERVAÇÃO: Os casos de conversão recebiam o nome inexpressivo de
derivação
imprópria.
-Hibridismo. - Chama-se hibridismo à formação de vocábulos com
elementos de idiomas diferentes. São mais comuns os hibridismos constituídos
da combinação de elemento grego com outro latino ou románico:
sociologia (latino e grego), auto-sugestão (grego e português), televisão
(grego e português), burocracia (francês bureau e grego), automóvel
(grego e português), decímetro (latino e grego).
A nossa língua forma com facilidade hibridismos com elementos estrangeiros
que se acham perfeitamente assimilados ao idioma como se
fossem elementos nativos. Assim é que fobia, mania, filo, tele, macro,
micro, neo, pseudo, auto e sufixos como ismo, ista, ico se juntam a
elementos de qualquer procedência: germanófilo, russófilo, germanofobia,
185
#
russofobia, retratamania, teleguiado, microônibus, neovencedor,
pseudovencedor,
autocrítica, auto-retrato, caiporismo, governista. (*)
- Radicais gregos'mais usados em português. - Grande é o número
de radicais gregos que encontramos no vocabulário português. Muitos
deles nos chegaram através do latim e são antiqüíssimos; lembremo-nos
de que nos sécs. xvi a xviii o latim era o veículo das obras de ciência
e de filosofia em que abundavam os empréstimos de vocábulos gregos.
Na adaptação dos termos gregos para o latim geralmente se procedia da
seguinte maneira: k, ai, ei, oi, ou, u, r (aspirado) gregos eram transliterados
para latim, respectivamente em c, ae, i, oe, u, y e rh, e esta prática
prevalecia para o português e demais línguas modernas. Esta norma nem
sempre é hoje obedecida quando se trata de novos termos científicos.
Assim é que se prefere calidoscópio a caleidoscópio (ei > i), apesar de,
na
linguagem técnica, dizer-se dêictico e não díctico. Por outro lado, em
regra
não vamos ao grego para formar palavras novas; elas nos vêm do estrangeiro,
mormente de França, através da nomenclatura científica comum à
maioria das nações cultas. E os erros que lá fora se cometem na formação
dos neologismos não são por nós corrigidos. Aceitamos, e não há corrigi-
las, formas errôneas como quilômetro (por quiliômetro), hectâmetro
213
(por hecatômetro).
Outras vezes não se leva em conta o sentido rigoroso do termo grego.
Assim se aplica algos à dor física em vez da moral e se diz cefalalgia
(dor
de cabeça), odontalgia (dor de dente), nevralgia (dor de um nervo); também
empregando-se geo para indicar terra como elemento, em vez de
argila (uma vez que o primeiro só se poderia aplicar ao globo terrestre),
se diz geófago (= comedor de terra) por argilófago. Ainda nos cabe
dizer que muitos dos nomes técnicos, principalmente gregos, trazem na
sua etimologia uma noção que o progresso científico considera errônea ou
imperfeita. Dessarte dtomo, que significa indivisível, o que não se pode
inais dividir, não pode ser hoje tomado ao pé da letra; oxigênio quer dizer
gerador de deidos, como se todos os ácidos contivessem este corpo. Como
são termos cuja etimologia não é inquirida, podem continuar a ser empregados
sem inconveniência. Por fim, lembramos os casos de esquecimento
etimológico em que o sentimento moderno não dá conta do sentido
de elemento constitutivo da palavra, dizendo, por exemplo, ortografia
correta (ortos = correta), caligrafia bonita (calos = belo). Os bem
falantes reagem contra muitos esquecimentos como hemorragia de sangue,
decapitar a cabeça, exultar de alegria, estes dois últimos latinos.
Os principais radicais gregos usados em português são
aer, aer-os (ar): acronauta, aerostato, aéreo
angel-os - aggel-os (enviado, mensageiro): anjo, evangelho
ag-o, agog-os (conduzir, condutor): demagogo, pedagogo
(1) O ar vernáculo é tal, que a rigor não se poderia falar de hibridismo
em muitas dessas
inovações vocabulares.
186
#
ag-ón, -on-os (combate): agonia, antagonista
agr-os (campo): agronomia
eti-a - aiti-a (causa): etiologia
acr-os - akr-os (alto, extremidade): acrópole, acrobata, acróstico
alg-os (sofrimento, dor): nevralgia, nostalgia
anem-os (vento, sopro): anemoscópio, anêmona
ant-os - anth-os (flor): antologia
antrop-os - anthrop-os (homem): filantropo, misantropo, antropófago
arc-aios - arch-aios (antigo): arcaico, arqueologia
arc, arch-ê (governo): anarquia, monarquia
arc, arch-os (chefe que comanda): monarca
aritm-os - ariffim-os (número): aritmética, logaritmo
arct-os (urso): ártico, antártico, Ç'o nome drtico refere-se às
constelações Grande Ursa
e Pequena Ursa, em uma das quais se acha a Estrela Polar", SAiD AU, Gram
Sec., 167)
aster, ast(c)r-os (estrela): asteróide, astronomia
aut-os (si mesmo): autógrafo, autonomia
bal-o - ba11-o (projetar, lançar): balística, problema, símbolo.
bar-is - bar-ys, bar-os (pesado, grave): barítono, barômetro
bibl-ion (livro): bibliófilo, biblioteca
214
bi-os (vida): biografia, anfíbio
cir, quir-os - cheir, cheir-os (mão):
col-e - chol-e (bílis): melancolia
cor-os, corea - chor-os (côro): coréia (dança em coro), coreografia
cron-os chron-os (tempo): crônico, cronologia, isócrono, anacronismo
cro'm-a chrom-a (cor): cromolitografia
cris-OS chrys-os (ouro): crisóstorno, crisálida, crisântemo
quil-os chilios (mil): quilograma
quil-os chylos (suco): quilífero
dactil-os - daktyl-os (dedo): datilografia ou dactilografia
dem-os (povo): democracia, epidemia
derm-a (pele): epiderme, paquiderme
do-ron (dom, presente): dose, antídoto, Pandora
dox-a (opinião): ortodoxo, paradoxo
dra-ma, -atos (ação, drama): drama, dramático, melodrama
drom-os (corrida, curso): hipódromo, pródromo
dinam-is - dynam-is (força): dinâmica, dinamómetro
edr-a (base, lado): pentaedro, poliedro
id-os - eid-os (forma), donde procede dide (que se assemelha a): elipsóide
ic-on - eik-on, -on-os (iffiagem): Icono, iconoclasta.
electra - eleUr-on (âmbar, eletricidade): elétrico, eletr6metro
erg-on (obra, trabalho), daí os sufixos urgo, -urgia: metalurgia,
dramaturgo, energia
ep2ter-a (entranhas): enterite, disenteria
etn-os - ethn-os (raça, nação): étnico, etnografia
gam-os (casamento), daí gamo (o que se casa): polígamo, bígamo, criptógamo
quiróptero, cirurgia, quiromancia
187
#
gaster, gast(e)-ros (ventre, estômago): gastrônomo, gastralgia
ge (terra): geografia, geologia
genes-is (ação de gerar): gênese, hidrogênio
gen-os (gênero, espécie): homogêneo, heterogêneo
gloss-a ou glott-a (língua): glossário, glotologia, epiglote
gon-ia (ângulo): pollgono, diagonal
gon-os (formação, geração): cosmogonia, teogonia.
graf-o, gram-o - graph-o (escrever), e daí graph-ia (descrição), graph-o
(que escreve),
gramm-a (o que está escrito): geografia, telégrafo, telegrama
hem-a - haim-a, -atos (sangue): anemia
here-o - haire-o (tomar, escolher): heresia, herético
helio (sol): helioscópio, heliotrópio
hemer-a (dia): eférnero, efemérides
heter-os (outro): heterodoxo, heterogêneo
hier-os (sagrado): hierarquia, hieróglifo
hip-os - hipp-os (cavalo): hipódromo, hipófago
hol-os (entregue de todo, inteiramente): ológrafo, holocausto
hom-os (semelhante): homogêneo, homônimo
hor-a (hora): horóscopo
hid-or - hyd-or, -atos (água), dai hydor, hydro, como elemento de
215
composição:
hidrogênio, hidrografia
ict-io - icht-yo, -yos (peixe): ictiologia, ictiófago
idi-os (próprio, particular): idioma, idiotismo
isos (semelhante). isócrono, isotérmico
cac-os - kak-os (mau): cacofonia, cacografia
cai-os - kal-os (belo), kallos (beleza): caligrafia
card-ia - kard-ia (coração): cardíaco, pericárdio
carp-os - harp-os (fruto). pericarpo, endocarpo
cejal-e hephal-e (cabeça): cefalalgia, encéfalo
cosm-os Aosm-os (mundo). cosmografia, cosmopolita
crat-os krat-os (poder): democrático, aristocrático
cicl-os kykl-os (círculo): herniciclo, bicicleta
leg-o (dizer, escolher). ecletismo
lamban-o (tomar), daí leps-is (ação de tomar), lemma (coisa tomada):
epilepsia, lema,
dilema
log-os (discurso, tratado, ciência): diálogo, arqueologia, bacteriologia,
epílogo
maqu-c - mach-e (combate): logomaquia
macr-os - makr-os (grande): macróbio
man-ia (mania, gosto apaixonado por): bibliornania, monomania
manci-a - mantei-a (adivinhação): cartomancia, quiromancia
martir, ri-os - martyr, yr-os (testemunho): mártir, martirólogo
megas, megal-os (grande): megalomania
mel-as, -an-os (negro): melancolia, melanésia
mel-os (música, canto): melodia, melodrama
mes-OS (meio): Mesopotâmia
meter, metr-os (mãe), metrópole
188
7
#
metr-on (medida): barômetro, termômetro
micr-os - mikr-os (pequeno): micróbio, microscópio
mis-os (ódio): misantropo
mnem-e (memória): amnésia, mnemotécnica
mon-os (só): monólogo, monólito
morf-e - morph-e (forma): morfologia
mit-os - myth-os (fábula, mito): mitologia
miri-a - myri-a em vez de myri-o (dez mil): miriápode
necr-os - nekr-os (morte): necrópole, necrologia
ne-os (novo): neologismo, neófito
nes-os (ilha): micronésia, melanésia
neur-on (nervos): nevralgia, neurastenia
nom-os (lei, administração, porção): astronomia, autonomia
od-e (canto): paródia
od-os (caminho, via): éxodo, método, período
odon, -ont-os (dente): odontologia
onom-a, -atos (nome): pseudônimo, sinônimo
of-is, of-id oph-is, oph-id-os (serpente): ofídio
216
oftalm-os ophtaim-os (olho): oftalmia, oftalmoscópio
ops, op-os (vista): ops-is (ação de ver), opt-ik-os (que se refere a visão):
miopia,
autópsia
oram-a (vista): cosmorama, panorama
ornis, ornit-os - ornis, ornith-os (ave): ornitologia
or-os (montanha): orografia
ort-os - orth-os (direito, reto): ortodoxo, ortografia, ortopedia
ost-eon (osso): osteologia, periósteo
ox-is - ox-ys (ácido, agudo): oxigênio, paroxismo
pes, ped-os - pais, paid-os (criança,
menino): pedagogia
pale-os - palai-os (antigo): paleontologia, paIeografia
pan, pant-os (todos): panorama, panéplia, panteísmo, pantógrafo
pat-os path-os (afecção, doença): patologia, simpatia
fag-o phag-o (comer): antropófago, hipófago
fan-o, fen-o - phain-o (fazer aparecer, brilhar): diáfano, fenômeno
femi - phemi (eu digo, falo): eufemismo, profeta
fer-o, for-os - pher-o (levar, trazer), phor-os (que traz): fósforo,
semáforo
fil-os - phil-os (amigo): filarmonia, filantropo
fobe-o, fob-os - phobe-o (temer, fazer fugir), daí phob-os: hidrófobo,
anglófobo,
russófobo
fos, fot-os - phos, phot-os (luz):
fósforo, fotografia
plut-os - plout-os (riqueza): plutocracia
fon-e - phon-e (voz): cacofonia, telefone
pol-is (cidade): acrópole, metrópole, necrópole
pol-is - pol-ys (muito): poligamia, polígono, policromia, polinésia
pos, pod-os - pous, pod-os (pé):
antípoda, miriápode
prot-os (primário): protagonista, protocolo, protozoário, protoplasma
pseud-os (falsidade, mentira): pseudônimo
189
#
psiqu-e - psych-e (alma): psicologia, metempsicose
pter-on (asa): quiróptero, coleóptero
pir, pir-os - Pyr, Pyr-os (fogo, febre): pirotécnico, antipirina
re-o - rhe-o (correr, fluir): catarro, diarréia
sisin-os - seisrn-os, daí sism (estremecimento): sismologia, sísmico
scope-o - shopeo (examinar), daí scópio (que faz ver): telescópio,
microscópio
sof-os - soph-os (sábio): filósofo
estat-os - stat-os (que se mantém): aeróstato, hidrostática
estere-o - stere-o (sólido): estereotipo, estereotomia
estref-o - streph-o (virar, voltar): apóstrofe, catástrofe
taf-os - taphos (ffimulo): epitáfio, cenotáfio
tauto por to auto (o mesmo): tautologia
tecn-e - techn-e (arte): politécnico
teras, terat-os (prodígio, fenômeno, monstro): teratologia
217
tele (longe): telégrafo, telefone, telescópio
te-os - the-os (deus): teologia, teocracia, politeísmo
term-os - therm-os (quente): termômetro
tes-is - thes-is (ação de por, ter): antítese, síntese
tom-e (cortadura, secção): tomo, átomo, estereotomia
top-os (lugar): tópico, topografia, atopia
trauin-a, -atos (ferimentos): traumático
tip-os - typ-os (tipo, caráter): tipografia, arquétipo
zo-on (animal, ser vivo): zoologia, zoófito
Famílias etimológicas de radical latino. - Chama-se família etimológica
a uma série de vocábulos cognatos. Cabem aqui as judiciosas observações
do Prof. Said Ali: "parece cousa extremamente fácil distinguir
palavras derivadas de palavras primitivas quando se trata de exemplo
como pedreiro, pedraria, pedregulho ou fechamento, laranjal, bananeira,
que não requerem especial cultivo da inteligência para alguém saber que
se filiam respectivamente a pedra, fechar, laranja, banana. São entretanto
numerosos os casos em que transparece menos lúcida a relação entre o
termo derivado e o derivante, sendo necessário algum estudo para perceber
a filiação. Outras vezes tem havido tal exclusão de forma e sentido, que
surge um curioso conflito entre o sentimento geral do vulgo e o fato
encarado à luz da pesquisa científica" (1).
Nesta matéria cabe distinguir cuidadosamente uma forma livre de
uma forma presa (cf. pág. 167). Receber, por exemplo, é considerada
como derivada prefixal, embora -ceber não tenha curso independente na
língua, porque é uma forma presa de caber, que aparece numa série de
palavras portuguesas:
re I
per -ceber
con
(1) Gramática Histórica, 11, 3.
190
#
0 mesmo ocorre com ~resistir, cuja forma presa -sistir é elemento
a série:
co um a Um
re
per
con-sistir
de
sub
já o mesmo critério não se aplica a outros vocábulos como esquecer
iludir e inteligência, que passaram a funcionar, para o sentimento dos
que falam português, como vocábulos primitivos.
Eis uma pequena lista de cognatos com radical latino:
218
aequus, a, um (direito, justo): adequar, equação, equidade, igual, iníquo.
ager, agri (campo): agrário, agricultor, agrícola, peregrino.
ago, agis, egi, actum, agere (impelir, fazer): ágil, ator, coagir, exigir,
indagar, pródigo
alter, a, um (outro): alterar, alternância, altruísmo, outro.
ango, angis, anxi, angere (apertar): angina, ângulo, angústia, ânsia,
angusto
cado, cadis, cecidi, casum, cadere (cair): acidente, cadente, incidir,
ocaso.
caedo, caedis, cecidi, caesum, caedere (cortar): cesariana, cesura,
conciso, incisão, precisar.
Há numerosos derivados em cida, cídio, cuja significação é matar:
J7atricida, homicida, infanticida, matricida, patricida, regicida,
uxoricida, suicida,
fatricídio, homicídio, suicídio, etc.
capio, capis, cepi, captum, capere (tomar): antecipar, cativo, emancipar,
incipiente,
mancebo.
caput, capitis (cabeça): cabeça, capitão, capital, decapitar, precipício.
caveo, caves, cavi, cautum, cavere (ter cuidado): cautela, incauto,
precaver-se.
colo, colis, colui, cultum, colere (habitar, cultivar): agrícola, colônia,
culto, íncola,
inquilino, cu tura (agr -, av -, ort-, p c -, r ., v n -, e c.).
cor, cordis (coração): acordo, discórdia,
misericórdia, recordar.
dica, dicis, dixi, dictum, dicere (dizer): abdicar, bendito, dicionário,
ditador, fatídico,
maledicência
do, das, dedi, datum, dare (dar): data, doação, editar, perdoar, recôndito
doceo, doces, docui, doctum, docere (ensinar): docente, documento, doutor,
doutrina,
duo, duae, duo (dois): dobro, dual, duelo, duplicata, dúvida
duco, ducis, duxi, ductum, ducere (levar, dirigir): conduto, duque,
educação, dútil,
Droduzir, tradução, viaduto.
219
Deste radical há numerosos derivados em duzir (a-, con-, de-, intro-, pro-,
rese.,
tra-, etc.).
#
eo, is, ivi, itum, ire (ir): comício, circuito, itinerário, transitivo,
subir.
191
#
facio, facis, feci, factum, facere (fazer): afeto, difícil, edificar,
facínora, infecto, malefício
fero, fers, tuli, latum, ferre (levar, conter): ablativo, aferir,
conferência, fértil, oferecer,
frango, frangis, fregi, fractum, frangere (quebrar): fração, frágil,
infringir, naufrágio,
fundo, fundis, fudi, fusum, fundere (derreter): fútil, funil, refutar,
fundir (con-, di-,
in- re. 1 confuso difuso profuso.
gero, geris, gessi, gestum, gerere (gerar): beligerância, exagero,
famigerado, gerúndio,
jacio, jacis, jeci, jactum, jacere (lançar): abjecto, jacto, jeito,
injeção, sujeito
lac, lactis (leite): lácteo, lactante, lactente, leiteria, laticínio.
lego, legis, legi, lectum, legere (ler): florilégio, legível, leitura,
lente
loquor, loqueris, locutus sum, loqui (falar): colóquio, eloqüência,
locução, prolóquio
mitto, mittis, misi, missum, mittere (mandar): demitir, emissão,
missionário, remeter,
moveo, moves, movi, motum, movere (mover): motorista, motriz, demover,
comoção,
nascor, nasceris, natus sum, nasci (nascer): natal, nativo, nascituro,
renascimento.
220
nosco, noscis, novi, notum, noscere (conhecer): incógnita, noção, notável
opus, operis (obra): obra, cooperar, operário, opereta, opúsculo.
patior, pateris, passus sum, pati (sofrer): compatível, paciente, paixão,
passional, passiv
plico, plicas, plicavi ou plicui, plicatum ou plictum, plicare
aplicar, ch ar, cúmplice, explicar, implícito, réplica.
(fazer pregas, dobrar):
Pono, Ponis, Posui, positum, ponere (colocar): aposto, dispositivo,
disponível, posição
quaero, quaerj . s, quaesívi ou quaesai, quaesitum, quaerere (procurar):
adquirir, inquirir
rego, regis, rexi, rectum, regere (dirigir): correto, reitor, regência,
regime, reto.
rumpo, rumpis, rupi, ruptum, rumpere (romper): corrupção, corruptela,
roto, ruptura
c ' 1 , sectum, secare (cortar): bissetriz, inseto, secante, seção,
segador,
solvo, solvis, solvi, solutum, solvere (desunir): absolver, dissoluto,
resolver, solução,
'p"i" specis, spexi , spectum, specere (ver): aspecto, espetáculo,
perspectiva, prospecto,
sto, stas, steti, statum, stare (estar): estado, distância, estante,
obstáculo, substância.
sterno, sternis, stravi, stratum, sternere (estender por cima):
consternar, estrada, estra
(I) Fero é defectivo, apresentando forma do radical de tollo (tuli, latum);
assim, não
cognatos aferir e ablativo. Ao primeiro se associam conferência, fértil,
oferece; ao segundo,
-lado e relaxado Esta observaeâo se estende a qualquer forma latina que
ap ntar seme-
#
sumo, sumis, sumpsi, sumptum, sumere (tomar, apoderar-se): assumir,
consumir, sumidade,
sumário.
tango, tangis, tetigi, tactum, tangere (tocar): contagioso, contingência,
tato, contacto,
, atingir.
tendo, tendis, tetendi, tensum ou tentum, tendere (estender): atender,
221
distenso, contente
tenso nretensáo
teneo, tenes, tenui, tentum, tenere (ter): contentar, abstinência, tenaz,
sustentar, tenor,
detento.
torqueo, torques, torsi, tortum,
torquere (torcer): extorsão, tortura, extorquir, tortuoso,
distorção.
video, vides, vidi, visum, videre (ver): evidência, próvido, vidente,
visionário, previdência.
volvo, volvis, volvi, volutum, volvere (envolver): devolver, envolto,
revolução
193
#
A) Noções Gerais
111 - Sintaxe
Que é oração
- Oração é a unidade do discurso.
A oração encerra a menor unidade de sentido do discurso com propósitos
definidos, utilizando os elementos de que a língua dispõe de
acordo com determinados modelos convencionais de estruturação oracional
1
Entoação oracional. - Em português, como em numerosas outras
línguas, as orações se caracterizam pela entoação, isto é, pela maneira
com
que são proferidas dentro de certa cadência melódica. A parte final de
uma oração é sempre marcada por algum dos tipos de entoação. Depois
da entoação final fazemos em geral uma pausa de longa ou curta duração,
conforme o que temos em mente expressar.
Simples vocábulos como joão, Absurdo!, W, Sim, constituem orações
completas desde que ocorram entre duas pausas, e formam unidades de
sentido se ocorrerem entre dois siléncios.
Dentro da entoação final podemos estabelecer algumas diferenças
fonêmicas, isto quer dizer diferenças que repercutem no sentido que as
orações encerram:
a) ENTOAÇÃO ASSERTIVA: João estuda.
222
Aqui a linha melódica marca uma subida da voz até a parte que
recebe o acento frásico (cf. pág. 55) e daí acusa uma descida até a parte
final. A linha melódica apresenta, portanto, uma parte ascendente e outra
(1) Fizemos estudos minuciosos da análise sintática e de sua ímportIncia
na sintaxe em
nosso livro Lições de Português pela Analise Sintíltica (4.a ed., 1966),
para o qual remetemos
o leitor estudioso.
194
#
lw~
descendente. A entoação assertiva, característica da oração declarativa,
simbolizada por [.] (1).
b) ENTOAÇÃO INTERROGATIVA: João estuda? Quem veio aqui?
A linha melódica na interrogação só tem a parte ascendente. Distinguimos
a interrogação geral ou de sim ou não, feita em relação ao conteúdo
de toda a oração (João estuda ?) da interrogação parcial, feita em relação
a um termo da oração (Quem veio aqui ?). Na primeira a resposta se
resume ou se pode resumir em sim ou não e a parte ascendente da
entoação é mais acentuada; na segunda, a pergunta é feita, em geral, por
vocábulos especiais de interrogação e a resposta é dada por vocábulo ou
reunião de vocábulos. Simbolizamos a entoação da interrogativa geral
com [?] e da interrogativa parcial com [g]. Percebe-se a diferença de
sentido
em orações do tipo: Quem viu o filme ? Com a entoação da interrogativa
parcial [?] indaga-se pela pessoa que viu o filme; a entoação da interrogativa
geral [é] significa "é sobre este assunto que se pergunta ?"
c) ENTOAÇÃO EXCLAMATIVA: João estuda !
A linha melódica na exclamação só tem também a parte ascendente.
Ela traduz um enunciado expresso com acentuado predomínio emocional
para comunicar, acompanhada ou não de mímica, dor, alegria, espanto,
surpresa, cólera, súplica, entusiasmo, desdém, elogio, gracejo. A
entoação
exclamativa também é empregada para exigir a presença ou a atenção de
alguém (João 1 Menino ) ou para traduzir ordens e pedidos (Corra 1
Salte 1). A entoação exclamativa pode combinar-se com os tipos enunciados
anteriormente. Compare-se a resposta João (da pergunta parcial:
Quem estuda 1) com João para chamar ou atrair a atenção e com João ? !
quando a pergunta envolve um sentimento de surpresa. Simbolizamos a
entoação exclamativa com [11 (2).
223
d) ENTOAÇÃO SUSPENSIVA OU PAUSAM Ele, o irmão mais velho, tomou
conta da fa ília
Consiste a entoação suspensiva ou pausal em elevar a voz antes da
pausa final dentro da oração. Difere das entoações finais pelo fato de
mostrar que o enunciado não termina no lugar em que, em outras circunstâncias,
a estrutura oracional. poderia marcar o fim de unia oração. Simbolizamos
a entoação suspensiva com [J. Note-se o contraste de sentido
pela entoação distinta que se dá ao trecho: O homem que vinha a cavalo
parou defronte da casa. Se proferimos: O homem , que vinha a cavalo ,
parou defronte da casa, trata-se de um só homem na narração. Se proferimos:
O homem que vinha a cavalo parou defronte da casa (sem
entoação suspensiva), pressupõe-se que na narração há mais de um homem.
(1) Tomamos a lição a BLWMFXZLD, Language, 114-115.
(2) J. MATOSO CÂMARA jr., Princípios de Lingüística Geral, 3^ 106.
195
#
A importância da situação e do contexto. - No intercâmbio de
nossos pensamentos desempenham relevante papel a situação e o contexto.
Entende-se por SITUAÇÃO o ambiente físico e social onde se fala;
CONTEXTO é o ambiente lingüístico onde se acha a oração(').
Situação e contexto são estímulos decisivos para a melhor aproximação
entre falante e ouvinte ou escritor e leitor. Através destes estímulos
falante e ouvinte se identificam numa situação espacial e temporal, e a
atividade lingüística atinge seu objetivo com um simples vocábulo ou
fragmento de oração.
Constituição das orações. - A oração pode ser constituída por uma
seqüência de vocábulos ou por um só vocábulo:
a) João estuda
b) Passeamos
C) Sim. João
d) Fogo! Parada de ônibus
No primeiro caso temos uma oração que encerra- nos seus limites os
dois termos essenciais de que se compõe: sujeito: - ou o ser de quem se
declara alguma coisa - e a predicado - aquilo que se declara na oração.
O segundo exemplo nos evidencia que não é necessária a representação
do sujeito por vocábulo especial, uma vez que pode ser depreendido
da desinéncia do verbo -mos : nós passeamos.
No terceiro caso, temos uma oração cujo enunciado se relaciona com
um contexto exterior, sem o que seriam simplesmente absurdos, Explicam-
se, por exemplo, como resposta às perguntas Você passeou ? e Quem
veio aqui?
No quarto caso temos orações cujo enunciado se relaciona com situação
em que se acha o falante, e assim, contém um elemento extralírtgüístico;
fora desta situação os enunciados também seriam absurdos.
224
A língua portuguesa conhece todas as constituições de orações acima
indicadas. As constituições favoritas da estrutura oracional em português
apresentam a seqüência de sujeito e predicado, podendo o primeiro vir
incluído na desinência verbal (tipo: passeamos).
Chamam-se construções menores as do caso c) e d).
(1) SOUSA DA SILVEIRA (Obras de Casimira de Abreu, 2.a ed., 188),
comentando a substituição
de um Quando? (só interrogativo) por um Quando11
(Interrogativo-exclamativo), diz:
"Fizeram mal, entre outros motivos, porque prejudicaram um pouco a beleza
desta poesia, que
é um mimo. Nas três primeiras estrofes a moça responde afirmativamente
às perguntas do
poeta; mas na quarta, em que ele começa a tornar-se indiscreto, ela
replica-lhe com um "ora 1"
numa espécie de muxoxo, como a mandá-lo calar-se. Ele, porém, continua,
e com maior indiscriçáo.
Então ela, fazendo-se alheia ao casa, Mponde-lhe com uma pergunta,
acompanhada de
espanto e com suspensão da frase, o que tudo explica a múltipla pontuação
da edição de 1859,
isto é, o ponto de interrogação, o de exclamação e os de reticência.
"Quando?" equivale simplesmente
a "quando foi isso?, ao passo que "Quando? I..." quer dizer,
mais ou menos:
"Quando foi toda essa história que desconheço, e até me espanta que você
me pergunte
semelhante coisa ?"
196
#
Estruturação sintática: objeto da sintaxe. - Ao elaborar orações
conta o falante com a liberdade de escolher os vocábulos; mas não pode
criar a estrutura em que eles se combinam na comunicação de suas idéias.
As'estruturas oracionais obedecem a certos modelos formais que podem
não ser coincidentes de uma língua para outra e que constituem os padrões
estruturais
As estruturas oracionais ou construções sintáticas apresentam seus
rocessos característicos u,- são*
a) associação dos vocábulos de acordo com a sua função sintática;
b) concordância dos vocábulos de acordo com certos princípios fixados
na língua;
c) ordem dos vocábulos de acordo com sua função sintática.
Assim na oração Os bons alunos dão alegria aos pais temos os bons
225
alunos exercendo a função de sujeito (de acordo com a), o que lhe
garante, como posição normal, o lugar inicial no contexto (de acordo
com c) e, por ser constituído por um núcleo masculino e no plural
(alunos), determina que nesse número e genero estejam seus adjuntos
(os e bons) e no plural o verbo da oração (dão), estando os d,ois últimos
casos de acordo com o b).
A sintaxe é o estudo dos padrões estruturais de uma língua determinados
pelas relações recíprocas na oração e das orações no discurso. Pode
ainda ocupar-se a sintaxe do emprego dos vocábulos. NGB divide a sintaxe
e :
a) de concorddncia nominal
~ verbal
b) de regência nominal
~ verbA
c) de colocação
No presente livro adotaremos o seguinte esquema ara o estudo da
sintaxe portuguesa:
SINTAXE '
1) das ORAÇõES
estuda as relações recí- simples
procas *e o emprego das compostas
orações no discurso 1
2) dos vocABuLos
estuda as relações recíprocas
e o emprego dos
vocábulos considerados
como partes das oraçóes
197
a) substantivo
b) adjetivo
C) numeral
#
d) pronome
e) artigo
f) verbo
g) advérbio
h) preposição
226
i) conjunção
#
A oração na língua falada e na língua escrita. - A oração na língua
falada conta com numerosos recursos para alcançar seu objetivo de unidade
de comunicação. Entram em seu auxílio não só elementos lingüísticos
de que dispõe o idioma, mas ainda os recursos extralingüísticos
elocucionaií (os sons inarticulados como o muxoxo, o riso, o suspiro) ou
não-elocucionais (isto é, à margem da língua, como a mímica).
Na língua escrita entram em jogo outros fatores. Em primeiro lugar'
desaparece o recurso da entoação que, como diz Matoso Câmara, "tem de
ser deduzida do texto pelo leitor (no qual se transforma o ouvinte),
mediante uma técnica especial, que é a arte da leitura. Em segundo lugar,
esse leitor encontra-se, ao contrário do ouvinte no intercâmbio falado,
muito distante no tempo e no espaço, e não é em regra um indivíduo
determinado e conhecido pelo EscRiToR (em que se transformou o falante).
Finalmente, não envolve ao discurso uma situação concreta e bem
definida" (1).
Sintaxe e estilo: necessidade sintática e possibilidade estilística.
-
É importante distinguir uma necessidade sintática, ditada pelas relações
recíprocas dos vocábulos na oração, da possibilidade estilistica que
permite
ao falante ou escritor uma escolha dentre dois ou mais elementos de expressão
que a língua lhe oferece, para atingir melhor expressividade.
Esta escolha pessoal tira à oração seu mero valor representativo para
transformá-la num "apelo à atividade e comunhão social, ou, então, liberação
psíquica" (2). Saímos, assim, do terreno da sintaxe e entramos no
domínio do estilo.
Pode-se definir estilo como "um conjunto de processos que fazem da
língua representativa um meio de exteriorização psíquica e apelo" (3),
isto
é, estabelece o contraste entre o intelectivo e o emocional, mais do que
o contraste entre o coletivo e o individual (cf. pág. 347).
Tipos de oração. - A oração pode encerrar:
a)a declaração do que observamos ou pensamos (oração declarativa com
entoação assertiva):
o dia está agradável
Amanha iremos à praia
João ainda não chegou.
b)a pergunta sobre o que desejamos saber (oração interrogativa com
entoação interrogativa) -
o dia está agradável?
Quem sairá hoje?
(1) J. MATOSO CÂm~ jr., Princípios de Lingüística Geral, 3, 200.
(2) J. MAToso CAmAaA jr., ibid., 204.
(3) Imu, curso na cA&c.
227
198
#
r-
I
c)a ordem, a súplica, o preceito, o desejo, o pedido para que algo
aconteça ou deixe de acontecer (oração imperativa com entoação
exclamativa):
Sé Jorte.
Venha aquil
Bons ventos o levem
Queira Deus 1
d) o nosso estado emotivo de
dor, alegria, espanto, surpresa, elogio,
desdém Iorarão exclamativa com entoa ão exclamativaN:
Que susto levei 1
Que lindo dia 1
Como chove 1
OBSERVAÇÃO: Como vimos, a oração exclamativa pode combinar-se com os
tipos
anteriores para indicar um predomínio emocional com que elo enunciadas.
Daí poder
aparecer o ponto de interro ção sq ido do de exclamação:
Eles vão ficar zana2dos ?
As orações exclamativas são normalmente introduzidas por pronomes
ou advérbios de sentido intensivo
B) O bert'Odo SiMbles
Chama-se período o conjunto oracional cuja enunciação termina por
silêncio ou pausa mais apreciável, indicada normalmente na escrita por
nto
O período se diz simples quando constituído por uma só oração
Nesta circunstància, a NGB chama-lhe oração absoluta.
Período composto é aquele que encerra mais de uma oração
228
C) Núcleo
panha.
I
Dá-se o nome de núcleo de uma função sintática à sua expressão principal
despojada do complemento que exige ou do adjunto que a acom-
1 - ERMOS ESSE CIAIS A RAÇÃ
As orações de estrutura favorita em português se compõem de dois
termos essenciais: sujeito e predicado.
Sujeito é o termo da oração que denota a pessoa ou coisa de que
afirmamos ou neiramos uma ação, estado ou ou idade.
#
#
Predicado é tudo o que se declara na oração, ordinariamente em
referência ao sujeito.
SUJErro
Marcela
Este carro
O artista
O pai
Virgilia
Pedro e Paulo
PREDICADO
suspirou com tristeza
não anda?
fora aplaudido
está alegre
era religiosa
saíram (1)
Omissão do sujeito ou do predicado. - Nem sempre se pede o
aparecimento obrigatório dos termos da oração que exprimem o sujeito
ou o predicato: Trabalhamos.
O sujeito nós está implícito no verbo, indicado pelo morfema -mos,
desinência de 1.a pessoa do plural.
229
O vocábulo João (em resposta à pergunta quem veio aqui 1) constitui
uma oração cujo predicado (veio) se depreende pelo contexto anterior
constituído pela pergunta que ocasionou a resposta João.
Chama-se elipse à omissão de um elemento lingüístico. Em trabalhamos
e João, nos exemplos apontados, dizemos, respectivamente, que o
sujeito e predicado são elíticos ou ocultos.
S~jeito indeterminado. - Sujeito indeterininado é o que não se
nomeia ou por não se querer ou por não se saber fazè-lo.
A língua portugúesa moderna indetermina o sujeito de duas maneiras
diferentes:
a)pondo o verbo da oração (ou o auxiliar, se houver locução verbal)
na 3.a pessoa do singular ou, mais freqüentemente, do plural, sem
referência a pessoa determinada:
Diz que eles vão bem (diz = dizem)
Dizem que eles vão bem
Estão chamando o vizinho
b)empregando o pronome se junto a verbo de modo que a oração
passe a equivaler a outra que tem por sujeito alguém, a gente ou
expressão sinônima:
Vive-se bem aqui
Precísa-se de bons empregados
(1) Diz-se sujeito simples o constituído de um só núcleo: Pedro saiu.
Composto é o constituído por mais de um núcleo, ligado por conjunçáo:
Pedro e P4UIO MOM.
200
von
#
70~_
O pronome se nesta aplicação sintática recebe o nome de índice de
indeterminação do sujeito.
OBSERVAÇÃO: Cumpre não confundir sujeito oculto com sujeito
indeterminado.
Orações sem sujeito. - Há orações que encerram apenas a declaração
contida no Predicado, sem que se cogite de atribuí-la a nenhum sujeito:
Chove
Faz calor
Há bons livros na sua biblioteca
Em tais casos dizemos que se trata de orações sem sujeito e o verbo
que nelas entra se chama impessoal.
Os principais verbos impessoais. - São:
230
a)os que denotam fenômeno da Natureza: chover, trovejar, nevar,
relampejar, anoitecer, fazer (frio, calor) e semelhantes:
b)o verbo haver nas orações que denotam ou não existência de pessoa
ou coisa.
Há livros sobre a mesa (equivalente a existem livros sobre a mesa).
c) o verbo ser nas indicações de tempo como: Era à sobremesa.
Era uma hora e meia.
Na indicação de existência, como em era um rei, era um rei e uma
rainha, pode-se considerar o verbo ser como tendo sujeito (um rei, um rei
e uma rainha) ou como impessoal. A opinião mais generalizada é a primeira,
razão por que o verbo vai ao plural em eram um rei e uma rainha.
Para o problema da concordáricia neste caso, veja-se a pág. 306.
OBSERVAÇõES:
1.a) É preciso não confundir as orações de verbo impessoal com as que
encerram
um verbo em cujo contexto não está seu sujeito que se depreende pelo
contexto anterior:
"Se a regra do professor Carneiro acerta, errei eu, não tem dúvida"
(Rui BARBOSA,
Réplica, 331). O sujeito, o pronome isto ou equivalente, refere-se ao fato
de a pessoa
errar. Trata-se apenas de um Sujeito elítico.
2.a) Há mestres que põem ainda entre os impessoais os seguintes verbos:
a) Haver, fazer nas idéias de tempo:
Há cinco anos. Faz três dias que não o vejo (cf. pág. 234).
b) verbo acompanhado do pron. se como índice de indeterininaçáo do sujeito:
Vive-se bem aqui. Precisa-se de bons empregados.
3,a) Na linguagem familiar do Brasil é freqüente o emprego do verbo ter
como
impessoal, à maneira de haver:
Há bons livros na biblioteca
Tem bons livros na biblioteca
201
#
Em tal construção parece ter-se originado uma mudança na formulação
da frase A biblioteca tem bons livros, auxiliada por vários outros
casos em que haver e ter têm aplicações comuns. A gramática normativa,
entretanto, pede se evite este emprego de ter impessoal. Em linguagem
coloquial escritores modernos já agasalharam esta construção:
"Na Rua Toneleiros tem um bosque, que se chama, que se chama, solidã~" (MANUEL
BANDEIRA, Poesia e Prosa, lI, 419).
231
2 - TIPOS DE PREDICADO: VERBAL, NOMINAL
E VERBO-NOMINAL. O PREDICATIVO
Tipos de predicado. - O predicado declara
a) uma ação que, se referida ao sujeito, o apresenta como agente ou
paciente:
agente O aluno brinca
{ Machado de Assis escreveu belos livros
paciente Belos livros foram escritos por Machado de Assis
{ Os maus alunos foram castigados
b) uma qualidade, estado ou condição:
O aluno é brincaffido.
Machado de Assis foi um escritor.
A aluna esteve quieta.
os circunstantes ficaram atõnitos com a cena,
O primo parece adoentado.
Este livro é o meu.
Quando o predicado exprime uma ação que o sujeito pratica ou sofre,
o verbo constitui o seu elemento principal. Dai chamar-se verbal a este
tipo de predicado.
Quando o predicado exprime uma qualidade, estado ou condição, o
seu elemento principal é um nome (adjetivo ou substantivo) que se refere
a outro nome sujeito, podendo ser um ou ambos os termos representados
por pronome. A este tipo de predicado chama-se nominal. O nome que,
no predicado nominal, constitui o elemento principal. se diz predicativo.
O aluno é brincalhélo.
Sujeito - o aluno
Predícado nominal - é brincaffigo
Predicativo - brincalhão.
#
Pode ocorrer na declaração a fusão do predicado verbal com o no
m na, sto é, ao a a ação se enunc: a também um estado, qualidad(
Nos exemplos dados emincia-se uma ação (assistiram, chegou, nomearam)
e um estado, qualidade ou condição que se dá concomitante à ação
verbal (alegres, atrasado) ou como conseqüência dela (secretário dá
Este tipo de predicado misto recebe o nome de verbo-nominal.
No predicado verbo-nominal o edicativo de referir-se -o---ei-
Excepcionalmente o verbo chamar pode pedir predicativo de objeto
OBSERVAÇÃO: Ainda assim EPIFANio DiAs. RIREIRO DE VASCONCELOS C MAItTINZ
DE
232
Verbos de ligação. - Chama-se de ligação o verbo que entra no
predicado nominal. Seu ofício é apresentar do sujeito um estado, quali-
Todos ficaram adoentados.
Maria tomou-se estudiosa.
Elas acabaram cansadas.
Pedro caiu doente.
* cliente fez-se médico.
* crisálida virou borboleta
* inocente converteu-se em culpado
#
d) continuidade de estado:
e) aparência:
Nós continuamos livres.
Maria permanece satisfeita.
• mestra parecia zangada (= parecer estar).
• roupa parece velha (= parecer ser).
OBSERVAÇõES SOBRE PREDicATivo: Não raro a função predicativa pode ser
exercida
por expressôes formadas da preposição de + substantivo ou pronome, como
acontece
nos seguintes casos(l):
a) Ele é dos nossos amigos (abreviadamente: ele é dos nossos);
b)Este homem é de baixa condição, esta mesa é de mdrmore, onde a preposição
indica
procedência ou matéria de que uma coisa é feita;
C)Sou de parecer, isto não é da sua competência, onde se pode ver uma filiação
ao
genitivo predicativo do latim (aliquid est mei judicii, apud
MADVIG-ENFÂNio, Gram.
Latina, õ281, obs.);
d)Isto não é de ser humano, isto é muito dele, esta é bem dele, para exprimir
"o
que é próprio de alguém ou de alguma coisa". Prende-se ao genitivo latino
com
esse: Cuius vis hominis est errare nullius, nisi insipientis, in errore
perseverare
(CícERo apud MADVIG-ENFÂNio, Gram. Latina, õ282). Não há, portanto,
necessidade
de se recorrer a elipses.
NOTA. Em isto é bem, a par de isto é bom, o advérbio não exerce função
de
predicativo, uma vez que o verbo ser é verbo nocional, e não de ligação.
Representa
a construção latina bene est por bonum est (cf. italiano é bene, francês
c'est bien).
3 - CONSTITUIÇÃO DO PREDICADO VERBAL
233
(Verbo intransitivo e transitivo. Complementos verbais)
O verbo que constitui o elemento principal do predicado verbal pode
ser intransitivo ou transitivo.
Intransitivo é o verbo que não precisa de complemento para integrar
o seu sentido, isto é, c! verbo que se basta a si mesmo:
Os homens trabalham.
As lavadeiras cantam.
* criança adormeceu.
* rio desce vagarosamente.
Transitivo é o verbo que necessita de complemento que integre sua
predicação:
Os alunos leram belas poesias.
Estas censuras não têm grande valor.
Falava aos colegas.
As crianças obedecem aos Pais.
Lembrei-me da encomenda.
Queixou-se da chuva.
(1) Cf. MEYzR-LDEKE, Grammaire, 111, 449-450.
204
#
Os verbos transitivos se dividem em diretos e indiretos. Dizem-se
DIRETOS os que têm complementos não iniciados por preposição necessária:
Estas censuras não têm grande valor.
Os alunos leram belas poesias.
Transitivos INDIRETOS são os verbos que se acompanham de complemento
iniciado por preposição necessária. Se falta a preposição nesses
casos
pode prejudicar-se o sentido ou a correção do contexto:
Falavas aos colegas.
As crianças obedecem aos Pais.
Lembrei-me da encomenda.
Queixou-se da chuva.
A classificação do verbo depende da situação em que se acha empregado
na oração. Muitos verbos, de acordo com os vários sentidos que
podem assumir, ora entram no grupo dos verbos de ligação, ora são
intransitivos, ora são transitivos diretos ou indiretos:
Ele passou a presidente (verbo de ligação).
* caçula passou o mais velho (transitivo direto).
* chuva passoid- (intransitivo).
Maria passo"s novidades às colegas (transitivo acompanhado de dois
complementos).
Assim não podemos, a rigor, falar em verbos intransitivos ou transitivos,
mas em emprego intransitiVO ou transitivo dos mesmos verbos.
234
OBSERVAÇõES :
1.a) Verbos há que mudam a construção de acordo com o sentido em que
aparecem empregados: assistir o doente (= socorrer) e assistir ao filme
(presenciar),
querer o livro (= desejar) e querer a alguém (= estimar).
2,a) Verbos há que admitem mais de uma construção sem que se altere a
sua
significação geral: presidir a cerimônia ou presidir à cerimônia, crer
isso ou crer
nisso, consentir isso ou consentir nisso, ajudar alguém ou ajudar a alguém,
servir
alguém ou servir a alguém.
Espécies de complementos verbais. - Os complementos dos verbos
transitivos diretos recebem o nome de objeto direto (isto é, complemento
não encabeçado por preposição necessária):
Os alunos leram belas poesias.
Sujeito: os alunos
Predicado verbal: leram belas poesias
Objeto direto: belas poesias.
Em lugar do nome que funciona como objeto direto se podem usar
os pronomes oblíquos: o, a, os, as:
Os alunos leram-nas
Estas censuras não o têm
205
#
Os complementos dos verbos transitivos indiretos recebem o nome
de objeto indireto (isto é, complemento encabeçado por preposição
necessária):
Falavas aos colegas,
As crianças obedecem aos pais.
Lembrei-me da encomenda,
Queixou-se da chuva.
Falavas aos colegas
Sujeito: tu (oculto)
Predicado verbal: falavas aos colegas
Objeto indireto: aos colegas
Em lugar do nome, geralmente precedido das preposições a ou para,
que funciona como objeto indireto, se podem usar muitas vezes os pronomes
oblíquos lhe, lhes:
Falavas-lhes.
As crianças jhes obedecem.
Este é o único caso em que o objeto indireto nunca vem encabeçado
235
por preposição.
OBSERVAÇÃO: A NGB, a bem da simplicidade, reúne sob a denominação
única de objeto indireto complementos verbais preposicionados de
nature7as bem
diversas: o objeto indireto propriamente dito, em geral encabeçado pelas
preposições
a ou para (escrevi aos pais), o complemento partitivo, em geral encabeçado
pela
preposição de (lembrar-se de alguma coisa) e o complemento de relação,
também
encabeçado, em geral, pela preposição de (ameaçar alguém de alguma coisa).
Isto
nos leva a compreender a presença de dois objetos indiretos numa mesma
oração
como:
Queixa-se dos maus tratos ao diretor (1)
exprime:
a)- a pessoa ou coisa que recebe a ação verbal:
o soldado prendeu o ladrão
Sentidos do objeto direto. - Quanto ao sentido, o objeto direto
b) o produto da ação:
o poeta compôs um belissimo soneto
c)a pessoa ou coisa para onde se dirige um sentimento, sem que o objeto
seja forçosamente afetado pelo dito sentimento:
Otelo ama a Iago, e lago odeia a Otelo(2)
(1) Autores há que consideram objeto indireto apenas o complemento que
pode ser representado
por lho; aos outros precedidos de preposiÇâo, complemento* de
verbos, chamam complemento
relativo. Cf. RocHA UmA, GramíÍtica Normativa.
(2) M. SAm ALI, Gr4MdtiCa HistóriCa, 1, 183.
2W
#
d) com os verbos de movimento,
o espaço percorrido ou o objetivo final:
("4ndei longes terras" - G. DiAs -, atravessar o rio, correr os lugares
sacros,
subir a escada, descer a montanha, navegar rio abaixo, etc.) ou o tempo
decorrido
(viver bons momentos, passar o dia no campo, dormir a noite inteira, etc.).
Sentidos do objeto indireto. - O objeto indireto pode expri
a) a pessoa ou coisa que recebe a ação verbal.
236
Escrever aos pais
b) a pessoa ou coisa em cujo proveito
ou prejuízo se pratica a ação:
Trabalha para o bem'geral da família
c)a pessoa ou coisa que, vivamente interessada na ação expressa pelo
verbo, procura captar simpatia ou benevolência de outrem (dativo
ético):
Prendam-me esse homem
Não me venham com essas histórias
d) a pessoa possuidora:
Conheci-lhe o pai (lhe: objeto indireto de posse)
Tomou o pulso ao doente
e) a pessoa a quem pertence
uma opinião (o que pode ocorrer com os
verbos de ligação):
Para nós ele está errado (para nós: objeto indireto de opinião)
Antônio pareceu-me tristonho
OBsERvAçÃo: Poder-se-ia ainda acrescentar a classe dos verbos
transitivos adverbiados
que pedem como complemento uma expressão adverbial como: Irei à
cidade
ou voltei do trabalho. A NGB não agasalhou, entretanto, este tipo de
complemento,
considerando-o, como veremos adiante, mero adjunto adverbial.
A preposição como posvérbio. - Muitas vezes aparece depois de
certos verbos uma preposição que mais serve para lhes acrescentar um novo
matiz de sentido do que reger o complemento desses mesmos verbos:
Arrancar a espada
Arrancar da espada (acentua a idéia de uso do objeto e a retirada total
da
bainha ou cinta).
Cumprir o dever
Cumprir com o dever (acentua a idéia de zelo ou boa vontade para executar
algo).
Fiz que ele viesse
Fiz com que ele viesse (acentua
a ideia do esforço ou dedicação empregada).
207
#
237
I
À preposição que se emprega nestes casos deu-lhe o Prof. Antenor
Nascentes o nome de posvérbio (1).
OBSERVAÇÃO: Em Perguntar por alguém a preposição é um posvérbio
denotando
curiosidade, interesse (A. Nascentes).
Objeto direto preposicionado. - Não raro o objeto aparece iniciado
de preposição:
Amar a Deus sobre todas as coisas
A preposição quase sempre aparece para evidenciar o contraste entre
o sujeito e o complemento, não se confundindo com o caso do posvérbio,
por este repercute na significação do verbo. Ocorre o objeto direto preposicionado
nos seguintes principais casos:
a) quando se trata de pronome oblíquo tônico (uso hoje obrigatório):
"Nem ele entende a nós, nem nós a ele" (CAMõES, Os Lusíadas, V, 28).
b)quando, principalmente nos verbos que exprimem sentimentos ou
manifestações de sentimento, se deseja encarecer a pessoa ou ser personificado
a quem a ação verbal se dirige ou aproveita:
Amar a Deus sobre todas as coisas
Consolou aos amigos
c)quando se deseja evitar confusão de sentido, principalmente quando
ocorre:
1) inverÃo (o objeto direto vem
antes do sujeito): A Abel matou Caim.
2)comparação: "Isto causou estranheza e cuidados ao amorável Sarmento, que
prezava Calisto como a filho" (CAMILO, Queda de um Anjo, 80, ed. Pedro,
Pinto).
OBsERvAçÃo: Sem preposição poder-se-ia interpretar filho como sujeito:
como
filho preza.
d) na expressão de reciprocidade:
um ao outro, uns aos outros:
Conhecem-se uns aos outros
e) com os pronome relativo quem :
Conheci a pessoa a quem admiras
f)nas construções paralelas com pronomes oblíquos (átonos ou tônicos)
do tipo:
`Mas engana-se contando com os falsos que nos cercam. Conheço-os, e aos
leais"
238
(A. HERCULANO, O Bobo, 102).
(1) A. NASCENTES, O Problema da Regéncia, 17.
208
#
g)nas construções de objeto direto pleonástico, sem que constitua norma
obrigatória:
"Ao ingrato, ou não o sirvo, porque (para que) me não magoe" (R. LOBO,
Ant. Nacional, 278).
Objeto direto interno. - Chama-se objeto direto interno ao compleniento
que, acompanhado de uma expressão qualificativa, serve para
repetir a idéia contida no verbo, que é geralmente intransitivo:
"Morrerá morte infame de peão criminoso" (A. HERCULANO, O Bobo, 248).
O complemento pode não ser do mesmo radical do verbo, mas há de
pertencer à mesma esfera de significação:
"lidei cruas guerras" (G. DIAS, I-Juca-Pirama).
Dormir o sono da eternidade
Chorar lágrimas de crocodilo
Concorrência de complementos diferentes. - Um verbo transitivo
pode acompanhar-se de dois objetos, podendo daí surgir as três seguintes
principais possibilidades:
1) objeto indireto de pessoa
(com a ou para) e objeto direto de coisa:
"Eu sou aquele a quem padre Antônio de Azevedo ensinou princípios de
solfa,
e as declinações da arte francesa" (CAMILO, O Bem e o Mal, 37, ed. M.
Casassanta).
Pertencem a este, entre outros, os seguintes verbos:
aconselhar, agradecer, ãludir, anunciar, assegurar, atribuir, avisar,
ceder, conceder,
confiar, consentir, dar, declarar, dedicar, dever, dizer, doar, encobrir,
entregar, explicar,
expor, extorquir, fiar, furtar, impedir, imputar, informar, ministrar,
mostrar, negar,
ocultar, oferecer, ordenar, pagar, pedir, perdoar, perguntar, permitir,
preferir, proibir,
prometer, propor, requisitar, responder, revelar, rogar, roubar,
sacrificar (dar em sacrifício),
subtrair, sugerir, tirar, tomar, tributar.
e os que exprimem percepção dos nossos sentidos ou do espírito, como
ver, ouvir, conhecer, etc.:
239
Ouviu-o a um parente próximo.
2)objeto direto de pessoa e um complemento de relação (a que a NGB
chama objeto indireto):
"D. Miguel de Almeida e D. Antáo de Almada, informando-o de tudo,
pediram-lhe
a sua cooperação". (R. DA SILVA, História de Portugal, IV, 127).
Pertencem a este grupo os seguintes principais verbos:
aconselhar, acusar, ameaçar, avisar, bendizer,
certificar, convencer, culpar, desculpar,
informar, louvar, maldizer, persuadir, prevenir.
209
#
3) objeto indireto de pessoa (com a ou para) e complemento de relação
(a que a NGB chama objeto indireto):
Queixou-se dos maus tratos (complemento de relação) ao diretor (obj.
indireto).
Desculpou-se do ocorrido aos (ou com os) amigos.
OBSERVAÇõES :
1.a) Alguns verbos podem admitir duas ou mais construçoes sem que se
altere
fundamentalmente a sua significação geral: ensinar alguma coisa a alguém
ou ensinar
alguém a fazer alguma coisa; avisar alguma coisa a alguém ou avisar alguém
de
alguma coisa; aconselhar alguma coisa a alguém ou aconselhar alguém a fazer
alguma
coisa; informar alguma coisa a alguém ou informar alguém de alguma coisa;
perguntar
alguma coisa a alguém ou perguntar alguém sobre alguma coisa.
2.a) Em virtude do cruzamento de diferentes construções podem aparecer
dois
objetos diretos (hoje raramente) ou indiretos: rogar alguém que faça
alguma coisa,
ensinar a alguém a ler, lembrar a alguém de alguma coisa, esquecer a alguém
de
alguma coisa, etc.
4
- COMPLEMENTOS NOMINAIS
Não apenas verbos, mas substantivos e adjetivos podem necessitar de
complementos:
a) Substantivos:
240
b) Adjetivos:
O jovem demonstrava inclinaçâo pela ciência.
Nossa prima tinha desconfiança de tudo.
É digno de louvor o amor à pátria.
Os conhecimentos são úteis a todos.
Essas palavras eram impróprias ao local.
Os meninos estavam desejosos de vitória.
Tais termos da oração recebem o nome de complementos nominais
e designam a pessoa ou coisa como o eto da ação ou sentimento que os
substantivos ou a etivos significam.
OBsERvAçXo: Incluem-se entre os complementos nominais os que servem de
completar os advérbios de base nominal:
Referentemente ao assunto, tudo vai bem.
5 - ADJUNTO: SEUS TIPOS
Adjunto: seus tipos. - É um termo oracional de natureza acessória
que especifica ou individua um nome ou pronome ou exprime uma circunstância
adverbial. Dividem-se, portanto, os adjuntos em adnominais e
adverbiais.
210
#
I
Adjunto adriominal. - É uma expressão que especifica ou individua
um nome ou pronome:
"A inexperiência da mocidade ocasiona a sua originalidade" (Marquês de
MARICÁ
Adjuntos adnominais de inexperiência (termo fundamental ou núcleo
do sujeito): a e da mocidade.
Adjuntos adnominais de originalidade (termo fundamental ou núcleo
do objeto direto): a e sua.
O adjunto adnominal é expresso por:
a) adjetivo ou locução adjetiva:
Homem ajuizado
Homem de juizo
Homem sem juízo
"A vida humana sem religido é viagem sem roteiro" (Marquês de MARICÁ).
b) pronomes adjuntos:
Meu livro
Este caderno
Nenhum erro
Cada semana
O homem cujos defeitos conheço...
241
Que coisa fizeste?'
c) artigo (definido ou indefinido):
d) numeral
O livro
Um livro
Dois dias
Primeira fila
e)locuções adjetivas que exprimem, além de qualidade (como no item
a), posse e especificação:
Inexperiência da mocidade
Álbum de retratos
OBsERvAçXo: Às vezes, principalmente depois de expressões de sentimentos
(como
bom, triste, feliz, infeliz, coitado, etc.), o adjunto adnominal se liga
ao substantivo
por meio da preposição de.- "A aldeia em que o bom do clérigo pastoreava
o seu
rebaiiiio..." (A. HERCULANo, Lendas e Narrativas, 11, 115).
Adjunto adverbial. - É uma expressão que denota uma circunstáncia
adverbial em referência ao verbo, adjetivo ou outro advérbio:
"Os abusos, como os dentes, nunca se arrancam sem dores" (M. MAIUcÁ,
Máximas).
"O luxo, como o fogo, devora tudo e perece de faminta" (IDEm).
211
_
"As pessoas mais devotas são de ordinário as menos religiosas" (IDEm).
"É necessário subir muito alto para bem descortinar as ilusões e
angústias da
ambição, poder e soberania" (IDEm).
Nunca: adjunto adverbial de tempo, em referência ao verbo arrancar.
Sem dores.- adj. adv. de modo, em referência ao verbo arrancar.
De faminto : adj. adv. de causa, em referência ao verbo perecer.
Mais : adj. adv. de intensidade, em referência ao adjetivo devotas.
Menos : adj. adv. de intensidade, em referência ao adjetivo religiosas.
De ordinário : adj. adv. de tempo, em referência ao verbo ser.
Alto : adj. adv. de modo, em referência ao verbo subir.
Muito : adj. adv. de intensidade, em referência ao advérbio alto.
Bem: -adj. adv. de modo, em referência ao verbo descortinar.
O adjunto adverbial é expresso
a) advérbio:
b) locução adverbial:
242
Nunca se arrancam
As pessoas mais devotas
Subir muito alto
Arrancam-se sem dores
São de ordinário
OBSERVAÇÃO: Em construção do tipo perece de faminto, onde a preposição
prectile
ao adjetivo, houve na realidade omissão de um verbo de ligação (ser,
estar,
ficar, etc): perecer de ficar faminto.
As principais circunstáncias adverbiais já foram assinaladas na morfologia,
no capítulo do advérbio. '1
Advérbios de base nominal ou pronominal. - Os advérbios de base
nominal podem desempenhar na oração papéis sintáticos próprios de
nomes e pronomes. Assim hoje (que se prende ao substantivo dia) aparece
nitidamente como sujeito em:
Hoje é segunda-feira
Aqui, de base pronominal, com o valor de este,lugar, funciona como
sujeito em:
Aqui é ótimo para a saúde.
OBSERVAÇÃO FINAL: já lembramos, na pág, 207, que deveríamos distinguir
os
advérbios que funcionam como complemento dos que funcionam como adjunto,
porque
aqueles são essenciais e estes acidentais à estruturação oracional. Em
Ir a Silo Paulo
ou Voltar do trabalho, as circunstâncias adverbiais elo necessárias à
prediCação do
verbo e melhor se classificariam como complementos adverbiais. E o fato
mais se
alicerça quando se comparam estes exemplos com A ida a Sgo Paulo ou A volta
do
trabalho, em que a São Paulo e do trabalho são complementos nominais. A
NGB,
talvez presa ao sentido, não levou em conta o papel sintático das
expressões adverbiais
nos exemplos aludidos. Para ela, em ambos os casos há adjuntos adverbiais.
212
#
6 - AGENTE DA PASSIVA
Agente da passiva. - Na voz passiva o termo que exprime queir
pratica a ação sobre o sujeito se diz, em sintaxe, agente da passiva (cf.
243
pág. 104), iniciado pelas preposições de e per (por):
* livro foi escrito pelos alunos.
* notícia foi sabida de todos.
já assinalamos que só a passiva analítica comporta o aparecimento do
agente da passiva.
O agente da passiva, de natureza adverbial, corresponde, na voz ativa,
ao sujeito:
O livro foi escrito pelos alunos.
Os alunos escreveram o livro.
7 - APOSTO: SEUS TIPOS
Aposto. - É um termo oracional de natureza substantiva ou pronominal
que se refere a uma expressão de natureza substantiva ou pronominal
para melhor explicá-la, ou para servir-lhe de equivalente, resumo
ou identificação: 4
"Agora nenhum rei está aqui, mas sim o Mestre de Avis, vosso antigo
capitio"
(A. HERCULANo, Lendas e Narrativas, 1, 266).
Marca-se uma equivalência mais explícita entre o atual Mestre de
Avis e o vosso antigo capitão (aposto explicativo).
Serve ainda o oposto para:
a) enumerar (aposto enumerativo):
"Duas cousas se não perdoam entre os partidos políticos: a neutralidade
e a apostasia"
(M. de MARicÁ, MUimas).
Nada impedia seus planos: tristezas, dores, dificuldades.
O aposto explicativo e o enumerativo podem vir encabeçados pelas
expressões a saber, por exemplo, isto é, verbi gratia (abreviatura v.g.,
por
exemplo), convém a saber (ou a saber):
Duas coisas o incomodavam, a saber: o barulho da rua e o frio intenso.
b) recapitular (aposto recapitulativo):
Tristezas, dores, dificuldades, nada impedia seus planos.
O aposto recapitulativo é normalmente representado por um nome
indefinido como tudo, nada, ninguém, qualquer, etc.
21)
#
c) marcar uma distribuição (aposto distributivo):
Eram dois bons alunos, um em matemática e o outro em português.
Machado de Assis e Gonçalves Dias são os meus escritores preferidos,
aquele
prosa e este na poesia.
244
d)marcar uma especificação (aposto especificativo), onde a um nome
próprio se junta um nome comum que indica a espécie a que aquele
pertence:
Rio Amazonas
Montes Pireneus
O poeta Castro Alves
Tecidos Aurora
Lojas Paulistas
Cervejaria Brahma
O aposto especificativo pode ligar-se ao nome a que se
da preposição de:
Praça da República
Serra da Mantiqueira
o nome de pátria
A cidade de Lisboa
refere através
Como bem lembra Epifânio Dias, "da arbitrariedade do uso é que
depende o empregar-se em uns casos de definitivo, em outros a aposição.
Diz-se por exemplo: o nome de Augusto, mas, a palavra Augusto; a cidade
de Lisboa, mas: o rio Teio" (1).
OBSERVAÇÃO: Muitos autores não consideram como aposto a expressão
encabeçada
por preposição, como nos exemplos indicados, dando-a como adjunto
adnominal.
Ambas as análises são aceitáveis, mas nos inclinamos para a aposição.
Aposto em referência a uma oração inteira. - O aposto não se refere
apenas a um termo de uma oração, mas ao conjunto de idéias expressas
numa oração inteira:
Ele falou em altas vozes, sinal do seu descontentamento.
De ordinário usa-se como aposto de uma oração inteira o pronome
demonstrativo o ou um substantivo como coisa, motivo, fato, acompanhado
de uma expressão modificadora:
Todos resolveram silenciar, o que muito me contrariou.
Passeamos muito, coisa que nos deixou exaustos.
Conseguimos a primeira colocação, fato digno de aplauso.
(1) Grarndtica Portuguesa Elementar, 5 154, obs. 1.a
214
#
Aposto circunstancial. ~ Chama-se aposto circunstancial aquele que
245
designa "o tempo, hipótese, concessão, causa, comparação, ou debaixo de
que respeito é considerada a pessoa ou coasa" (1), na época da ação
O aposto circunstancial vem imediatamente preso ao nome a que per
tence ou r meio de uma preposição ou expressão de valor adverbial
"Aos quinze ou dezesseis anos casou com um alfaiate que morreu algum
tempo
depois, deixando-lhe uma filha. Viúva e moça, ficaram a seu cargo a filha,
co
dois anos, a mãe, cansada de trabalhar" (M. DE -Assis, Memórias Póstumas,
200).
r ,
não se trata de preposição essencial, muitos preferem ver orações de
estruturas
reduzidas subentendendo o que lhes falta: quando era presidente, nunca
fugiu aos
,Nssim se denomina o termo da oração através do qual chamamo
pomos em evidência o ser a que nos dirigimos:
As alegrias duram pouco, meu bom irm4o
Montanhas, vede que belo amanheceri
O vocativo pode vir precedido de interjeição (normalmente ó) e se
caracteriza sempre pela entoação exclamativa:
Para maior ênfase da pessoa a quem nos dirigimos usamos do vocativo
senhor (senhora), depois de uma afirmação ou negação. Note-se que não
há pausa entre o advérbio e o vocativo (ainda que haja vírgula) 'se o
#
D) O período composto
1 - ORAÇõES INDEPENDENTES
E DEPENDENTES
Quanto às suas relações sintáticas dentro do período composto, as
orações podem ser independentes e dependentes.
Oração independente é aquela que não exerce função sintática de
outra a que se liga:
Preparamo-nos para a viagem e partimos.
O período é composto porque encerra duas orações:
1.a) Preparamo-nos para a viagem
2.a) e partimos.
Tais orações se dizem independentes porque uma não exerce funçao
sintática de outra; ambas reúnem em si todas as funções de que necessitam
246
para se constituírem por si sós unidades do discurso.
Oração dependente é aquela que exerce função sintática de outra
e vale por um substantivo, adjetivo ou advérbio. A dependente é um
termo sintático que tem a forma de oração.
É bom que tomemos as precauções.
Antônio deseja que compareças à festa.
• Brasil Precisa de que o amemos.
• livro que comprei é importante.
Saiu cedo porque o serviço era muito.
Em todos os exemplos acima temos períodos compostos com duas
orações onde a 2.a é dependente da 1.a porque exerce uma função sintática
desta:
que tomemos as precauções é sujeito de é bom;
que compareças à festa é objeto direto de Antônio deseja;
de que o amemos é objeto indireto de O Brasil Precisa;
que comprei é adjunto adnominai de livro, que pertence à oração o livro
é importante;
porque o serviço era muito é adjunto adverbial de causa de saiu cedo.
2 - ORAI~XO PRINCIPAL
Chama-se oração principal aquela que pede uma dependente. Nos
aludidos trechos são orações principais:
é bom; Antônio deseja; O Brasil Precisa; O livro é importante; saiu cedo.
216
#
Nem sempre a oração principal vem antes de sua dependente:
Porque o serviço era muito, saiu cedo.
Mais de uma oração principal. - Num período pode haver mais de
uma oração principal:
Não sei se José disse que eu empresíara o livro.
A 1.a oração não sei é principal em relação à 2.a se José disse, porque
esta é seu objeto direto. Por sua vez a 2.a oração é principal em relação
à 3.a que eu emprestara o livro, que funciona como seu objeto direto.
Assim sendo, a 2.21 oração se nos apresenta sob duplo aspecto sintático:
dependente em relação à 1.a e principal em relação à 3.a
Não havendo denominação especial para estes casos, poderemos dizer
principal de 1.a categoria (ou grau), de 2.a categoria (ou grau), etc.
(1).
Oração principal não é a 1.a oração. - já assinalamos que a oração
principal pode vir depois de sua dependente:
Porque o sei-viço era muito, saiu cedo.
No período:
Saiu cedo, mas voltou tarde porque choveu
247
as duas primeiras orações (saiu cedo e mas voltou tarde) são independentes
entre si, mas a 2.a se nos apresenta sob duplo aspecto sintático: é
independente em relação à 1.a e principal em relação à 3.a, porque esta
é
o seu adjunto adverbial de causa (note-se que a chuva foi a causa de voltar
tarde, e não de sair cedo).
Oração principal nem sempre é a de sentido principal. - A oração
principal é determinada pela relação sintática da oração dentro do período,
não importando se o sentido que encerra é ou não aquele de que
dependem as outras orações.
No período:
Se não chover, chegarei cedo
a oração chegarei cedo é principal e se não chover é dependente porque
esta exerce a função de adjunto adverbial de condição daquela. Se o nosso
ponto de referência deixasse de ser a relação sintática (objeto de estudo
da sintaxe) para ser o sentido, a oração se não chover passaria a ser
aquela de que dependeria a declaração chegarei cedo.
Isto nos patenteia que a determinação da oraçao principal não
envolve a preocupação de apontar o sentido principal. Oração principal
(1) A expressão 1.a categoria já ocorre eni FAUSTO BARRETO (Antologia
Nacional, introduçáo)
desde 1887.
217
#
não é a que encerra o sentido principal, mas a que tem um dos seus
termos sob forma de oração.
Tipos de orações independentes. - Há dois tipos de orações independentes:
as coordenadas e as intercaladas.
SãO COORDENADAs as orações independentes que formam uma sequèn_
cia, relacionadas pelo sentido:
Passavam os soldados e agitavam-se as bandeiras.
Correu, mas não chegou a tempo.
SãO INTERCAL~ as orações independentes que, não pertencendo
à seqüência, aí aparecem como elemento adicional que o falante julga
ser esclarecedor:
Machado de Assis - este escritor é um dos mais importantes de nossa
literatura
- era de origem humilde.
Meu pai - Deus o guarde - mostrou-me o caminho do bem.
As orações intercaladas este escritor é um dos mais importantes de
nossa literatura e Deus o guarde são meros acréscimos que o falante houve
248
por bem juntar; na realidade, só importava dizer Machado de Assim era
de origem humilde e meu pai mostrou-me o caminho do bem.
As orações dependentes são subordinadas. - As orações dependentes
se dizem subordinadas porque, exercendo uma função sintática da principal,
são uma pertença desta na seqüência oracional.
Coordenação. - Chama-se coordenação a seqüência de orações em
que uma não exerce função sintática da outra.
A coordenação pode ser feita não só entre as orações independentes
(coordenadas e intercaladas) mas ainda entre as dependentes (subordinadas)
que não exercem função sintática entre si:
Ouve e obedece aos teus superiores
que estudes
Espero e
{ que venças na vida
No primeiro exemplo há duas orações independentes que se coordenam;
no segundo, encontra-se uma principal (espero) que tem como
obI . eto direto as orações dependentes que estudes e que venças na vida.
Como se trata de orações que não exercem função sintática entre si,
podem-se coordenar.
Ocorre a coordenação entre orações subordinadas quando estas exercem
a mesma função sintática de uma principal.
OBURVAÇIO: A maioria dos tratadistas tem colocado em pontos opostos
coordenaçdo
e subordinação, mas um exame detido nos patenteia que a oposição
que se
218
#
deve estabelecer não é entre orações coordenadas e subordinadas, mas entre
orações
independentes e dependentes. A coordenação é um processo de estruturação
de
orações do mesmo valor sintático, quer sejam independentes (onde a
equivalência é
permanente) ou dependentes (onde a equivalência se dá quando exercem
idêntica
função sintática). Infelizmente a NGB, embora reconhecendo que
"coordenadas entre
si podem estar quer principais, quer independentes, quer subordinadas%
não rompeu
de uma vez Dor todas com a tradicional oposição que aqui pomos de lado.
Subordinação. - Chama-se subordinação à seqüência de orações em
Na seqüência subordinativa uma oração dependente pode ser termo
A ora ão se todos disseram é de endente da principal sei (é seu
249
o brinobjeto
direto) e principal de 2.a categoria de que não queria
quedo (objeto direto do verbo disseram).
Classificação das orações quanto à ligação entre si. - Além da classificação
das oraçõ~s quanto às relações em que se acham dentro do
período, elas podem ainda ser divididas quanto à ligação em conectivas
SãO CONECnVAs as orações que, numa série coordenativa ou subord
dinativa, se acham ligadas à anterior por palavras especiais de conexão
Os conectivos são as conjunções Coordenativas (para a série coordenativa),
as conjunções subordinativas, os pronomes e advérbios relativos
"O juízo força a fortuna à obediência, ou escusa os seus serviços" (ID.
Não só estuda português mas ainda se aplica à matemática (coordenação
enfática)
"Não admira que o juizo seja censurado, quando a loucura já foi elogiada"
QY
"Divertimo-nos com os doidos na hipótese de que não o somos" (D).).
"A memória dos velhos é menos pronta porque o seu arquivo é muito extenso"
(Im)
#
"Nenhum homem é tão bom como o seu partido o apregoa, nem tão mau como
o contrário o representa" (ID.).
"Ain4a que perdoemos aos maus, a ordem moral não lhes perdoa, e castiga
a
nossa indulgência (ID.).
"Se as viagens simplesmente instruíssem os homens, os marinheiros seriam
os
mais instruídos" (ID.).
" Faz dó ver um homem tão Valente assim morto como se mata qualquer
poltrão"...
(CAmiLo, O Bem e o Mal, 191).
"Para que os bens sejam mais duráveis, são os males que deles nos ensinam
a
usar" (ID.).
"Quando saímos de nossa esfera, ordinariamente nos perdemos na dos
outros".
"Não podemos fitar os olhos no solo, nem o pensamento em Deus, sem que
fiquem
deslumbrados" (ID.).
"O luxo, assim como o fogo, tanto brilha quanto consome" (ID.).
2 - Através de pronomes e advérbios relativos:
" Ninguém duvida tanto como aquele que mais sabe" (ID.).
250
"Homens há como as serpentes que envenenam aqueles a quem mordem" (ID.).
"Depois da missa, o pastor acompanha os seus a Vila Cova, onde passava
o dia"
(CAmiLO, O Bem e o Mal, 42).
O
SãO JUSTAPOSTAs as oraçoes que, numa série, não se ligam à anterior
por palavras especiais de conexão:
"É bem feiozinho, benza-o Deus, o tal teu amigo- (ALUISIO DE AZEVEDO).
"O amor cega a muitos, a fortuna deslumbra a todos" (M. DE MARICÁ).
"AS nações não morrem de velhas, as revoluções as remoçam" (ID.).
"Tratai bem ao vilão, êle i-os maltrata; tratai-o mal, então vos acata"
(li).).
"Louvemos a quem nos louva para abonarmos o seu testemunho" (ID.).
"Quem não espera na vida futura, desespera no presente" (ID.).
"Não venios os defeitos de quem amamos, nem os primores dos que aborre-
CCIDOS" (ID.).
"A ordem pública periga onde se não castiga" (ID.).
"Sabeinos qual foi o nosso princípio, ninguém sabe qual será o seu fim"
(ID.).
"Não sabemos quanto valemos e de que somos capazes: as ocasiões e
circunstáncias
no-lo fazem conhecer" (ID.).
Tivesse-me falado, tudo se arranjaria.
Não o vejo, há cinco semanas.
Espero sejas feliz.
A oração justaposta se separa da anterior ou se caracteriza:
a)por sinal de pontuação adequado, geralmente vírgula, como ocorre
nos exemplos 1, 2, 3 e 4;
b)por palavras de natureza pronominal ou adverbial intimamente relacionadas
com os relativos, mas sem referências a antecedentes, como
sucede nos exemplos 5, 6, 7 e S.
220
#
c)por palavra de natureza pronominal ou adverbial, de sentido indefinido,
que inicia uma interrogação indireta, como se verifica nos exemplos
9 e 10;
d)pelo contexto e entoação descendente, com o verbo no passado (geralmente
no subjuntivo), conforme o exemplo 11;
e)pela oração subordinada adverbial temporal posposta à principal que
encerra os verbos haver e fazer, de acordo com o exemplo 12;
f) pela omissão do conectivo
subordinativo, como no exemplo 13.
251
OBSERVA96ES :
1.a) Pelos exemplos aduzidos, vê-se que justaposição é um processo de
ligação
de orações, e não uma natureza sintática que se pode por ao lado da
coordenação e
subordinação, como imaginou o Prof. José Oiticica. Por outro lado, a
justaposição
ocorre entre orações independentes e dependentes, entre coordenadas e
subordinadas,
o que não nos permite aceitar a lição da NGB que só considera sindéticas
(em nossa
nomenclatura corresponde a conectivas) e assindéticas (em nossa
nomenclatura, a
justapostas) as coordenadas. Vimos que há também subordinadas sindéticas
e assindéticas.
Do ponto de vista de conexão interoracional se equivalem os
seguintes
exemplos, independentes de sua natureza sintática:
Vim, vi, venci
Tivesse dinheiro, eu viajaria
Não o vejo há cinco semanas
Espero sejas feliz
2.a) De caso pensado separamos dos exemplos acima aqueles em que temos
palavras
de natureza pronominal ou adverbial sem antecedente ou nas interrogações
indiretas,
porque há mestres que vêem aí pronomes e advérbios relativos, bastando,
para isso,
subentender uni antecedente adequado. Assim sendo, para tais estudiosos
não estamos
diante de justaposição ou assindetismo. Não aceitamos esse modo de ver
as coisas
porque, embora as estruturas apresentem paralelismo de sentido, não são
idênticas
quanto à natureza sintdtica. Por outro lado, a adaptação para efeito de
análise pode
mudar o plano morfológico do vocábulo.
EM: A Pessoa Para quem te diriges deve resolver o problema, QuEm é pron.
relativo (cujo antecedente é pessoa) e funciona como adjunto adverbial
de dirigir-se,
razão por que se rege da preposição para. já no exemplo do M. DE MARicÁ:
"A
vida é sempre curta para quem esperdiça e não aproveita o tempo", quem
é pronome
indefinido e funciona como sujeito de esperdiça e nélo aproveita; a
preposição para
não pertence à função sintática do quem, que não rege (pois é sujeito dos
dois verbos),
mas à função sintática desempenhada por toda a oração iniciada pelo quem
(objeto
indireto de opinião ou complemento nominal de curta, funções ambas que
pedem a
preposição).
Transformar o pronome indefinido do exemplo acima em pronome relativo
252
não
contraria o esquema semAntico, mas tira à nossa língua a possibilidade
de apresentar
um pronome indefinido em missão quase-conexiva.
A crítica se estende à interrogação indireta, com a agravante de
compêndios que
aceitavam as orações como substantivas terem dado porque, onde, como e
quando
como conjunção integrante, criando, dessarte, um problema para uma classe
de vocábulos
que não exerce função sintática, porque essas novas conjunções
integrantes
serão adjuntos adverbiais dentro da oração a que pertencem.
221
#
Em língua portuguesa podemos, portanto, proceder à análise adotando
qualquer
dos dois critérios, isto é, as orações serão substantivas (sem subentender
antecedente)
ou adjetivas (subentendendo antecedente). Pelas razões expostas, adotamos
o primeiro
3.a) Sobre o paralefismo de sentido em estruturas sintáticas de natureza
diferente
são dignas de repetição as palavras de Mário Barreto: " ... cumpre-nos
fazer notar
que essas duas formas diferentes (coordenação e subordinação) para os
olhos ou para
o ouvido são equivalentes muitas vezes quanto ao sentido, e que uma frase
de coorde
nação tem, não raro, no fundo uma contextura tão firme como se fosse formada
de
membros estreitamente ligados por conjunções e pronomes relativos, que
são os
-conectivos mais importantes com que ligamos asserções separadas, fazendo
período do
que, sem eles, seria livre agregação de frases. Façamos notar enfim que
predomina
em ou outro desses dois processos, conforme a índole do gênero literário,
do assunto
.do escritor. Mostre-se aos alunos que se pode construir (1.0 grau): "O
dia está
bonito; não temos que fazer; vamos passear", ou (2.0 grau): "O dia está
bonito e
não temos que fazer; vamos, pois, passear". Enfim (3.0 grau, subordinação
e período)
"porque o dia está bonito e porque nada temos que fazer, vamos passear".
Outros
--- 1_
"O exército compunha-se de cem mil combatentes e ia comandado pelo rei"
253
= "O
exército que ia comandado pelo rei, compunha-se de cem mil combatentes".
"Era
inocente e condenaram-no" = "Condenaram-no, ainda que era inocente". "Meu
amigo tinha tido febre; não estava de todo restabelecido; tinha o rosto
pálido e
triste" ou "meu amigo, que tinha tido uma febre de que não estava plenamente
resta
belecido, tinha o aspecto triste"; ou, já que dispomos de não pequena
variedade de
modos, "ele tinha o aspecto triste, porque havia tido" etc.; ou "o meu
amigo, não
se tendo restabelecido de uma recente febre, tinha triste aspecto" e assim
por diante
Os vários modos de exposição são expedientes para chamar mais especial
atenção a
um ou outro aspecto de um fato e de suas causas; são antes um ornamento
do que
um meio substancial da fala, e servem a um intento estilístico" (Factos
da Língua
QUADRO SINOTICO DE CLASSIFICACAO DE ORACOV
subordinação ~
3 - INTERROGAÇÃO DIRETA E INDIRETA
já vimos (pág. 195) que a interrogação pode ser parcíal ou total
conforme pergunte por algum termo da oração que não seja o predicado,
Agora cabe-nos acrescentar que a interrogação pode ser estruturada
#
Chama-se interrogação direta aquela que é representada por uma
oração independente caracterizada por entoação interrogativa (isto é, tem
ascendente a sua parte final) e começada, se for parcial, por um vocábulo
interrogativo:
Que pensas disso?
Onde é a festa?
já saiu pela manhã?
Conseguiram resolver todos os problemas?
Chama-se interrogação indireta aquela que, não pedindo resposta
imediata, é representada por uma oração dependente destituída de
entoação interrogativa, começada pelos pronomes ou advérbios interrogativos
quem, qual, que, quanto, como, porque, onde e quando, ou pela
conjunção integrante se :
Quero saber que pensas disso
Pergunto-lhe onde é a festa
Diga-me quando José saiu
Mostrei-te como conseguiram resolver todos os Problemas
254
Indagamos-lhe quem foi o responsável pelos prejuízos
Desconheço se foram felizes nas provas
OBSERVAÇõES:
1.a) Com exceção da conjunção se, as orações subordinadas na
interrogação indireta
não se ligam à sua principal por vocábulo especial de conexão, o que
nos levou
a colocá-las no grupo das justapostas (cf. 220-
2.a) "Sendo as expressões como, quanto, quão, que aplicadas tanto em
frases
interrogativas como em frases exclamativas, casos há que se devem
interpretar como
exclamações indiretas: Olha como ela chora. Bem sabes quanto me custa.
Olha que
infinidade de moedas, etc. (SAID Am, Gram. Sec., 182).
4 - ORAÇOES COORDENADAS CONECTIVAS
Tipos de orações coordenadas conectivas. - As orações conectivas secaracterizam
pelas conjunções coordenativas (cf. pág. 160) que as intro--
duzem e podem ser:
a) ADITIVAS:
"A nossa vaidade atraiçoa e revela freqüentes vezes a nossa
incapacidade" (M.
de MARICÁ).
"A misantropia não é nem pode ser vício ou defeito da gente moça" (ID.).
b) ADVERSATIVAS:
"O estudo confere ciência, mas a medítqtlo, originalidade" (ID.).
"Na montanha goza-se mais, porém o vale é mais abrigado" (ID.).
223
#
c) ALTERNATIVAS:
"A mulher douta ordinariamente ou é feia, ou nienos casta" (ID.).
"A imaginação ora aterra, ora diverte a razão para melhor a domiiiai"
(ID.).
d) CONCLUSIVAS:
e) EXPLICATIVAS:
O dia está agradável, por isso devemos aproveitá-lo.
José zangou-se comigo, portanto ndo o cumprimentei.
Estude, que todos passarão a apreciá-lo.
Desapareceu, pois não o encontrei em nenhum lugar.
"Os criados inocentes e impecáveis nesta matéria - por isso que zelavam
255
a
fidalguia de seu amo contra o plebeísmo do sobrinho de mestre Antônio -
juraram
de espreitar os passos de Casimiro. . . " (CAMILO, O Bem e o Mal, ed.
Casassanta, 85) (*).
5 - ORAÇõES INTERCALADAS
O que denotam as orações intercaladas. - As orações intercaladas
- como simples elementos adicionais de esclarecimento - não vêm em
geral introduzidas por conjunção (as que aparecem possuem mero valor
éstilístico intensivo) e podem denotar:
a)ADVERTÊNCIA: quando esclarece um ponto que o falante julga indispensável:
Tudo - nesse tudo etí incluo as maiores esperanças - foi em vão.
b)CiTAçõEs: quando encerra a pessoa que Profere a declaração a que
nos referimos:
Vá embora! - exclamou o Policial.
Não peço nada a ninguém - atalhou o iringo.
c) DESEJO: quando traduz um desejo
(bom ou mau) do falante:
"É bem feiozinho, benza-o Deus, o tal teu amigol" (ALUISIO DE AZEVEDO)'
O teu primo - raios o partam! - pôs-me de cabelos brancos.
d) ESCUSA: quando o falante aprot?eita a ocasião para se desculpar:
"Pouco depois retirou-se; eu fui vê-la descer as escadas, e não sei por
que fenômeno
de ventriloquismo cerebral (perdoem-me os filólogos essa frase
bdrbara) murmurei
comigo..." (M. DE Assis, Brás Cubas, 325).
(9) A rigor melhor seria evitar a bipartiçáo em coordenadas expIlcativas
e subordinadaç
causais - com que e porque ~, uma vez que alo muito frágeis os critérios
usados para tal
distinção. Cf. nossas Lições de Português, 4.a ed., pág. 134, nota.
224
#
e) OPINIÃO: quando o falante aproveita
o ensejo para opinar:
João - como era bom! - gostava de nos levar a passeios.
A poesia - diga-se antes a asnice - ocupava dez repletas páginas de papel.
PERMISSÃO: quando o falante se serve da oportunidade para solicitar
256
algo:
"Meu espírito (permita-me aqui uma comparação de criança), meu espírito
era
naquela ocasião uma espécie de peteca" (M. DE Assis, Ibid., 282).
g)RESSALVA: quando o falante aproveita a ocasião para fazer uma
ressalva:
Os livros, pode-se bem dizer, são o alimento do espírito.
"Cobiça de cátedras e borlas que, diga-se de passagem, Jesus Cristo
repreendeu
severamente aos fariseus". (CAMiLO, Boêmia do Espírito, 300).
"Daqui a um crime distava apenas breve espaço, e ela o transpôs, ao que
parece"
(A. HERCULANO, Fragmentos, 123).
Ele, que eu saiba, nunca veio aqui(l).
6 - ORAÇOES SUBORDINADAS
Substantivas
Funções sintáticas exercidas pelas substantivas. - As orações subordinadas
substantivas são aquelas que exercem, em relação à sua principal,
as funções sintáticas específicas de um substantivo, que são:
a) SujEiTo
(a oração se diz subjetiva)
b) OBJETO DIRETO
(a oração se diz obje-
1~ tiva direta) í
Não se sabe se tudo vai
bem
1 - Conectivas(2) É bom que estudes
Cumpre que venhamos
cedo
Quem tudo quer tudo
2 - justapostas perde.
Não se descobriu quem
{ veio aqui
ConectivasEsperamos que nos ajudem
{ Desconhecemos se vieram
2 - justapostas
Não sabia como fazer o
problema
Ele procurava quem o pudesse
ajudar
(1) Com seus alunos deve apenas o professor insistir na conceituaçAo
de oração intercalada,
desprezando minúcias de dassificaçâo.
(2) As subordinadas substantivas conectivas se introduzem pelas
257
conjunçMs integrantes.
225
#
C) OBJETO INDIRETO
(objetiva indireta)
' I - Conectivas f
2 - Justapostas
d) PREDICATIVO 1 - Conectivas
(a oração se diz predicativa){
2 - Justapostas
C) COMPLEMENTO NOMINAL
(oração completiva no.
minal)
Precisas de que te Protejam
Esquecem-se de que tinham
feito mal o serviço
Precisas de quem te proteja
Deu-se o prêmio a quantos
o mereciam
A verdade é que todos
saíram
I - Conectivas
[ 2 - Justapostas
Ele era quem menos re.
clamava
Estava receoso de que tudo
acabasse mal
Tinha medo de que fugís.
{ semos
Estava receoso de quem o
prendesse
Tinha necessidade de quantos
dele se aproximavam
1)APosTO (a oração é sempre justaposta; em virtude de uma contaminação
sintática,
pode trazer uma conjunção expletiva (U. pág. 332).
258
~orardo apositiva):
• sua resposta foi esta: nio me agrada muito.
• sua resposta foi esta: que nio me agrada muito.
Características das orações substantivas:
1.a) Não trazem, no seu início, preposição necessária as subjetivas,
objetivas diretas, predicativas e apositivas. Vêm iniciadas por
preposição
necessária (que se pode omitir) as objetivas indiretas e completivas
nominais.
2.a) A oração subjetiva tem o verbo de sua principal na 3.a pessoa
do singular e num destes três casos:
a) Verbo na voz passiva
1) PRONOMINAL (verbo + pronome se): Sabe-se que tudo vai bem.
2) ANAUTICA (Ser, estar, ficar + particípio): Ficou provado que tudo vai
bem.
#
226
#
substantivo
b) Verbo ser, estar, ficar + ou
{ 'adjetivo
É verdade que resolvemos o contrário.
Foi bom que compreendessem a situação.
Estd claro que concordarei.
Ficou certo que me avisaria.
c)Verbo do tipo de parece, consta, urge, ocorre, corre, importa, convém,
cumpre, dói, punge, acontece, etc.
Parece que tudo acabará bem.
Urge que insistas no caso.
Convém que saiamos cedo.
3.a) A oração predicativa aparece depois do verbo ser, completando-o:
A verdade é que resolvemos o contrário.
OBSERVAÇÃO: Por uma pessoalização do verbo parecer (cf. acima, 2.a. c),
a predicativa
vem como complemento deste verbo no seguinte exemplo do M. de
MAItMA:
"Nunca nos esquecemos de nós, ainda quando parecemos que mais nos
259
ocupamos
dos outros".
4.8) A oração completiva nominal, como o nome indica, é complemento
de substantivo ou adjetivo, enquanto a objetiva indireta é complemento
de verbo :
substantivo,,,. completiva nominal
adjetivo - + preposição + oração <
verbo-~-~
Adjetivas
objetiva indireta
Função sintática exercida pelas adjetivas. - As orações subordinadas
adjetivas são aquelas que exercem a função sintática de adjunto adnominal
de um termo da sua principal:
1) Conectivas (as adjetivas conectivas se introduzem por pronome
ou advérbio relativo com antecedente):
"Velhos há que bem merecem ser comparados aos vulcões extintos" (M. DE
MARICA).
"Há muita gente para quem o receio dos, males futuros é mais tormentoso
que o
sofrimento dos males presentes" (ID.).
2) justapostas (cf. pág. 219):
"Não vemos os defeitos de quem amamos, nem os primores dos que alÁrre-
CCMOS" (ID.).
"Não se pode formar bom conceito de quem nêlo tem boa opinião de pessoa
algitma" (ID.).
227
#
Adjetivas ~estritivas e explicativas(i). - As orações adjetivas podem
ser restritivas ou explicativas. Chamam-se restritivas as que servem para
delimitar ou definir melhor o seu antecedente, o qual, sem o concurso
da oração adjetiva, pode ou não fazer sentido ou dizer coisa diferente
do
que se tem em mente:
-É triste a condição de um velho que só se faz recomendável pela sua
longe-
,,i(lade" (ID.).
A adjetiva se diz explicativa quando encerra uma simples explicação
ou pormenor do antecedente, uma informação adicional de um ser que
se acha suficientemente definido, podendo ser omitida sem prejuízo:
Iracema, que é um romance, foi escrito por José de Alencar.
260
Difere ainda a adjetiva restritiva da explicativa, porque a primeira
empresta ao antecedente um sentido particular (trata-se de um dentro
de uma série) e a segunda um sentido universal (trata-se de um só).
Assim, no seguinte passo do M. de Maricá:
"A desgraça, que humilha a uns, exalta o orgulho de outros",
trata o autor da desgraça de um modo geral, sendo a oração que humilha
a uns adjetiva explicativa. Se, por outro lado, estivesse escrito:
A desgraça que humilha a uns exalta o orgulho de outros,
tratar-se-ia de mais de uma desgraça, e se fazia referência somente àquela
que humilha a uns.
Acentua o aspecto de oração explicativa a maior pausa que se faz ao
proferi-la; trata-se da entoação suspensiva ou pausal de que nos ocupamos
na pág. 195. A explicativa acima seria lida da seguinte maneira:
A desgraça, que humilha a uns, exalta o orgulho de outros.
A forte pausa, neste caso, é representada na escrita pondo-se a oração
explicativa entre vírgulas.
A adjetiva restritiva, para denotar que o seu antecedente se apresenta
como pertencente a uma classe, ocorre com freqüência depois de um superlativo
ou de palavra de sentido restrito como todo, algum, nenhum, o,
aquele, etc.:
"O perdão conferido aos maus torna cúmplices os que lho deram" (ID.).
"Ninguém duvida tanto como aquele que mais sabe" (ID.).
(1) Com razão, a Nomenclatura distingue estes dois tipos de orações
adjetivas, fato que
nos interessa para problemas de equivaléncia estilística e de pontuação.
A distinção ainda é
útil no estudo de línguas estrangeiras que empregam relativos diferentes
para uni e outro caso.
Em ínglés, o relativo that caracteriza a restrítiva, enquanto who (whom)
aparece na explícativa.
Cf. ONtoNs, Advanced English Syntax.
228
#
Por fim, cabe lembrar que a adjetiva explicativa que é constituída de
predicado nominal, se pode transformar num aposto explicativo:
• primavera, que é a estação das flores, prometé chegar radiosa.
• primavera, a estação das flores, promete chegar radiosa(l).
Outros sentidos da oração adjetiva. - A oração adjetiva não denota
apenas uma qualificação do antecedente, mas ainda pode adquirir sentido
de fim, condição, causa, conseqüência, concessão ou sentido adversativo :
261
1 "O general mandou parlamentares que pedissem tréguas" (ANTENOR
NASCENTES,
Dificuldades de Análise Sintática, 26).
"Tu que és bom, deves ajudar-me nesta campanha (que és bom = porque
és bom).
"Com palavras soberbas o arrogante
Despreza o fraco moço mal vestido
Que rodeando a funda o desengana
Quanto mais pode a Fé que a força humana" (CAMõES, Os Lusíadas, 111,
111.
Diz Epifânio Dias no comentário: oração adjetiva "tem sentido
adversativo").
Adverbiais
Função sintática exercida pelas adverbiais. - As orações subordinadas
adverbiais são aquelas que exercem a função sintática de adjunto
adverbial.
Quanto à ligação as orações adverbiais podem ser, como vimos, justapostas
ou conectivas, sendo que estas últimas se introduzem Pelas conjunções
subordinativas adverbiais (cf. pág. 161).
De acordo com a circunstância que exprimem temos orações
adverbiais:
a) de AGENTE DA PASSIVA (justaposta):
Foi enganado por quem menos esperava (2).
b) CAUSAIS:
"A memória dos velhos é menos pronta porque o seu arquivo é muito extenso"
(M. de MAIUCÁ).
"Como os sábios não adulam os povos, também estes os não promovem" (ID.).
(1) A característica essencial da adjetiva restritiva é o apresentar
o antecedente como
pertencendo a uma classe (sentido particularizante), enquanto a da
explicativa é apresentar o
antecedente num sentido universal. Assim sendo, não se pode dizer, como
o fazem muitos
autores, que a restritiva é "a que exprime qualidade acidental do ser-,
e a explicativa "exprime
qualidade própria inerente do ser". Nos exemplos:
• desgraça, que humilha a uns, exalta o orgulho de outros
• desgraça que humilha a uns exalta o orgulho de outros
evidencia-se a precariedade da liçâo que criticamos.
(2) Não consta da NGB.
229
#
C) COMPARATIVAS
262
f A) assimilativas
1 - de igualdade
B) quantitativas 2 - de superioridade
{ 3 - de inferioridade
A) AssiMILATIVA: "Os governos tendem à monarquia como os corpos gravitam
para
o centro da teir " (ID.).
"O homem prudente se humilha pela experiência, como as espigas se curvam
por
maduras" (ID.).
11) QUANTITATIVAS:
1 - de igualdade: "Nenhum homem é tão bom como o seu partido o apregoa,
nem tão mau como o contrdrio o representa" (ID.).
"Somos tão vários nas nossas opiniões, quanto são vdrias as
circunstdncias em que
nos achamos" (ID.).
2 - de superioridade: É mais útil algumas vezes a extirpação de um erro,
que a descoberta de muitas verdades" (ID.).
"Dâo-se os conselhos com melhor vontade do que geralmente se aceitam".
3 - de inferioridade: "A sabedoria humana bem ponderada vale sempre menos
do que custa" (ID.).
OBSERVAÇõES :
1.a) na locução outro que tal (e flexões), como bem viu Júlio Moreira
(Estudos,
1, 2, 51-56), o que representa o advérbio latino acque, a modificar e
reforçar o
vocábulo tal, constituindo uma expressão mais enfática do que outro tal,
outro tão
bom como ele (em bom ou mau sentido):
"que nin é fugisse de suas casas, nem viesse para a rua fazer assuada,
algaul
U in
zarras, OU ou ras que tais manifestações de desordem e descontentamento"
(CAMILO,
Carlota Angela, 142).
2.a) É freqüente o*emprego da locução elíptica ser como alguém ou algo,
não
se precisando fazer de como o introdutor de uma oração comparativa: "...
mil anos
diante de Deus são como o dia de ontem que passoW (Pe. MANUEL BERNARDES).
3.a) A comparativa hipotética se traduz por como se, que também se pode
desdobrar
em duas orações: Estudou como se fôsse passar.
d) CONCESSIVAS:
1 - Conectivas:
,,o extraordinário também é natural, ainda que raro ou menos freqüente"
(M.
de MAiucÁ).
"Por mais sagaz que seja o nosso amor-próprio, a lisonja quase sempre
o
engana" (ID.).
263
OBsERvAçÃo: O professor MARTINz DE AGULAR é de opinião que o que, neste
último caso de concessiva intensiva (cf. pág. 162), seja pronome relativo
em referéncia
ao adjetivo (sagaz) e a oração (adjetiva, agora) é constituída por que
seja.
"Talvez cinco beijos; mas dez que fossem não queria dizer coisa nenhuma"
(M. DE Assis, Brás Cubas, 128).
"Se fizeres terceira edição, deves purificá-la das palavras mesmo como
advérbio ,
posto que tenhas um exemplo em Cambes e outro em D. Francisco Manuel de
Melo
(CAMILO, Correspondência Epistolar, 11, 167).
230
#
- justapostas: (têm o verbo no subjuntivo anteposto ao sujeito
ou são caracterizadas por expressões do tipo digam o que qu s
o que custar, dê onde der, seja o que for, aconteça a, que acontecer, venha
"Se os homens não tivessem alguma cousa de loucos seriam incapazes de
heroismo
"O arrependimento, se não re-bara o feitio, previne a reincidência" (ID.).
"A agrura das montanhas e a profundeza dos vales das Astúrias demorarão
os
inimigos quando eu haja de perecer e não puder embargar-lhes os passos"
(HERCULANO,
Eurico, 215 apud EPIFÂNIO, Sint. hist. õ 397, que ensina: "as orações de
quando são
propriamente condicionais, quando a oração subordinante diz o que há de,
ou havia
de acontecer em um caso (indicado na oração de quando), cuja realidade
não é
Sem que eu volte para 10 (G. DIAS, Obras poéticas, 1, 22. ed. M. BANDEIRA
Com se é que denotamos enfaticamente a hipótese de caráter
"Acabei de conhecer quão mal entendido é o vosso escrúpulo e o vosso
temor
se é que o tendes" (A. VIEIRA, Sermões, VII, 65 apud EPIFÂNIO, loc. cit.,
õ 37, a)
2 - Justapostas (têm 6 verbo no tempo passado: m.-q.- perfeito do
ind. ou imperf. do subjuntivo, geralmente com sujeito posposto)
"Eu quisesse, à força, hoje mesmo a Ritinha vinha comigo" (J. GUIMARÃES
ROSA
As orações condicionais não só exprimem condição, mas ainda podem
264
encerrar as idéias de hipótese, eventualidade, concessão, tempo s q
muitas vezes se tracem demarcações rigorosas entre esses vários campos
do
(1) Não é o subjuntivo que de per si denota a concessão, mas a maneira
de estruturaçáo
o contexto e a entonaçâo descendente. Devo esta observaçâo ao sintaticista
alemão Moritz Re-
#
f) CONFORMATIVAS:
11 E começou (D.Plácida) a rir, a desdizer-se, a chamar-se tola, "cheia
de fidúcias",
como lhe dizia a mie" (M. DE Assis, Brds Cubas, 202).
Fez a redação conforme exigiu o professor.
Viajou conforme o pai determinou.
g) CON~ECUTIVAS:
"Os vícios são tão feios que, ainda enfeitados, não podem inteiramente
dissimular
a sua fealdade" (M. de MARICÁ).
"Vive de maneira que ao morrer não te lastimes de haver vivido" (W.).
"Há segredos, de natureza tal, que é imperdodvel imprudência o
descobri-los" (ID.).
"Devemos regular a nossa vida de modo que possamos esperar e não recear
depois da nossa morte" (h).).
Através de expressões; como de tal maneira, de tal forma, de tal modo,
de tal sorte, postas na oração principal, a consecutiva passa a denotar
que
se deve a conseqüência ao modo pela qual é praticada a ação anterior.
Estando completo o sentido da primeira oração, empregamos as expressões
acima (destituídas de tal) como locuções conjuntivas, sem pausa
entre o substantivo e o que, para introduzirem uma consecutiva atenuada,
quase coordenada conclusiva:
Você estudou bem, de modo que pôde responder às perguntas (de
modo que passou a constituir um todo, pertencente à segunda oração).
OBSERVAÇÃO: Constitui erro por no plural o substantivo de de modo que,
de
maneira que:
Estudou de maneiras que conseguiu aprovação.
h) FINAIS:
I - Conectivas:
"Fiz-lhe sinal que se calasse" (M. nE Assis, Brds Cubas, 309).
265
"Garcia Bermudes antes... de ter disposto tudo para que nenhum dos
cavaleiros
que deviam assistir ao banquete pudesse afastar-se do castelo..." (A.
HERCULANO,
O Bobo, 158).
"... alumiai meus olhos com vossa luz divina, porque (= para que) sempre
veja
e entenda as verdades da sabedoria de vossa Cruz" (T. DE JEsus, Trabalhos,
11, 201).
"Deixai-me só - disse frei Jacinto - e convidai o abade a que me socorra
com
os sacramentos" (CAMiLO, A Bruxa de Monte-Córdova, 164).
Pode haver um liame estreito entre a oração consecutiva e a final
quando a conseqüência denota um efeito ou resultado intencional:
Chegou cedo ao serviço de maneira que pudesse ser elogiado pelo patrão.
232
#
A idéia de finalidade é responsável pelo aparecimento da preposição
a em locuções modernas do tipo de modo a que, de maneira a que e
semelhantes:
Chegou cedo ao serviço de maneira a que pudesse ser elogiado pelo patrão
(~).
2 - Justapostas:
Cala te já, minha fijha
. Ninguém te oiça mais falar" (= para que ninguém te oiça; GARRETT, Roman
cetro 1 XI, 83).
"Senhor, que estás no céu, e vês as almas,
Que cuidam, que propoem, que determinam,
Alumia minha alma, não se cegue (= para que não...
No perigo, em que está" (ANTÔNio FERREiRA, CASTRO, vv. 770-773, apud
S. SILVEIRA,
Lições, õ 485-a).
"Mudemos, porém, de tecla, não vá alguém julgar-me para que não vá)
candidato a revisor de gralhas" (CÂNDIDO DE FicUEIREDO, Combate sem Sangue,
231
apud M. BARRETO, Oltimos Estudos, 321).
Esta construoo de não + subjuntivo para denotar finalidade se
aproxima da latina ne por ut ne, quando se quer exprimir a cautela, a
precaução, o cuidado, a restrição:
"Hoc sustinete, maius ne venial, malum" (FEDito, 1, 2, apud M. BAPRETO,
ibid.,
= sportai este mal para que não venha outro maior).
i) LocATivAs: Gustapostas, iniciadas por onde, quem, quanto sem refe266
rência a antecedente):
"Os meninos sobejam onde estilo, e faltam onde nélo se acham" (M. DE
MAitiCÁ).
"Não pode haver reflexão onde tudo é distração" (ID.).
"Onde o luxo cresce, a probidade afraca e desfalece" (ID.).
Afastava-se de quem o recriminasse (2).
i) MODAIS:
"De um relance. leu na fisionomia do mancebo, sem que suas pupilas
extdticas
se movessem nas órbitas" (J. DE ALENCAR, Sertanejo, 157, ed. Melhoramentos)
(2).
1) PROPORCIONAIS:
"O anão, quanto mais alto sobe, mais pequeno se afigura" (M. DE MARICÁ).
"Tanto cresce o poder dos homens, quanto aumenta o seu saber" (ID.).
"Quanto menor é o juizo dos povos, tanto maior deve ser o dos que os
governam"
(ID.).
(1) M. BAaazTo (Novos Estudos, 2, 340) acredita que tenha havido uma
contaminaçáo
sintática de "de modo que" com "de modo a". Creio, entretanto, que bastou,
para o caso, o
matiz de finalidade que envolveu a locução.
(2) Não consta da NGB.
233
#
"O instinto nos homens enfraquece à medida que a sua T4Z90 Cresce, vigora
e
se desenvolve" (ID.):
"Os seus ditos satíricos, ao passo que suscitavam a hilaridade dos
cortesões, faziam
sempre uma vítima" (A. HERCULANO, o Bobo, 29).
m) TEmpoitms:
1) Conectivas:
"Há muitos homens que parecem dignos de grandes empregos enquanto os
não
OCUP4M" (M. DE MARICÁ).
"Calculamos sempre mal quando prescindimos das circunstdncias" (ID.).
"Enquanto assim pensava, íamos devorando caminho, e a planície voava
debaixo
dos nossos pés, até que o animal estacou..." (M. DE Assis, Brás Cubas,
20).
"Os senhores e cavaleiros, apenas a rainha Partira, se haviam espalhado
pela sala
267
do banquete e pela sala d'armas" (A. HERCULANO, O Bobo, 161).
"Tanto que desapareceram, ele abriu às apalpadelas a porta exterior da
sua
pocilga ... " (ID., ibid., 201).
"Eis senão quando entra o patrão, com aqueles modos decididos..." (A.
ARINOS,
Pelo Sertão, 3.a ed., 183).
2) Justapostas:
"ao pé de uma destas colunas, no lado,oposto da sala três personagens
falavam
também havia largo tempo..." (A. HERCULANO, ibid, 42).
Não o vejo faz seis meses.
OBSERVAÇÃO: Por um processo de grama tica lização, há autores que
consideram a
justaposta como simples adjunto adverbial, sem formar oração à parte (A.
NASCENTES).
Transposta para o início do período a oração que expressa a idéia
temporal, aparece um que que tem tido interpretação vária:
"Muito havia já que era noite..." (A. HERCULANO, ibid., 154).
Faz seis meses que não o vejo.
De três maneiras podemos analisar a 2.a oração:
a) considerar o que conjunção
temporal e, portanto, adverbial a oração
(é a opinião mais generalizada);
b) considerar que os verbos
haver e fazer não estão empregados impessoalmente,
sendo o que conjunção integrante e, portanto, substantiva subjetiva
a oração por ele introduzida (o fato [não o ver] faz [ = completa,
tem] seis meses); esta análise não se enquadra tão bem em relação ao
verbo haver pelo inusitado de semelhante construção em nosso idioma
(é a opinião de Maximino Maciel, Mário Barreto, Martinz de Aguiar,
Cândido jucá Filho);
c) considerar o que expletivo, memorativo, dentro da oração principal,
da
circunstância temporal da oração anterior; continua a haver justaposição
(é a opinião de Sílvio Elia, e a que julgo boa).
234
#
Os adeptos da explicação a) e b) acreditam na pura elipse do que
subordinativo em construções como não o veio faz seis meses.
OBSERVAq6ES:
1.a) Realça-se a idéia temporal do verbo haver através da prep. de em
linguagens
268
do tipo: "... eu afirmo que o Sr. Camilo Castelo Branco sabe, sabe muito
bem,
porque de hd muito tempo lhe são familiares livros..." (OLIVFMU MARTINS
apud
CAMILO CA~ BRANco, Boêmia do Espírito, 38).
2.4) Empregam-se como substantivos hd muito, hd pouco, hd tantos anos,
etc.,
que precedidas da preposição de, valem como locução adjetiva, (adjunto
adnominal):
"Eu conhecia dos escritores de hd vinte e cinco anos a opulência_" (CAMILO,
Boêmia do Espírito, 8); "Vim para conversar com os fantasmas dos meus
amigos e
comensais de hd trinta anos" (ID., ibid, 17).
3.2) Em lugar de quando foi a vez dele diz-se também, modernamente,
quando
foi da vez dele ou, abreviadamente, quando da vez dele. Ocorre ainda a
quando de
(a quando da vez dele).
4.a) Em muitos dizeres de sentido temporal, "há tendência, bem notória
hoje
em dia, para confundir que conjunção com que pronome relativo, e para
afirmar
este caráter pronominal em certos casos hoje se prefere em que ao simples
que da
linguagem antiga" (SAm ALI, GiPamíÍtica Secunddria, 197). Dá-se a
alternAncia que 1
em que quando o substantivo, que se considera como antecedente vem
precedido da
preposição em. Assim se prefere dizer ao mesmo tempo que, a tempo que,
ao tempo
que, mas no tempo que (ou em que), no dia que (ou em que), etc. Tem-se
empregado
abusivamente em que em construções onde a tradição do idioma só
emprega
que, como: todas as vezes em que (prefira-se todas as vezes que) ou em
todas as
vezes em que (ou apenas que).
5.a) Por vezes, nas asserções gerais, a oração iniciada por quando muito
se
aproxima pelo sentido da introduzida pela condicional se. "Não se é pobre,
quando
se tem saúde" (EPIFÂNIO, Sint. Hist., õ397-b).
7 - ORAÇOES REDUZIDAS
Que é oração reduzida. - Chama-se oração reduzida aquela que tem
o seu verbo numa forma nominal, isto é, no infinitivo, gerúndio ou
particípio.
"A mocidade se expande para conhecer o mundo e os homens (= para que
conheça... ), a velhice se contrai por havê-los conhecido (= porque os
conheceram)"
(M. DE MARICÁ).
"Ganhamos freqüentes vezes perdoando oportunamente" (ID.).
"Varrida a testada a Latino Coelho da mazela que lhe irrogou o mestre,
ainda
menos me custará tirar da minha a assacadilha, que me pôs (R. BARMA, Réplica,
269
101).
OBSERVAÇõES :
1.a) A oração reduzida não vem introduzida por conectivo; mas é preciso
'acentuar
que não é a falta dele que a caracteriza como tal. Orações há desprovidas
de conectivo
que não são reduzidas. É a forma nominal do verbo que nos indica ser
reduzida
a oração.
235
#
2.a) Havendo locução verbal, é o auxiliar que indica se estamos ou não
diante
de uma reduzida, e qual o seu tipo. Dessarte, não constituem orações
reduzidas os
seguintes exemplos: estamos viajando, precisamos viajar, tem viajado,
porque o
auxiliar não se acha representado por uma forma nominal. Por outro lado,
tendo
de viajar é uma reduzida de gerúndio, acabado de fazer é de particípio
e estando
sofrendo é de gerúndio.
De modo geral, toda oração reduzida pode ser desdobrada numa correspondente
de verbo na forma finita e introduzida por conectivo:
Ao terminar a aula, sairemos = logo que a aula termine, sairemos.
O emprego de reduzidas, por desenvolvidas e vice-versa, quando feito
com arte e bom gosto, constitui um dos recursos para emprestar ao discurso
elegáricia e eficiência.
As orações reduzidas podem ser independentes (coordenadas) ou dependentes
(subordinadas), sendo inais freqüentes as deste último grupo.
Orações reduzidas independentes (coordenadas). - As orações reduzidas
independentes (coordenadas) apresentam o seu verbo:
a)no infinitivo precedido da preposição sobre, ou da loc. além de quando
exprimem adição enfática:
"É que as toucas e lencinhos pudibundos, sobre não serem enfeites mui
sedutores,
algumas vezes tornam a virtude rançosa..." (CAM1LO, A Queda dum
Anjo, 111).
b)no gerúndio, quando, exprimindo um fato imediato, equivalem a uma
oração desenvolvida introduzida pela conjunção e :
"Recebeu a jóia, entregando-a (= e entregou-a) depois à esposa" (SA11)
270
ALI,
Gram. Sec., 247).
Orações reduzidas dependentes
A) SUBSTANTIVAS:
Têm normalmente o verbo (principal ou auxiliar) no infinitivo:
a) Subjetiva:
"Não é dado ao saber humano conhecer toda a extensão da sua ignorância-
(M. DE MARICÁ).
"Agora mesmo, custava-me responder alguma coisa, mas enfim contei-lhe
o motivo
da minha ausência" (M. DE Assis, Brás Cubas, 208).
b) Objetiva dirçta:
"Atores por breve tempo no teatro deste mundo, os homens fazem rir e
chorar
a muita gente" (li).).
236
#
c) Objetiva indireta:
"A felicidade do velho achacado é negativa, consiste em não sofrel`
(ID.).
d) Predicativa:
"A maior loucura política é ampliar a liberdade a quem não tem suficiente
capacidade para usar dela" (ID.).
e) Apositiva:
"Dois meios havia em seguir esta empresa: ou atacar com a armada por
mar, ou
marchar o exército por terra e sitiar aquela cidade" (A. HERCULANO,
Fragmentos, 69).
f) Completiva nominal:
"Os imprudentes e estouvados ofendem a muita gente, sem intenção nem
propósito
de ofender a pessoa alguma" (ID.).
OBSERVAÇõES :
J.a) Por vezes a oração reduzida substantiva subjetiva ou objetiva
direta tem o
seu infinitivo precedido de preposição expletiva: "Desaire real seria de
a deixar
sem prêmio" (A. GARRETT, Cam6es, 122); "Custou-lhe muito a aceitar a casa"
(M.
DE Assis, Brás Cubas, -94); Mostrou-se pesarosa de o encontrar, e prometeu
de voltar
hoje às três horas" (CAmim), A Queda dum Anjo, 118); "A civilidade ensina
271
a
dissimular para não ofender" (M. DE MARicÁ).
2.2) A oração substantiva reduzida de infinitivo pode vir precedida de
artigo
ou pronome demonstrativo, mormente se a oração funciona como sujeito,
objeto ou
predicativo, quando se deseja ressaltar a ação expressa pelo infinitivo:
"Custa mais
trabalho a muitos o tornar-se desgraçados do que a outros fazer-se
afortunados" (M.
DE MARICÁ).
3.a) "No port. moderno, em lugar de se dizer simplesmente, v.g.: O estar
todo
o estrangeiro exposto a ser preso, basta para provar que...,*é corrente
empregar-se
uma perífrase com fato, circunstdncia, e dizer-se: O fato de estar todo
o estrangeiro,
etc. (em francês, onde não há orações infinitivas, tem de ser
necessariamente:
le fait que tout étranger était exposé à être arrété suffit à prouver que).
Tal prática,
bem que possa ser taxada de galicismo, serve, às vezes, de evitar durezas
de estilo"
(EMÂNIO, Sint. Histórica, õ363).
B) ADJETIVAS:
Têm o verbo (principal ou auxiliar) no:
1) Infinitivo
"O orador ilhavo não era homem de se dar assim por derrotado" (A. GARRET-r
apud EPIFÂNIO, Sint. Hist., õ308).
"Nossa teoria fora a primeira a cair por terra..." (A. HERCULANO,
OpúSCUIOS,
IX, 70).
OBSERVAÇõES :
1.a) Constitui imitação do francês empregar-se em sentido qualitativo
um infinitivo
precedido das preposições a ou para (por exemplo livros a consultar,
roupa
para consertar), em lugar de uma oração adjetiva iniciada por pronome
relativo. A
construção aparece, embora sem freqüência, em bons escritores modernos:
"Qual é
a ilação a deduzir destas considerações e destes fatos?" (HERCULANO apud
EPIFÀNIO,
Sint. Hist., õ 304).
237
#
2) Certindio, indicando de um substantivo ou pronome:
272
a) uma atividade passageira, dentro de curto período e em determinada
situação:
"... cujos brados dos selvagens da guerra começavam a soar ao longe como
um
trovão ribombando no vale" (A. HERcuLANo, O Bobo, 218).
"Realmente, não sei como lhes diga que não me senti mal, ao pé da moça,
trajando garridamente um vestido fino" (M. DE Assis, Brás Cubas, 260).
Água fervendo
Vale o gertindio, nestas circunstâncias, por uma expressão formada
pela preposição a + infinitivo: água a ferver.
b) uma atividade permanente, qualidade essencial, inerente aos seres,
própria das coisas (Said Ali):
"O livro V, compreendendo as leis penais..." (LATINO COELHO, História
Politica
e Militar de Portugal, 1, 288).
"Decreto de 14 de fevereiro de 1786, proibindo a entrada das meias de
seda que
não fossem pretas, e decreto de 2 de agosto de 1786, suscitando a
observância e
ampliando o cap. W' (ID., ibid., 298).
"Algumas histórias, digo, comédias havia com este nome contendo argumentos
mal . s sólido0 (FRANCISCO JOSÉ FREIRE apud SAM ALI, Gramática Histórica,
11, 1,552).
OBSMVAÇÃO: Autores há (Epifânio Dias, Júlio Moreira, Leite de
Vasconcelos,
Mário Barreto, entre outros) que condenam o emprego do gerúndio em oração
adjetiva,
e propõem sua substituição por uma oração iniciada pelo relativo ou por
preposição
adequada:
Livro contendo gravuras
Livro que contém gravuras
Livros (com, de) gravuras
Outros mestres (Said Ali, Otoniel Mota, E. Carlos Pereira, Cláudio
Brandão,
entre outros) não vêem erro em tal emprego, mas uma extensão natural do
gerúndio
que passou a acumular as funções do particípio presente, que desapareceu
do nosso
quadro verbal.
3) Particípio
"D. Afonso Henriques, ajudado por uma armada de cruzados, conquistou
Lisboa-
(A. COELHO, Noções Elementares de Gramática Portuguesa, 121).
OBsERvAçÃo: Em muitos casos se pode considerar o particípio por mero
adjetis-o,
273
simplificando assim a análise. É deste parecer Adolfo Coelho que nos ensina:
"O&
particípios passivos só constituem proposição quando não estão ligados
a um substantivo
(ou expressão equivalente) duma proposição que tem verbo próprio,
e têm
portanto sujeito próprio: no caso contrário são simples atributos
(adjuntos adnominais),
como nos exemplos seguintes: As obras escritas por Camões são
o maior
tesouro dos portugueses. D. Afonso Henriques, ajudado por uma armada de
cruzados,
conquistou Lisboa" (ibid.).
238
#
C) ADVERBIAIS:
de, etc.:
Têm o verbo (principal ou auxiliar) no:
1) Infinitivo (caso em que normalmente se emprega precedido de preposição
adequada):
a) Causais: com as preposições e locuções prepositivas com, em, por,
visto, à força de, em virtude de, em vista de, por causa de, por motivo
"Porém, deixando o coração cativo,
Com fazer-te (= porque te fizeste) a meus rogos sempre humano" (S. RITA
DuRÃo, Caramuru, c. VI).
"Há povos que são felizes em não ter (= porque não têm) mais que um só
tirano" (M. DE MARICÁ).
"Trazia a carta comigo, já bastante amarrotada, talvez por havé-la lido
a muitas
outras pessoas" (M. DE Assis, Brds Cubas, 86-7).
b) Concessivas: com as preposições e locuções prepositivas com, sem
(negando a causa ou a conseqüência), malgrado, apesar de, não obstante,
sem embargo de:
"O silêncio, com ser (= embora seja) mudo, não deixa de ser por vezes
um
grande impostor" (M. DE MARICÁ).
"Este era funestamente o sistema colonial adotado pelas nações que
copiava sem
o entender (= embora o não entendesse)_" (L. COELHo apud Antologia Nacional,
215).
c) Condicionais (e hipotéticas): com as preposições a, sem:
"Urn tomo houvéramos de encher, a querermos (= se quiséssemos) miudar
exemplificar todas as variedades de composição métrica dos nossos dias"
(A. F. DE
274
CASTILHo, Tratado de Metrificação, 146).
Não sairá sem apresentar os documentos em ordem.
d) Consecutivas: com as preposições de, a :
É feio de meter medo.
"O mancebo desprezava o perigo, e, pago até da morte pelos sorrisos que
seus
olhos furtavam de longe, levou o arrojo a arrepiar a testa do toiro com
a ponta da
lança- (R. DA SiLvA apud Antologia Nacional, 207).
OBSERVAÇÃO: Constitui novidade de sintaxe, talvez com influxo do francês
e,
por isso, condenada pelos gramáticos, o emprego do infinitivo precedido
da prepo-
:siçâo a para exprimir que a oração consecutiva encerra efeito ou resultado
esperado,
à qual se associa uma idéia subsidiária de fim: Falou de modo a ser ouvido
Por
todos. (Cf. Pág. 232.)
e) Finais: com as preposições e locuções prepositivas a, de, para, por
(hoje mais rara, fixada em por assim dizer e semelhantes), em, a fim de,
,com o fim de:
A dizer verdade, não sei como explicar o caso.
Pouco me deram a comer.
239
#
"... porque tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de
beber"
(A. ViEiRA, Serm6es, VIII, 270).
"O sábio deve calar-se para não ser malcriado, o ignorante para não ser
desprezado"
(M. DE MARicÁ).
"Fazei Por merecer os altos empregos, honras e dignidades: elas virão
buscar-vos,
ou sabereis escusá-las" (ID.).
"Punham os sarracenos todas as suas diligências em queimá-la..." (A.
HERCULANO,
Hist, de Portugal, 111, 179-180).
"Dois meios havia em seguir esta empresa" (lD., Fragmentos, 69).
OBsEavAçÃo: O infinitivo das orações finais pode aparecer sem preposição
mormente
depois dos verbos de movimento (muitas das vezes estes verbos passam
a
auxiliares indicando intento futuro): "Diz-se que ele era dos doze que
foram a
Inglaterra pelejar (= para pelejar) em desagravo das damas inglesas" (ID.,
92).
275
f) Locativas: com a preposição em :
"Filha, no muito possuir não é que anda posta a felicidade, mas sim no
esperar
e amar muito" (A. F. DE CAsTiLHo apud. Seleta Nacional, 1, 37).
OBsERvAçÃo: Este caso pode enquadrar-se no que se diz na pág. 244.a.
g) orações de meio e instrumento: com as preposições de, com :
"E Machado de Assis acaba o conto instalando o seu desencanto dos homens
na
alma de oficial, com dizer que ele foi mandado a Calcutá..." (M. BANDEIRA,
Poesia
e Prosa, 11, 360).
"Eu não sou, minha Nice, pegureiro,
Que vive de guardar alheio gado" (T. A, GONZAGA, Poesias, ed. R. Lapa,
1, 15) (1),
h) Modais: com as preposições sem, a.
"Vivemos com loucos e entre loucos: é feliz ou muito hábil quem pode
tratar
com eles sem os ofender nem ser ofendido" (M. DE MARicÁ).
"Ele esteve alguns instantes de pé a olhar para mim" (M. DE Assis, Brás
Cubas,
86)(1).
i) Temporais: com as preposições e locuções prepositivas:
1) tempo anterior: antes de :
"Os velhos devem supor-se mortos antes de morrer para assim alcançarem
mais
longa vida" (ID.).
2) tempo corícomitante: a (com o infinitivo precedido de artigo):
"Ao ouvir esta última palavra recuei um pouco, tomado de susto" (M. DE
Assis,
Brás Cubas, 21).
3) tempo posterior: depois de, após:
"A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na
testa"
(ID., ibid., 99),
(1) Não consta da NGB.
240
#
-19 r
ou da Belmonte, Prestes a soçobrar" (OURO PRETO apud Antologia
276
Nacional, 84).
4) tempo futuro próximo: perto de, prestes a :
"... e só abandona (o comandante) o posto quando voa em socorro da Parnaíba
5) duração, prazo: até:
"Erramos, aprendemos e somos enganados até morrer, por maior que seja
a
nossa idade, experiência e sapiência" (M. DE MARICÁ).
2) Gertindio
a) Causais:
"Vivemos no seio de Deus que, sendo (= porque é) imenso, nos compreende
todos" (M. DE MARICÁ).
b) Consecutivas:
"Isto acendeu por 'tal modo os ânimos dos soldados, que sem mandado,
nem
ordem de peleja, deram no arraial do infante, rompendo-o por muitas partes"
(A.
HERCULANO, Fragmentos, 97).
c) Concessivas:
"E quem são estes? são aqueles que sendo (= embora sejam) tanto mais
do
que eram, e tendo (= embora tenham) mais do que tinham e estando (= embora
estejam) tanto mais levantados do que estavam, ainda se queixam e se chamam
mal
despachados" (A. VIEIRA, Sermões, 1, 303).
d) Condicionais:
"Partilhamos o louvor que damos, sendo (= se é) justo e merecido" (M. DE
MARICÁ)
e) orações que denotam modo, meio, instrumento:
"O amor, como o menino, começa brincando e acaba chorando" (M. DE MARICÁ)
"Os viciosos amam os seus inimigos, amando os seus próprios vícios" (ID.).
OBSERVAÇÃO: Alguns autores preferem não considerar o gerúndio como
oração
à parte quando, indicando modo. meio ou instrumento, aparece sem
complemento
como no primeiro exemplo acima.
f) Temporais:
"As nações como as pessoas arremedando as outras, se desfiguram a si
próprias"
(M. DE MARICÁ).
277
"Navegando no arquipélago proceloso da vida não devemos perder de vista
o
porto do novo destino" (ID.).
Fala dormindo (o gerúndio aqui denota concomitância, coexistência de
aç(ws
enquanto dorme).
OBSERVAÇÃO: O gerúndio pode aparecer precedido da preposição em quando
indica tempo, condição ou hipótese. Neste caso o português moderno
determina que
241
#
o verbo da oração principal denote acontecimento futuro ou ação que costuma
acontecer;
"Boa é a lei, quando executada com retidão. Isto é: boa será, em
havendo
no executor a virtude..." (Rui BARwsA, Oraçdo aos Moços, ed. A. G. KURY,
53); "Não
imiteis os que, em se lhes oferecendo o mais leve pretexto, a si mesmos
põem suspeições
rebuscadas_" (ID., ibid, 64).
3) Particípio
a) Causais:
"Ocupado (Afonso de Albuquerque) com as guerras da índia e de Ormuz
porque se ocupara... ), não curou por muito tempo de ir castigar a traição
dos
malaios..." (A. HERCULANO, Fragmentos, 105).
b) Condicionais:
"Entramos em uma batalha, onde vencidos (= se formos vencidos),
honraremos
nosso Deus com o sangue" (FREiRE, 221, apud. EMÂNio DIAs, Gramática
Elementar,
õ 241, 1).
OBSERVAÇÃO: Pode-se aqui ainda pensar num aposto circunstancial (cf.
pág. 215).
c) Concessivas:
"Fundada com mui Pouco poder (= embora fosse fundada), esta cidade tinha
ganhado dentro em 90 anos aquele grande esplendor" (A. HERCULANO,
Fragmentos, 107).
d) Temporais:
"Abandonada esta, fortificaram-na logo os mouros com dobradas
trincheiras_"
(ID., ibid., 112).
OBsERvAçÃo: O particípio empregado na idéia de tempo pode vir seguido
278
do
pron. relativo que e duma forma adequada do verbo ser: "Acabado que foi
o prazo
destinado pelo tirano..." (M. BERNARDEs apud. S. ALi, Gramática Secundária,
196).
Orações reduzidas fixas. - Há certas orações reduzidas para as quais
a nossa língua não apresenta as equivalentes sob forma desenvolvida:
a) Orações que contêm certos verbos
seguidos de sujeito oracional:
Coube-nos ornamentar o salgo (e não que ornamentássemos) (1).
Valeu-nos estarem perto alguns amigos (e não: que estivessem perto).
Impediu-nos a viagem vindo ordem de voltarmos (e não: que tivesse
vindo)(1).
b)Orações que contêm os verbos agradecer, perdoar e o impessoal haver
na expressão não há valer-lhe (e similares) seguidos de objeto direto
oracional:
Perdoou-lhes o haverem-no ofendido (EMÂNto DIAs, Gramática Elementar,
226, b).
"E lá se vão: não há mais (= não é possível) conté-los ou alcançd-los"
(E. DA
CUNHA, Os sertões, 128).
(1) ExempIos extraídos de Jos* orricicA, Curso do iNir.
242
#
F
c) Orações cordenadas de sentido aditivo enfático através de sobre o
"É porque as toucas e lencinhos pudibundos, sobre não serem enfeites
mui sedu
tores, algumas vezes tornam a virtude rançosa..." (CAmiLo, A Queda dum
Anjo, 111).
d) Orações que exprimem circunstáricias para cuja expressão não existem
conjunções subordinativas, como as que denotam:
"A filha estava com catorze anos; mas era muito fraquinha, e não fazia
n
não ser namorar os capadácios..." (M. DE Assis, Brds Cubas, 201
2 - Exclusão (longe de, em lugar de, em vez de + infinitivo)
"Note-se que, longo de termos horror ao método, era nosso costume
convidá-lo
279
na pessoa de D. Plácida, a sentar-se conosco à mesa" (ID., ibid, 199).
3 - Meio ou instrumento (com verbo no infinitivo ou gerúndio):
"Salvóu-o o senado, segurando-lhe a pessoa até poder sair a bordo de
uma
holandesa a 21 de maio" (R. DA SiLvA, História de Portugal, IV, 244)
OBSERVAÇÃO: Entram no rol das reduzidas fixas certas subordinadas modais
d
gerúndio que não costumam aparecer com verbos em forma finita: "Os povos
desen
ganam-se como as pessoas: sofrendo, perdendo e pagando" (M. DE MARICÁ)
Orações reduzidas do tipo: Deixei-o entrar. - Com os auxiliares
causativos (deixar, mandar, fazer e sinônimos) e sensitivos ver, ouvi
olhar, sentir e sinônimos), seguidos de infinitivo, constroem-se oraçoe
substantivas reduzidas que normalmente exercem a função de sujeito oi
a oração prinCiDal é deixei, e a subordinada o entrar funciona como objeto
uando tais reduzidas ocorrem, seu sujeito é expresso por ronome
pessoal átono: o é sujeito de entrar: que ELE entrasse:
Fez-nos falar (fez que nós falássemos).
Viu-me chegar (viu que eu chegava).
Aa lado de o como sujeito de infinitivo nestes casos empregamos lhe
I
quando o infinitivo vem acomparíliado de objeto direto
Se o objeto direto é constituído Dor prortome pessoal, o normal é
de lhe como suieito, nestes casos:
#
É raro um exemplo como o seguinte de Alexandre Herculano:
"... a tia Domingas ouviu-o chamá-la de novo, mansamente" (Fragmentos,
76):
a tia Domingas ouviu que ele ( = o) a ( = Ia) chamava de novo.
Se o infinitivo é pronominal, o normal é aparecer o, e não lhe, como
seu sujeito:
.... o Sabiá... rebramia com som medonho, até chegar às planícies, onde
o
solo o não comprimia c o deixava espraiar-se pelos pauis e juncais..."
(ALEXANDRE
HERCULANo apud Fragmentos, 76-77).
280
OBSERVAÇõES:
1.2).0 infinitivo preso a deixar, mandar, fazer pode adquirir sentido
passivo e,
neste caso, aparecerá seu agente encabeçado pelas preposições por ou de:
"D. João
de Castro, sem deixar-se vencer do amor do filho, nem dos medos do tempo,
resolveu
enviar o socorro (FREME, 133, apud ENFÂNto, DIAS, Sintaxe Histórica, 289,
a, obs. 2.a).
2.a) Se o infinitivo é,verbo pronominal, o pronome átono pode omitir-se
ou
não-. Eu os vi afastar ou afastar-se daqui.
3.a) Pode-se repetir pleonasticamente o pronome sujeito de ítifinitivo
por uma
expressão constituída por nome, precedida ou não de preposição: "Deixai-o
ir, ao
velho fidalgo" (H. DA SILVA, Contos e Lendas, 185).
Quando o infinitívo não constituí oração reduzida
a) Quando, sem referência a
qualquer sujeito, exprime a ação de modo
vago, à maneira de substantivo:
"Reformar, e não inovar, é o voto do legislador prudente" (M. DE MARICÁ).
b) Quando é componente de locução verbal:
"A sabedoria é reputada geralmente pobre, porque se não podem. ver os
seus
tesouros" (ID.).
c) Quando precedido de preposição
e em referência a substantivo, o infinitivo
tem sentido qualificativo, o que sucede:
1 - quando exprime a destinação:
sala de jantar, ferro de engomar, criado de servir;
2 - quando entra em expressão equivalente a um adjetivo terminado
em -vel :
"Nesta seção tratei das escolas e gerais públicas, dos mestres régios,
de nossa
legislação nesta parte, e do que nela me parece de conservar (= conservável)
ou de
emendar (= emendável)" (GARRETT, Educação, 27),
d)Quando, precedido de proposição depois de certos adjetivos (fácil,
difícil, bom, etc.), o infinítivo tem sentido limitativo (com valor
ativo
ou passivo):
Osso duro de roer ~
ativo = de alguém roer
passivo = de ser roído por alguém
#
281
e) Quando vale por um imperativo:
Direita, volver
"Fartar, rapazes" (A. HERCULANO, Fragmentos, 98).
f) Quando, nas exclamações, o infinitivo
exprime estranheza:
"Tu, Hermengarda, recordares-te? !" (ID., Eurico, 47)
g)Quando entra em orações substantivas interrogativas; diretas ou indiretas
e adjetivas:
Que fazer 1
Não sei que fazer.
Nada tenho que dizer(l).
h)Quando ocorre o infinitivo de narração, isto é, aquele que numa narração
animada considera a ação como já passada, e não no seu desenvolvimento:
"Os santos a persuadir-me humildade e meter-se debaixo dos pés de todos,
e eu
que mostre brios e ufanias?" (Fr. Luís DE SousA, V. do Arcebispo, 1, 142).
Quando o gerúndio e o particípio
não constituem oração reduzida
a) Quando fazem parte de uma locução verbal:
Os parentes vão passando bem de saúde.
As leituras foram recapituladas pelos alunos.
b)Quando o particípio aparece em função qualificadora, à maneira de
adjetivo:
"Um dia como (quando) trabalhava nos campos, triste e abatido pelos seus
receios, viu alguns pássaros- (A. F. DE CASTILHo apud Seleta Nacional,
1, 34).
APÊNDICE
Particularidades de estruturação sintática oracional
1) É costume transpor para a oração principal, na aparência de objeto
direto, o termo que havia de ser o sujeito da oração subordinada
substantiva:
"Depois foi ver as mós se tinham grão" = se as mós tinham grão (R. DA
SILVA
apud M. BARRETO, Novos Estudos, 222); "NãO sei este desconcerto do mundo
onde
há de ir ter" = onde há de ir ter este desconcerto do mundo (B. RIBEIRO
apud. M.
BARRETO, ibid.); "Olha tuas tias e minhas irmãs velhas como estão novas"
= como
enfio novas tuas tias e minhas irmãs (CAmiLO apud M. B., ibid.).
282
(1) Sobre a origem desta construção, sem se precisar recorrer a elipse
de verbo auxiliar
adequado, veja-se o que dissemos em Liç6es de Português, 7.a ed., 209-210,
nota.
245
#
2) Depois de ver, ouvir, sentir, encontrar e sinônimos e eis pode aparecer
oração adjetiva em vez de uma substantiva (iniciada por que ou
reduzida de infinitivo), considerando-se como objeto direto daqueles verbos
o termo que havia de ser sujeito da substantiva:
"Subitamente a chuva fustigou as janelas: o primeiro bofar de vento fez
ramalhar
as árvores, meias calvas; e senti-o que se abismava das arcarias de pedra"
= senti que
ele se abísmava ou senti-o abismar-se (A. HERCULANo, apud Fragmentos,
172).
Ei-lo que vem = eis que ele vem.
3) Pode ocorrer, às vezes, que o pronome relativo inicie, " ao mesmo
tempo, duas orações, uma subordinada à outra, dando o caráter de relativo
à subordinante, mas pertencendo como sujeito ou determinação (objeto)
à subordinada:
Este é o livro que lhe aconselhei que comprasse (ENFÂNio DIAS, Sintaxe
Histórica,
õ 367).
O pronome relativo que inicia a oração que lhe aconselhei, mas não
exerce nela função sintática; pertence à oração substantiva que comprasse,
da qual é o objeto direto: a oração do que relativo seria que que comprasse
(duplamente subordinada). Pode-se ainda usar um infinitivo na oração
substantiva:
Este é o livro que lhe aconselhei comprar.
No português moderno, esta construção só tem lugar, em geral, quando
a oração subordinada é substantiva; fora deste caso só se emprega, de
ordinário, com o pronome o qual, e então coloca-se este pronome depois
da expressão por ele determinada:
É problema para resolver o qual são necessárias duas condições.
"O jugo da obediência, para lhes impor o qual muitas vezes faltava a
força" (HERc.,
História de Portugal, 1, 242).
Todavia evita-se esta construção quanto possível, e diz-se por ex.:
"É problema para cuja resolução são necessárias duas condições" (E. DIAS,
ibid.).
283
4) Depois de verbos como pensar, dizer, indagar, perguntar e equivalentes
é comum aparecer oração adjetiva quando se poderia empregar
uma oração substantiva:
Indagou os estragos que a briga fizera (ao lado de: indagou que estragos
a briga
fizera).
Não percebo o que dizer (ao lado de: não percebo que dizer).
5) Construções do tipo temer, não temer com que, em linguagem
afetiva, enunciamos réplicas e objeções com infinitivo de intensidade,
se
mostram rebeldes a uma análise dentro dos moldes tradicionais.
246
#
r
6) As orações quer principais quer subordinadas podem ter um
advérbio que mostre a relação ' em que essas orações se acham com o pensamento
expresso anteriormente:
Estudemos, Portanto, e não nos deixemos dominar pela preguiça (RIBEIRO
DE
VASCONCELos, GramdUca, 251).
E) Sintaxe de classes de palavras
1 - EMPREGO DO ARTIGO
Emprego do artigo definido. - De largo uso no idioma, o artigo
assume sentido especiaIíssimo:
a) junto dos nomes próprios denota nossa familiaridade (neste mesmo
caso pode o artigo ser também omitido):
O Cleto talvez falte hoje. O Antônio comunicou-se com o João.
OBSERVAÇÃO: o uso mais freqüente, na linguagem culta, dispensa o artigo
juntá
a nomes próprios de pessoas, com exceção dos que se acham no plural. É
tradição
ainda só antepor artigo a apelidos: o Camões, o Tasso, o Vieira. Por
influência do
italiano, tem-se estendido a presença do artigo antes dos nomes de
escritores, artistas
* personagens célebres: o Dante, o Torquato, Dizemos, indiferentemente,
Cristo ou
* Cristo (ou ainda o Cristo Jesus).
b) Costuma aparecer ao lado de certos nomes próprios geográficos, prin
cipalmente os que denotam países, oceanos, rios, montanhas, ilhas:
a Suécia, o Atlántico, o Amazonas, os Andes, a Groenlândia.
284
Entre nós, dispensam artigo os nomes dos seguintes estados: Alagoas,
Coitís, Mato Grosso, Minas Gerais, Santa Catarina, São Paulo, Pernambuco
e Sergipe.
NOTA: Não se acompanham de artigo as denominações geográficas formadas
com
nomes ou adjetivos: São Paulo, Belo Horizonte.
Quanto às cidades, geralmente prescindem de artigo. Há, contudo,
exceções devidas à influência de seu primitivo valor de substantivo
comum: a Bahia, o Rio de janeiro, o Porto, etc. Continuando a prática
de outros idiomas que, por sua vez, se inspiram no árabe el-Kahira (a
Vitoriosa), dizemos com artigo o Cairo.
Recife sempre se disse acompanhado de artigo: o Recife. Modernamente,
pode dispensá-lo. Aracaiu, capital de Sergipe, conhece a mesma
liberdade.
c) Entra em numerosas alcunhas e cognomes: Isabel, a Redentora; D.
Manuel, o Venturoso; mas: Frederico Barba-roxa.
247
#
d)Aparecem em certos títulos: o professor João Ribeiro, o historiador
Tito Lívio, o doutor Sousa.
OBSERVAÇÃO: É omitido antes dos ordinais pospostos aos títulos: Pedro
1, Henrique
VIII, Com o numeral anteposto:
"Vede o primeiro Afonso...
O quarto e quinto Afonso, e o terceiro- (CAm., Lus,, 1, 13).
e)São omitidos nos títulos de Vossa Alteza, Vossa Majestade, Vossa
Senhoria e outras denominações, além das formas abreviadas dom, frei,
são e as de origem estrangeira, como Lord, Madame, Sir e o latinismo
sóror ou soror (oxítono): Vossa Alteza passeia. Frei Joaquim do Amor
Divino Caneca nasceu em Pernambuco. Soror (ou Sor) Mariana
Alcoforado foi célebre escritora portuguesa.
OBSERVAÇÃO: Ensina-nos JoÃo RiBEiRo: "É um galicismo a intercalação do
artigo
nas fórmulas: sua Excelência o deputado, Sua Alteza o príncipe, Sua
Santidade o
Papa. Estes galicismos foram adotados geralmente na língua para evitar
fórmulas menos
elegantes, como: a excelência do Sr. deputado, a alteza do príncipe, como
mandaria
dizer a vernaculidade" (Gram., curso superior, 1930, págs. 266-7). E, em
nota, transcreve
exemplos que lhe foram apontados pelo colaborador FiRmINIO CosTA, dos
quais
lembramos:
... comunicou a coisa à Alteza de el-rei Dom João o III".
285
Dizem-se com artigo os nomes de trabalhos literários e artísticos (se o
artigo pertence ao título, há de ser escrito obrigatoriamente com
maiúscula):
a Eneida, a Jerusalém Libertada, Os Lusíadas, A Tempestade.
g) São omitidos antes da palavra
casa, designando residência ou família,
nas expressões do tipo: fui a casa, estou em casa, venho de casa, passei
por casa, todos de casa.
OBSERVAÇÃO: Seguido de nome do possuidor ou de um adjetivo ou expressão
adjetiva, pode o vocábulo casa acompanhar-se de artigo:
Da (ou de) casa de meus pais.
h)Omite-se ainda o artigo junto ao vocábulo terra, em oposição a boi-do
(que também dispensa artigo):
Iam de bordo a terra.
i)Costuma-se omitir o artigo com a palavra paldcio, quando desacompanhada
de modificador:
"Perguntou o mestre-escola afoitamente à sentinela do paço se o
representante
nacional, morgado da Agra, estava em palácio" (CAMILO, Queda dum Anjo,
144).
j)Aparece junto ao termo. denotador da unidade quando se expressa o
valor das coisas (aqui o artigo assume o valor de cada):
Maçãs de poucos cruzeiros o quilo.
248
#
1) Aparecem nas designações de tempo com os nomes das estações do ano:
Na primavera há flores em abundância. "Em uma tarde do estio, à hora
incerta
* saudosa..." (HutcuLANo, Fragmentos, 154).
OBSERVAÇÃO: Se o nome de estação vier precedido de de, significando
próprio de,
* artigo é dispensado:
Numa manhã de primavera.
NoTA - Se a expressão temporal contiver nome de mês, dispensa ainda o
artigo:
Meu irmão faz anos em março.
m) Nas indicações de tempo com a expressão uma hora, significando
uma a primeira hora, o emprego do artigo é facultativo:
Era perto da uma hora ou Era perto de uma hora.
A primeira construção parece ser mais dos portugueses; a segunda dos
286
brasileiros.
n) É, na maioria dos casos, de emprego facultativo junto a possessivos
em referência a nome expresso:
Meu livro ou o meu livro
OBSERVAÇÃO: É obrigatório o artigo, quando o possessivo é usado sem
substantivo,
em sentido próprio ou translato: Bonita casa era a minha.
Fazer das suas. "Vês, peralta? é assim que um moço deve zelar o nome
dos seus?
Pensas que eu e meus avós ganhamos o dinheiro em casa de jogo ou a vadiar
pelas
ruas?" (M. DE Assis, Memórias, 57).
Mas sem artigo dizemos várias expressões, como de seu, de seu natural,
linguagens com que traduzimos "os bens próprios de alguém" - a primeira
- e "qualidades naturais" - a última:
"Nunca tive de meu outro bem maior que não desejar os alheios" (F. R.
LoBO).
"Bernardes era como estas formosas de seu natural que se não cansam com
alindamentos,
a quem tudo fica bem" (A. F. CASTILHO).
Dispensa ainda artigo o possessivo que entra em expressões com o
valor de alguns :
Os Lusíadas têm suas dificuldades de interpretação.
Finalmente, na expressão de um ato usual, que se pratica com freqüéncia,
o possessivo vem normalmente sem artigo:
Às oito toma seu café.
"Rezava suas horas pela manhã cedo, e sempre só, se não era quando nesse
dia
havia de pregar, porque então se ajudava de um capelão; às oito dizia sua
missa..."
(Fr. L. DE SousA, Arcebispo, 1, 75, ed. 1818).
o) Não se repete o artigo em frases como:
O homem mais virtuoso do lugar.
Estaria errado: O homem o mais virtuoso do lugar.
NoTA - É preciso distinguirmos cuidadosamente este feio erro de uma
expressão
tradicional e corretíssinia que consiste em acrescentar, depois do
substantivo deter-
249
#
minado por adjetivo, o conjunto o mais, que introduzirá uma explicação,
um adendo,
uma restrição. As vezes, exprimem-se tais idéias com ênfase, caso em que
287
costumam
aparecer, antes de o mais, elementos de valor concessivo como ainda, mesmo,
até,
posto que.
A má pontuação (deveria haver vírgula antes do conjunto iniciado por
o mais)
aproxima os dois tipos de expressão e uma análise menos cuidadosa tem feito
que
se evitem construções corretíssimas.
o Prof. MARTINZ DE AGUIAR (Notas de Português, 309-324) estudou com muita
perspicácia os dois modos e assim concluiu a sua lição:
"Para que haja pureza de linguagem, é necessário, é imprescindível, que
o substantivo,
sem o acréscimo de o mais, combine com os outros termos da
proposição
num sentido cabal, de tal maneira, que possa repetir-se. Sem isso, estamos,
iniludivelmente,
à vista de um estrangeirismo de sintaxe ou de uma construção
anti-idiomática,
quer se trate de o - o, quer de um ~ o. Não é, pois, correta, esta construção
de
Gonçalves de Magalhães:
Seu rosto de leite e rosas,
De um contorno o mais perfeito.
Rosto de um contorno Perfeito é tudo, rosto de um contorno não é nada"
(Ibid., 324).
Assim, estão corretas as seguintes passagens, notando-se, apenas, a
ausência de
virgula antes de o mais (exemplos extraídos da série apresentada por
AGUIAR):
"A inveja te assaltou, e a quem perdoa
Este monstro o maior do escuro Inferno? (Pe. AGOSTINHO DE MACEDO).
---0método, que as ciências as mais exatas seguem nas suas operações
(JERÔNIMO
BARBOSA).
"O a, este som o mais claro de todos" (CAsTiLHo ANTóNIO).
Note-se que nos exemplos apontados poderíamos colocar vírgula, o
não acontece com os que se seguem:
"Tens mil águas cristalinas,
As frutas as mais divinas,
Uma esposa de invejar,
Que mais podes desejar?" (PoRTo-ALEGRE).
"Desde a quadra a mais antiga
De que rezam os pergaminhos" (F. VARFLA).
Os poetas quiseram apenas dizer as frutas mais divinas, a quadra mais
antiga.
O tipo "zero determinação" antes do substantivo seguido de o mais é menos
enfático (homem o mais alto), e se valoriza através de uma inversão (o
mais alto
homem)." Cf. AGUIAR, ibid., 319-320.
P)junto às designações de partes do corpo e nomes de parentesco, os
artigos denotam a posse:
Traz a cabeça embranquiçada pelas preocupações.
Tem o rosto sereno, mas as mãos trêmulas.
D. Laura (falando à irmã):
288
"Pois não 1 quem me podia aconselhar prudência
a não ser a senhora, a filha singular,
que ousa dispor de si dentro do pátrio lar,
sem ouvir pai nem mãe. Cuida que a sua escolha
basta, sem que primeiro a mãe e o pai a acolha?" (CASTILHO, AS Sabichonas,
17).
250
#
q)A palavra todo, no singular, pode vir ou não seguida de artigo, com os
sentidos de inteiro, total e cada, qualquer.
A presença ou ausência do artigo depende de que o substantivo exija
ou repudie a antecipação de o, a, os, as.
Na língua moderna, todo o corre mais no sentido de totalidade,
inteireza, ênfase (aqui principalmente com os termos que denotam sentimento:
de todo o coração, com todo o gosto, com todo o amor, com todo
o carinho, etc.):
Toda a família estava no recinto (= a família toda, inteira).
Não costuma dispensar artigo, entre bons escritores, o adjetivo substantivado
modificado por todo, ainda sendo este último empregado com
o sentido de qualquer:
Todo o próximo tem direito natural (M. BERNARDES).
Com as designações geográficas o emprego de todo o e todo depende
de o nome exigir a presença do artigo:
Todo o Brasil. Todo Portugal.
Usam-se, modernamente, com o artigo, numerosas expressões em que
entra a palavra todo:
todo o gênero, todo o mundo, a toda a parte, em toda a parte, por toda
a parte, a
toda a brida, a todo o galope, a toda a pressa, em todo o caso, a toda
a hora,
a todo o instante, a todo o momento, a todo o transe, a todo o custo,
etc.
No plural, todos não dispensa artigo (salvo se vier acompanhado de
palavra que exclua este determinante):
Todas as famílias têm bons e maus componentes.
Todas as famílias estavam no recinto.
Todas estas pessoas são nossas conhecidas.
Se exprimimos a totalidade numérica por numeral precedido do eleniento
reforçativo todos, aparecerá artigo se o substantivo vier expresso:
Todos os dois romances são dignos de leitura.
Todas as seis respostas estavam certas.
Se omitirmos o substantivo, não haverá lugar para o artigo:
Fizeram-me seis perguntas. Respondi, acertadamente, a todas seis.
r) Aparece o artigo nas enumerações
289
onde há contraste ou ênfase
Ficou entre a vida e a morte.
"As virtudes civis e, sobretudo, o amor da pátria tinham nascido para
os godos
que, fixando o seu domicílio nas Espanhas, possuíram de pais a filhos o
campo
agricultado, o lar doméstico, o templo da oração e o cemitério do repouso
e da
saudade" (HERCULANO, Eurico, 1864, pág. 5).
"Notaram todos que a tarde e a noite daquele dia foram as mais tristes
horas
de Casimiro na sua prisão de dois meses" (CAMILO, O Bem, 191, ed.
Casassanta).
251
#
s)Dispensa-se o artigo nos vocativos, na maioria das exclamações e nas
datas que apomos aos escritos:
"Velhice - Amigo, diz-me um amigo.
Sabe que a boa idade é a última idade" (ALBERTO DE OLIVEMA).
Rio, 10 de maio de 1956.
t)Costuma-se dispensar o artigo depois de cheirar a, saber a (= ter o
gosto de) e expressões sinônimas:
Isto cheira a jasmim. Isto sabe a vinho.
u) Em frases feitas, aparece
o artigo definido na sua antiga forma lo, Ia.
!'Tenho ouvido os quinhentistas a Ia moda, e os galiparlas" (CAMILO,
Queda dum
Anjo, 61).
Assim encontramos: a Ia fé, a Ia par,,a Ia mar, etc.
Aparece ainda a forma antiga na expressão el-rei, que se deve usar
sem a anteposição de o, apesar de alguns raros exemplos em contrário, em
páginas de autores mais afastados de nós.
Emprego do artigo indefinido. - O artigo indefinido pode assumir
matizes variadíssimos de sentido; registraremos as seguintes
considerações:
a) Usa-se o- indefinido para aclarar melhor as características de um substantivo
enunciado anteriormente com artigo definido:
Estampava no rosto o sorriso, um sorriso de criança.
b)Procedente de sua função classificadora, um pode adquirir significação
enfática, chegando até a vir acompanhado de oração com que consecutivo,
como se no contexto houvesse um tal:
o instrumento é de uma precisão admirável.
Ele é um herói 1 (compare com: Ele é herói 1)
Falou de uma maneira, que pôs o medo nos corações.
c) Antes de numeral denota aproximação:
290
Esperou uma meia hora (aproximadamente).
Terá uns vinte anos de idade.
d)Antes de pronome de sentido indefinido (certo, tal, outro, etc.), dispensa-
se o artigo indefinido, salvo quando o exigir a ênfase:
Depois de certa hora não o encontramos em casa (e não uma certa hora).
Devia, pois, ser melancólico além do exprimível o que aí se passou nessa
grade;
triste, e desgraçado direi, a julgá-lo pelas conseqüência&, que se vão
descrever, com
um certo pesar em que esperamos tomem os leitores o seu quinhão de pena,
se não
todos, ao menos aqueles que não dão nada pela felicidade da terra, quando
ela implica
ofensa ao Senhor do céu" (CAmiLo, Carlota Angela, 223).
252
#
Modernamente, cremos que mais por valorização estilística do indefinido
que por simples e servil imitação do francês('), um aparece em
casos que se não podem explicar por ênfase. Nestas circunstâncias, tais
casos são censurados pela gramática tradicional.
e) Um ocorre como correlativo de outro em sentido distributivo:
Um irmão ia ao teatro e o outro ao cinema.
O11512VAÇÃO: Calando-se o substanéivo também junto de um, ainda
dispensamos
a anteposiçáo do artigo definido, ao contrário do que fazia o português
antigo e do
que fazem, por exemplo, o francês e o espanhol:
Um ia ao teatro e o outro ao cinema (o um ... o outro, no português antigo,
Pun ... Pautre, el uno ... el otro).
Note-se a expressão um como, empregada no sentido de "uma coisa
como", "um ser como", "uma espécie de", onde um concorda com o
substantivo seguinte:
Fez um como discurso. Proferiu uma como prática.
A respeito de uma pronunciado úa, veja-se o capítulo de ortoepia.
O artigo partitivo. - A língua portuguesa de outros tempos empregava
do, dos, da, das, junto a nomes concretos para indicar que os mesmos
nomes eram apenas considerados nas suas partes ou numa quantidade ou
valor indeterminado, indefinido:
"Comerás do leite, ouvirás dos contos e partirás quando quiseres" (R.
LoBo).
É o que a gramática denomina artigo Partitivo. Modernamente, o
291
partitivo não ocorre com a freqüência de outrora e, pode-se dizer, quase
se acha banido do uso geral, salvo pouquissimas expressões em que ele se
manteve, mormente nas idéias de comer e beber.
2 - EMPREGO DO PRONOME
Pronome pessoal
Em geral, o português omite o pronome sujeito quando constituído
por eu, tu, nós e vós :
"Não me lembra o que lhe disse" (M. DE Assis, Brds Cubas, 65).
(1) Tem-se desprezado, nestes casos, a influência do inglês em nosso
idioma.
253
#
O aparecimento do pronome sujeito de regra se dá quando há ênfase
ou oposição de pessoas gramaticais:
"Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás,
obedecendo
ao que eu faço e mando..." (Id., Várias Histórias, 230).
"Há entre nós um abismo: tu o abriste; eu precipitei-me nele" (A.
HERCULANO,
Eurico, 295).
Estando perfeitamente conhecido pela situação lingüística, pode-se
calar o pronome complemento do verbo; esta linguagem é correta, apesar
da censura que lhe faziam os gramáticos de outrora. Muitas vezes deve-se
o fenômeno ao que o estilista alemão Leo Spitzer chamou "linguagem-eco",
constituída de uma repetição de uma parte da oração, destinada a reforçar
a própria declaração, como no seguinte trecho de A. Herculano:
"Disse já que tinha de fazer uma explicação ao leitor. Tenho; e é
indispensável"
(Lendas e Narrativas, 11, 261),
Em casos de ênfase costuma-se repetir:
a)o pronome átono pela sua respectiva forma tônica, precedida de
preposição:
"Mas qual será a tua sorte quando na hora fatal os algozes, buscando
a sua
vitima, só te encontrarem a ti?" (A. H~LANo, O Bobo, 277).
b)o complemento expresso por um nome pelq pronome átono conveniente
ou vice-versa (neste último caso, a expressão funciona
como aposto):
"Ao avarento não lhe peço nada... Ao ingrato, ou o não sirvo, porque
292
(= para
que) me não magoe" (R. LOBO, O Pastor Peregrino, 26).
"Ainda hoje estão em pé, mas ninguém as habita, essas choupanas
execrandas..."
(CAMiLo, A Morgada de Romariz, 43).
Usa-se o pronome o (os) em referência a nomes de géneros diferentes:
. "A generosidade, o esforço e o amor, ensinaste-os tu em toda a sua
sublimidade"
(A. HERCULANO, Eurico, 35).
Ele como objeto direto. - O pronome ele, no português moderno,
só aparece como objeto direto quando precedido de todo ou só (adjetivo)
ou se dotado de acentuação enfática, em prosa ou verso:
"No latim eram quatro os nomes demonstrativos. Todos eles conserva o
portugués"
(PACHECO e LAMEIRA, Gramática Portuguesa, 2.a ed., 398, apud S. DA SILVFIRA,
Revista
de Cultura, Notas Soltas de Linguagem, no 31); "Subiu 1 - e viu com seus
olhos ~
Ela a rir-se que dançava..." (G. DIAs apud S. SiLvEtRA, ibid.); "Olha ele
I" (E. DF,
QUEIR6S, ibid.).
Funções e empregos do pronome se, - O pronome se exerce três
funções sintáticas:
#
1) sujeito de infinitivo (com
auxiliares causativos, mormente deixar):
Deixou-se ficar à janela.
2) objeto direto (com verbo transitivo
direto na voz reflexiva):
Ele se feriu.
Eles se cumprimentam.
3)objeto indireto (com verbo transitivo indireto na voz reflexiva, ou com
verbo acompanhado de dois complementos):
Elas se correspondem freqüentemente.
Ele se arroga esta liberdade.
A construção reflexiva teve um destino importante em nossa língua;
a evolução do reflexivo --> passivo --> indeterminador foi traçada pelo
filólogo patrício Martinz de Aguiar:
"1.0 (CASO) Pronome reflexivo. - A função inicial e própria do
pronome se é, como em latim, a de reflexivo, isto é: faz refletir sobre
293
o
sujeito a ação que ele mesmo praticou. Ex.: O homem cortou-se. Indica
pois, ao mesmo tempo, atividade e passividade. O homem cortou, mas foi
cortado, pois a si próprio é que cortou. Se penetrarmos bem na inteligência
das diversas frases reflexivas, veremos que a passividade chama
mais
a nossa atenção, impressiona mais a nossa sensibilidade do que a atividade.
Quando temos notícia de que alguém se suicidou, o primeiro quadro que
se nos apresenta ao espírito é o do indivíduo pálido, inerte, sem vida.
Daí poder o pronome se vir a funcionar como:
2.0 (CASO) Pronome apassivador. - É o segundo estádio de evolução.
Sendo reflexivo, o pronome indica, como vimos, atividade e passividade,
e esta nos impressiona mais do que aquela, pelo que pode chegar a ser
índice de passividade. Ex.: Vendem-se casas. Fritam-se ovos.
3.0 (CASO) Pronome indeterminador do agente. - Como no segundo
caso o agente nunca foi expresso na linguagem comum, tendo-se tornado
obsoleto o seu emprego até na linguagem literária, o pronome se acabou
por assumir a função de indeterminador do agente. Ex.: Estuda-se.
Dança-se.
4.o (CASO) Pronome indeterminador do sujeito de verbos intransitivos.
Como, no terceiro caso, não se dá objeto aos verbos, apesar de transitivos,
e como o agente oculto, se presente, seria o sujeito, o pronome
se
pode vir a indeterminar o sujeito de verbos intransitivos. Ex.: Dorme-se.
Acorda-se.
OBsERvAçÃo: O 3.0 e 4.0 casos são idênticos na prática; mas, no terreno
científico,
é imprescindível separá-los, pois servem para demonstrar, à luz da
lingüística psico-
255
#
lógica, a contagião sucessiva de funções do pronome. Os mesmos casos matam
de
vez a questão chinesa de saber se o pronome se pode ou não ser sujeito.
Não o é
nunca, não pelas razões dadas nas gramáticas, mas porque assim o demonstra
o estudo
da sua evolução.
5.0 (cAso) Pronome indeterminador do sujeito de qualquer verbo.
- Como no caso anterior o pronome se indetermina o sujeito dos verbos
intransitivos, pode, por extensão, indeterminar o sujeito de qualquer
verbo,
transitivo, intransitivo ou atributivo (isto é, de ligação). Ex.: Está-se
bem
aqui. Quando se é bom. Vende-se casas. Frita-se ovos. "A Bernardes
admira-se e ama-se".
294
OBSIERVAÇõES FINAIS, Vende-se casas e frita-se ovos são frases de
emprego ainda
antiliterário, apesar da já multiplicidade de exemplos. A genuína
linguagem literária
requere vendem-se, fritam-se. Mas ambas as sintaxes são corretas, e a
primeira não
é absolutamente, como fica demonstrado, modificação da segunda. São apenas
dois
estádios diferentes de evolução. Fica também provado o falso testemunho
que levantaram
à sintaxe francesa, que em verdade nenhuma influéncia neste
particular exerceu
em nós. . . " (1).
Pode ainda o pronome se juntar-se a verbos que indicam:
1)sentimento: indignar-se, ufanar-se, atrever-se, admirar-se, lembrar-se,
esquecer-se, orgulhar-se, arrepender-se, queixar-se.
2) movimento ou atitudes da
pessoa em relação ao seu próprio corpo:
ir-se, partir-se, sentar-se, sorrir-se.
No primeiro caso, não se percebendo mais o sentido reflexivo da
construção, considera-se o se como parte integrande do verbo, sem classificação
especial.
No segundo, costumam os autores chamar ao se pronome de realce ou
expletivo.
Combinação de pronomes átonos. - Ocorrem em português as seguintes
combinações de pronomes átonos, notando-se que o que funciona
como objeto direto vem em segundo lugar:
mo = me + o; ma = me + a; mos = me + os; mas = me + as; to = te + o;
ta= te+a; tos=te+os; tas=te+as; lho=lhe+o; lha = lhe+ a;
lhos = lhe + os; lhas = lhe + as; no-lo = nos + o; no-la = nos + a; no-los
=
nos + os; no-las = nos + as;,vo-lo = vos + o; vo-la = vos + a; vo-los =
vos
+ os; vo-las = vos + as; lho = lhes + o; lha = lhes + a, lhos = lhes +
os;
lhas = lhes + as.
se me -Se-me
se te -Se-te
se lhe -se-lhe
se nos -se-nos
se vos -Se-vos
se lhes -se-lhes
(1) Notas o Estudos de Português, 181-183. Na transcrição, adaptei a
grafia do autor
ao sistema oficial vigente,
256
#
295
'Se dizeis isso pela que me destes, tirai-ma: que não vo-la pedi eu"
(A. HERCULANO,
Lendas e Narrativas, 1, 267).
"E como, a pouco e pouco, se foram exaurindo os cascalhos e afundando
os
veleiros, o banditismo franco impôs-se-lhes como derivativo à vida
desmandada" (E.
DA CUNHA, Os Sert6es, 218).
OBMVAÇõES:
1.a) A rigor, na combinação só entra a forma lhe, que, na língua antiga,
servia
tanto ao singular como ao plural.
2.a) Nas demais combinações, o português moderno prefere substituir o
pronome
átono objetivo indireto pela forma t6nica equivalente, precedida da
preposição a.
Enquanto dizemos hoje a mim te mostras ou te mostras a mim, a língua de
outros
tempos consentia em tais dizeres:
"Porque assi te me mostras odiosa?" (J. CoRTE-REAL, Naufrdgio de
Sepúlveda,
apud S. SILVEIRA, Lições de Portugués, õ 271).
3.a) A língua padrão rejeita a combinação se o (e flexões) apesar de
uns poucos
exemplos na pena de literatos:
"Parece um rio quando se o vê escorrer mansamente por entre as terras
pró-
XiMaS..." (LIMA BARRETO, Vida e Morte de Gonzaga de Sã, 49, apud S.
SILVEIRA,
Revista de Cultura, n.O 198, pág- 268).
Foge-se ao erro de duas maneiras principais:
a) cala-se o pronome objetivo direto: Ndo se quer.
b) substitui-se o pronome o (e flexôes) pelo sujeito ele (e flexões):
Não se quer ele.
Apesar disto, ocorre em bons escritores construção em que se junta o
pronome
o (e diretos) a verbo na voz reflexiva:
"Temo que se me argua de comparações extraordinárias, mas o abismo de
Pascal é o que mais prontamente vem ao bico da pena" (M. DE Assis,
Histórias
sem Data, 29, apud S. SiLvEiRA, ibid.).
"Não se dá baixa ao soldado quando já não pode com a milícia? Não se
lha
dá até em tempo de guerra?" (CASTILHO, Felicidade pela Agricultura, lI,
106
apud S. SILVEIRA, ibid.).
296
4.EL) A língua padrão admite pode-se compô.lo ou pode-se compor, quando
não
há locução verbal:
Pode-se de algum modo ligá-lo a Schopenhauer.'.. (JOÃo RIBEIRO,
Fabordão,
19). JúLIO ~EIRA (Estudo da Lingua Portuguésa, 11, 30-31) diz que em
Portugal
é menos comum do que no Brasil a primeira construção.
Função do pronome átono em Dou-me ao trabalho. - Em geral, o
pronome átono da forma verbal reflexiva portuguesa funciona como objeto
direto: dou-me (obj. direto) ao trabalho (obj. indireto) de fazer.
Em francês e espanh , ol, esse pronome aparece como objeto indireto:
je me donne Ia peine de le faire; me doy el trabaio de hacerlo.
257
#
Pronome possessivo
Seu e dele para evitar confusão. - Em algumas ocasiões, o possessivo
seu pode dar lugar a dúvida a respeito do possuidor. Remedeia-se o mal
com a substituição de seu, sua, seus, suas, pelas formas dele, dela, deles,
delas, de você, do senhor, etc., conforme convier.
Em
José, Pedro levou o seu chapéu,
o vocábulo seu não esclarece quem realmente possui o chapéu, se Pedro ou
José.
É verdade que a disposição dos termos nos leva a considerar José o
dono do chapéu; mas a referência a Pedro também é possível. Assim
sendo, serve-se o falante do substituto dele, se o possessivo pertence
a
Pedro:
José, Pedro levou o chapéu dele.
"Com efeito, Margarida gostava imenso da presença do rapaz, mas não
parecia
dar-lhe uma importAncia que lisonjeasse o coração dele". (M. M Assis,
Contos Fluminenses,
24).
Se o autor usasse o possessivo seu, o coração poderia ser tanto de
Margarida quanto do rapaz.
Pode-se, para maior força de expressão, juntar dele a seu
José, Pedro levou o seu chapéu dele,
"Se Adelaide o amava como e quanto Calisto já podia duvidar, sua honra
dele
era por peito à defesa da opressa..." (CAMILO, Queda dum Anjo, 109).
297
Menos usual, porém correta, é a união dos dois possessivos como no
seguinte exemplo da citada obra de Camilo:
"É certo, Sr. Presidente, que a feinina toca o requinte da depravaçao,
e chega a
efeituar horrores cuja narração é de si para gelar ardências do sangue,
para infundir
pavor em peitos equdnimos; porém, o móbil dos crimes seus dela é outro"
(o que vern
sublinhado é transcrição de CAmiw, ibid., 86).
Os pronomes pessoais átonos ine, te, se, nos, vos, lhe, lhes, podem seu
usados com sentido possessivo:
Tomou-me o chapéu = Tomou o meu chapéu.
Ainda neste caso, é possível ocorrer a repetição enfática lhe .. . dele :
"D. Adelaide ficou embaçada. Seria agravar as meninas de dezoito anos,
e edu.
cadu como a filha do desembargador, e amantes como elas de um comprometido
esposo, estar eu aqui a definir a entranhada zanga que lhe fez no espírito
dela o
desprop69ito de Calisto" (CAmiLo, Queda dum Anjo, 104).
Foge-se ainda à confusão empregando-se o adjetivo próprio :
"Andrade contentou-se com o seu próprio sufrágio" (M. DE Assis, C. Fluni.
19).
258
#
r
Posição do pronome possessivo. - De modo geral, o possessivo vem
anteposto ao nome a que se refere:
o meu livro. Tuas preocupações. Nossos deveres.
A posposição ocorre no estilo solene, em prosa ou verso, e, em nome
de pessoas ou de graus de parentesco, pode denotar carinho:
Deus meu, ajudai-mel
"Esta é a ditosa pátria minha amada" (CAMõEs, Lus.).
"Formosa filha minha, não temais" (ID., ibid.).
A ênfase permite também a posposição, principalmente se o substantivo
vem desacompanhado do artigo definido:
Conselho meu, ela não tem. Filho meu não faria tal.
Em certas situações, há notável diferença de sentido com a posposição
do possessivo (1).
Minhas saudades são saudades que sinto de alguém. Saudades minhas são
saudades
298
que alguém sente de mim.
"Parece que Miss Dólar ficou com boas recordações suas, disse D. Antônia"
(M.
DF. Assis, C. Flum., 2, 17).
Notamos o mesmo em suas cartas e cartas suas.
Recebi suas cartas (isto é, cartas que me mandaram ou que pertencem à
pessoa
a quem me dirijo).
Recebi cartas suas (i. é., enviadas a mim pela pessoa).
Invariavelmente, usamos de notícias suas, como no seguinte exemplo:
"Peço-lhe que me mande notícias suas" (E. DA CUNHA).
Fora destas construções, a língua moderna evita tal emprego objetivo:
"Mova-te a piedade sua e minha" (CAm., Lus., 111, 127). Entenda-se: a
piedade
delas (das criancinhas) e de mim.
Possessivo para indicar idéia de aproximação. - junto a números
o possessivo pode denotar uma quantidade aproximada:
Nessa época, tinha meus quinze anos (aproximadamente).
Era já homem de seus quarenta anos.
OBSERVAÇÃO: Valorizamos também uma noção quantitativa por meio do adjetiNo
bom:
"O maior Vilela observava um rigoroso regímen que lhe ia entretendo a
vida.
Tinha uns bons sessenta anos" (M. DE Assis, C. Flum., 2.a ed., 53).
(1) Diz-se que o Possessivo tem sentido objetivo quando designa o ser
que é alvo de uma
ação ou sentimento qualquer. Fora deste caso, tem sentido subjetivo. É
muitas vezes difícil
distinguirmos os dois casos.
259
#
Valores afetivos do ossessivo - O possessivo como temos visto nã
se limita a exprimir apenas a idéia de posse. Adquire variados matizes
d(
Assim, o possessivo pode apenas indicar a cousa que nos interessa, po
nos estarmos referindo, como ele, a causa que nos diz respeito, ou por
qu(
O nosso herói (falando-se de um personagem de histórias) não soube que
fazer.
Trabalho todo dia minhas oito horas (cf. JoÃo RiBEmo, Aut. Contemporâneos,
pág. 206).
299
Além de exprimir a nossa simpatia, serve também o possessivo par
traduzir nosso afeto, cortesia, deferência, submissão, ou ironia:
Meu prezado amigo. Minha senhora, esta, é a mercadoria que lhe serv
Meus senhores e minhas senhorasl Meu Dresidente, todos o esDeram.
Meu coronel, os soldados estão prontos 1 Meu tolo, não vês que estou
brincando?
"Qual cansadas, seu Antoninho 1" (LIMA BARRETO)
"Ande, seu diplomático, continue" (M. Dz Assis).
seu não é, como parece a alguns estudiosos, a forma possessiva de 3.11
pessoa do singular. Trata-se aqui de uma redução familiar do tratamento
Difere a forma seu~ (admite ainda as variantes seo, só) do termo
nobre, senhor, por traduzir nossa familiaridade ou depreciação.
Ocorrendo isoladamente, prevalece a forma plena senhor, conforme
"Depressa, depressa, que a filha do Lemos vai cantar; e depois é o senhor.
Está
Um fingido respeito ou cortesia - bem entendido aliás pelos presentes
Pela forma abreviada seu modelou-se o feminino su
"E ri-se você, sua atrevida?f - exclamou o moleiro, voltando-se para
Perpétua
Emprego do pessoal pelo possessivo. - Embora de pouca freqüência,
pode aparecer o possessivo por uma forma de pronome pessoal precedido
da preposição de. Neste caso está a expressão ao pé de + pronome
"Vós os que não credes em bruxas, nem em almas penadas, nem nas tropelias
de Satanás, assentai-vos aqui ao lar bem juntos ao pé de mim, e
contax-vos-ei a
11
história de D. Diogo Lopes, senhor de Biscaia (HERc., Lendas, 11, 7).
"Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha
a
modista ao pé de si, para não andar atrás dela" (M. DE Assis, Várias
Histórias, 31).
#
Possessivo expresso por uma locução. - Expressa-se o possessivo ainda
por meio de uma perífrase em que entra o verbo ter, haver ou sinônimo:
"De um Rei que temos, alto e sublimado" (CAM., Lus., 11, 80). Isto é:
de um
300
Rei nosso.
O possessivo em referência a um possuidor de sentido indefinido.
- Se o possessivo faz referência a pessoa de sentido indefinido expresso
ou
sugerido pelo sentido da frase, emprega-se o pronome de 3.a pessoa:
"É verdade que a gente, às vezes, tem cá as suas birras - disse ele,
com certo ar
que queria ser no e saía parvo" (HERC., Len as, 11, 158).
Se o falante se inclui no termo ou expressão indefinida, usar-se o
possessivo de 1.a pessoa do plural:
A gente compreende como estas cousas acontecem em nossas vidas (Cf.
CAMILO,
Queda).
Repetição do possessivo. - Numa série de substantivos, pode-se usar
o possçssivo (como qualquer outro determinante do nome) apenas junto
ao primeiro nome, se não for nosso propósito enfatizar cada elemento da
série:
"A prova da sua perspicácia e diligência estava em ter já no caminho
da forca
os desgraçados cuja sentença vinha trazer à confirmação real" (HERc.,
Lendas, 1, 187).
Note-se a ênfase e a oposição entre os possuidores (eu e tu):
"O teu amor era como o íris do céu: era a minha paz, a minha alegria,
a minha
esperança (ID., ibid., 190).
Se o termo vem acompanhado de modificador, não se costuma omitir
o possessivo da série:
"Foi a tua dignidade real, a tua justiça, o teu nome que eu quis salvar
da tua
própria brandura" (ID., ibid., 191).
Omite-se o possessivo na série sem ênfase ainda que os substantivos
sejam de gênero ou número (ou ambas as coisas) diferente:
... entendera (Calisto Elói) que a prudência o mandava viver em Lisboa
consoante os costumes de Lisboa, e na província, segundo o seu gênio e
hábitos
aldeãos" (CAmiLo, Queda dum Anjo, 107).
Se. se trata de substantivo sinônimo, dispensa-se a repetição do
possessivo:
Teu filho, de quinze anos apenas, é teu orgulho e ufania.
Se os substantivos forem de significação oposta, o possessivo em regra
não é dispensado:
Teu perdão e teu ódio não conhecem o equilíbrio necessário à vida,
261
#
301
Substituição do possessivo pelo artigo definido. - Sem ser norma
de rigor absoluto, pode-se substituir o possessivo pelo artigo definido,
quando a idéia de posse se patenteia pelo sentido total da oração. Este
fato ocorre principalmente junto dos nomes de partes do corpo, das peças
do vestuário, faculdades do espírito e certas frases-feitas:
"D. Fernando afastou-a suavemente de si: ela alevantou o rosto celeste
orvalhado
de pranto... D. Leonor ergueu as mílos suplicantes, com um gesto de
profunda angústia"
(HERc., Lendas, 1, 190).
aqui parou (Calisto Elói), e cruzando os braços, se esteve largo
espaço
quedo, e fito nas janelas" (CAMILO, Queda dum Anjo, 110).
"E o vento assobiava no vigamento da casa, e nas orelhas de Calisto,
o qual,
levado do instinto da conservação, levantou a gola do capote à altura das
bossas
parietais..." (ID., ibid.).
Ele perdeu o juizo. Tem a vida por um fio. Recuperou a memória.
OBSERVAÇÃO: Dispensa-se o artigo definido nas expressões Nosso Senhor,
Nossa
Senhora, assim como nas fórmulas de tratamento onde entra um possessivo,
do tipo:
vossa excelência reverendissima, sua majestade, etc.
O possessivo e as expressões de tratamento do tipo Vossa Excelência.
- Empregando-se as expressões de tratamento do tipo de vossa excelência,
vossa reverendíssima, vossa majestade, vossa senhoria, onde aparece a
forma possessiva de 2.a pessoa do plural, a referência ao possuidor se
faz hoje em dia com os termos seu, sua, isto é, com possessivo de 3.a
pessoa do singular:
Vossa Excelência conseguiu realizar todos os seus propósitos (e não:
todos
vossos propósitos).
Tais tipos de títulos honoríficos começaram a aparecer no português
entre os séculos xiv e xv e aí havia realmente uma possibilidade de alternància
de seu, sua, vosso, vossa. A luta durou até aproximadamente o
séc. xvii, quando as formas de 3.a pessoa saíram vitoriosas. Assim sendo,
modernamente só deve aparecer o possessivo conforme o exemplo dado.
Raras exceções em escritores do séc. xviii para cá são devidas a imitações
literárias, justamente repudiadas.como arcaicas, ou então porque o autor,
em romance ou novela histórica, para não cair em anacronismo, faz seus
personagens falar a linguagem da época.
Entre os escritores a cuja autoridade se abrigam os defensores do
arcaísmo aqui citado, se acha Alexandre Herculano. Ávido leitor e constante
hóspede dos monumentos históricos, o autor da História de Portugal,
tratando do período de D. João 1 (1385-1433), no Monge de Cister (pronuncie-
se este último nome como oxítono), teve oportunidade de mostrar
302
o quanto sabia da, evolução de sua língua, conhecimento que o faz o
melhor prosador ou um dos melhores que as letras portuguesas tiveram.
Assim, pensamos que tal situação especialíssima do probo e perspicaz
historiador não abre a porta para a prática da velha construção.
262
I
#
Pronome demonstrativo
A posição índicada pelo demonstrativo pode referir-se ao espaço, ao
tempo (demonstrativos dêicticos espaciais e temporais)(') ou ao discurso
(demonstrativo anafórico).
Demonstrativos referidos à noção de espaço. - Este (e flexões)
aplica-se aos seres que pertencem ou estão perto da 1.a pessoa, isto é,
daquela que fala:
Este livro é o livro que possuo ou tenho entre mãos.
Esta casa é a casa onde me encontro.
Esse (e flexões) aplica-se aos seres que pertencem ou estão perto da
2.a pessoa, isto é, daquela com quem se fala:
Esse livro é o livro que nono interlocutor traz.
Essa casa é a cata onde se encontra a pessoa a quem me dirijo.
Na correspondência, este se refere ao lugar donde se escreve, e esse
denota o lugar para onde a carta se destina. A referência à missiva que
escrevemos se faz com este, esta :
"Manaus, 13-1-1905
Meu bom amigo Dr. José Veríssimo, - escrevo-lhe dissentindo abertamente
de
sua opinião sobre este singularíssimo clima da Arnazônia..." (E. DA
CUNHA).
Escrevo-te estas linhas para dar-te notícia desta nossa cidade e
pedir-te as novas
dessa região aonde foste descansar.
Quando se quer apenas indicar que o objeto se acha afastado da
pessoa que fala, sem nenhuma referência à 2.a pessoa, usa-se de esse
"Quero ver esse céu da minha terra
Tão lindo e tão azul V' (C. Dz ABazu),
Na linguagem animada, o interesse do falante pode favorecer uma
aproximação figurada, imaginária, de pessoa ou cousa que realmente
se acham afastadas dos que falam. Esta situação exige este:
"Dói-me a certeza de que estou morrendo desde o primeiro dia da tua união
com este homem... a certeza de que o hás de amar sempre, ainda que ele
te despreze
como já te desprezou" (CAMILO, Queda dum Anjo, 152).
303
Tal circunstància deve ter contribuído para Q emprego de este como
indicador de personagens que o escritor traz à baila.
"Este Lopo, bacharel em direito, homem de trinta e tantos anos, e sagaz
até a
protérvia, vivia na companhia do irmão morgado..." (ID., ibid., 149).
1
(1) Sabemos que o termo ddictico não representa a boa forma portuguesa
de adaptação
do vocábulo grego, conforme nos mostrou o Prof. CANDIDO JUCÁ (filho), In
Categoria, 35 e os.
Adotamo-lo por ser empréstimo científico disseminado.
263
#
19 r
Por outro lado, cabe a esse a missão de afastar de nós pessoa ou coisa
que na realidade se acham ou se poderiam achar próximas:
"Vês África, dos bens do mundo avara,
Olha essa terra toda, que se habita
Dessa gente sem lei, quase infinita" (C~Es, Lus. X, 92 apud SAm ALI).
Estas expressões não se separam por linhas rigorosas de demarcação;
por isso exemplos há de bons escritores que contrariam os princípios aqui
examinados e não faltam mesmo certas orientações momentâneas do escritor
que fogem às perscrutações do gramático.
Demonstrativos referidos à noção de tempo. - Na designação de
tempo, o demonstrativo que denota um período mais ou menos extenso,
no qual se inclui o momento em que se fala, é este (e flexões):
Neste dia no dia de hoje) celebramos a
nossa independência.
Este mês no mês corrente) não houve novidades.
Aplicado a tempo já passado, o demonstrativo usual é esse (e flexões):
Nessa época atravessávamos uma fase difícil.
Se o tempo passado ou vindouro está relativamente próximo do momento
em que se fala, pode-se fazer uso de este, em algumas expressões:
Esta noite (= a noite passada) tive um sonho belíssimo.
Porém, com a mesma linguagem esta noite poderíamos indicar a noite
vindoura. Outro exemplo:
"Meu caro Barbosa:
Deves ter admirado o meu silêncio destes quinze dias, silêncio para ti,
e silêncio
para o jornal" (CAmiLo, Cem Cartas, 56).
A indicação temporal de este e esse dispensa outra expressão adverbial,
304
se circunstância de tempo não se apresenta ao falante como elemento
principal do conjunto:
"Para o jogo bastava esse movimento de pelo" (M. LoBATo). Esse movimento
vale por: o movimento que se fez naquele momento.
Demonstrativos referidos a nossas próprias palavras. - No discurso,
quando o falante deseja fazer menção ao que ele acabou de narrar ou ao
que vai narrar, emprega este (e flexões):
"Entrou Calisto na sala um pouco mais tarde que o costume, porque fora
vestir-se
de calça mais cordata em cor e feitio. Não me acoimem de arquivista de
insignificâncias.
Este pormenor (isto é: o pormenor a que fiz referência) das calças
prende
mui intimamente com o cataclismo que passa no coração de Barbuda" (CAMILO,
Queda dum Anjo, 93).
264
#
"Se não existisse Ifigénia... acudiu Calisto. já este nome (i. é: o nome
que
proferi) me soava docemente quando na minha mocidade, pela angústia da
filha de
Agamenáo, cujo sacrifício o oráculo de Áulida demandava.
- Ali, também eu reconheço essas angústias (i. é: aquelas a que se refere)
da
tragédia de Racine" (ID., ibid, 135).
"... não há linguagem que não soe divinamente falada por minha prima.
Essas lisonjas - volveu ela sorrindo - aprendeu-as no seus livros velhos,
primo
Calisto?" (ID., ibid., 136).
Por este último exemplo, podemos verificar que se a referência é feita
às palavras da pessoa com quem se fala, o demonstrativo empregado é
esse (e flexões). No trecho, essas lisonjas são as que faz Calisto à sua
prima.
Há situações embaraçosas para o emprego do demonstrativo anafórico,
isto é, aquele que se refere a palavras ditas ou que se vão dizer dentro
do
próprio discurso. Ocorre o caso, por exemplo, nas referências a enunciados
anteriores que envolvem afastamento da 1.a. pessoa ou ao tempo
em que se fala. Nestes casos, geralmente, prevalece a preferência para
nossas próprias palavras, aparecendo, assim, o anafórico este (e flexões)
em
lugar do dêictico esse (e flexões):
- "Então que te disse ele ?...
- Que tinhas lá outra... e que te viu passear com ela.
- Viu-me a passear com nossa parenta, viúva de um general. Quem disse
305
ao
javardo que esta (a que me refiro) senhora era minha amante" (CAmiLo, ibid.,
157).
Expresso um nome a que, na construção do discurso, se quer ajuntar
uma explicação, comparação, ou se lhe quer apontar característica
saliente,
costuma-se repetir este nome (ou o que lhe serve de explicação, comparação,
ou característica) acompanhado do demonstrativo esse (e flexões):
"O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo
que
pisamos o território da morte" (M. DE Assis, Brás Cubas, 81 apud SousA
DA SILVEIRA).
"Creio que por então é que começou a desabotoar em mim a hipocondria,
essa
flor amarela, solitária, de um cheiro inebriante e sutIP (ID., ibid., 83
apud S. DA
SILVEiRA, Lições, 307).
Reforços de demonstrativos. - A necessidade de avivar a situação
dos objetivos e pessoas de que fala, leva o falante a reforçar os demonstrativos
com os advérbios aqui, aí, ali, acolá : este aqui, esse aí, aquele
ali
ou acolá.
Em tais situações, aqui, aí, ali, acolá etc., perdem seu valor restrito
de
advérbio e passam a funcionar como elementos reforçadores intimamente
relacionados com a natureza dos pronomes, pois fazem notável referência
às pessoas gramaticais:
Eu cá tenho minhas dúvidas. Ele ld diz o que pensa.
265
#
Também desempenham o papel de reforço enfático mesmo e próprio,
presos a substantivos ou pronomes, com o valor de em pessoa (em sentido
próprio ou figurado):
Eu Próprio assisti à desagradável cena. Ela mesma foi verificar o fato.
Neste sentido de identidade, mesmo e próprio entram no rol dos
demonstrativos.
No seguinte trecho de M. de Assis aparece muito:
"Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu" (Vdrias Histórias,
230).
Outros demonstrativos e seus empregos. - já vimos que mesmo e
próprio denotando identidade e com o valor de em pessoa são classificados
como demonstrativos:
"Tal faço eu, à medida que me vai lembrando e convindo à construção ou
reconstruçAo de mim mesmo" (M. DE Assis, D. Casmurro, 203).
"De resto, naquele mesmo tempo senti tal ou qual necessidade de contar
306
a alguém
o que se passava entre mim e Capitu" (ID., ibid., 225).
"Veja os algarismos: não há dois que façam o mesmo offcio" (ID., ibid.,
267).
Pode ainda o demonstrativo mesmo assumir o valor de próprio, até:
"Estes e outros semelhantes preceitos não há dúvida que não são pesados
e
dificultosos; e por tais os estimou o mesmo Senhor, quando lhes chamou
Cruz nossa"
(VIEIRA, Sermões, XI, 150).
"Os mesmos animais de carga, se lhe deitam toda a uma parte, caem com
ela"
(ViEmA apud. EPIPANIO, Sintaxe, õ 86-a).
Mesmo, semelhante e tal têm valor de demonstrativo anafórico, isto
é, fazem referência a pensamentos expressos anteriormente:
"Depois, como Pádua falasse ao sacristão, baixinho, aproximou-se deles;
eu fiz
a mesma cousa" (M. DE Assis, D. Casmurro, 87).
"Não paguei uns nem outros, mas saindo de almas cárididas e verdadeiras
tais
promessas são como a moeda fiduciária, - ainda que o devedor as não pague,
valem
a soma que dizem" (ID., ibid, 202 - F. TÁvoRA, O Cabeleira, 56).
Falaste em dois bons estudantes, mas não encontrei semelhantes prendas
na
sala de aula.
Tal (sozinho ou repetido) e outro são demonstrativos de sentido indefinido.
O primeiro aparece junto à designação de um dia, lugar ou circunstãncias
reais, que não queremos ou não podemos precisar:
"Ele combinou com o assassino assaltarem a casa em tal dia, a tal hora,
por
tais e tais meios" U. OITICICA, Manual de Andlise, 40).
Outro se emprega com o valor de um segundo, mais um (no sentido
de diferente.. como mesmo no de igual, é adjetivo):
Ele me tratou mal e eu fiz outro tanto (tanto, veremos mais tarde, é
pronome
indefinido).
266
F,
#
Tais acepções imprecisas levam alguns estudiosos a classificarem tal
e outro como indefinidos.
Como elemento reforçador dos que foram tratados anteriormente,
aparece mesmo junto aos advérbios pronominais: agora mesmo, ai mesmo,
aqui mesmo, já mesmo, etc.
307
OBSERVAÇÃO: Sobre o emprego tido como erróneo de mesmo como advérbio,
veja-se, mais adUm pode ter, em certas expressões, o valor de mesmo:
"Oh cousa para espantar
Que ambos a ferida tem
Dum tamanho, em um lugar"
(isto é: do mesmo tamanho e no mesmo lugar) (CAM6ES, apud J. Mo¥tEiRA).
Honra e proveito não cabem num saco.
No estilo familiar e animado, emprega-se o demonstrativo com o valor
de artigo definido:
Esse João é das arábias 1 Aquela Maria tem cada idéia 1 (Brds Cubas,
36).
Posição dos demonstrativos. - Em situações normais, onde não impere
a ênfase, o demonstrativo vem anteposto ao nome. Em caso contrário,
pode o adjetivo vir posposto, principalmente se o demonstrativo se referir
ao pensamento já expresso.
"Logo depois, senti-me transformado na Summa Theologica de S. Tomás,
impressa
num volume, e encadernada em marroquim, com fechos de prata e estampas;
idéia
esta que me deu ao corpo a mais completa imobilidade_" (M. DE Assis apud
S.
SILVEIRA, Liç6es, 306).
"... Os seus olhos serenos, como o céu, que imitavam na cor, tomaram
a terrível
expressáo que ele costumava dar-lhes no revolver dos combates, olhar esse
que, só
por si, fazia recuar os inimigos" (HERCULANo, apud. S. SILVEIRA).
Nas orações exclamativas ocorre também a posposição: que dia este!
Mesmo pode corresponder a dois vocábulos. latinos: idem e ipse. No
primeiro caso, denota identidade e reclama a presença do artigo ou de
outro demonstrativo:
Disse as mesmas coisas. Referiu-se ao mesmo casal. Falou a este mesmo
homem.
Idêntico a ipse, emprega-se junto a substantivo ou pronome e equivale
a próprio, em pessoa (em sentido pr6prio ou figurado)('):
Ela mesma se condenou.
,speito do ipio latino faz Blatt um comentário que se pode aplicar
ao nosso
(1) A re
mesmo: "Pour des raleons historiquem, on a Pliabitude de ranger ipie parmi
les pronome
démonstratite, biem que, si Von tient au mens, on puisse pluc légitfmement
le qualifier Wintensif"
(Prdcis de Syntaxe Latine, S 186).
267
#
308
Em ambos os sentidos, mesmo pode aparecer antes ou depois do substantivo.
Nota-se apenas, na língua moderna, certa preferência para a anteposição,
quando o demonstrativo assume o valor de idem, isto é, indica
identidade.
Pronome indefinido
Nem sempre se pode estabelecer claramente a diferença entre simples
indefinidos, tratados neste lugar, dos quantitativos indefinidos; isto
porque
certos indefinidos aparecem aplicados à quantidade.
Empregos e particularidades dos principais indefinidos. - O indefinido
pode estender a sua significação a todos os indivíduos de uma
classe:
Todos os homens são bons. Cada livro deve estar no lugar próprio.
Qualquer
falta merece ser punida.
Livro algum será retirado sem autorização. Nenhum erro foi cometido.
A significação do indefinido se pode estender apenas a um ou a alguns
indivíduos de uma classe:
Certas folhas ficaram em branco. Daí surgirão outros enganos.
Sobre os principais pronomes indefinidos acrescentaremos:
a) A Igum
Anteposto ao substantivo, tem valor positivo: Recebeu algum recado
importante.
Posposto ao nome, assume significação negativa, podendo ser substituído
pelo indefinido negativo nenhum. Ocorre com maior freqüência
este emprego em frases onde já existem expressões negativas (não, nada,
sem, nem) :
Não vimos sinal algum de perigo.
"Nunca juizo algum alto e profundo
Nem cftara sonora ou vivo engenho
Te dê por isso fama nem memória
Mas contigo se acabe o nome e glória"
OBSERVAÇÃO: Em linguagens de outras
valor positivo:
"Desta gente refresco algum tomamos
E do rio fresca água; mas contudo
Nenhum sinal aqui da índia achamos" (CAM., Lus, V, 69.).
Entenda-se: tomamos algum refresco (isto é: mantimentos).
(CAM., Lus., IV, 102).
épocas, podia algum posposto assumir
309
268
#
"Palavra alguma arábia se conhece
Entre a linguagem sua que falavam" (ID., ibid., V, 76).
Isto é: reconhece-se uma ou outra palavra árabe.
Podia ocorrer algum anteposto com significação negativa:
"Vós, a quem não somente algum perigo
Estorva conquistar o povo imundo" (CAM., Lus., VII, 2).
Entenda-se: nenhum perigo, perigo algum.
Finalmente, podia ainda haver a posposição da palavra negativa ao
substantivo
seguido de algum:
"Assim fomos abrindo aqueles mares
Que geração alguma não abriu" (CAM., Lus, V, 2).
b) Cada
junta-se a substantivo singular, a numeral coletivo e expressões formadas
por numeral seguido de substantivo no plural:
"Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade" (Luís GUIMARÃES JúNIOR).
Cada século possui seus homens importantes.
Faz prova em cada trinta dias.
É condenado o emprego de cada em lugar de cada um nas referências
a nomes expressos anteriormente:
Os livros custam trinta cruzeiros cada (por cada um).
Cada não sofre variação, mas a concordáncia do verbo com o sujeito
se processa normalmente:
"Convém notar o tríduo das Lemúrias
Não corre a flux: cada dois dias levam
entre si um profano intercalado" (CAsTiLHo, Fastos, 111, 57. Exemplo
colhido
em F. CosTA, Léxico, 53).
OBsERvAçÃo: Com exagero, já se condenou por mal soante a expressão por
cada, que, segundo a crítica, lembraria porcada (vara de porcos). Rui
(Réplica, 126,
ed. da Imprensa Nacional) defendeu brilhantemente o falso cac6fato (mau
som).
Lembra Sousa da Silveira o valor intensivo de cada, como no seguinte
exemplo:
'. Então é cada temporal, que até parece que os montes estremecem" (EÇA,
A
Cidade e as Serras, 288, apud. Liç6es de Português, õ 388).
Conta cada história 1
c) Certo
É exclusivamente na língua moderna pronome indefinido quando
antecede ao substantivo:
310
"A vida celibata, podia ter certas vantagens próprias, mas seriam tênues,
e compradas
a troco da solidão" (M. DE Assis, Brds Cubas, 306).
269
#
Havendo ênfase, poderá aparecer um certo, expressão que tem sido,
com algum exagero, recriminada pelos gramáticos. Alexandre Herculano,
notável escritor português, talvez influenciado pelas teorias gramaticais
reinantes, aboliu, em redações posteriores, o artigo indefinido (junto
ou
não a palavras indefinidas), tirando, muita vez, o colorido enfático do
trecho primitivo. De um certo usou ele nos seguintes passos:
"Forçoso é que um poeta creia no pensamento, que o agita, e no ideal,
aonde
tem de ir buscar um certo número d'exiOncia..." (Fragmentos, 162).
"Passado todo este tempo os escravos de um certo Adécio, que herdara
o domínio
daquela montanha..." (ibid, 215).
Posposto ao substantivo, certo fixou o seu emprego de adjetivo, com
o sentido de "acertado% "ajustado", "exato", "verdadeiro". Ambos os
sentidos, indefinido e qualificativo, são aproveitados nos seguintes
jogos
de palavras:
Tenho certos amigos que não são amigos certos.
Note-se, com o Diciontírio Contempordneo, que certo atenua o que
na significação do substantivo haja de demasiadamente absoluto, quando
este indefinido vem anteposto a nome que exprime qualidade, propriedade
ou modo de ser:
Goza de certa reputação de talento,
A ópera tem uma certa novidade.
Nesta significação atenuativa, certo, equivalente a algum (e flexões),
se aproxima dos quantitativos indefinidos.
Nota - No português de outras épocas a função de adjetivo ocorria,
ou podia ocorrer, ainda anteposto ao nome:
"Deveis de ter sabido claramente
Como é dos fados grandes certo intento" (isto é: intento certo) -
(CAM6ES,
Lus, 1, 24).
"Esta ilha pequena que habitamos
É em toda esta terra certa escala (i.é: escala certa)
De todos os que as ondas navegamos" (ID., ibid, 1, 54).
"Atento estava o rei na segurança
Com que provava o Gama o que dizia;
311
Concebe dele certa confiança, (i. é: confiança segura)
Crédito firme em quanto proferia" (ibid, VIII, 76).
d) Nenhum
algum:
Reforça a negativa não, podendo ser substituído pelo indefinido,
Não tínhamos nenhuma dívida até aquele momento.
270
#
Sem ênfase, nenhum vem geralmente anteposto ao substantivo; havendo
desejo de avivar a negação, o indefinido aparece posposto:
"Que é lá? redargüi; não cedi cousa nenhuma, nem cedo" (M. DE Assis,
Brás
Cubas, 134).
Referindo-se o nome no plural, nenhum se flexiona:
"Mas se anda nisto mistério, como quer o condestável, espero que não
serão
nenhuns feitiços..." (REBELO DA SILVA, Contos e Lendas, 3.a ed., 195).
Em certas frases de formas afirmativas, nenhum pode adquirir valor
afirmativo, como sinônimo de qualquer:
Mais do que nenhum homem, ele trabalhava para a tranqüilidade.
Enquanto nenhum é um termo que generaliza a negação, nem um se
refere à unidade:
Não tenho nenhum livro.
Não tenho nem um livro, quanto mais dois.
Pronome relativo
Usa-se o qual (e flexões) em lugar de que, principalmente quando
o relativo se acha afastado do seu antecedente e o uso deste último possa
dar margem a mais de uma interpretação:
O guia da turma, o qual nos veio visitar hoje, prometeu-nos voltar depois
(com
o emprego de que o sentido ficaria ambíguo).
Pode-se ainda recorrer à repetição do termo:
"Arrastaram o saco para o paiol e o paiol ficou a deitar fora" (C. NETO,
Apólogos, 12).
Dá-se ainda o afastamento do relativo em relação ao seu antecedente
era exemplos como o seguinte:
No fundo de um triste vale dos Abruges, terra angustiada e sáfara, um
pobre
eremita vivia que deixara as abominações do século pela soledade do deserto
312
(JoÃo
Rimuto, Floresta de Exemplos, 2, 219).
Hoje é mais comum construir:
"eremita que deixara... vivia" ou "vivia um pobre eremita que deixara...".
Em geral substitui-se que por o (a) qual depois de preposição ou
locução prepositiva de duas ou mais sílabas. Empregamos sem que ou
sem o qual, a que ou ao qual, de que ou do qual, mas dizemos com mais
freqüência apesar do qual, conforme o qual, perante o qual, etc. O movimento
rítmico da frase e a necessidade expressiva exigem, nestes casos,
um vocábulo tônico (como o qual) em lugar de um átono (como que).
271
#
Com freqüência, a preposição que deveria acompanhar o relativo
emigra para o antecedente deste relativo:
"A barra é perigosa, como dissemos; porém a enseada fechada é ancoradouro
seguro,
pelo que (o porque, razão por que) tem sido sempre couto dos corsários
de Berbéria"
(A. HERCULANO, Fragmentos, 69).
"... até o induzirem a mandá-lo sair da corte, ao que (o a que) D. Pedro
atalhou
com retirar-se antes que lhe ordenassem" (ID., ibid., 91).
"... não tardou a ser atravessado, pelo coração, com uma seta, do que
(o de que)
imediatamente acabou (ID., ibid, 97).
A construção regular, sem migração da preposição, é pouco usada e
se nos apresenta como artificial:
"Assim me perdoem, também, os a quem tenho agravado, os com quem houver
sido injusto, violento, intolerante_" (R. BARWSA, Oração aos Moços, 23).
Na linguagem coloquial e na popular pode aparecer o pronome relativo
despido de qualquer função sintática, como simples conectivo
oracional. A função que deveria ser desempenhada pelo relativo vem
mais adiante expressa por um substantivo ou pronome precedido de preposição.
É o chamado relativo universal que, desfazendo uma complicada
contextura gramatical, se torna um "elemento lingüístico extremamente
prático" (1):
Ali vai o homem que eu falei com ele
por
Ali vai o homem com quem eu falei
Costuma-se empregar ainda que ou quem seguido de pronome pessoal
oblíquo (que ou quem... lhe) onde o rigor gramatical estaria a pedir
este relativo precedido de preposição. É prática antiga que ainda persiste
no colóquio moderno:
"Agora sim, disse então aquela cotovia astuta, agora sim, irmão,
313
levantemos o vôo
e mudemos a casa, que vem quem lhe dói a fazenda" (= o a quem dói a fazenda)
(MANUEL BERNARDES, 1, 70).
Outras vezes o relativo não se refere propriamente ao seu antecedente,
mas a um termo a ele relacionado:
"Bem vês as lusitdnicas fadigas
Que eu já de muito longe favoreço" (CAmõEs, Lustadas, 11, 171).
O pronome relativo se refere a lusitanos, idéia contida no adjetivo
lusitMicas.
. "Isto que parece absurdo ou desgracioso é perfeitamente racional e belo
- belo
à nossa maneira, que não andamos a ouvir na rua os rapsodos recitando os
seus versos,
nem os oradores os seus discursos, nem os filósofos, as suas filosofias"
(M. DE Assis,
apud S. DA SILVEIRA, Revista de Filologia e de História, 1, 28). Aqui o
relativo se
refere ao pronome pessoal nós que se depreende do pronome possessivo nossa.
(1) K. NyRoP, Gra~aire Ristorique de Ia Langue Française, V, pág. 330.
272
#
Não pertence à boa norma da língua repetir sob forma pronominal
a função sintática já desempenhada pelo relativo. São escassos os exemplos
como os seguintes:
"(nome) que to dissesse a brisa perfumada
Lasciva perpassando pelas flores" (CAsimiao DE ABREU, Obras, ed. S. DA
SILVEIRA,
õ 29).
"... o homem que se destina, ou que o destinou seu nascimento, a uma
vocação
pública, não pode sem vergonha ignorar as belas-letras e os clássicos"
(A. GARKET,
apud S. DA SILVEIRA, ibid.).
Também não é para imitar o emprego de cujo (e flexões) significando
o qual (e flexões). Os exemplos que dele se nos deparam na pena de um
bom conhecedor do idioma cortio Filinto Elísio se devem explicar como
uma iniciativa do idioleto do escritor, mas que não ganhou foros de cidade.
3 - EMPREGO DO VERBO
Emprego de tempos e modos
1) Indicativo. - É o modo que normalmente aparece nas orações
independentes, e nas dependentes que encerram um fato real ou tido
como tal.
314
Presente - O presente denota uma declaração:
a) que se verifica ou que se prolonga até o momento em que se fala:
"ocorre-me uma reflexão imoral, que é ao mesmo tempo uma correção de
estilo"
(M. DE Assis, Brds Cubas, 56).
b) que acontece habitualmente:
A Terra gira em torno do Sol.
c) que representa uma verdade universal:
"O interesse adota e defende opiniões que a consciência reprova" (M. DE
MARICÁ).
Emprega-se o presente:
a)pelo pretérito, em narrações animadas e seguidas (presente histórico),
como para dar a fatos passados o sabor de novidade das coisas atuais:
"Pela manhã, bates-lhe à porta, chamando-o. Como ninguém responda,
procuras
entrar. Um peso imprevisto detém o esforço do teu braço. Insistes. Entras.
E recuas,
os olhos escancarados, o rosto transfigurado pela dor e pelo assombro,
o coração parado
no peito" (HumBERTo Dz CA~ Sombras que Sofrem, 16-17).
273
i
#
b) pelo futuro do indicativo para indicar com ênfase uma decisão-
Amanhã eu vou à cidade.
c) pelo pretérito imperfeito do subjuntivo:
Se respondo mal ele se zangaria,
d) pelo futuro do subjuntivo:
Se queres a paz prepara-te para a guerra.
OBsERvAçÃo: Para exprimir ação começada emprega-se, em geral, o verbo
estar
seguido de infinitivo precedido de a ou gerúndio.
Estava { a falarsobre tal assunto.
falando {
Pretérito imperfeito - Emprega-se quando nos transportamos mentalmente
a uma época passada e descrevemos o que então era presente:
"Eugênia coxeava um pouco, tão pouco, que eu cheguei a perguntar-lhe
se machu315
cara o pé" (M. DE Assis, Brás Cubas, 193).
Nos pedidos e solicitações ou denota que duvidamos da realização do
fato ou exprime um desejo feito com modéstia:
" Queria viver para o seu filho. ~ É como ele explicava o desejo da vida"
(CAmun
CAsTELo ~co, A Neta do Arcediago, 22).
Sr. Manuel, eu desejava telefonar.,
Pode substituir, principalmente na conversação, o futuro do pretérito,
quando se quer exprimir fato categórico:
---Seme desprezasse, morreria, matava-me" (C. C. BitANco, ibid, 19).
Pretérito perfeito - "O pretérito imperfeito é o tempo da ação prolongada
ou repetida com limites imprecisos; ou não nos esclarece sobre
a ocasião em que a ação terminaria ou nada nos informa quanto ao
momento do início. O pretérito perfeito pelo contrário fixa e enquadra
a ação dentro de um espaço de tempo determinado"('):
"Marcela teve primeiro um silêncio indignado; depois fez um gesto
magnífico:
tentou atirar o colar à rua. Eu retive-lhe o braço; pedi-lho muito que
não me
fizesse tal desfeita, que ficasse com a jóia. Sorriu e ficou" (M. Dz Assis,
Brds Cubas, 57)).
O pretérito composto (tenho trabalhado) exprime:
ti) repetição ou prolongação de um fato até o momento em que se fala,
ou fato habitual:
"Não me tens dito nada das tuas ocupações nessa casal, (CAmiLo,
Correspondência
Epistolar, 11, 133).
(I) M. SAm ALI, Gram. Histdrica, 11, 103.
I
I
274
#
b) fato consumado:
I
Tenho dito (no fim dos discursos).
Pretérito mais-que-perfeito (simples e composto) - Denota uma ação
atiterior a outra já passada:
316
"No dia seguinte, antes de me recitar nada, explicou-me o capitão que
só por
motivos graves abraçara a profissão marítima..." (M. DE Assis, ibid.,
66-67).
OBSERVAÇÃO: Em certas orações temporais aparece o pretérito perfeito
onde se
esperaria o mais-que-perfeito:
"Logo que se retirou o inimigo, mandou D. João Mascarenhas enterrar os
mortos"
(EÈ,jFÂNio DIAs, Gramática Elementar, õ208).
"Ao revés encontra-se em oraç5es subordinadas o mais-que-perfeito
correspondendo
a um presente da oração subordinada, quando este presente tem o sentido
de um
pretérito, v.g. Os antiquários; dizem (= deixaram escrito) que ele vivera
neste
reinado" (ID., ibid.).
Emprega-se ainda o mais-que-perfeito simples em lugar do futuro do
pretérito do indicativo e do pretérito do subjuntivo, o que serve hoje
como
traço estilístico de linguagem solene:
"dizendo: Mais servira (= serviria), se não fora (= fosse) para tão longo
amor
tão curta a vida" (CAmõEs, Rimas, 147).
"Que fora (= seria) a vida, se nela não houvera (= houvesse) lágrimas?"
(A.
HERCULANO, Eurico, 32).
Futuro - O futuro do presente e o do pretérito denotam uma ação que
ainda se vai realizar:
"Os homens nos Parecerão sempre injustos enquanto o forem as pretensbes
do
nosso amor próprio" (M. DE MAiucÁ).
"Sem a crença em uma vida futura, a presente seria inexplicável" (ID.).
I
O futuro do presente pode ainda exprimir:
a) em lugar do presente, incerteza ou idéia aproximada, simples possibilidade
ou asseveração modesta:
"O mal não será a especiaria do benir (ID.).
Ele terá seus vinte anos.
No caso de ser empregado, em linguagem polida, nas interrogações,
• futuro "não obriga o interlocutor a responder, como quando se emprega
• verbo no presente ou no pretérito"(').
b) em lugar do imperativo, uma ordem ou recomendação, principalmente
nas prescrições e recomendações morais:
Defenderás os teus direitos
Não furtarás
(1) SAiD AU, Gramdtica Secunddria, 225.
317
275
#
"Nas orações condicionais de se, nas temporais de quando e enquanto,
nas conformativas
(de segundo e conforme, etc.), nas adjetivas que denotam
simples concepção%
o futuro indicativo é substituído pelo futuro conjuntivo (subjuntivo) -
o qual só
nestas orações se usa (ou também em certos casos pelo presente conjuntivo);
assim
diz-se: se veio, se vi, mas: se vir, quando veio, quando vi, mas: quando
vir, aquele
que vê, aquele que viu, mas: aquele que vir" (EPIFÂNio DiAs, Gramdtica
Elementar,
õ 209-a, obs.).
O futuro do pretérito se emprega ainda para denotar:
a) que um fato se dará, agora ou no futuro, dependendo de certa
condição:
"A vida humana seria incomportável sem as ilusões e prestígios que a
circundam"
(M. DE MARICÁ).
"Se pudéssemos chegar a um certo grau de sabedoria, morreríamos tísicos
de amor
e admiração por DeuC (ID.).
b) asseveração modesta em relação ao passado, admiração por um fato
se ter realizado:
Eu teria ficado satisfeito com as tuas cartas (R. DE VA~CELOS).
Nós pretenderíamos saber a verdade.
Seria isso verdadeiro?
Emprega-se o auxiliar tivera (ou houvera) na oração condicional, em
lugar do mais-que-perfeito, em relação a um futuro do pretérito posto
na oração principal:
Estudaria (ou teria estudado), se tivera (= tivesse) sabido da prova.
2) Subjuntivo. - O modo subjuntivo ocorre normalmente nas
orações independentes optativas, nas imperativas negativas e afirmativas
(nestas últimas com exceção da 2.a pessoa do singular e plural), nas
dubitativas com o advérbio talvez e nas subordinadas em que o fato é
considerado como incerto, duvidoso ou impossível de se realizar:
Bons ventos o levem.
"Não e-Prestes, não disputes, não maldigas e não terás de arrepender-te"
(M.
DE MARICÁ).
"Não desenganemos os tolos se não queremos ter inumeráveis inimigos"
318
(ID.).
"Louvemos a quem nos louva para abonarmos o seu testemunho" (ID.).
"Talvez a estas horas desejem dizer-te peccavi! Talvez chorem com
lágrimas
de sangue" (A. HERcuLANo, Monge de Cister, 1, 58).
"Faltam-nos memórias e documentos coevos em que possamos estribar-nos
para
relatar tais sucessos" (Im, História de Portugal, 1, 451).
OBSERVAÇÃO: Às vezes ocorre o indicativo com talvez: "Magistrado ou
guerreiro,
de justo ou generoso se gaba: - e as turbas talvez o aplaudem e celebram
seu nome"
(ID., Fragmentos, 180). Parece que o indicativo deixa antever a certeza
de que o
de que se duvida se pode bem realizar.
276
#
Nas orações subordinadas substantivas ocorre o subjuntivo nos
seguintes principais casos:
a)depois de expressões (verbos, nomes ou locuções equivalentes) que
denotam ordem, vontade, consentimento, aprovação, proibição, receio,
admiração, surpresa, contentamento:
"Prouvera a Deus, venerável Crimilde - tornou o qüingentário - que nos
fosse
lícito desamparar estes muros" (A. HERCULANO, EUriCO, 146).
"Proibi-te que o revelasses" (ID., Monge de Cister, 1, 294).
Espero que estudes e que sejas feliz.
b)depois de expressões (verbos ou locuções formadas por ser, estar, ficar
+ substantivo ou adjetivo) que denotam desejo, probabilidade, vulgaridade,
justiça, necessidade, utilidade:
Cumpre que venhas cedo
Convém que não nos demoremos
É bom que compreenda logo o problema
C)depois dos verbos duvidar, suspeitar, desconfiar e nomes cognatos
(dúvida, duvidoso, suspeita, desconfiança, etc.) quando empregados
afirmativamente, isto é, quando se trata de dúvida, suspeita ou desconfiança
reais:
"... me vinham à mente suspeitas de que ela fosse um anjo transviado
do céu..."
(A. HERCULANO, Monge de Cister, 11, 321).
"A luz... que suspeitdvamos Procedesse de lâmpada esquecida por
sonolento moço
de reposte..." (ID., ibid., 333).
Se o falante tem a suspeita como coisa certa, ou nela acreditar, o
normal é aparecer o indicativo:
"Suspeitava-se que era a alma da velha Brites que andava ali penada"
319
(ID
ibid., 364).
Usa-se o subjuntivo nas orações adjetivas que exprimem:
a) fim:
"Ando à cata de um criado que seja económico e fiel" (RIBEIRO DE
VASCONCELOS).
b)conseqüência (o relativo vem precedido de preposição, geralmente,
com):
"Daqui levarás tudo tão sobejo
Com que faças (= que com isso) o fim a teu desejo" (CAMõEs, Lusíadas,
11, 4).
c) uma conjectura e não uma realidade:
Compare-se:
O cidadão que ama sua pátria engrandece-a (realidade)
O cidadão que amo sua pátria engrandece-a (conjectura)
277
#
depois de um predicado negativo, ou de uma interrogação de sentido
negativo quando enunciam uma qualidade que determine e restrinja
a idéia expressa por esse predicado ou interrogação:
Não há homem algum que possa gabar-se de ser completamente feliz.
Quem há aí que seja completamente feliz?(1)
Nas orações adverbiais usa-se o subjuntivo:
a)nas causais de não porque, não (ou nem), quando se quer dizer que
a razão aludida não é verdadeira:
"Deitei-me ontem mais cedo, não porque tivesse sono, mas porque
precisava de
me levantar hoje de madrugada" (R. DE VASCONCELOS, Gramdtica Portuguesa,
274).
b)nas concessivas de ainda que, embora, conquanto, posto que, se bem
que, por muito que, por pouco que (e semelhantes), não havendo
entretanto, completo rigor a respeito:
"Ainda que perdoemos aos maus, a ordem moral não lhes perdoa, e castiga
a
nossa indulgéncia" (M. DE MARICÁ).
"Por mais sagaz que seja o nosso amor próprio, a lisonja quase sempre
o engana"
(ID.).
Entram neste rol as alternativas de sentido concessivo (ou... ou,
quer ... quer) e as concessivas justapostas do tipo de fosse ele o culpado,
ainda assim lhe perdoaria.
c)nas condições de se, contanto que, sem que, a não ser que, suposto que,
320
caso, dado que, para exprimir hipótese, e não uma realidade. Entra
ainda neste grupo a comparativa hipotética como se:
"Se as viagens simplesmente instruíssem os homens, os marinheiros seriam
os mais
instruídos" (M. DE MARICÁ).
"E moviam os lábios, como se tentassem falar" (A. HERCULANO, Eurico,
26).
Se se tratar de coisa real ou tida como tal, geralmente aparece o
indicativo:
"Não há momento que perder, se queremos salvar-nos" (ID., íbíd., 253),
d)nas consecutivas quando se exprime uma simples concepção e não um
fato real:
"Devemos regular a nossa vida de modo que possamos esperar e não recear
depois
de nossa morte" (M. DE MARICÁ).
"Não subais tão alto que a queda seja mortal" (ID.).
e) nas finais:
"Os maus são exaltados para serem felizes, para que caiam do mais alto
e sejam
esmagados" (U).).
(1) RIBEIRO DE VASCONCELOS, GramMica
Portuguesa, 274-5
278
I
I
#
I
I
nas temporais de antes que, assim que, até enquanto, depois que, logo
u, uando ocorrem nas newarões ou nas indicacões de simDles concepção,
e não uma realidade (caso em que aparece o indicativo
"Cumprirei o que ordenas, porque jurei obedecer-te cegamente enquanto
salviíssemos a irmã de Pelágio" (A. HEacuLANo, Eurico, 215).
Casos -Particulares
1) A oração substantiva que completa a exclamação de surpresa quem
diria constrói-se com indicativo ou subjuntivo:
Quem diria que ele era capaz disso.
Oucra diria aue ele fosse cal)az disso
321
2) com os indefinidos do tipo o que quer que é mais comum o em
prego do subjuntivo:
Saiu com o que quer que fosse
A. Herculano vacilou entre o emprego de fosse (ed. de 1876) e era
(ed. de 1864) no seguinte passo:
"Com um olhar de simpatia e compaixão, misturada do que quer que era de
admirarão e de terror involuntário" (Eurico, 265, ed. 1864).
3) Também têm o verbo no subjuntivo as orações introduzidas por
que, quando restringem a generalidade de um asserto:
"Não há, que eu saiba, expressão mais suave" (1).
3) Imperativo. - Cumpre apenas acrescentar ao que disse na pág. 11
ue o infinitivo pode substituir o imrwrativo nas ordens instantes:
"Todos se chegavam para o ferir, sem que a D. Álvaro se ouvissem outras
palavras
senão estas: Fartar, rapazes" (A. HERcuLANo, Fragmentos, 98).
OBuavAclo: Os casos aqui lembrados estão longe de enquadrar a trama complexa
do emprego de tempos e modos em português. São várias as situação
que
podem, ferindo os princípios aqui expostos, levar o falante ou escritor
a buscar novos
meios mais expressivos. São questões que fogem ao Âmbito da Gramática e
constituem
preocupação da Estilística.
Emprego das formas nominais. - A respeito das formas nominais,
cumpre acrescentar ao que se disse nas páginas anteriores:
(1) EPIFANio DIAs, GramMica Portuguesa Elementar, 128.
279
#
Emprego do inf initivo (flexionado e sem flexão).
1 - Infinítivo pertencente a uma locuçjo verbal :
Não se flexiona normalmente o infinitivo que faz parte de uma locução
verbal:
322
"E o seu gesto era tão desgracioso, coitadinho, que todos, à exceção
de Santa,
Puseram-se a rir" (A. DE AzEvEDo, apud Ant. Nacional, 138).
"Pois, se ousais levar a cabo vosso desenho, eu ordeno que o façaís"
(A. HEacuLANo,
ibid., 196).
"Depois mostraram-lhe, um a um, os instrumentos das execuções, e
explicaram-lhe
por miúdo como haviam de morrer seu marido, seus filhos e o marido de sua
filha"
(CAmiLo, ibid, 221).
Encontram-se exemplos que se afastam desse critério quando ocorrem
os seguintes casos:
a)o verbo principal se acha afastado do auxiliar e se deseja avivar a
pessoa a quem a ação se refere:
"Possas tu, descendente maldito
De uma tribo de nobres guerreiros,
Implorando cruéis forasteiros,
Seres presa de vis Aimorés" (G. DIAS, Poesias, 11, 31, ed. M. BANDEIRA).
... dentro dos mesmos limites atuais podem as cristandades nascerem ou
anularem-
se, crescerem ou diminuirem em certos pontos dessem vastos
territórios" (A.
HERcuLANo, Fragmentos, 173).
b) o verbo auxiliar, expresso anteriormente,
cala-se depois :
"Queres ser mau filho, deixares uma nódoa dInfímia na tua linhagem" (A.
HERcuLANo, ibid., 174).
2 - Infinitivo dependente dos verbos causativos e sensitivos :
Com os causativos deixar, mandar, fazer (e sinônimos) a nonna é
aparecer o infinitivo sem flexão, qualquer que seja o seu sujeito:
"Sancho II deu-lhe depois por válida a carta e mandou-lhes erguer de
novo os
marcos onde eles os haviam posto" (A. HERcuLANO, apud Fragmentos, 64).
"Fazei-os parar" (ID., ibid., 75).
"Deixai vir a mim as criancinhas".
Mas flexionado em: "e deixou fugirem-lhe duas lágrimas pelas faces" (ID.,
ibid.,
155)(1).
(1) A flexio se apresenta geralmente quando o Infinitivo vem acompanhado
de um
pronome pessoal oblíquo átono.
280
i
#
323
Com os sensitivos ver, ouvir, olhar. sentir (e sinônimos) o normal é
empregar-se o infinitivo sem flexão, embora aqui o critério não seja tão
rígido:
"Olhou para o céu, viu estrelas... escutou, ouviu ramalhar as árvores"
(ID.,
ibid, 101).
" ... o terror fazia-lhes crer que já sentiam ranger e estalar as vigas
dos simples. . . "
(ID., ibid, 172),
Os seguintes exemplos atestam o emprego do infinitivo flexionado:
"Em Alcoentre os ginetes e corredores do exército real vieram
escaramuçar com
os do infante, e ele próprio os ouvia chamarem-lhe traidor e hipócrita"
(ID., ibid., 96).
"Creio que comi: senti renovarem-se-me as forças" (lu., ibid., 172).
OBURVAÇõES:
La) Com os causativos e sensitivos pode aparecer ou não o pronome átono
que
pertence ao infinitivo: "Deixei-o embrenhar (por embrenhar-se) e transpus
o rio
após ele" (ID., ibid., 77); "O faquir deixou-o afastar (por afastar-se)"
(ID., ibid,);
"Encostando-se outra vez na sua dura jazida, Egas sentiu alongar-se a
estrupiada dos
cavalheiros_" (ID., O Bobo, 265-6, ed. 1878); "E o eremita viu-a, ave
pernalta e
branca, bambolear-se em vôo, ir chegando, passar-se para cima do leito,
aconchegar-se
ao pobre homem..." U0X0 RIBEMO, Floresta de Exemplos, 327). Por isso não
cabe
razão a MÁmo B~To (Através do Diciondrio,9.51 da 3.R ed.) quando condena,
nestes casos, o aparecimento do pronome átono.
2.a) Aqui também o infinitivo pode aparecer flexionado por se calar o
auxiliar:
'~viu alvejar os turbantes, e, depois surgirem rostos tostados, e, depois,
reluzirem armas---
(A. HF.ReuLANo, Eurico, 257).
3 - Infinitivo fora da locução verbal :
Fora da locução verbal, ---aescolha da forma infinitiva depende de
cogitarmos somente da ação ou do intuito ou necessidade de pormos em
evidência o agente do verbo"(').
O infinitivo sem flexão revela que a nossa atenção se volta com
especial atenção para a ação verbal; o flexionamento serve de insistir
na
pessoa do sujeito:
para vencer na vida
Estudamos { para vencermos na vida
324
Ocorre o infinitivo flexionado nos seguintes casos principais:
1.0)"sempre que o infinitivo estiver acompanhado de um nominativo,
sujeito, nome ou pronome (quer igual ao de outro verbo, quer
diferente);
sempre que se tornar necessário destacar o agente, e referir a ação
especialmente a um sujeito, seja para evitar confusão, seja para tornar
mais claro o pensamento. O infinitivo concordará com o sujeito que
temos em mente;
(1) SAw AM, Gratndtica Secunddria, 246.
281
#
3.0)quando o autor intencionalmente pôs em relevo a pessoa a que o
verbo se refere"('):
Estudamos para nós vencermos na vida
"Beijo-vos as mãos, senhor rei, por vos lembrardes ainda de um velho
homem
de armas que para nada presta hoje" (A. HERcuLANo, apud. Antologia Nacional,
195).
,,É permitido aos versistas poetarem em prosa" (CAmmo, A Queda dum Anío,
60).
APÊNDICE
PASSAGEM DA VOZ ATIVA A PASSIVA E VICE-VERSA
Em geral, só pode ser construído na voz passiva verbo que pede objeto
direto, acompanhado ou não do indireto. Dai a língua padrão lutar contra
linguagens do tipo:
A missa foi assistida por todos,
uma vez que o verbo assistir, nesta acepção, só se constrói com objeto
indireto:
Todos assistiram à missa.
À força do uso já se fazem concessões aos verbos:
apelar: A sentença não foi apelada.
aludir: Todas as faltas foram aludidas.
obedecer: Os regulamentos não são obedecidos.
pagar: As pensionistas foram pagas ontem.
perdoar: Os erros devem ser perdoados.
responder: Os bilhetes seriam respondidos hoje.
Na passagem da ativa para a passiva segue-se o esquema:
1.0) o sujeito da ativa, se houver,
passa a agente da passiva;
325
2.0) o objeto direto da ativa,
se houver, passa a sujeito da passiva;
3.11) o verbo da voz ativa passa para a voz passiva, conservando-se o mesmo
1 tempo e modo;
4.0) não sofrem alteração os outros
termos oracionais que apareçam.
Exemplo 1
A tiva
Eu 11 o livro
Passiva
o livro foi lido por mim
Exemplo 2: (com pronome oblíquo)
Nós o ajudamos ontem - Ele, ontem, foi ajudado por nós.
(1) SAm ALI, Dificuldades da Lingua Portuguesa, 5.a ed., 72.
282
#
Exemplo 3: (com sujeito indeterminado)
Enganar-me-lo ~ Eu serei enganado.
Exemplo 4: (com tempo composto)
Eles têm cometido erros - Erros tèm sido cometidos por eles.
Exemplo 5 :(com sujeito indeterminado de verbo que aparecerá na
passiva pronominal)
Vendem casas - Vendem-se casas
Vendem esta casa - Vende-se esta casa.
4 - EMPREGO DE PREPOSIÇOES
1) A
Esta preposição aparece nos seguintes principais empregos:
a) Introduz complementos verbais (objetos indiretos) e nominais representados
por nomes ou pronomes oblíquos tônicos:
"Perdoamos mais vezes aos nossos inimigos por fraqueza, que por virtude"
(M.
DE MARICÁ).
"O nosso amor próprio é muitas vezes contrário aos nossos interesses
"A força é hostil a si própria, quando a inteligéncia a não dirige" (ID.).
b) Introduz objetos diretos nos casos apontados na pág. 208.
"O mundo intelectual deleita a poucos, o material agrada a todos" (ID.).
"O homem que não é indulgente com os outros, ainda se não conhece a si
Pl'ópl'iO" (ID.).
326
c) Prende infinitivos a certos verbos que o uso ensinará:
"Os homens, dizendo em certos casos que vão falar com franqueza, parecem
dar
a entender que o fazem por exceção de regra" (ID.).
Geralmente tais verbos indicam a causa, o início, a duração-a continuação
ou o termo de movimento ou extensão da idéia contida no verbo
prin cipal. Os principais são:
abalançar-se, acostumar-se, animar-se, anuir, aparelhar-se, aprender,
apressar-se, arrojar-
se, aspirar, atender, atrever-se, autorizar, aventurar-se, chegar,
começar (também
com de e por), concorrer, condenar, continuar, costumar, convidar (também
com para),
decidir-se, entrar, estimular, excitar-se, expor-se, habilitar-se,
habituar-se, meter-se,
obrigar, por-se, principiar, resolver, vir.
d) Prende infiditivos a certos verbos, formando locuções equivalentes e
geriândios de sentido progressivo:
"Anda visitando os defuntos? disse-lhe eu. Ora defuntos 1 respondeu
Virgília com
um muxoxo. E depois de me apertar as mãos: - Ando a ver se ponho os vadios
para
a rua" (M. DY, Assis, apud, S. SILVEIRA, Lições, 309).
283
#
e) Introduz infinitivo designando
condição, hipótese, concessão, exceção:
A ser verdade o que dizes, prefiro não colaborar.
"A filha estava com quatorze anos; mas era muito fraquinha, e não fazia
ilada,
a não ser namorar os capadócios que lhe rondavam a rótula" (M. DF, Assis,
Brds
Cubas, 201).
1)Introduz ou pode introduzir o infinitivo da oração substantiva subjetiva
do verbo custar (cf. pág. 236):
"Custou-lhe muito a aceitar a casa" (M. DE Assis, ibid., 194).
g) Introduz numerosas circunstâncias, tais como:
1) termo de movimento ou extensão:
"Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brasil" (ID., ibid., 151).
OBsERvAçÃo: Com os advérbios aqui, ld, cd e semelhantes não se emprega
preposição:
"Vem cá, Eugénia, disse ela..." (ID., ibid., 96).
327
2) tempo em que uma coisa sucede:
"Indaguei do guarda; disse-me que efetivamente "esse sujeito" ia por
ali às vezes.
- A que horas?" (ID., ibid, 172).
3) fim ou destino:
cional, 145).
.. apresentaram-se a falar ao imperador"
(R. POMPÉIA, apud Antologia Na-
Tocar à. missa (= para assistir à missa).
4) meio, instrumento e modo:
matar à fome, fechar à chave, vender a dinheiro, falar aos gritos,
escrever.a lápis,
viver a frutas, andar a cavalo.
Com os verbos limpar, enxugar, assoar indicamos de preferência o
instrumento com em, e os portugueses com a :
9impar as lágrimas no lenço",- "limpar as lágrimas ao lenço".
5) lugar, aproximação, contigüidade, exposição a um agente físico:
"Vejo-a a assomar à Porta da alcova..." (M. DE Assis, Brás Cubas, 14).
Estar à janela, ficar à mesa, ao Portão, ao sol.
6) semelhança, conformidade:
---Nãosai a nós, que gostamos da paz,.." (M. DF. Assis, apud S. DA
SILVEIRA,
Lições, 310).
"Desta vez falou ao modo bíblico" (ID., ibid.)
Quem puxa aos seus não degenera.
284
#
7) distribuição proporcional, gradação:
um a um, mês a mês, pouco a pouco
OtisERvAçÃo: Diz-se Pouco a pouco, pouco e pouco, a pouco e pouco.
"Pouco a pouco muitas graves matronas... se tinham alongado da corte
para
%uas honras e solares" (A. HERCULANO, O Bobo, 21).
8) preço: A como estão as maçãs? A cem cruzeiros o quilo.
9) foi~ma numerosas locuções adverbiais: à pressa, às pressas, às
claras,
328
às ocultas, às cegas, a granel, a rodo, etc.
Emprego do à acentuado. - Emprega-se o acento grave no a para
indicar que soa como vogal aberta nos seguintes dois casos.
1.0)quando representa a construção da preposição a com o artigo e pronome
a ou o início de aquele (s), aquela (s), aquilo, fenômeno que
em gramática descritiva se chama crase: Fui à cidade.
O verbo ir pede a preposição a; o substantivo cidade pede o artigo
feminino a: Fui a a cidade.
2.0)quando representa a pura preposição a que rege um substantivo feminino
singular, formando uma locução adverbial: à força, à míngua,
à bala, à faca, à espada, à fome, à sede, à pressa, à noite, à tarde,
etc. (1).
Ocorre a crase nos seguintes casos pria) diante de palavra feminina, clara
ou oculta, que não repele artigo:
Fui à cidade.
Dirigia-se à Bahia e depois a Paris.
Para sabérmos se um substantivo feminino não repele artigo, basta
construí-lo em orações em que apareçam regidos das preposições de, em
por. Se tivermos puras preposições, o nome dispensa artigo; se tivermos
necessidade de usar, respectivamente da, na, pela, o artigo será
obrigatório:
..........Venho da Gávea
Fui à Gávea Moro na Gávea
..........Passo pela Gávea
..........Venho de Copacabana
Fui a CopacabanaMoro em Copacabana
{ Passo por Copacabana
OBSERVAÇõES:
1.a) o nome que sozinho dispensa artigo, pode tê-lo quando
adjetivo ou locução adjetiva:
Fui à Copacabana Venho da Copacabana de minha infância
Moro na Copacabaria de minha infância
de minha infância { Passa pela Copacabana de minha infância
Assim se diz: Irei à casa paterna
(1) Cf. SAID ALI, Meios de Expressdo e Alterardes Setndfiticas, 11-23,
2A ed.
285
acompanhado dc
#
2.a) Se for facultativo, nas condições acima, o emprego de de ou da,
em ou tia,
por ou pela, será também facultativo o emprego do a acentuado:
Venho da França
329
{ de
Moro em França
{ na
Passo pela França
{ por
Fui à França
{ a
b) diante dos demonstrativos a, aquele, aquela, aquilo :
à
Referiu-se àquele que estava do seu lado
àquela
{ àquilo {
c) diante de possessivo em referència
a substantivo oculto:
Dirigiu-se ãquela casa e não à sua.
d)diante de locuções adverbiais constituídas de substantivo feminino
plural: às vezes, às claras, às ocultas, às escondidas, às três da manhã.
Não ocorre a crase nos seguintes casos principais:
a) diante de palavras de sentido indefinido:
uma
certa
Falou a qualquer pessoa
cada
toda
OBSERVAÇÃO: Há acento antes do numeral uma: Irei vè-la à uma hora.
b) diante dos pronomes relativos que (quando o a anterior for uma
preposição), quem, cuja :
Está aí a pessoa 4 que fizeste alusão.
O autor a cuja obra a crítica se referiu é muito pouco conhecido.
Ali vai a criança a quem disseste a notícia.
c) diante de verbo:
Ficou a ver navios
Livro a sair em Lreve
d) diante de pronome pessoal e expressões de tratamento como V.
Ex.a, V. S.a, V. M., etc.
Não disseram a ela e a você toda a verdade.
Requeiro a V. Ex.a com razão.
286
#
e) nas expressões formadas com a repetição de mesmo termo (ainda
que seja um nome feminino), por se tratar de pura preposição:
330
frente a frente, cara a cara, face a face, gota a f) diante da palavra
casa quando desacompanhada de adjunto:
irei a casa logo mais
A crase é facultativa nos seguintes casos principais :
a) antes de pronome possessivo com su~stantivo claro:
Dirigiu-se à minha casa, e não à sua
{ a
No português moderno dá-se preferência ao emprego do possessivo
com artigo e, neste caso, ao a acentuado.
b) antes de nome próprio feminino:
As alusões eram feitas à Angela
{ a
c) antes da palavra casa quando acompanhada de expressão que
denota o dono ou morador, ou qualquer qualificação:
Irei ~ à
, a
I
casa de meus pais
OBSERVAÇÃO FINAL: É preciso não identificar crase e craseado com acento
e
acentuado. Em tempos passados, principalmente entre os românticos, a
preposição
pura a era em geral acentuada, ainda diante de masculino, sem que isso
quisesse indicar
a craseado. Daí os falsos erros que se apontam em escritores dessa época,
mormente
em J. de Alencar.
2) Até
Esta preposição indica o limite, o termo de movimento, e, acompanhando
substantivo com artigo (definido ou indefinido), pode vir ou não
seguida da preposição a :
Caminharam até a escola

"Ouvido isto, o desembargador comoveu-se até às lágrimas, e 1 diste com
mu,
entranhado afeto" (CAMILO, A Queda dum Anjo, 67).
" ... e prometem ser-lhe amparo até ao fim" (ID., ibid., 77).
"Albernaz saiu fora da roda dos amigos e foi até a um canto da sala..."
(LIMA
BARRETO, apud S. DA SILVEIRA, Lições, õ 496).
É preciso distinguir a preposição da palavra de inclusão até que se
usa para reforçar uma declaração com o sentido de inclusive, também,
331
287
#
mesmo, ainda. A preposição pede pronome pessoal oblíquo tônico e a
palavra de inclusão pede pronome pessoal reto:
Ele chegou até mim e disse toda a verdade.
Até eu recebi o castigo.
3) Com
Aparece nas circunstáncias de companhia, ajuntamento, simultaneidade,
modo, maneira, meio, instrumento, causa, concessão (principalmente
seguida de infinitivo), oposição:
"Quando os bons capitulam com os maus sancionam a própria ruína" (M.
DE
MARICA).
"Nunca agradecemos com tanto fervor como quando esperamos um novo favor-
(ID.).
"A economia com o trabalho é uma preciosa mina de ouro" (ID.).
"Somos atletas na vida; lutamos com as paixões dos outros homens e com
as
nossas" (ID.).
"Queremos gover , nos perfeitos com homens imperfeitos: disparate"
(ID.).
"O silêncio com ser mudo não deixa de ser por vezes um grande impostor"
(li).).
"A sociedade política nasceu da família; mas a família não acabou com
(= temporal)
a existência da sociedade" (A. HERCULANO, Fragmentos, 144).
Inicia o complemento de muitos verbos e nomes (obj. indireto e
complemento nominal):
"O lisonjeiro conta sempre com a abonação do nosso amor próprio" (M.
DE MARICÁ).
"O homem que não é indulgente com os outros, ainda se não conhece a si
próprio" (ID.).
4) Contra
Denota oposição, direção contrária, hostilidade:
Lutava contra tudo e contra todos.
Remar contra a maré.
Votar contra alguém
Condenam bons mestres como galicismo o emprego desta preposição
depois do verbo apertar (estreitar e sinônimos) apesar dos exemplos de
escritores corretos, uso que se vai generalizando:
332
"Apertei contra o coração o punho da espada" (A. HERCULANO, M. de Cister,
1, 37); "E Dulce caiu nos braços do guerreiro trovador, que desta vez a
estreitou
contra o peito..." (ID., O Bobo, 144).
Também se considera como galicismo contra no sentido de em troca
de : Dar a mercadoria contra recibo (por mediante recibo).
288
#
5) De
a) Introduz complemento de verbos (obj. indireto) e nomes (compl.
nominal) que o uso ensinará:
"Os sábios vivem ordinariamente solitários: receiam-se dos velhacos,
e não podem
t0]Crar O,5 t0105" (M. DE MARICÁ).
---0temor da morte é a sentinela da vida" (ID.).
b) Indica a circunstância de lugar donde, origem, ponto de partida
dum movimento ou extensão (no tempo e no espaço), a pessoa ou coisa
de que outra provém ou depende, em sentido próprio ou figurado e o
agente da passiva (por ser o ponto de partida da ação), principalmente
com os verbos que exprimem sentimento e manifestação de sentimentos:
"A maior parte dos erros em que laboramos neste mundo provém da falsa
definiçt7o,
ou das noç6es falazes que temos do bem e do mal" (ID.).
"A doçura e beleza das mulheres parecem inculcar que são anjos e serafins
que
(lesceram dos céus e se humanaram. na terra" (ID.).
"Sancionada a virtude só pela opinião pública, ela desaparece da vida
doméstica
e de todos aqueles lugares não vistos da multidão" (A. HERCULANo,
Fragmentos, 143).
OBsEavAçÃo: Modernamente o agente da passiva se rege mais de por.
c) Indica a pessoa, coisa, grupo ou série a que pertence ou de que
se salienta, por qualquer razão, o nome precedido de preposição:
"A credulidade e confiança de muitos tolos faz o triunfo de poucos
velhacw~ (M.
D1,. MARICÁ).
d) Indica a matéria de que uma coisa é feita:
I
.. .. ela só lhe aceitava sem relutância os mimos de escasso preço, como
a cruz
de ouro, que lhe deu, uma vez, de festas" (M. DF, Assis, Brds Cubas, 54).
333
e) Indica a razão ou a causa por que uma coisa sucede:
"O luxo, como o fogo, devora tudo e perece de faminto" (M. DE MARICÁ).
Cantar de alegria, morrer de medo.
f) Indica o assunto ou o objeto de que se trata:
"Dizer-se de um homem que tem juizo é o maior elogio que se lhe pode
faze
(11. DE MARICÁ). 1
g) Indica o meio, o instrumento ou modo, em sentido próprio ou
figurado:
"O espírito vive de ficções, como o corpo se nutre de alimentos" (ID.).
h) Indica a comparação, hoje principalmente na expressão do que
São mais de três horas.
I
289
#
i) Indica a posição, o lugar:
"Sucede freqüentes vezes admirarmos de longe o que de perto desprezamos"
(M.
DE MARICÁ).
j) Indica uma coisa contida na outra:
Copo de leite (= o leite que o copo contém), copo d'água.
OBSERVAÇÃO: Pode-se dizer também: copo com leite, com água.
1) Indica o fim, principalmente com infinitivo
Dá-me de beber um copo d'água.
m) Indica o tempo:
De noite todos os gatos são pardos.
n) ligando dois substantivos, imediatamente ou por intermédio de
certos verbos, serve para caracterizar e definir uma pessoa ou coisa:
"O homem de juizo aproveita, o tolo desaproveita, a experiência própria"
(ID.).
Rua do Ouvidor.
OBSERVAÇÃO: Nas denominações de ruas, escolas, teatros e casas
comerciais e em
circunstâncias que tais se costuma omitir a preposição sem que haja regra
fixa para
tal critério: Avenida Rio Branco, Colégio Pedro li (mas Rua do Ouvidor).
334
o) Indica o todo depois de palavras que significam parte:
A maioria dos homens, um terço dos soldados, um punhado de bravos; um
pouco
(ou uma pouca) de água.
OBsERvAçÃo: Depois dos comparativos maior, menor, etc. pode ser
substituído
por entre: O maior de todos (= entre todos).
p) Indica modo de ser, semelhança, e normalmente vem precedendo
predicativo:
"Muitos figuram de Diógenes, para se consolarem de não poderem ser
Alexandres"
(M. DE MARICÁ).
OBSERVAÇõES:
La) Note-se a fórmula é de com o sentido de é próprio de: "É da natureza
humana
que muitos homens trabalhem para manter os poucos que se ocupam em
pensar
para eles, instruí-los e governá-los" (ID.).
2.a) Em construção do tipo acusar de negligente, presumir de formosa,
"explicam-se
:geralmente pela omissão de um verbo atributivo (ser, estar, etc.) ou pela
fusão da
,construção do adjetivo com a de substantivo no mesmo lugar" (M. BARRETo,
De
-Gramática, 2.a ed., 297). Acusar de negligente = acusar de ser negligente,
acusar de
:sua negligência.
i
Não ocorre esta preposição nos seguintes principais casos
a) em construções de tipo:
A primeira coisa que fiz foi vir a Madri (e não foi de vir).
290
W_
#
b) "com os verbos e adjetivos que significam afastamento ou diferença,
e com os que envolvem a idéia de aumento ou diminuição,
superioridade ou inferioridade, a designação da medida que não tem
preposição" (1):
Aumentar um centímetro (e não aumentar de um).
Este número excede aquele duas dezenas (e não excede de duas dezenas).
Mais novo alguns meses (e não mais novo de alguns meses).
c) depois do verbo consistir: a prova consiste em duas páginas mimeografadas
(e não consiste de duas).
335
NOTA FINAL: os puristas, sem maiores exames, têm tachado de galicismo
a
expressão de resto (= quanto ao mais). Além de usada por grandes escritores,
tem
raizes no latim de reliquo.
6) Em
Denota:
1) lugar onde, situação, em sentido
próprio ou figurado:
"Formam-se mais tempestades em nós mesmos que no ar, na terra e nos mares"
(M. DE MARICÁ).
OBSERVAÇÃO: Com alguns verbos, para se exprimir esta circunstância, se
emprega
um pronome oblíquo átono em lugar da expressão introduzida por em:
"Pulsa-lhe
(1= nele) aquele afeto verdadeiro" (M. DE Assis). Não me toque. Bateu-nos.
Mexeu-lhe.
2) tempo, duração, prazo:
"Os homens em todos os tempos, sobre o que não compreenderam, fabularam"
(M. DE MAIUCÁ).
OBSERVAÇÃO: Precedendo um gerúndio, a preposição em aparece nas
circunstâncias
de tempo, condição ou hipótese: "Ninguém, desde que entrou, em lhe chegando
o
turno, se conseguirá evadir à saída" (R. BARBOSA).
3) modo, meio:
Foi em pessoa receber os convidados.
Pagava em cheque tudo o que comprava.
4)a nova natureza ou forma em que uma pessoa ou coisa se converte,
disfarça, desfaz ou divide:
"O homem de juizo converte a desgraça em ventura, o tolo muda a fortuna
em
miséria" (ID.).
5) preço, avaliação:
A casa foi avaliada em milhares de cruzeiros,
(1) EipiFANio DiAs, GramdUca Elementar, 5 152, JúLIO MOREIRA, Estudos 11,
46-47.
291
#
336
6) fim, destinação:
Vir em auxílio. Tomar em penhor. Pedir em casamento.
OBSERVAÇÃO: Tem-se, sem maior exame, condenado este emprego da preposiçã
em como galicismo. Tem-se também querido evitar a expressão em questão,
por se
ter inspirado em modo de falar francês; mas é linguagem hoje comuníssima
e cor
infinitivo)
9) lugar para onde se dirige um movimento, sucessão, em sentido próprio
Saltar em terra. Entrar em casa. De grão em grão. Dar em doido (= chega
OB.svi- Xo: A língua Dadráo não aceita este emprego com os verbos vir,
chegar
preferindo a preposição a: Ir à cidade; chegar ao colégio.
10) forma, semelhança, significação de um gesto ou ação
mergulhando. ~ ." (C. NETo apud. S. DA SiLvFiRA, Liç6es, õ506-7
Denota posição intermediária no espaço ou no tempo, em sentid(
,,Entre o queijo e o café, demonstrou-me Quincas Borba que o sistema era
dest i âo da dor" (M. DE Assis, Brds Cubas, 301
Como as outras preposições, rege pronome oblíquo tônico, de modo
só e ode dizer entre mim e ti., entre ele e mim, entre você e mim, etc.
"'>-- -e vens is nedir-me adoraçóes quando entre mim e ti está a cruz ensan-
As pessoas cultas evitam exemplos como entre eu e tu, entre eu e êles
entre eles e eu e semelhantes. Deste último, em que o pronome reto não
vem junto da preposição entre ocorrem alguns exemplos literários que a
"Odeio toda a gente/ com tantas veras d'alma e tão profundamente/, que
me
ufano de ouvir que entre eles e eu existe/ separação formal" (A. F. DE
CASTILHO,
#
8) Para
337
Denota:
1) a pessoa ou coisa em proveito ou prejuízo de quem uma ação é praticada
(objeto indireto ou complemento nominal):
"Aborrecemos o absolutismo nos outros, porque o cobiçamos para nós
mesmos"
(M. DE MARICA).
"A preguiça nos maus é salutar para os bons" (ID.).
2) a pessoa a que se atribui uma opinião (objeto indireto):
"O pedir para quem não tem vergonha é menos penoso que trabalhar" (ID.).
3) fim, destinação:
"a filha deu-me recomenda" para Capitu e para minha mãe" (M. DE Assis
apud
S. DA SiLvEiRA, Liç6es, 509-b).
4) fim:
"O ambicioso, para ser muito, afeta algumas vezes não valer nada" (ID.).
5) termo de movimento, direção para um lugar com a idéia acessória de
demora ou destino:
Foi para Europa.
OBSERVAÇÃO: Denota apeiias o lugar onde em construções do tipo: Ele
agora para o Norte.
6) tempo a que se destina um objeto ou ação, ou para quando alguma
coisa se reserva:
"Faz para as matanças seis anos que você justou comigo uma porca por
4
moedas..." (CAmux), apud J. MoREiRA, Estudos, 11, 49).
Vou aí para as seis horas
9) Por (e Per)
Denota:
1) lugar por onde, em sentido próprio ou figurado:
"Tais eram as reflexões' que eu vinha fazendo, por aquele Valongo fora,
logo
depois de ver e ajustar a casa" (M. DF. Assis, Brds Cubas, 190).
2) meio:
Puxar pelo paletó, rezar pelo livro, segurar pelos cabelos, levar pela
mão, ler pelo
rascunho, contar pelos dedos, enviar pelo correio.
3) modo:
Repetir por ordem, estudar por vontade.
-Louvamos Por grosso, mas censuramos por miúdo" (M. DE MARICÁ).
293
#
338
4) distribuição:
Várias vezes por dia.
5) divisão, indicando a pessoa ou coisa que recebe o quinhão:
Distribuir pelos pobres, repartir pelos amigos, dividir por três a
herança.
6) substituição, troca, valor igual, preço:
Comer gato por lebre.
"O barão dizia ontem, no seu camarote, que uma só italiana vale por cinco
brasileiras" (M. DE Assis, Brás Cubas, 183).
7) causa, motivo:
"O amor criou o Universo que pelo amor se perpetua" (M. Dz MAiucÁ).
"Muitos se abstêm por acanhados do que outros fogem por virtuosos" (ID.).
8) nos juramentos e petições designando a pessoa ou cousa invocada para
firmar o juramento e para interceder.
jurar pela sua honra, pedir pela saúde de alguém (ENFÂNio DIAS, Gramática
Elementar,
õ 163-b).
9) em favor de, em prol de:
Morrer pela pátria, lutar pela liberdade.
10) tempo, duração:
"Qual é aquele que, assentado, por noite de luar e serena sobre uma fraga
marinha,
não sente irem-se-lhe os olhos ... ?" (A HERCULANo, Fragmentos,
159).
11) agente da passiva:
"As mulheres são melhor dirigidas pelo coração do que os homens Pela
razão"
(M. DE MARICA).
12)depois dos nomes que exprimem disposição ou manifestação de
disposição de ânimo para com alguma coisa-
"A paixão pelo jogo pressupõe ordinariamente pouco amor pelas letras"
(M. DE
MARICÁ).
OBSERVAÇÃO: Não procede mais o ter-se como errônea a construção com por,
nestes casos, porque, no português contemporáneo, o uso de de se
especializou no
sentido de genitivo objetivo. No português de outros tempos, amor de Deus
era
339
tanto o que consagramos a ele (genitivo objetivo) ou o que ele tem, o que
nos
consagra (genitivo subjetivo). Em lugar de amor pelas letras díz-se também
corretamente
amor às letras. Quando nos casos de genítívo objetivo e, 5correr
ambigüidade
OSCI
com o emprego da preposiçlo de, costuma-se substituir esr%reop çáo por
contra
(se o nome designa sentimento hostil) ou para com (se o sentimento é
benévolo):
Guerra contra os inimigos e respeito para com todos.
294
W_
#
13) fim (em vez de para):
Iorcejava por obter-lhe a benevoléncia, depois a confiança" (M. DF Assis,
Brás
Cubas, 194).
14)introduzindo o predicativo do objeto direto, denota qualidade, estado
ou conceito em que se tem uma pessoa ou coisa:
ele virá.
Ter alguém por sábio. Enviar alguém
por embaixador. Tenho por certo que
5 - CONCORDANCIA
Considerações gerais. Chama-se concordância ao fenômeno gramatical
que consiste em o vocábulo determinante se adaptar ao gênero, número
ou pessoa do vocábulo determinado.
A concordância pode ser nominal ou verbal. - Diz-se concordância
nominal a que se verifica em gênero e número entre o adjetivo e o pronome
(adjetivo), o artigo, o numeral ou o particípio (vocábulos determinantes)
e o substantivo ou pronome (vocábulos determinados) a que
se referem:
"O capitão rosnou alguma cousa, deu dous passos, meteu a mão no bolso,
sacou
um pedaço de papel, muito amarrotado; depois, à luz de uma lanterna, leu
uma ode
horaciana sobre a liberdade da vida marítima,, (M. DE Assis, Brds Cubas,
65).
Diz-se concordância verbal a que se verifica em número e pessoa entre
o sujeito (e às vezes o predicativo) e o verbo da oração:
340
"Os outros não sabendo o que era, falavam, olhavam, gesticulavam, ao tempo
que
ela olhava só, ora fixa, ora móbil, levando a astúcia ao ponto de olhar
às vezes para
dentro de si, porque deixava cair as pálpebras" (ID., ibid, 183).
"Chegando à rua, arrependi-me de ter saído" (ID., ibid.).
"Eram 2 de novembro de 1512" (A. HERCULANO, Fragmentos, 124).
A concordância pode ser estabelecida de vocábulo para vocábulo ou
de vocábulo para sentido. A concordância de vocábulo para vocábulo será
total ou parcial (também chamada atrativa), conforme se leve em conta
a totalidade ou o mais próximo dos vocábulos determinados numa série
de coordenação:
"Repeli-a, porque se me ofereciam vida e honra a troco de perpétua
infâmia"
(A. HERCULANO, EUriCO, 147).
O verbo ofereciam concorda com a totalidade do sujeito composto:
vida e honra.
"porque entre ele e Suintila... estd o céti e o inferno" (ID., ibid., 143).
295
#
Jk
I
I i ~
O verbo está concorda, atrativamente, com o sujeito mais próximo
(o céu) da série coordenada o céu e o inferno.
... via-se em todas as faces pintado o espantoso e o terror" (ID.,
Fragmentos, 124).
O verbo via e o adjetivo pintado concordam, por atração, com o
sujeito mais próximo da série o espanto e o terror.
"Quando a educação, os livros, e o sentir daqueles que nos odeiam, apagou
em
nossa alma o selo da cruz" (ID., ibid., 143).
O verbo apagou concorda, por atração, com o sujeito mais próximo
(o sentir daqueles) do sujeito composto, ainda que este venha anteposto
ao verbo.
A concordância de vocábulo para sentido se diz ainda concordância
"ad sensum" ou silepse :
"A plebe vociferava as mais afrontosas; injúrias contra D. Leonor: e
se chegassem
a entrar no paço, ela sem dúvida seria feita pedaços pelo tropel furioso"
(ID., ibid, 41).
341
O verbo vociferava concorda com o sujeito plebe que, sendo um coletivo,
pôde, pelo seu sentido de plural, levar ao plural o verbo chegassem.
"Era gente colectícia, muitos, acaso, sem pátria da guerra, e por isso
pouco
habituados a resignar-se com as várias e tediosas fases de um assédio"
(ID., apud
Fragmentos, 51).
O termo gente, de sentido coletivo, é o responsável pela flexão masculina
de muitos e habituados, por se levar em conta a idéia de soldados
contida no vocábulo gente.
Concordância nominal
A - Concordância de vocábulo para vocábulo
a) Há um só vocábulo determinado.
O vocábulo determinante irá para o gênero e número do vocábulo
determinado:
"Aflige-nos a glória alheia contestada com a nossa insignificância" (M.
DE MARICÁ).
"Os bons exemplos dos pais são as melhores liçôes e a melhor herança
para os
filhos" (ID.).
"Eu amo a noite solitária e muda" (G. DIAS, Obras Poéticas, 1, 314).
Eu estou quite. Nós estamos quites.
b) Há mais de um vocábulo determinado.
Observar-se-ão os seguintes casos:
1.0) Se os vocábulos determinados forem do mesmo gênero, o vocábulo
determinante irá para o plural e para o gênero comum, ou concor-
Male
#
rdará,
principalmente se vier anteposto, em gênero e número com o
mais próximo:
Amava no estribeiro-mor as virtudes e a lealdade nunca desmentidos" (R.
DA
SILVA, Contos e Lendas, 124).
"O tom e gesto caricioso, com que ela dizia isto, não moveu medianamente
o esposo-
(CAMILO, Queda dum Anjo, 158).
"e os nossos Basílio e Durão, bem assim o Sr. Magalhães..." (0. MENDES,
Firgílio
Brasileiro, 72) (1).
OBSF.RVAÇõES:
342
1.a) É injusta a crítica do gramático E. Carlos Pereira (Gramática
Expositiva,
õ427, 3, nota) aos seguintes exemplos: "... a mão esquerda, entre cujos
índice e
polegar pendia o pergaminho_" (A. HERCULANO, M. de Cister, 11, 24) e "...
pelas
exigências cada vez maiores destas devoradas e insacidveis fome e sede
de leitura" (A.
F. DE CAsTiLHo, Fastos, 1, 315).
2.a.) Precedendo um substantivo (título ou prenome), ocorre o plural:
Os irmãos
Pedro e Paulo. Os apóstolos Barnabé e Paulo.
2.0)Se os vocábulos determinados forem de gêneros diferentes, o vocábulo
determinante irá para o plural masculino ou concordará em
gênero e número com o mais próximo:
"Vinha todo coberto de negro: negros o elmo, a couraça e o saio" (A.
HERCULANO,
rurico, 107).
"Como se um grande incêndio devorasse as brenhas e os carvalhais antigos"
(ID.,
ibid., 86).
"Caiada a natureza, a terra e os homens" (G. DIAS, Obras Poéticas, 1,
315).
OBSERVAÇÃO: Por uma questão de agrado auditivo (eufonia), prefere-se
que
numa série de vocábulos determinados de gêneros diferentes ~ida de
vocábulo
determinante no masculino plural, venha o determinado masculino em último
lugar.
c) Há um só vocábulo determinado e mais de um determinante.
O vocábulo determinado irá para o plural ou ficará no singular, sendo,
neste último caso, facultativa a repetição do artigo: As literaturas
brasileira
e portuguesa ou A literatura brasileira e portuguesa ou A literatura
brasileira e a portuguesa.
" e os cronistas tudense e toledano fazem começada a luta dos dous reis
depois
daquele consórcio" (A. HERCULANO, H. de Portugal, 111, 86).
"Li um anúncio, convidando mestra de línguas inglesa e francesa para
o colégio"
(CAMILO, A Queda dum Anjo, 128).
(1) Comenta com razão SouSA DA SILVEM (Trechos Seletos, 251 da 4.a ed.):
"O possessivo
no plural, determinando dolo substantivos do singular, e evitando assim
o Impreciso de "o nosso
Basílio e Durgio" e o pesado de "o nosso Basílio e nosso Durão". Cf.: "Os
mesmos Pitt e Napolelo,
apesar de precom, não foram tudo aos vinte e um anos" (M. oz Aim,
Papéis
343
Avulsos, 88).
297
#
B - Concordância de vocábulo para sentido.
O vocábulo determinante pode deixar de concordar em gênero e
número com a forma do vocábulo determinado para levar em consideração,
apenas, o sentido em que este se aplica: o (vinho) champanha, o (rio)
Amazonas.
Entre os diversos casos desta concordância pelo sentido aparecem os
seguintes:
1) as expressões de tratamento do tipo de V. Ex.a, V. S.a, etc.:
V. Ex.a é atencioso (referindo-se a homem)
{ atenciosa (referindo-se a mulher)
2) a expressão a gente aplicada a uma ou mais pessoas com inclusão
da que fala:
"Pergunta a gente a si próprio (refere-se a pessoa de sexo masculino)
quanto
levaria o solicitador ao seu cliente por ter sonhado com o seu negócio"
(PINHEIRO
CHAGAS apud MÁmo BAwaTo, Vitimos Estudos, 413) (1).
3) o termo determinado é um coletivo seguido de determinante em
gênero ou número (ou ambos) diferentes:
"Acocorada em torno, nus, a negralhada miúda, de dois a oito anos" (H.
DE
CAMPOS, Memórias, 84).
Note-se que acocorada e miúda concordam com a forma gramatical
de negralhada, enquanto nus o faz levando em conta o seu sentido
grupo de negrinhos de dois a oito anos).
4) o vocábulo determinado aparece no singular e mais adiante o
determinante no plural em virtude de se subentender aquele no plural:
"Não compres livro somente pelo título: ainda que pareçam bons, são
muitas
vezes péssimos" UOÃO RIBEIRO, Gramática Portuguesa, 321).
"Mas não nos constou em que ano começou nem quantos esteve com ele" (FR.
LUIS DE SOUSA apud JoÃo RIBELRO, ibid.) (2).
C - Outros casos de concordância nominal.
1) Um e outro, nem um nem outro. - Com um e outro, nem um
nem outro põe-se no singular o determinado (substantivo), e no plural
ou singular o verbo da oração, quando estas expressões aparecem como
sujeito:
(1) Está correto neste caso também o emprego da concordáricia com a forma
344
gramatical
do vocábulo determinado: "Com estes leitores assim previstos, o mais
acertado e modesto é
a gente ser sincera" (CAmmo apud M. BARRETO, ibid., 411).
(2) Pode ocorrer a aparente discordáricia entre um nome e um pronome:
"Luís escreveu
uma ode admirável como sabia escrevé-las" (JoÃo RiBirao).
298
#
Ir"-
"Parou um momento e, olhando para um e outro lado, endireitou a carreira
IA. HERCULANO, Eurico, 107).
---Masuma e outra cousa duraram apenas rápido instante" (ID., ibid., 218).
Com nem um nem outro é de rigor o singular para o substantivo e verbo:
em um ne outro livro merece ser lido.
Se as expressões um e outro, nem um nem outro se aplicarem a nomes
de géneros diferentes, é mais comum o emprego das formas masculinas:
"Ali teve el-rei escondido algum tempo, e lá começaram os seus amores
com
rainha, que tão fatais foram para um e outro" (A. HERCULANO, Fragmentos,
35).
"Renousavam bem Derto um do outro a matéria e o espírito" (ID., Eurico,
44)
2) Mesmo, próprio, só. C d om. o vocábulo determinado
em gênero e número: ,
Ele mesmo disse a verdade. Ela mesma disse a verdade.
Elas próprias foram ao local
xTA- não estamos sós
"Eles sós se encaminham para essa parte...
" (A. HERCULANO, EUriCO, 153).
Em língua literária, ocorre o adjetivo só variável onde no colóquio se
prefere usar do advérbio só, portanto invariável:
.1 iJA A . - -*- lutar no seu rosto
com
as rosas da mocidade" (A. F. GASTILHO, Revista Lisbonense, rt.0 24).
345
Mesmo, além de se empregar na idéia de identidade (= em pessoa)
aparece ainda como sinônimo de próprio, até :
"ao mesmo demônio se deve fazer Justiça, quando ele a tiver" (Pe. ANTóNIO
VIEIRA
apud EPIFÂNto DIAS, Sintaxe Histórica, õ 86-a).
agora (aqui mesmo, já mesmo, agora mesmo) tacilitaram. o aparec me .. o
moderno do vocábulo como advérbio, modo de dizer que os puristas con-
P -1
"... vaidosos de seus apelidos, mas
de imitarem seus avoengos" (CAMILO, O
3) Leso. - É adjetivo, e não forma do verbo lesar, em construçõe
de tipo: crime de lesa-pátria, crime de leso-patriotismo. Por isso há de
concordar com o seu determinado em gênero e número:
---o - a substância não fosse Já um crime de leso-gosto e lesa-seriedade
ainda
por cima as pernas saíam sobre as botas" (CAMILO, Queda dum Anjo, 83)
(1) O mesmo Camilo reprovou a um amigo tal prática de linguagem: "Se
fizeres terceira
ediçáo deves purificá-la das palavras mesmo como advérbio, posto que
tenhas um exemplo em
CAmórs e tros em D. FRANCISCO MANUEL DE MELO"
(Correspondéncia Ia11 167
#
#
4 Anexo. - Anexo, como adjetivo, concorda com o vocál)ulo determião
em gênero e número:
Correm anexos aos processos vários documentos.
Vai anexa a declaração solicitada.
5) Meio. - Como numeral, concorda em gênero e número com o
vocábulo determinado claro ou oculto:
"Para aquilatar a importáncia do tropeiro, basta lembrar que o Brasil
tem cerca
de oito e meio milhões de quilômetros quadrados de superfície ... " (AFONso
346
ARINOS,
História e Paisagens, 102).
Era meio-dia e meia (i. é: e meia hora).
6) Possível. - Com o mais possível, o menos possível, o melhor possivel,
o pior possível, quanto possível, o adjetivo possível fica
invariável,
ainda que se afaste do vocábulo Mais :
Paisagens o mais possível belas.
Paisagens o mais belas possível.
Paisagens quanto possível belas.
Com o plural os mais, os menos, os piores, os melhores, o adjetivo
possível vai ao plural:
Paisagens as mais belas possíveis.
Estão erradas concordâncias como
paisagens as mais belas possível.
Fora destes giros, a concordância de possível se processa normalmente:
"As alturas e o abismo são as fronteiras dele: no meio estão todos os
universos
Possivei0 (A. HERCULANO, Fragmentos, 160).
7) A olhos vistos. - É tradicional o emprego da expressão a olhos
vistos no sentido de claramente, visivelmente, em referência a nomes femininos
ou masculinos:
"... padecia calada e definhava a olhos vistos" (M. DF, Assis, Papéis
Avulsos,
13, apud. Tradições Cldssicas, 370).
Mais rara, porém correta, é a concordância de visto com a pessoa ou
coisa que se vê:
"As minhas forças medravam a olhos vistas de dia para dia" (CASTILHo
apud C.
RiBEixo, Serões Gramaticais, 554).
"O barão desmedrara a olhos visto" (CAmiLo, apud JoÃo CuRioso, Camilo,
32).
300
#
lpp~
i
347
8) É necessário paciência. - Com as expressões do tipo é necessário,
é bom, é preciso, o adjetivo pode ficar invariável qualquer que seja o
gênero e o número do vocábulo determinado, quando se deseja fazer uma
referência de modo vago ou geral:
É necessário paciência.
É possível ainda, em tais casos, aparecer no singular o próprio verbo
da oração:
"É doce ao velho
Sons d'argentina voz" (G. DIAS apud S. SILVEIRA, Lições de Português,
254).
9) Alguma coisa boa ou alguma coisa de bom. - Em alguma coisa
boa o adjetivo concorda com o vocábulo determinado:
"Quem tivesse reparado em Fr. Vasco perceberia facilmente que na sua
alma se
passava também alguma cousa extraordinária" (A. HERCULANO aputi M.
BARRETO,
Factos, 144).
Em alguma coisa de bom não concorda com coisa, sendo empregado
neutralmente (como algo de novo, nada de extraordinário, etc.).
Por atração pode-se fazer a concordància do adjetivo com o vocábulo
determinado que funciona como sujeito da oração:
"Que tinha pois, Ricardina, de sedutora ?" (CAMiLo apud, M. BARRETO,
Op.
laud., 146).
"Amor próprio do vilão; que a infâmia nada tinha de engenhosa" (ID.,
ibid.).
10) Um pouco de luz e uma pouca de luz. - Ao lado da construção
normal um pouco de água pode ocorrer a concordáncia atrativa uma
pouca de luz, por se haverem fundido numa só expressão as duas seguintes
maneiras de dizer: pouco de luz + pouca luz (1):
"e aos pés deles os fiéis que obtinham para última jazida uma pouca de
terra. .
(A. HFRCULANO, Eurico, 154).
11) Concordância do pronome. - O pronome, como vocábulo determinante,
concorda em gênero e número com o vocábulo determinado.
Emprega-se o pronome oblíquo os em referência a nomes de diferentes
géneros:
"A generosidade, o esforço e o amor ensinaste-os tu em toda a sua
sublimidade"
(A. HERCULANO, ibid., 35).
12) Nós por eu, vós por tu. - Empregando-se vás em referência a
uma só pessoa, põe-se no singular o adjetivo:
-Sois injusto comigo" (A. HERCULANO apud EMÂNio DIAS, Sint. Hist,
õ14-b).
(1) Dá-se ao fenómeno o nome de contaminação ou cruzamento sintático. Cf.
pág. 331.
301
348
#
1, , 1
Ao se empregar, em idênticas condições, o pronome nós, o adjetivo
pode ficar no singular ou ir ao plural:
Antes sejamos breve que prolixo.
"Entre o desejo de alimentar a curiosidade do leitor e o receio de faltar
à exação
histórica, hesitávamos perplexos" (A. HERCULANO, ibid.).
13) Alternância entre adjetivo e advérbio. - Há casos em que a
língua permite usar ora o advérbio (invariável) ora o adjetivo (vari"Vamos
a falar sérias"(CAMiLo apud. M. BARRETo, Novos Estudos, 265) (adjetivo).
Vamos a falar sério (advérbio).
"Os momentos custam caros" (R. DA SILVA, ibid.) (adjetivo).
Os momentos custam caro (advérbio).
"Era esta a herança dos miseráveis, que ele sabia não escassearem na
quase solitáría
e meia arruinada Cartéia" (A. HERCULANO, EUriCO, 12).
A distinção entre adjetivos e advérbios só se dá claramente quando
o vocábulo determinado está no feminino ou no plural, onde a flexão nos
leva a melhor interpretar o termo como adjetivo.
Notemos, por fim, que alerta é rigorosamente um advérbio e, assim,
não se deve flexionar:
Estamos todos alei-ta.
Há uma tendência para se usar deste vocábulo como adjetivo, mas
a língua padrão recomenda se evite tal prática.
14) Particípios que passaram a preposição e advérbios. - Alguns
particípios passaram a ter emprego equivalente a preposição e advérbio
(como, por exemplo, exceto, salvo, mediante, nio obstante, tirante, etc.)
e, como tais, normalmente devem aparecer invariáveis. Entretanto, não
se perdeu de todo a consciência de seu antigo valor, e muitos escritores
procedem à concordância necessária:
,, Os tribunais, salvas exceções honrosas, reproduziam... todos os
defeitos do sistema"
(R. DA SILVA, História de Portugal, IV, 67).
"A iazão desta diferença é que a mulher (salva a hipótese do cap. ci
e outras)
entrega-se por amor. . . " (M. DE Assis, Brás Cubas, 327).
Como bem pondera Epifánio Dias, flexionar tais vocábulos
"é expressar-se na verdade com correção gramatical, mas de modo
desusado" (Sint.
histórica, % 220-a).
15) A concordância com numerais. - Quando se empregam os cardinais
pelos ordinais, não ocorre a flexão:
349
Página um. Figura vinte e um.
OBsER%AçÃo: Na linguagem jurídica diz-se: A folhas vinte e uma. A folhas
quarenta e duas.
302
r"
#
CotirnrdAncia verbal
A - Concordíncia de vocábulo para vocábulo
a) Há um só sujeito
que seja um coletivo:
1) Se o sujeito for simples e singular, o verbo irá para o singular, ainda
"A vida tem uma só entrada: a saída é por cem portaC (M. DE MARICÁ)
2) Se o sujeito for simples e plural, o verbo irá para o plural:
"Os bons conselhos desprezados sdo com dor comemorados" (ID.).
"A virtude aromatiza e purifica o ar, os vícios o corrompem" (ID.).
"Povo sem lealdade não alcança estabilidade" (ID.).
b) Hd mais de um sujeiu
Se o sujeito for composto, o verbo irá, normalmente, para o plural,
qualquer que seja a sua posição em relação ao sujeito:
*'... os ódios civis, as ambições, a ousadia dos bandos e a corrupçâo
dos costu
liaviam feito incríveis progressos" (A. HEILCULANo, Eurico, 21).
"Repeti-as, porque se me ofereciam vida e honras a troco de perpétua
infância"
(ID., ibid., 144).
i ORSERVACUS:
1 a) Pode dar-se a concordância com o núcleo mais próximo, principalmente
se
sujeito vem depois do verbo: "O romeiro é livre como a ave do céu:
respeitam-no o
besteiro e o homem d'armas: dá-lhe abrigo o vilão sob o seu colmo, o abade
no
2.a) Quando o núcleo é singular e seguido de dois ou mais adjuntos
350
verbo no plural, como se tratasse na realidade de sujeito composto:
"ainda quando a autoridade paterna c materna fossem delegadas..." (A.
GARRETT,
3.a) Nas obras com mais de um autor adota-se modernamente o hábito alemão
de se indicar a autoria com os nomes separados por hífen, caso em que o
verbo da
oração vai ao plural ou ao singular (levando-se, neste caso, apenas em
conta a obra
em si): Meillet-Ernout dizem (ou diz) no seu Dictionnaire Etymologique
- que a
Quando o sujeito simples é constituído de nome ou pronome que
se aplica a uma coleção ou grupo, pode o verbo ir ao plural. A língua
moderna impõe apenas a condição estética, uma vez que soa geralmente
#
Se houver, entretanto, distância suficiente entre o sujeito e o verbo
e se quiser acentuar a idéia de"plural do coletivo, não repugnam à sensibilidade
do escritor exemplos como os seguintes:
"Começou então o povo a alborotar-se, e pegando do desgraçado cético
o arrastaram
até o meio do rossio e ali o assassinaram, e queimaram, com incrível
presteza" (A. HERCULANo,
Fragmentos, 83).
"Faça como eu: lamente as misérias dos homens, e viva com eles, sem
participar-lhe
dos defeitos; porque, meu nobre amigo, se a gente vai a rejeitar as relações
das famílias,
justa ou injustamente abocanhadas pela maledicéncia, a poucos passos não
temos quem
nos receba" (CAMILO, A Queda dum Anjo, 64).
C - Outros casos de concordância verbal.
1) Sujeito constituído por pronomes pessoais.
Se o sujeito composto é constituído por diferentes pronomes pessoais
em que entra eu ou nós, o verbo irá para a 1.a pessoa do plural:
"vínhamos da missa,ela, o pai e eu" (M. nF, Assis, Brds Cubas, 309).
Se na série entra tu ou vós e nenhum pronome de 1,a pessoa, o verbo
irá normalmente para a 2.a pessoa do plural:
"E, assim, te repito, Carlota, que Francisco Salter voltará, será teu
marido, e
tereis (i. é, tu e ele) larga remuneração dos sofrimentos que oferecerdes
a Deus. . . "
(CAMILO, Carlota Angela, J9).
351
OBSERVAÇÃO: ou porque avulta como idéia principal o último sujeito ou
porque,
tia língua moderna, vai deiaparecendo o tratamento vós, pode, nestes casos,
o verbo
aparecer na 3.a pessoa do plural:
"quando tu e os outros velhacos da tua laia lhe estorroaram na cara lixo
e terra.. .
(A. HERCULANO, Monge de Cister, 1, 152, apud S. ALI, Gram. Histórica, 11,
69).
2) Sujeito ligado por série aditiva enfática.
Se o sujeito composto tem os seus núcleos ligados por série aditiva
enfática (não só... mas, tanto ... quanto, não só... como, etc.), o verbo
concorda com o mais próximo ou vai ao plural (o que é mais comum
quando o verbo vem antes do sujeito):
"Tanto o lidador como o abade haviam
com toda a precaução" (A. HERCULANO, O Bobo, 184).
3) Sujeito ligado por com.
seguido para o sítio que ele parecia buscar
Se o sujeito no singular é seguido de outro no singular ou no plural
através da preposição com, pode o verbo ficar no singular, ou ir ao plural
para realçar a participaçjo simultdnea na açjo :
304
#
Ir-
"El-rei, com toda a corte e toda a nobreza, estava fora da cidade, por
causa
peste em que então Lisboa ardia" (A. HERCULANO, Fragmentos, 84).
"Estas exDlica~ não evitaram nue o desembar dor --
1 O5"us
prognosticassein o derrancamento, do morkado da Agra..." (CAMILO, A Queda
dum
Avio, 108).
Em lugar de com pode aparecer outra expressão de sentido aditiv
"Nesta conjuntura, um deputado dileto da rainha, por nome Antônio José
da
Silva Peixoto, coadjuvado pele foliculdrio José Acúrsio das Neves,
levantaram-se
prorromperam em "vivas"... (CAMILo apud. M. ~RETO, Novos Estudos, 206).
4) Sujeito ligado por nem. .. nem.
O sujeito composto ligado pela série aditiva negativa nem ... nem
352
1.--- ^ 11 1
--- o norma mente ao niural e, as vezes ao singular:
"É a nobre dama recém-chegada, à qual nem o cansaço de trabalhosa
jornada,
nem o hábito dos cômodos do mundo puderam impedir..." (A. HERCULANO, Eurico,
136).
... "nem Deus, nem o mundo lhes dará a mínima recompensa" (ID., Fragmentos,
16).
5) Sujeito ligado por ou.
O verbo concordará com o sujeito mais próximo se a conjunção
indicar:
a) exclusão:
"a quem a doença ou a idade impossibilitou de ganharem o sustento " (A
HERCULANO, Fragmentos, 16).
b) retificação de mímero gramatical
Xantares é o nome que o autor ou autores do Cancioneiro chama
dos Nobres dão a cada um dos poemetos.
c) identidade ou eauivalência :
" (ID., O Bobo, 131)
O professor ou o nosso segundo pai merece o respeito da pátria
Se a idéia expressa pelo predicado puder referir-se a toda a série o
sujeito composto, o verbo irá para o plural:
"A nulidade ou a validade do contrato... eram assunto de direito civil"
HERCULANO, apud Fragmentos, 20).
6) Sujeito representado por expressão como a maioria dos homens.
Se o sujeito é representado por expressões do tipo de a maioria de,
a maior parte de, grande parte de, parte de e um nome no plural, o verbo
irá para o singular ou plural:
11 a maior parte deles recusou segui-lo com temor do poder da regente"
(A,
HERCULANO, Fragmentos, 38).
#
7) A concorddncia do verbo ser.
a) Se o sujeito é constituído por um dos pronomes isto, isso, aquilo,
tudo e o verbo da oração é ser seguido de predicativo no plural, o verbo
353
vai para o singular ou plural, sendo este último caso o mais freqüente-
"A pátria não é ninguém: sgo todos" (RUI BARWSA, Discurso no Colégio
Anchieta, 11).
"Justiça é tudo, justiça é as virtudes todas" (A. GAR=, Educação, 45).
b) Se o sujeito denota pessoa, o verbo ser concorda com o sujeito,
qualquer que seja o número do predicativo:
Ela era as preocupações do pai.
c) Se o sujeito da oração que denota identificação é expresso por
substantivo e o verbo é ser seguido de pronome pessoal, o verbo concorda
em número e pessoa com este último-
Os responsáveis somos nós.
d) Nas orações interrogativas iniciadas pelos pronomes quem, que, o
que, o verbo ser concorda com o nome ou pronome que vier depois:
O que são comédias P (CAMJLO, A Queda dum Anjo, 40).
Quem eram os convidados?
e) Nas orações em que aparecem expressões como é muito, é pouco,
é mais de, é tanto seguidas de determinação de preço, medida ou quantidade,
o verbo ser é empregado no singular:
Três mil cruzeiros é pouco pelo serviço.
õ 473).
f) Nas orações que exprimem horas, datas, distáricias, o verbo ser
concorda com a expressão numérica:
"Eram quatro de agosto, quando se encontraram" (A. HERCULANo, FragmenIns.
70).
Da cidade à ilha são vinte quilômetros.
"Eram as horas da treva profunda" (ID., Eurico, 52).
Com a expressão perto de se encontra às vezes o singular-
"Era perto de duas horaV (M. DE Assis, apud S. SILVEMA, Liç6es de Português,
g) Na expressão era uma vez um rei, que introduz narrações, pode-%-e
considerar o verbo como intransitivo (com sujeito um rei), ou como
transitivo direto sem sujeito (= havia uma vez um rei). No primeiro
caso, o verbo concorda com o sujeito se não houver a expressão uma vez :
M as:
Era um rei.
Eram um rei e uma rainha.
Era uma vez um rei e uma rainha.
306
354
T
8) A concorddncia com mais de um.
Depois de mais de um o verbo é em geral empregado no singular
"... mais de um poeta tem derramado..." (A. HERCULANO, Fragmentos, 155)
"Mais de um coração de guerreiro batia apressado_" (ID., ibid, 169).
"Sei que há mais de um que não se envergonharam dela" (ID., ibid.).
Nas orações exclamativas com que de (= que quantidade de) seg
de substantivo no Dlural o verbo vai ao plural:
Se o sujeito for constituído de um pronome plural de sentido partitivo
(quais, quantos, algumas, nenhuns, muitos, poucos, etc.), o verbo con
corda com a expressão Partitiva introduzida Dor de ou dentre :
"Quais dentre vós... sois neste mundo sós e não tendes quem na morte
regu
com lágrimas a terra que vos cobrir? Quais de vós sois, como eu, desterrados
no meio
do gênero humano? (A. HERCULANO, Eurico, 188-9).
"quantos dentre vós estudam conscienciosamente o passado?" UOSÉ DE ALENCAR
a) Se o sujeito da oraçãoé,o pronome relativo que, o verbo concorda
com o antecedente, desde aue este não funcione como nredicativo de
"Não gastava ele as horas que lhe sobeia m do ercício do seu laborioso
minis.
tério numa obra do senhor?" (A. HERCULANO, Eurico
18).
"Ô tu, que tens de humano o gesto e o peito" (CAMõEs, Lusiadas, 111, 127).
b) Se o antecedente do pronome relativo funciona como predicativo,
o verbo da oração adjetiva pode concordat com o sujeito de sua principal
ou ir para a 3.a pessoa (se não se quer insistir na Intima relação entre
o
I
"já que não me é dado buscar-te, serás tu que virds lançar-te nos braços
do te
"Sou eu o primeiro que não sei classificar este livro" (ID., ibid., 311).
'Irarnos dois sócios, que entra m no comércio da vida com diferente
355
canítal'
~(M. uE Assis, apud S. SILVFiRA, Liç6es de Português, õ461)
#
c) É de rigor a concordància do verbo com o sujeito de ser nas expressões
de tipo sou eu que, és tu que, foste tu que, etc. (era prática da
língua
até fins do séc. xviu usar um pronome demonstrativo como antecedente
do relativo : sou eu o que, etc.):
"Não fui eu que o assassinei" (A. HERCULANO, apud SAID ALI, (.ram.
Histórica,
11, 75).
"Foste tu que me buscaste" (ID., íbid.).
d) Se ocorrer o pronome quem, o verbo da oração subordinada vai
para a 3.a pessoa do singular, qualquer que seja o antecedente do relativo,
ou concorda com este antecedente('):
"Eram as paixões, os vícios, os afetos personalizados quem fazia o
serviço dos
seus poemas" (A. HERCULANO, apud SAiD ALI, ibid., 77).
"És tu quem dás rumor à quieta noite,
És tu quem dás frescor à mansa brisa,
Quem dds fulgor ao raio, asas ao vento,
Quem na voz do trovão longe rouquejas" (G. DiAs, apud SAiD ALI, ibid.).
e) Em linguagem do tipo um dos.. . que, o verbo da oração adjetiva
pode ficar no singular (concordando com um) ou no plural (concordando
com o termo no plural), prática, aliás, mais freqüente.
"Este era um dos que mais se doíam do procedimento de D. Leonor" (A.
HERCULANO,
Fragmentos, 37).
"Um dos nossos escritores modernos que mais abusou do talento, e que
mais
portentos auferiu do sistema..." (ID., ibid, 46).
O singular é de regra quando o verbo da oração só se aplica ao seletivo
um.
Assim nos dizeres "foi um dos teus filhos que jantou ontem comigo", "é
uma das
tragédias de Racine que se representará hoje no teatro", será incorreto
o emprego do
número plural; o singular impõe-se imperiosamente pelo sentido do
discurso" (E.
CARNEIRO RIBEIRO, Redação do Projeto 763, ed. 19055).
12) A concorddncia com os verbos impessoais.
singular:
Nas orações sem sujeito o verbo assume a forma de 3.a pessoa do
Há vários nomes aqui.
Deve haver cinco premiados.
356
Não o vejo hd três meses.
Não o vejo faz três meses.
OBSEMAÇÃO: Os exemplos literários que se encontram de tais verbos no
plural
não ganharam foros de cidade: "Houveram alguns que alumiados da graça do
Espírito
Santo abraçaram o culto e a fé de Cristo" (FILINTO EUSIO, Vida e Feitos
dTI-Rei
D. Manuel, 1, 20).
"Houveram coisas terríveis" (CAMiLo, apud. JoÃo CURIOSO, Camilo, 1, 98.)
(1) Sobre esta última possibilidade comenta SAro ALI: "À força de
combater-se unia concordância
que não é mais do que o corolário de um fenômeno de sintaxe
histórica portuguesa
fundada em sintaxe latina, tem desaparecido da linguagem literária o
emprego de quem com
verbo em 1.& e 2.4 pessoa, vigorando todavia a antiga concordáricia desde
que se empregue
que em lugar de quem" (op. laud.).
308
#
num&ica:
13) A concordância com dar (e sinônimos) aplicado a horas.
Se aparece o sujeito relógio, com ele concorda o verbo da oração:
O relógio deu duas horas.
Não havendo o sujeito relógio, o verbo concorda com a expressão
No relógio deram duas horas.
14) A concordância com o verbo na passiva pronominal.
A língua padrão exige que o verbo concorde com o termo que a gramática
aponta como sujeito (Cf. pág. 104):
Alugam-se casas.
Vendem-se apartamentos.
Fazem-se chaves.
15) A concordância na locução verbal.
Havendo locução verbal cabe ao verbo auxiliar concordar com o
sujeito:
"Bem sei que me podem vir com duas objeçôes que geralmente se costumam
faze?."
(Colóquios Aldeões, apud M. BARRETo, Novos Estudos, 215).
357
Se se considera costumar' fazer como dois verbos principais sem que
haja locução verbal, o costumar terá como sujeito a 2.a oração que, considerada
materialmente, vale como substantivo do número singular (cf.
pág. 112, nota final):
"Não se costuma Punir os erros dos súditos sobre,a efígie venerável dos
monarcas"
(R. DA SILVA, apud M. BARRETO, ibid.).
: . Assim se poderá dizer:
As estrelas parecem brilhar (loc. verbal)
{ parece brilharem ( = parece brilharem as estrelas)
Em as estrelas parecem brilharem temos a contaminação sintática das
duas construções.
Com poder e dever seguidos de infinitivo, a prática mais generalizada
é considerar a presença de uma loc. verbal:
"Quando, porém, o sentido determinar exatamente o sujeito verdadeiro,
a concordância
não pode ser arbitrária. Ex.: Quer-se inverter as leis, e nunca
querem-se
inverter as leis. Neste caso é evidente que o único sujeito possível. é
inverter" (Jolo
RIBEiRo, Gramática Portuguesa, 322).
309
#
J
16) A concordância com a expressão não (nunca) ... senão.
O verbo concorda com o termo que se segue a senão :
"Ao aparecer o dia, por quanto os olhos podiam alcançar, não se viam
senão
cadáveres" (A. HERCULANo, Fragmentos, 117).
O mesmo ocorre com não (nunca) ... que (do que): Não se viam
mais que cadáveres.
17) A concorddneia com títulos no plural.
Geralmente se usa o verbo no Plural:
"Por isso, as Cartas Persas anunciam o Espírito das Leis" (M. BARRETO,
trad. (ias
Cartas Persas, XII).
358
Com o verbo ser e predicativo no singular pode ocorrer o singular:
"as Cartas Persas é um livro genial..." (ID., ibid.).
18) A concordância no aposto.
Quando ocorre o aposto resumitivO, através de tudo (nada, ninguém,
etc.) o verbo concorda com este, e não com o sujeito-
Alegrias, tristezas, saudades, nada o fazia chorar.
6 - REGÊNCIA
Ao que dissemos no capítulo sobre complementos verbais e nominais
e emprego de preposição, cumpre acrescentar os seguintes principais casos:
1) Isto é para eu fazer. - Se a preposição seguida de pronome não
serve de introduzir este pronome (que funciona como sujeito), mas uni
infinitivo, usam-se as formas retas eu e tu, e não mim e ti
Isto é para mim (a preposição introduz o pronome).
Isto é para eu fazer (a preposição introduz o infinitivo: isto é, para
que eu faça).
2) Pedir para. - O verbo pedir pede objeto direto de coisa pedida
e indireto de pessoa a quem se pede-
Pedi-lhe (obj. indireto) um favor (obj. direto)
Se o objeto direto é licença (ou equivalente), pode-se acrescentar uma
oração adverbial de fim que indique o objetivo do pedido:
Pediu-lhe licença para sair (ou para que saísse)
310
#
Este objeto direto licença pode calar-se, mas o sujeito de pedir s
mesmo do verbo da subordinada:
A linguagem coloquial aproximou as idéias de pedir que algo aconteça
(oração objetiva direta) e trabalhar para que algo aconteça (oração adverbial
final), passando a usar a Dreposição Para a introduzir a
seria objeto direto do verbo Pedir:
Os gramáticos ainda não aceitaram a operação mental, apesar da
insistência com que penetra na linguagem das pessoas cultas. O novo modo
de expressão traz também uma ambigüidade, porque se fica sem saber qual
é, na realidade, o sujeito da oração subordinada. Ern:
359
custa-nos a dizer de pronto se quem sai é o mesmo Antônio ou José. O
gramático só considera a expressão correta se o sujeito for Antônio, mas
a linguagem coloquial constrói o período como se o sujeito fosse José,
pois
interDreta a oracão subordinada como obietiva direta: Antônio tiediu
Sob a alegação de que o objeto direto oracional não pode vir introduzido
por preposição (argumento, aliás, fraco pelo que vimos na página
237) é que gramáticos repudiam tal linguagem. Pode-se ver na construção
o para como posvérbio iniciando a oração objetiva direta para denotar o
3) Está na hora da onça beber ágtw. - A possibilidade de se por o
sujeito de infinitivo antes ou depois desta forma verbal nos permite dizer:
Este último meio de expressão aproxima dois vocábulos (a preposição
de e o artigo a) que a tradição do idioma contrai em da, surgindo assim
construção normal que não tem repugnado os ouvidos dos que melhor
conhecem e escrevem a língua portuguesa. Alguns gramáticos viram aí,
entretanto, um solecismo, pelo fato de se reger de preposição um sujeito.
Na realidade não se trata de regência preposicional do sujeito, mas do
contato de dois vocábulos que, por hábito e por eufonia, costumaram vir
incorporados na pronúncia. A lição dos bons autores nos manda aceitar
#
ambas as construções, de a onça beber água e da onça beber água. Que
a contração é possível mostram-nos os seguintes exemplos:
" - . . só voltou depois do infante estar proclamado regedor" (A.
HERCULANO, Fragmentos,
44); "Sabia-o, senhor, antes do caso suceder" (Itt., Lendas e
Narrativas, 1, 267):
"se, por exemplo, me concederem um monopólio do plantar couves, apesar
das couves
serem uma das espécies de legumes" (R. BARBOSA, apud PEDRo A. PINTO); "Pelo
fato
do verbo restituir, numa das suas acepçães, e entregar, em certos casos,
terem..." (E.
CARNEIRO RiBEiRo, Redação do Projeto do Código Civil, 579); "tio caso do
infinitivo
trater compl. direto" (EPIFÂNi<) DIAS, Sint. Histór., õ289-b),
Que não se trata de um erro tipográfico, mas de um fato da língua,
prova-o o seguinte fato: a contração constitui a norma na História de Portugal,
de Rebelo da Silva; na pág. 87 do vol iv, entretanto, escreveu:
"Nem o rei, nem o ministro apreciaram o perigo, senão depois de ele
declarado
e irremedidvel".
Na página de erratas, contudo, declara textualmente- "Onde se lê:
depois de ele leia-se depois dele (d'elle no original)".
360
Menos felizes são as pretensas correções que Rebelo Gonçalves (1)
propõe para:
"devido ao avião se ter atrasado", "pro menino ver", que se devem
substituir,
segundo ele, por: "devido a o avião", "pra o menino".
4) Migrações de preposição. - Com muita freqüência vê-se migrar
a preposição que deveria aparecer com o relativo para junto do antecedente
deste pronome:
Não sei no que pensar por
Não sei o cm que pensar
Destas migrações resultam giros mais agradáveis ao ouvido e que nos
afastam de certas durezas de estilo artificial a que nos poderia levar
a
construção rigorosamente gramatical, como se depreende dos seguintes
trechos de Rui Barbosa:
"Assim me perdoem, também, os a quem tenho agravado, os com quem hotiver
sido injusto, violento, intolerante_" (Oração aos Moços, 23); "e daí, com
estupenda
mudança, começa a deixar ver o a que era destinada_" (ibid, 36).
Estas migrações correm na língua literária apadrinhadas pelos seus
melhores representantes. Alexandre Herculano nos dá testemunho do fato:
"A barra é perigosa, como dissemos; porém a enseada fechada é ancoradouro
seguro,
pelo que (= o por que) tem sido sempre couto dos corsários de Berbéria"
(Fragmentos,
69); "... até o induzirem a mandá-lo sair da corte, ao que (= o a que)
D. Pedro
atalhou com retirar-se antes que lhe ordenassem" (ibid., 91).
(1) Tratado de ortografia Portuguesa, 286.287.
312
#
É interessante a posição da preposição de a introduzir o predicativo
"O aue Drecisamos é de bracos valorosos e de peitos resolutos" (REBELO
DA SI A
Note-se de passagem que, em construções como a do último exemplo
é Dossível haver O Dleonasmo da preposição, a qual aparece antes do termo
a que rigorosamente se prende e antes de de braços :
"O de que me não penitencio, é do esmero, bem ou mal sucedido, que pus
en
361
dar os cuidados que dei à forma, com que nos veio da cárnara o projeto"
(R. BAPBOSA
Réplica, apud M. BARRETO, Através do diciondrio, &a ed., 235 e ss.).
5) Complementos de termos de regência& diferentes. - O rigor gra
matical exige que não se dê complemento comum a termos de regênciE
de natureza diferente. Assim não podemos dizer, consoante este preceito
porque entrar pede a preposição em e sair a preposição de
Ao gênio de nossa língua, porém, não repugnam tais fórmulas abreviadas
de dizer, principalmente quando vêm dar à expressão uma agradável
concisão que o giro gramaticalmente lógico nem sempre conhede:
"Tenho-o visto ~ntrar e sair do Colégio de S. Paulo" (A. HERCULANO, Monge
de
Cister, 1, 154); "._ que se deduz daí a favor ou contra o direito de
propriedade
Estendem certos autores a proibição aos dizeres em que duas ou mai
preposições de sentido diferente, e até contrário, se referem a um só termo
1
Para tais autores devemos dizer: com vantagens ou sem elas, antes da
luta e de-bois dela, ou repetindo-se o substantivo como z M. de Assis em:
"Os gritos da vítima, antes da luta e durante a luta, continuavam a
repercutir
Salvo as situações de ênfase, como a que se depreende do trecho
acima, a língua dá preferência às construções abreviadas que a gramática
insiste em condenar, ainda que tenha o peso de ilustre sabedor como
6) Emprego de relativos precedidos de preposição. - O pronome
relativo exerce função sintática na oração a que pertence
#
a) Sujeito : O livro que está em cima da mesa é meu.
b) Obj. direto . O livro que eu li encerra uma bonita história.
c) Predicativo : Somos o que somos.
d) Objeto indireto: O livro de que precisamos esgotou-se.
e) Adjunto adverbial: O livro por que aprendeste a ler é antigo.
A casa em que moro é espaçosa.
O filme a que assististe saiu do cartaz.
f) Agente da passiva : Este é o autor por que a novela foi escrita.
As três primeiras funções sintáticas dispensam preposição enquanto
as três últimas a exigem. Deve-se evitar, em língua literária, o emprego
do relativo universal (cf. pág. 272).
362
7) Relação de regências de alguns verbos e nomes('):
A
Abalançar-se a
aborrecer-se com
abrigado de
absolver de
abster-se de
abundar em
abusar de
acautelar-se com
aceder a
acessível a
aceito a
acercar-se de
acomodar-se a
acontecer a, com
aconselhar a
acordar com
acusar de
adaptar a
adequado a
aderir a
admirar-se de, com, por
afastar' de
afável com, para com
afixar a
agradar a
agradável a
agradecer a
agregar-se a
ajudar a (e trans. direto)
ajuntar a, -se com
alhear-se de
alheio a
alimentar com, de
almejar por, (trans. direto)
aludir a
amante de
ameaçar com
amercear-se de
amigo de
amofinar-se com
amoroso COMI para com
análogo a
anelar por
ansiar por, (trans. direto)
ansioso de, por
antecipar-se a
antepor a
anterior a
apaixonar-se por, de
aparentado com
363
apartar de
apegar-se a
apelar para
(1) Gulamo-nos Pela relaçao que se encontra era ANTZNOIL
111, 35 e as.
314
aperceber-se de
apetrechar-se com
apiedar-se de
#
aplicar-se a
apoderar-se de
apoiar-se em
aportar a
aprender a
apressar-se a, em, por
aproveitar-se de
apto para, a
argüir de
arrancar (trans. direto)
aproximar-se a, de
arrepender-se de
arribar a
arrimar-se a
arriscar-se a
arrostar-se com
aspirar a ( = desejar)
trans. direto (= inspirar)
assemelhar-se a, com
assenhorear-se de
assentir a
assinalar com
assistir a (= presenciar)
assustar-se com
~Ta, Idioma Nacional,
#
atrever-se a, em
atribuir a
aumentar
ausentar-se de
autorizar a
avaliar em
avaro de
364
ao lugar)
cheio de
cheirar a
cheiro a, de
chorar por
cingir de, (-se) a
circunscrever-se a
circunvizinho de
clamar por
cobiçoso de
cobrar de
cobrir de
coetâneo de
coevo de, a
coexistir com
coincidir com
coligar-se com
combater contra, por
combinar com
começar a, por
comedir-se com, em
cometer a
compadecer-se de
comparar a, com
comparecer a
compatível com
compelir a
competir com, a
compor-se de
comprazer a, (-se) en
com
compreensível a
comprometer-se
comprovar com
comum a, de
comungar com
comunicar a
comutar em
concentrar em
concordar com, em
conforme a, com
concorrer a, com
conferenciar com
confessar a
confiar em, a
confinar com
conformar-se com,
conforme com, a
confrontar com
confundir-se com
congraçar-se com
congratular-se com
consagrar a
consentir em, tr. dir
365
considerar como
#
conspirar a, contra,
para
constante em
contagiar-se. com
contaminar-se de, com
contemporizar com
contemporâneo de
contender com, de
O alemáo tem dois verbos diferentes: rufen e heissen. já é muito corrente
no Brasil a cons
truçâo chamar de com obj. dir., contaminada de Outra$ como acusar, argüir
dC (A
#
contribuir para, com
convalescer de
conversar comQ)
convencer-se de
converter em, a
convidar a, para
convir a, com, em
convocar a, para
cooperar com, para
Dar a, em, com, por
decair de
decidir sobre
declarar-se contra
declinar a, para
declinar de
dedicar a
dedignar-se de
deduzir de
deitar-se a, em, sobre
deleitar-se com, em, de
denotar (tr. direto). a,
em
deparar com, (tr. direto)
depender de
dependurar de
depressivo de
derivar de
desafiar para, (tr. direto)
desagradar a
366
desagradável a
desalojar de
desapegar-se de
desapossar de
desapropriar de
desatar de, era
desatento a
desavir-se com
descansar com
descansar de
descartar-se de
descender de
Eleger por, em, como
embaraçar-se com
embeber de, em
coroar de, com
corresponder
com
corrigir-se de
cotejar com
crer em, a, (tr.
cristalizar em
cruel com, para
cuidadoso com
D
a, (-se)
direto)
com
descer de, a
#
desconfiar de
descontar de
descontente com
descuidar-se de
desculpar-se de, com
desdizer-se de
desejoso de
desembaraçar-se de
desempenhar-se de
desenganar-se de
desertar de
desesperar de
desfavorável a
desfazer-se de
desgostar-se de, com
367
designar-se de
desistir de
desleal a
desobedecer a
despedir-se de
despenhar de
despojar de
desprender de
desquitar-se de
destituir de
deter-se em, com
determinar-se a
dever (tr. direto); de (3)
devoto de
diferenciar de
diferente de
embelezar-se com
embevecer-se em, com
emboscar-se em
cuidar de, em, (tr. direto)
culpar de
cúmplice em
cumprir com, a(2)
curar-se de
curioso de
curtir-se em
difícil de
dignar-se de, a
digno de
diligente em, para
discordar de
discrepar em
disfarçar em
dispensar de, a
dispor de, -se a, para
disputar com
dissemelhante de
dissentir de
dissuadir de
distar de
distinguir de
distrair-se com
distribuir a, por, com,
entre
ditoso com
diverso de
divertir-se com
#
368
divorciar-se dedoce
a
dócil a
doente de
doer-se de
dotado de
dotar com, em
doutor em
duro de
duvidar de
embriagar-se de, com
embutir em
emendar-se de
(1) Usa-se também transitivo em Portugal, com o sentido de namorar, tratar
intimamente.
(2) Ou cumprir simplesmente.
(3) Sem a preposiçáo expríme obrígaçáo; com de, probabilidade. Ex.: roce
deve ter
capricho. Ela deve de ter cerca de quinze anos.
316
#
I P_
Fácil de
falar de, em, com, a,
sobre
faltar com, a
-falto de
fartar com, de
fatigar-se de, com
favorável a
fechar (-se) a
fecundo em
Gabar-se de
galardoar com
ganhar de, a
generoso com
glorificar-se de
gordo de
Hábil em habituado a
habilitar com, para haver-se com
habituar-se a herdar de
empapar de, em, com
empenhar-se por, em,
com
empregar-se com
369
emular com
êmulo de
encarar COM
encarregar de
encarniçar-se com,
contra
encharcar-se em
encher de
encomendar a
encontrar-se com
enfadar-se com
enfastiar-se de, com
enfatuar-se com
enfeitar-se com
enfermar de
enfurecer-se com, contra
engalanar-se com
enganar-se com, em
engenhar-se a
engolfar-se em
enlaçar-se em
enlear-se em
enraivecer-se contra
feder a
felicitar por
fértil de, em
fiar-se em, de
fiel a
fincar-se em
firme em
florescer em
folgar de, em
formar-se em
gostar de
gostoso a
gozar de
#
graduar-se em
grande de
grato a
317
enredar-se em
ensaiar-se em, para
ensinar a
entender de
entendido em
entregar-se a
entreter-se com
370
entristecer-se com, de
envaidar-se com, por
envelhecer (sem de!)
equiparar a, com
equivalente a
equivaler a
eriçado de
erudito em
escapar a, de
escapulir de
escarmentado de, com
escarnecer de
escasso de
escolher entre
escrupulizar em
escusar-se de
esforçar-se em, por, para
esmaltar de
esmerar-se em
espantar-se com, de
especular com, em
esperar de, em
espraiar-se em
esquecer-se de
essencial para
estabelecer-se com
estender-se em, a, por
estéril de
estimular a, com
estranho a
estreito de
estribar-se em
estropiado de
exato em
exceder a, em
exceptuar de
excitar a
excluir de
exercitar-se em
exortar a
expor a
extrair de
exigir de, a
eximir de
exonerar de
extorquir a, de
forrar de, com
forte de, em
fraco de, em
franco para com, de, em
franquear de, a
#
371
frouxo de
fugir de, a
fundar-se em
furioso com, de
furtar a
gravar com
o a
r.v,.0.' de
guardar-se de
guarnecer com
guerra a
guindar-se a
horror a
hostil a
humilhar-se a
#
I
Ida a
idêntico a
idóneo para
imbuir-se de, em
imediato a
impaciente com
impedir de
impelir a
impenetrável a
impetrar de
implicar com
impor a
importar a (impessoal),
de (país), em (quantia
(1)
impossibilitar para
impossibilidade de
impossível de
impotente contra, para
impróprio para
imputar a
inábil para
inabi)itar para
inacessível a
incansável em
incapaz de, para
incerto de, em
incessante em
incidír em
incitar a
372
inclinar a, para
incluir em
incompatível com
incompreensível a
inconseqüente com
inconstante em
incorporar a, em
incorrer em
incrível a, para
inculcar em
incumbir de
indébito a
indeciso em
indenizar de
independente de, em
indiferente a
indignar-se com
indigno de
indispor contra, (-se)
com
indócil a
indulgente para, para
com
indultar de
induzir a, em
inerente a
ínexorável a
infatigável em
,infeccionar em
inferior a
inferior de
infestar de
infiel a
#
inflamar-se de
inflexível a
influir em, para, sobre
informar sobre, de, (-se),
de
ingerir em
ingrato com, para com
inibir de
iniciar em, a
inimigo de
inimizar-se com
injuriar com
inocente de
inquietar-se de, com
insaciável de
insensível a
373
inseparável de
inserir em
insinuar em
insípido a
insistir sobre, em
instar por, a
instruir de
inteirar-se de
intercalar entre,
interceder por
interessar-se por
intermédio a
internar-se em
ínterpolar entre, com
interpor entre
interrogar a
intervir em
intolerante com, para
com
intrometer-se em
inundar de, em
inútil para
investir contra, com
irmanar com
isentar de
jactar-se de juncar de juntar a, com
jubilar em jungir a justificar de
L
Lamentar-se de
lançar em, (-se) sobre
lastimar-se de
leal a
lembrar-se de
lento em
levar em, a, por
liberal com
libertar de
lidar com
ligar a, com
ligeiro de
limitar-se a, com
limitado de
limpar em, a, (-se) de
limpo de
lisonjear-se de
#
(1 ) No sentido de produzir, acarretar é transitivo direto.
374
318
litigiar com, contra
livrar de
livre de
lograr (-se) de
longe de
longínquo de
louco de, com
lutar com, contra
#
menor de
merecer de
mergulhar em
mesclar em
meter-se a, em
ministrar a
misericordioso com
para com
moderar-se em
Obedecer a
obediente a
oblíquo a
obrigar a
obsequioso con
obstar a
obstinar-se em
Pactuar com
padecer de
pagar a, de,
pálido de
parco em, de
parecer com, a, de
parecido a, com
pender de,
pendurar de,
penetrado de
pensar em
perdoar a
perfumar com
perguntar a, por
perito em
permutar com, po
pernicioso a
perpendicular
perseverar em
persistir em
persuadir de
375
molestar com
molesto a
morador em (1)
moreno de
morrer de, por
mortificar-se com
motejar de
mudar de; mudar-se
opor (-se) a
oposto a
oprimir com
optar por, entr
orar por
orgulhoso com, para
pesar de (impe~),, a
piedade de
pleitear com, contra
pobre de
poderoso para, em,
(2) 1 coloquial o uso da preposiçáo com, Influenciado talvez pela rcgència
de draur.
(3) Não pode aceitar obj. direto de pessoa: Paguei o médico.
#
pos~.crior a
povoar de
prático em
precaver-se contra, de
preceder em
precisar de
preeminência sobre
preferir a (1)
prejudicial a
preocupar-se com
preparar-se para
preponderar sobre
prescindir de
presentear com
preservar de
prestar a, para
prestes a, para
presto a, para
presumir de
prevalecer sobre
prevenir de, para,
contra
prezar-se de
primeiro de, dentre, a,
376
em (2)
privar de, com
proceder a, com
processar por
pródigo de, em
professar em
proibir a
promover a
pronto para, em
propender para
Q
propício a
propinquo de
próprio para, de
proporcionado a, com
prorromper em
prosseguir em
protestar contra
provar de
proveitoso a
prover a, de
provocar a
próximo a, de
pugnar por, contra
purgar-se de
purificar-se de
puxar (trans. direto), de,
por
Quadrar com quebrantar-se comquerer (tr. direto), a(s)
qualificar de queixar-se a, dequerido de, por
quebrado querelar contra
R
Radicar-se em
ralhar com
rebaixar de, (-se) a
rebelde a
#
rebentar de
recair em, sobre
reclamar contra
reclinar-se sobre
recolher-se a
recomendar a
recompensar com
reconciliar-se com
reconvir sobre
recorrer a
377
recostar-se sobre, em
recrear-se com
recusar a
redundar em
reduzir a (não em)
referir-se a
refletir em, sobre
refugiar-se em
regalar-se com
regar de
regozijar-se de, com
regular-se por
reincidir em
reintegrar em
rejubilar com
relaxar-se em
remontar a
remover de
renascer a
render-se a
renegar de
rente com, a, de
renunciar a
repartir entre, com, por
representar contra
reptar para
requerer a
resguardar-se de
residir em
resignar-se a, com
resistir a
resolver-se a
respeito a, de, por
responsável por
ressentir-se de
restabelecer-se de
resultar de
retirar-se de, a
retrair-se a
retratar-se de
retroceder a, para
revestir de, com
rico de, em
rígido de
rijo de
rir-se de
rivalizar com
roçar-se com
rodear-se de, com
rogar Cor
romper com
(1) il erróneo o emprego do advérbio antes ou mais com este verbo porque
a noçao de
preferéncia ou excelência já está contida no prefixo. 11 também erróneo
378
o uso da conjunçAo
#
comparativa que (ou do que). Deve dizer-se prefiro isto àquilo, prefiro
o teatro ao cinema.
(2) O uso de a é considerado errado com exagero, por ser francesismo.
(3) No sentido de estimar, querer bem.
320
#
:acudir de
afar-se de
air de, (-se) com
alpicar de
salvar de
sanar de
são de
:arar de
atisfazer a, (-se) com
seco de
edento de, por
:eguro de, em
segregar de
emelhante a
emelhar a
ensível a
:entir-se de
s arar de
Tachar de
tapar com
tapizar de
tardar em
tardo a
tauxiado d
temer de, por
temeroso de
temível a
terçar com
terminar em, po
terno de
timbrar em, de
servir a, (trans. direto)
(-se) de, para
severo com, para com
em
sindicar de
379
singularizar-se por
sito em (1)
soberbo com
sobrar a
sobreviver a
sobrevir a
sobrepujar em
sobressair em,
sobressaltar-se
sóbrio de, em
socorrer (-se) de, com
traduzir em, para, de
traficar com, em
traidor a, de
transbordar de
transferir a
transfigurar-se em
transformar em
subrogar em
subsistir com
substabelecer em
substituir por
subtrair de, (-se)
suceder a
surpreender-se com
#
suspeitar de
suspeito a, de
suspender de
sustentar-se de, com
travar-se de
tremer de
tresandar a
trespassado de
tributar a
triste de, com
triunfar de
trocar Dor, de
#
Vacilar em
valer-se de, valer a, (C.
direto)
vangloriar-se de, por
380
variar de, em
vazar em
vazio de
V
vedar a
velar por, em, (C. direto)
versado em
verter de, para, em
vestir-se com, de
viciar-se com, em
vigiar por
Z
Zan~ com zelar por zombar de
7- COLOCA4gAO
vincular a
vingar-se de, em
visar ( = pretender)
a, (trans. direto)
visível a
vizinho a, de
voltar de, a
Sintaxe de colocação ou de ordem é aquela que trata da maneira de
dispor os termos dentro da oração e as orações dentro do período.
A colocação, dentro de um idioma, z)bedece a tendências variadas,
quer de ordem estritamente gramatical, que de ordem psicológica e estilística.
O maior responsável pela ordem favorita numa língua ou grupo
de línguas parece ser a entoação oracional.
"O português pertence ao número daquelas que se caracterizam pelo ritmo
ascendente,
em que se anuncia o termo menos importante e depois, com acentuação
mais
forte, a informação nova e de relevância para o ouvinte" (SAiD ALI,
GramMica
Secundáría, 270).
Isto nos leva a uma ordem considerada direta, usual ou habitual, que
,consiste em enunciar, no rosto da oração, o sujeito, depois o verbo e
em
zséguida os seus complementos.
A ordem que saia do esquema svc: (sujeito - verbo complemento)
se iaiz inversa ou ocasional.
Sendo a ordem direta um padrão sintático, a ordem inversa, como
afastamento da norma, pode adquirir valor estilístico. E realmente se
lança
mão da ordem inversa para enfatizar esse ou aquele termo oraciOna.
Posto no rosto da oração um termo sobre o qual queremos chamar a
atenção do nosso ouvinte, quebra-se a norma sintática e consegue-se o
efeito estilístico desejado. Por um jogo natural de oposição, a ordem ireta
também pode assumir valor estilistico para traduzir situações do cam
da novidade. O estilo descritivo ama a ordem direta; José de Alencar ti
381
u
dela notáveis efeitos no seguinte trecho:
"A tarde ia morrendo. O sol declinava no horizonte e deitava-se sobre
as grandes
florestas, que iluminava com os seus últimos raios. A luz frouxa e suave
do ocaso,
,deslizando pela verde alcatifa, enTolava-se como ondas de ouro e de
púrpura sobre
.a folhagem das árvores. Os espinheiros silvestres desatavam as flores
alvas e delicadas.
322
~Q
#
e o ouricuri abria as suas palmas mais novas, para receber no seu cálice
o orvalho
da noite. Os animais retardados procuravam a pousada; enquanto a juriti,
chamaria
a companheira, soltava os arrulhos doces e saudosos com que se despede
do dia.
Um concerto de notas graves saudava o por do sol, e confundia o rumor da
cascata,
que parecia quebrar a aspereza de sua queda, e ceder à doce influéncia
da tarde.
O ritmo ascendente predominante no português, dispondo os termos
de acentuação mais fraca e menos significativo antes dos termos mais
fortes, estabelece as seguintes normas válidas para as situações em que
não
a) os artigos, os pronomes (adjuntos), os numerais (com exceção dos ordinais
e cardinais com valor de ordinais) se antepõem:
O livro, um livro, este livro, meu livro, cada livro, três livros;
b) a preposição vem antes de um regime nominal ou pronominal
e) o adjetivo monossilábico modificador cede o nome de maio
f) o adjetivo que exprime forma ou cor vem depois do substantivo--
g) vem antes o adjetivo empregado não para designar o seu sentido pró
uma significação figurada: grande homem
"... eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor" (M
Colocação dos termos na oração e das orações no período. - A.
norma sintática do português registra os se intes casos:
382
1.0) Põe-se de ordinário o sujeito de is do verbo na passiva pronominal
Outra posição pode mudar a análise da oração, desde que entre um
termo a que a nossa tendência anímica atribua a realização da oração.
Note-se a diferença entre Abriu-se a porta (voz passiva) e A porta abriu-se
#
2.11)Nas orações reduzidas de gerúndio e particípio, o sujeito vem depois
do verbo:
Terminando o discurso, dirigiu-se ao hotel.
Terminado o discurso, dirigiu-se ao hotel.
3.0)0 verbo vem no início das orações que indicam existéncia (ser, existir,
haver, fazer), tempo, peso, medida:
Era uma vez um principe.
Exi,.tiam várias razões.
Houve discussão.
Faz três anos que não o vejo.
São várias horas de distância.
Faltam dois dias para a festa.
4.0)0 verbo vem no início das subordinadas condicionais e concessivas
sem conectivo:
Tivesse-me ele dito a verdade, tudo acabaria bem.
Acabasse falando comigo, mesmo assim não lhe perdoaria.
5.0)Nas orações intercaladas de citação, o sujeito vem de ordinário depois
do verbo:
- 6.0)
Suma-se - ordenou o policial.
Nas interrogações introduzidas, por pronomes e advérbios (quem, que,
o que.. quanto, qual, como, quando, onde, por que), o verbo vem em
geral antes do sujeito, desde que este não seja o pronome interrogativo:
Quem veio aqui? (quem sujeito)
De quem falava você quando chegamos?
Como foi ele parar nessa encrenca ?
Usa-se ainda, neste caso, sujeito antes do verbo ou o vocábulo interrogativo
no fim da oração:
De quem você falava?
Ele comprou o quê ?
OBSUVAÇÃO: Na pergunta retórica costuma-se por o sujeito antes do verbo
em
383
construção do tipo: O médico aconselhou esta dieta, e você seguiu P
7.0)Nas orações exclamativas, de sentido optativo ou não, é freqüente o
sujeito vir depois do verbo:
Como era verde o meu vale 1
Viva o rei 1 (construção fixa)
324
#
8.0) A oração subordinada subietiva vem normalmente depois do
Ficou patente que o progresso começara
É aconselhável nue não se retirem aLyora.
9.0) A oração subordinada adverbial causal iniciada por como vem em
10.0) Numa seqüência de pronomes átonos, vem em primeiro lugar o que
funciona como objeto indireto seguido do objeto direto:
11.0) Diante de negação, o pronome átono pode vir antes ou depois do
"Levadas em conta as construções fundamentais de que a linguagem
natural e espontánea não costuma afastar-se, é certo que para a estrutura
oracional temos em português bastante liberdade. Esta, porém, é maior
no Verso, em que ocorrem certas transformações complementares estranhas
não só ao falar comum, mas ainda ao discurso limado. Alguns escritores
abusaram da liberdade poética, a ponto de tomarem a linguagem obscura
Colocação dos pronomes pessoais átonos e do demonstrativo o é
questão de fonética sintática. - Durante muito tempo viu-se o problema
apenas pelo aspecto sintático, criando-se a falsa teoria da "atração"
vocabular
do nao, do quê, de certas conjunções e tantos outros vocábulos.
Graças a notáveis pesquisadores, e principalmente Said Ali, passou-se a
considerar o assunto pelo aspecto fonético. Abriram-se com isso os horizontes,
estudou-se a questão dos vocábulos átonos e tônicos, e chegou-se
à
conclusão de que muitas das regras estabelecidas pelos puristas ou estavam
erradas, ou se aplicavam em especial atenção ao falar lusitano. A Gramática,
alicerçada na tradição literária, ainda não se dispôs a fazer
concessões a algumas tendências do falar de brasileiros cultos, e não leva
#
em conta as possibilidades estilísticas que os escritores conseguem
extrair
da colocação de pronomes átonos. Daremos aqui apenas aquelas normas
384
que, sem exagero, são observadas na linguagem escrita e falada das pessoas
cultas. Não se infringindo os critérios expostos, o problema é questão
pessoal de escolha, atendendo-se às exigências da eufonia. É urgente
afastar a idéia de que a colocação brasileira é inferior à que os
portugueses
observam, porque
-a pronúncia brasileira diversifica da lusitana; dai resulta que a
colocação pronominal
em nosso falar espontâneo n11o coincide perfeitamente com a do falar
dos portuguese0
(SAw ALI, ibid, 279).
O pronome átono pode assumir três posições em relação ao vocábulo
tônico, donde a ènclise, prócUse e mesócUse.
ÊNCLISE é a posposição do pronome átono (vocábulo átono) ao vocábulo
tônico a que se liga:
Deu-me a notícPRócLisE é a anteposição ao vocábulo tônico:
Não me deu a notiMEsócLisE é a interposição ao vocábulo
tônico:
Dar-me-ás a notícia.
Critérios para a c010caÇSO dos pronomes pessoais átonos e do de.
monstrativo o.
A - Em RELAÇÃO A UM Só VERBO.
1.0) Não se inicia período por pronome átono:
"Sentei-me, enquanto Virgília, calada, fazia estalar as unhas" (M. Dz
Assis, Brás
Cubas, 125).
"Náol vos digo eut" (A. HERCULANO, Antologia Nacional, 197).
"Querendo parecer originais, nos tornamos ridículos ou extravagantes"
(M. Dz
MAWCÁ).
OBSERVAÇõES:
1.a) Preso a critério da oração (e não período, como aqui fizemos), Rui
BARBOSA
(Réplica n.0 60) tem por errônea a colocação em. "Se a simulação for
absoluta, sem
que tenha havido intenção de prejudicar a terceiros, ou de violar
disposições de lei, e
for assim provado a requerimento de algum dos contratantes, - se julgará
o ato inexistente".
Os que adotarem o critério de oração, só aceitam a posição inicial
do pronome
átono na intercalada de citação, como ocorre no -xemplo de Herculano acima
transcrito.
2~a) Em expressões cristalizadas de cunho opular aparece o pronome no
início
do período: "T'esconjuro!... sai, diabo!..." (M. DE Assis, ibid., 97),
326
385
#
2.0)Não se pospõe, em geral, pronome átono a verbo flexionado em
oração subordinada:
"Confesso que tudo aquilo me pareceu obscuro" (M. DE Assis, Brds Cubas,
79).
"Se a visse, iria logo pedi-la ao paP (ID., ibid, 87).
"Tu que me lés, Virgília amada, não reparas na diferença entre a
linguagem de
hoje... ?" (ID., ibid., 91).
OBsEavAçÃo: Quando se trata de oraç5es subordinadas coordenadas entre
si às
vezes ocorre a énclise do pronome átono na segunda oração subordinada.
Também
quando na subordinada se intercalam vocábulos ou oração, exigindo uma
pausa antes
do verbo, o pronome átono pode vir enclítico: "Mas a primeira parte se
trocou por
intervenção do tio Cosme, que, ao ver a criança, disse-lhe entre outros
carinhos..."
(M. DE Assis, apud M. BARRETo, últimos Estudos, 197). Em todos estes e
outros casos
que se poderiam lembrar, a ação dos gramáticos se tem dirigido para a
obediência
ao critério exposto, considerando esporádicos e não dignos de imitação
os exemplos
que dele se afastam.
3.0)Não se pospõe pronome átono a verbo modificado diretamente por
advérbio (isto é, sem pausa entre os dois, indicada ou não por virgula)
ou precedido de palavra de sentido negativo:
"Não me parece; acho os versos perfeitos" (M.
DE Assis, Brds Cubas, 69).
Sempre me recebiam bem.
Ninguém lhe disse a verdade.
Se houver pausa, o pronome pode vir antes ou depois do verbo:
"Ele esteve alguns instantes de pé, a olhar para mim; depois estendeu-me
a mão
com um gesto comovido" (ID., ibid, 86).
4.0)Não se pospõe pronome átono a verbo no futuro do presente e
futuro do pretérito (condicional). Se não forem contrariados os
princípios anteriores, ou se coloca o pronome átono proclítico ou
mesoclítico ao verbo:
"Teodomiro recordar-se-d ainda de qual foi o desfecho do amor de Eurico.
(A. HERCULANO, EUriCO, 60).
"Os infiéis... contentar-se-do, talvez, com as riquezas..." (ID., ibid.,
146).
386
11
5.0)Não se pospõe ou intercala pronome átono a verbo flexionado em
oração iniciada por palavra interrogativa ou exclamativa:
"Quantos lhe dá?" (M. DE Assis, ibid, 97).
"Quem me explicará a razão dessa diferença?" (ID., ibid., 158).
Como te perseguem1
B - EM RELAÇÃO A UMA LOCUÇÃO VERBAL
Temos de considerar dois casos:
a) Auxiliar + ou
infinitivo: quero falar
gertindio: estou falando
327
#
Se os princípios já expostos não forem contrariados, o pronome átono
poderá aparecer:
1) Proclítico ao auxiliar:
Eu lhe quero falar.
Eu lhe estou falando.
2) Enclítico ao auxiliar (ligado por hífen).
Eu quero-lhe falar.
Eu estou-lhe falando.
Eu quero falar-lhe.
Eu estou falando-lhe (mais raro).
OBSERVAÇõES:
1.a) Com mais freqüència ocorre entre brasileiros, na linguagem falada
Ou escrita,
o pronome átono proclitico ao verbo principal, sem hífen-
Eu quero lhe falar.
Eu estou lhe falando.
A Gramática clássica, com certo exagero, ainda não aceitou tal maneira
de colocar
o pronome átono, salvo se o infinitivo está precedido de preposição:
ComeÇOU a lhe
falar ou a falar-lhe.
2.a) Com o infinitivo podem-se contrariar os princípios 2.0 e 3.1)
anteriormente
formulados:
Eu não quero falar-lhe.
387
Espero que não queira falar-lhe.
b) Auxiliar + particípio: tenho falado...
Não contrariando os princípios iniciais, o pronome átono pode vir:
i) ~rOclítico ao auxiliart~
Eu lhe tenho falado.
2) Enclítico ao auxiliar (ligado por hífen):
Eu tenho-lhe falado.
casosjamais
se pospõe pronome átono a particípio. `Entre brasileiros também
ocorre a próclise ao particípio, no que a Gramática não concorda:
Eu tenho lhe falado.
Posições fixas. - A tradição fixou a pródise ainda nos seguintes
1) com o gerúndio precedido da preposição em:
"Ninguém, desde que entrou, em lhe chegando o turno, se conseguirá evadir
à
saída" (R. B- ARBOSA, OraçÍlo aos Moços, 30).
328
#
a,
r
he
nte
vir:
tamrdaintes
adir i
2) nas orações exclamativas; e optativas, com o verbo no subjusujeito
anteposto ao verbo:
Bons ventos o levem 1
Deus te ajude 1
Explicação da colocação dos pronomes átonos no Brasil. - Nos
princípios anteriormente comentados vimos certas tendências brasileiras
que nem sempre a Gramática agasalha como dignas de imitação, presa
388
que está a um critério de autoridade que a lingüística moderna pede seja
revisto.
Sobre o assunto, em lúcido resumo, comenta o Prof. Martinz de
Aguiar:
"A colocação de pronomes complementos em português não se rege pela
fonética,
nem é o ritmo, o mesmo binário-ternário, em ambas as modalidades,
brasileira e lusitana,
que impõe uma colocação aqui, outra ali, não. Ela obedece a um
complexo de
fatores, fonético (rítmico), lógico, psicológico (estilístico), estético,
histórico, que às
vezes se entreajudam e às vezes se contrapõem. Numa frase como ele vem-me
ver,
geral em Portugal, literária no Brasil, o fato lógico deslocou o pronome
me do verbo
vem, para adjudicá-lo ao verbo ver, por ser ele determinante, objeto direto,
do segundo
e, não, do primeiro. Isto é: deixou a língua falada no Brasil de dizer
vem-me ver
(fator histórico, por ser mera continuação do esquema geral português),
para dizer
vem me-ver (escrito sem hífen), que também vigia na língua, ligando-se
o pronome
ao verbo que o rege (fator lógico). Esta colocação de tal maneira se
estabilizou,
que pouco se diz vem ver-me e trouxe conseqüências imprevistas:
1.a) Pôde-se juntar o pronome ao particípio, procliticamente:
Aqueles haviam se-corrompido (escrito sem hífen aqui e nos iguais
exemplos).
2.a) Pôde-se por o pronome depois dos futuros (do presente e do pretérito):
Poderá se-reduzir, poderia se-reduzir. Deixando de ligar-se aos futuros,
para unir-se
ao infinitivo, deixou igualmente de interpor-se-lhe aos elementos
constitutivos.
3~a) Em frases como vamos nos-encontrar, deixando o pronome de pospor-se
à forma
verbal pura, para antepor-se à nominal, deixou igualmente de determinar
a dissimilaçâo
das sílabas parafónicas, podendo-se então dizer vamo-nos encontrar"
(Notas de
Português de Filinto e Odorico, 408-409).
Pelas mesmas razões variadíssimas é que no Brasil, na linguagem coloquial,
o pronome átono pode assumir posição inicial de período. Este
fenômeno, válido para a lingüística, só por comodidade e inadvertência
se tem dado como um "erro" de gramática.
APÊNDICE
1 - FIGURAS DE SINTAXE
Fen6menos de sintaxe mais importantes
1) Elipse. - Chama-se elipse a omissão de um termo facilmente
subentendido. Entre as elipses que ocorrem com mais freqüência estão:
389
329
#
a)a do pronome sujeito de 1.a e 2.a pessoas do singular e plural: a presença
de tais pronomes só se dá em casos de ênfase ou de contraste
com outro sujeito:
Mas:
Sairei depois do almoço.
Fostes enganados.
Eu sairei, mas ele não.
b)a da preposição em algumas círcunstáricias adverbiais de modo, preço,
tempo, lugar, peso:
As visitas, pés sujos, entraram no salio.
O barco custou vinte mil cruzeiros.
Domingo irás à festa.
Conhecem-no uma légua em redondo.
O doente só pesava quarenta quilos.
c)a da preposição antes do conectivo que introduz as orações objetivas
indiretas e completivas nominais:
Preciso (de) que venhas aqui.
Estou necessitado (de) que venhas aqui.
d)a da conjunção integrante, mormente como introdutor das subordinadas
subjetivas e objetivas diretas:
É necessário (que) se faça tudo rapidamente.
Espero (que) sejam felizes.
e) a do verbo dizer (e semelhante) nos diálogos:
E ela: ~ Você está zangado comigo ?
* 2) Pleonasmo. - É a repetição de um termo já expresso ou de uma
idéia já sugerida:
Ao pobre não lhe devo (pleon. do obj. ind.).
Subir para cima.
O grande juiz entre os pleonasmos de valor expressivo e os de valor
negativo (por isso considerado erro de gramática) é o uso, e não a lógica.
Se não dizemos, em geral, fora de situação especial de ênfase: Subir para
cima ou Descer para baixo, não nos repugnam construções como O leite
está saindo por fora ou Palavra de rei não volta atrás.
3) Anacoluto. - É a quebra da estruturação lógica da oração:
"Eu que era branca e linda, eis-me medonha e escura" (M. BANDEIRA, apud
S. DA
SiLvrixA, Liç6es de Português, õ536).
Mesulta esta anomalia em geral do fato de não poder a linguagem
acompanhar
o pensamento em que as idéias se sucedem rápidas e tumuttuárias, É a
390
precipitação
330
d
d
p
#
de começar a dizer alguma cousa sem calcular que pelo rumo escolhido não
se chega
direitamente a concluir o pensamento. Em meio do caminho dá-se pelo
descuido, faz-se
pausa, e, não convindo tornar atrás, procura-se a saída em outra direção"
(1).
O anacoffito, fora de certas situações especiais, é evitado pelas
pessoas
que timbram em falar e escrever corretamente a língua.
4) Antecipação. - É a colocação de uma expressão fora do lugar
que logicamente lhe compete:
O tempo parece que vai piorar.
Por
Parece que o tempo vai piorar.
As antecipações são ditadas por ênfase e muitas vezes geram
anacolutos.
5) Braquilogia. - É o emprego de uma expressão mais curta equivalente
a outra mais ampla ou de estruturação mais complexa.
Estudou como estudaria se fosse passar.
por
Estudou como se fosse passar.
6) Haplologia sintática. - É a omissão de uma palavra por estar
em contacto com outra (ou final de outra palavra) foneticamente igual
ou parecida:
"Antes Deus quer
Que se perdoe um mau, que um bom padeça" (A. FERREiRA, apud S. SILVEIRA,
Fonética SintíÍtica).
Isto é:
padeça.
antes Deus quer que se perdoe a um mau que (do que) (quer) que um bom
7) Contaminação sintática. - "É a fusão irregular de duas construções
que, em separado, são regulares" (2).
Fiz com que Pedro viesse
391
(fusão de Fiz com Pedro que viesse e Fiz que Pedro viesse).
Caminhar por entre mares
(fusão de caminhar por mares e caminhar entre mares).
As estrelas parecem brilharem
(fusão de as estrelas parecem brilhar com parece que as estrelas
brilham).
(1) SAm ALi, Meios de Expreislo e Alterq6es Seindnticas, 38.
(2) EpiFANio DiAs, Sintaxe Histórica Portuguesa, 5 482.
#
8) Expressão expletiva ou de realce. - É a que não exerce função
gramatical:
Nós é que sabemos viver.
Aqui é onde a ilusão se acaba.
Oh! que saudades que tenho!
É preciso distinguir o é que expletivo do é que que indica:
a) é + que (conj. integrante):
A verdade é que saíram.
b) é (verbo vicário) + que (conj. integr.)-
"Que quer dizer este nome? JO que as almas..." (M. BEaNARDEs, apud J.
OrricicA,
Manual de Andlise). É que = quer dizer que.
c) é (vicário) + que (conj. causal):
Por que veio? A que teve medo (é que = veio porque).
d) éque=éo que
Este livro é que temos ontem (= é o que lemos ontem).
e) há um é qu# que difere dos demais pela forte pausa que
separa os dois termos, dando a impressão de se tratar de um resquício
de oração seguido de conj. integrante que introduz seu antigo sujeito,
(== é verdade, é certo que):
"Ou é que o digesto não vale para os que o estudaram?" (A. HERcuLANo,
M.
de Cister, 11, 35).
Modernamente se usa muito desta linguagem em será que:
Ou será que eu estou errado P
2 - VICIOS E ANOMALIAS DE LINGUAGEM
Entre os vícios de linguagem cabe menção aos seguintes:
1) Solecismo. - É o erro de gramática:
Eu lhe abracei (por o).
A gente vamos (por vai).
Tu fostes (por foste).
392
Aluga-se casas (por alugam).
Vendas à prazo (por a).
Sgada, rúbrica (por pegada, rubrica).
2) Barbarismo. - É o emprego de vocábulos, expressões e construções
alheias ao idioma. Os estrangeirismos que entram no idioma por um pro-
332
d;
C1
p
ti
é
r
#
cesso natural de assimilação de cultura, assumem aspecto de sentimento
político-patriótico que, aos olhos dos puristas extremados, trazem o selo
da subserviência e da degradação do país. Esquecem-se de que a língua,
como produto social, registra, em tais estrangeirismos, os contactos de
povos. Este tipo de patriotismo lingüístico (Leo Spitzer lhe dava pejorativamente
o nome de patriotite) é antigo e revela reflexos de antigas
dissensões históricas. Bréal lembra que os filólogos gregos que baniam
os
vocábulos turcos do léxico continuavam, à sua moda, a guerra da indepen
dència(l). Entre nós o repúdio ao francesismo ou galicismo nasceu da
repulsa, aliás, justa, dos portugueses aos excessos dos soldados de Juno
quando Napoleão ordenou a invasão de Portugal. O que se deve combater
é o excesso de importação de línguas estrangeiras, mormente aquela des
necessária por se encontrarem no vernáculo vocábulos e giros equivalentes
Idiotismo ou expressão idiomática é toda a maneira de dizeF que
não podendo ser analisada ou estando em choque com os princípios gerais
da Gramática, é aceita no falar culto.
São idiotismos de nossa língua a expressão é que, o infinitivo flexio
Sobre o conceito deidiotismo nunca é demais relembrar a li ão d
Said Ali: "Não devemos definir o idiotismo, segundo alguns gramáticos
como construção particular de uma língua, estranha, portanto, às outra.,
línguas, porque ninguém conhece todos os outros idiomas em todos o
seus segredos e modos especiais de falar (2).
Assim o infinitivo flexionado é um idiotismo não porque só existE
em português (na realidade outras línguas o conhecem, como algun
dialetos do sul da Itália, e outras o conhecem com aplicação diferente
d2
que tem em português, como em húngaro), mas porque a sua flexãc
contraria o conceito de forma infinita (i. é, não flexionada)
393
#
IV - Pontuação
A linguagem escrita lança mão de certos sinais para indicar
a) a intensidade
b) a entoação
c) as pausas
Sinais que indicam a intensidade. - Os primeiros são representados
pelos acentos (agudo, grave e circunflexo), que mereceram a nossa atenção
na parte inicial deste livro.
Sinais que indicam a entoação. - São os seguintes os sinais que indicam
a entoação:
a) dois pontos (:)
b) ponto de interrogação
C) ponto de exclamação
d) reticências ( ... )
e) aspas ç' ")
f) parênteses ( )
g) travessão (-)
h) ponto final
Dois Pontos. - Usam-se os dois pontos na:
1) enumeração, exemplificação, notícia subsidiária('):
Comprou dois presentes: um livro e uma caneta.
-que (Viegas) padecia de um reumatismo teimoso, de uma asma não menos
teimosa e de uma lesão de coração: era um hospital concentrado" (M. DE
Assis.
Brás Cubas, 184),
"Queremos governos perfeitos com homens imperfeitos: disparate" (M. DE
MAxicÁ).
(1) A imprensa moderna usa e abusa dos dois pontos para resumir, às vezes
numa síntese
de pensamento difícil de ter acompanhada, certas noticiam.
334
#
Damião desconfia alguma coisa" (ID., ibid, 174).
2)nas expressões que se seguem aos verbos dizer, retrucar, responder (e
semelhantes) e que encerram a declaração textual, ou que assim jul394
gamos, de outra pessoa:
"Não me auis dizer o que era: mas, como eu instasse muito: - Creio que
o
3) nas expressões que, enunciadas
com entoação especial, exprimem causa,
explicação ou conseqüência:
"Explico-me: o diploma era uma carta de alforria" (ID., ibid., 71
4) nas expressões que apresentam
uma quebra da seqüência das idéias:
" cudiu o vestido, ainda molhado,
e caminhou.
Não 1 Bradei eu& não hás de entrar não ero Ia a lan ar-lhe
as mãos
era tarde; ela entrara e fechara-se" (ID., ibid., 59).
Ponto de interrogação. - Põe-se no fim da oração enunciada com
entoação interrogativa:
- "Esqueceu alguma cousa? perguntou Marcela de pé, no patamar" (ID., ibid.,
50)
A interrogação indireta, não sendo enunciada em entoação especial
dispensa ponto de interrogação. O nosso sistema gráfico não distingue (
ponto de interrogação da pergunta de
Destes dois tipos tratamos na pág. 195.
No diálogo pode aparecer sozinho ou acompanhado do de exclamação
para indicar o estado de dúvida do versonazem diante do fato:
- "Esteve cá o homem da casa e disse que do próximo mês em diante são mais
Ponto de exclamacão. - Põe-se no fim da oracão enunciada com
"Que gentil que estava a espanholat" (M. DE Assis, ibid., 50).
"Mas, na morte, que diferençal que liberdadel" (ID., ibid., 81
Põe-se o ponto de exclamação depois de uma interjeição:
(1) Em português, em geral se despreza o cómodo expediente do espanhol
de indicar a
interrogaç1o no início da oração. com o sinal invertido: do José chegou?
Alguns escritores
#
395
Há escritores que denotam a gradação da surpresa através da narração
com o aumento progressivo do ponto de exclamação ou de interrogação.
"E será assim até que um senhor Darwin surja e prove a verdadeira origem
do
Homo sapiens...
- ?I
- Sim. Eles nornear-se-ão Homo sapiens apesar do teu sorriso, Gabriel,
e ter-se-lo
como feitos por mim de um barro especial e à minha imagem e semelhança,
- ? 11" (M. LoBATo, ibid, 204),
Reticências. - Denotam interrupção do pensamento (ou porque se
quer deixar em suspenso, ou porque os fatos se dão com breve espaço de
tempo intervalar ou porque o nosso interlocutor nos toma a palavra) ou
hesitação em enunciá-lo:
"Ao proferir estas palavras havia um tremor de alegria na voz de Marcela:
e no
rosto como que se lhe espraiou uma onda de ventura..." (ID., ibid, 121).
"Não imagina o que ela é lá em casa: fala na senhora a todos os instantes,
e
aqui parece uma parnonha. Ainda ontem... Digo, Maricota?" (ID., ibU, 120).
- "Moro na rua...
- Não quero saber onde mora, atalhou Quincas Borba" (ID., ibid., 169).
Numa citação as reticências podem ser colocadas no início, no meio
ou no fim, para indicar supressão no trecho transcrito, em cada uma
dessas partes. Quando há supressão de um trecho de certa extensão, costuma-
se.usar uma linha pontilhada. Depois de um ponto de interrogação
ou exclamação podem aparecer as reticências.
Aspas. - Ao que o Vocabulário Oficial (pág. 69) diz a respeito das
aspas, acrescentaremos apenas que também são empregadas para dar a
certa expressão um sentido particular (na linguagem falada é em geral
proferida com entoação especial), para ressaltar uma expressão dentro do
contexto ou para apontar um vocábulo como estrangeirismo ou gíria:
OBs.: Escrevendo, ressaltamos a expressão também com o sublinhado, o
que, nos
textos impressos, corresponde ao emprego de tipo diferente.
- "Sim, mas percebo-o agora, porque só agora nos surgiu a ocasião de
enriquecer.
Foi uma sorte grande que Deus nos mandou.
- "Deus"...
- Deus, sim, e você o ofendeu afastando-a com o pé" (M. LoBATO, Cidades
Mortas, 223).
"Você já reparou, Miloca, na "ganja" da Sinhazinha? disse uma sirigaita
de "beleza"
na testa" (ID., ibíd, 102).
Travessão. - Ao que se disse à pág. 69, acrescente-se que o travessão
pode substituir os parênteses (pág. 69) para assinalar uma expressão
intercalada:
" ... e eu falava-lhe de mil cousas diferentes - do último baile, da
396
discussão das
câmaras, berlindas e cavalos, de tudo, menos dos seus versos ou prosas"
(M. DE Assis,
ibid, 138-9).
336
r
#
Pode denotar ainda uma pausa mais forte:
... e se estabelece uma cousa que poderemos chamar - solidariedade do
aborrecimento
humano" (ID., ibid, 126).
Sinais que indicam a pausa
Vírgula. - Emprega-se a vírgula,
a)para separar termos coordenados, ainda quando ligados por conjunção
(no caso de haver pausa):
"Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado" (M. DE Assis, ibid.,
48).
- "Ah 1 brejeiro 1 Contanto que não te deixes ficar aí inútil, obscuro,
e triste"
(ID., ibid., 93).
b)para separar orações coordenadas, ainda que sejam iniciadas pela conjunção
e (que tiveram sujeitos diferentes):
"Gostava muito das nossas antigas dobras de ouro, e eu levava-lhe quantas
podia
obter" (ID., ibid., 53).
"No fim de meia hora, ninguém diria que ele não era o mais afortunado
dos
homens; conversava, chasqueava, e ria, e riam todos" (ID., ibid., 163).
c) nas aposições, exceto no especificativo:
"ora infiro de uma casa que ele meditava construir, para residência
própria, casa
de feitio moderno..." (ID., ibid, 238).
d) para separar, em geral, os pleonasmos
e as repetições:
"Ex.: "Nunca, nunca, meu amor P' (ID., ibid., 55).
e)para separar ou intercalar vocativos; nas cartas a pontuação é vária,
na redação oficial usam-se dois pontos.
para separar as orações adjetivas de valor explicativo:
397
"perguntava a mim mesmo por que não seria melhor deputado e melhor
marquês
do que o Lobo Neves, - eu, que valia mais, muito mais do que ele, - ...
ibid., 137).
11 (ID.,
g)para separar em geral, as orações adjetivas restritivas de certa extensão,
principalmente quando os verbos de duas orações diferentes se juntam:
"No meio da confusão que produzira por toda a parte este acontecimento
inesperado
e cujo motivo e circunstáricias inteiramente se ignoravam, ninguém
reparou
nos dois cavaleiros ... 11 (A. HERCULANO, Eurico, 210).
h) para separar as orações intercaladas:
"Não lhe posso dizer com certeza, respondi eu" (M. DE Assis, ibid, 183).
337
#
í) ^para separar em geral adjuntos adverbiais que precedem o verbo e as
orações adverbiais que vêm antes ou no meio da sua principal-
"Eu mesmo, até entIo, tinha-vos em má conta..." (ID., ibid, 185).
"Mas, como as pestanas eram rótulas, o olhar continuava o seu ofício...
ibid., 183).
para separar, nas datas, o nome do lugar:
PJo de janeiro, 8 de agosto de 1961.
para separar as particulaâ e expressões de explicação, correção, continuação,
conclusão, concessão:
--c, ngo obstanto, havia certa lógica, certa dedução" (ID., ibid., 89).
Sairá amanhã, alids, depois de amanhã.
m) para separar as conjunções adversativas (porém, todavia, contudo, entretanto)
e as explícativos (logo, pois, portanto):
"A proposta, porém, desdizia tanto das minhas sensaçóes últimas..." (lo.,
ibid., 87).
n) para indicar, às vezes, a elipse do verbo:
Ele sai agora: eu, logo mais.
Ponto e vírgula. - Representa uma pausa mais forte que a vírgula
e é empregado:
a) num trecho longo, onde já
existem vírgulas, para enunciar pausa mais
forte:
"Enfim, cheguei-me a Virgília, que estava sentada, e traveí-lhe da mão;
D. Plácida
398
foi à janela" (M. Dz Assis,
ibid, 211).
b) separa as adversativas em
que se quer ressaltar o contraste:
"Não se disse mais nada; mas de noite Lobo Neves insistiu no projeto"
(ID.,
ibid., 210).
c)na redação oficial separa os diversos itens de um considerando, lei ou
outro documento.
Ponto. - o ponto simples final, que é dos sinais o que denota maior
pausa, serve para encerrar períodos que terminem por qualquer tipo de
oração que não seja a interrogativa direta e a exclainativa.
Ponto parágrafo. - Um grupo de períodos cujas orações se prendem
pelo mesmo centro de interesse é separado por ponto. Quando se passa
de um para outro centro de interesse, impõe-se-nos o emprego do ponto
parágrafo iniciando-se a escrever, na outra linha, com a mesma distància
da margem com que começamos o escrito.
338
#
a
ais
(ID.,
ou
aior
de
em
assa
nto
ncia
Na linguagem oficial dos artigos de lei, o parágrafo é indicado por um
sinal especial (õ).
APÉNDICE: Asterisco('). - O asterisco(*) é colocado depois e em cima
de um vocábulo do trecho para se fazer uma citação ou comentário qualquer
sobre o vocábulo ou o que é tratado no trecho (neste caso o asterisco
se põe no fim do período).
Nas obras sobre linguagem, o asterisco colocado antes e em cima do
vocábulo o apresenta como forma reconstituída ou hipotética, isto é, de
provável existência mas até então não documentada. Deve-se ao lingüista
alemão Augusto Schleicher (1821-1868) esta aplicação do sinal.
Emprega-se ainda um ou mais asteriscos depois de uma inicial para
indicar uma pessoa cujo nome não se quer ou não se pode declinar: o
399
Dr.*, B.*#, L.***
Alínea. - Tem a mesma função do parágrafo, pois denota diversos
centros de assuntos e, como este, exige mudança de linha. Geralmente
vem indicada por número ou letra seguido de um traço curvo, semelhante
ao que fecha parêntese para assinalar subdivisão da matéria tratada:
Os substantivos podem ser:
a) próprios
b) comuns.
(1) Costuma-se ouvir este vocábulo deturpado para asterístico. Asterisco
quer dizer estrá.
linha, nome devido à sua forma.
339
#
V - Semantica
Semdntica é o estudo da significação dos vocábulos e das transformações
de sentido por que estes mesmos vocábulos passam.
No decorrer de sua história nem sempre o vocábulo guarda seu
sentido etimológico, isto é, originário. Por motivos variadíssimos o
sentido
ultrapassa os limites de sua primitiva "esfera semántica" e assume valores
novos.
"A língua - disse bem MoRiTz REcuLA (1) ~, expressão consciente de
impressões
exteriores e interiores, está sujeita a uma perpétua transformação. Os
vocábulos mudam
de sentido ou porque as coisas se modificam ou porque a "constelação
psíquica" sob
cuja influência nasce o sentido do objeto, se altera graças a causas
diversas".
A significação dos vocábulos está intimamente relacionada com o
mundo das idéias e dos sentimentos; "entre as: idéias, entre os pensamentos
não há separação absoluta, por isso que as associações se estabelecem,
sem
cessar, de uns para outros. Vendo uma substància ou um objeto muito
achatado, muito delgado e pouco resistente, por exemplo de estanho ou
de ouro finamente laminado, alguém foi levado a compará-lo a uma
folha de árvore; pôde-se assim dizer com propriedade e clareza: uma folha
de estanho, de ouro, de papel, etc. Outra associação, posterior à precedente,
deu ao vocábulo folha o sentido bem elástico de jornal: uma folha
diária. É que se imprimem as noticias de cada dia em folhas de papel.
O vocábulo coração serviu para exprimir tanto a parte interior de um
legume ou fruta (coração da melancia), ou a essência de um assunto:
está no coração da questão, como ainda os sentimentos cuja sede parece
estar no fundo de nosso ser: este homem não tem coração, etc. Todas as
400
associações deste gênero dão origem ao que se chama, em literatura, imagem;
as imagens da linguagem corrente não diferem muito, pela sua natureza,
das que brotam da imaginação dos poetas e dos escritores em
geral" (2).
(1) Grammaire Franfaise Explicative, 1957, 26.
(2) A. GR*rOIRE, Petit Traiti de Linguistique, 1923, 93-94 (com leves
adapta0es para o
portugues).
340
#
Entre as causas que provocam a mudança de significação dos vocábulos,
as principais são:
a) Metáfora (translação de sentido
por comparação mental):
cabelos de neve (= brancos como a neve), pesar as raz6es, negros
pressentimentos
doces sonhos, passos religiosos (AquILINo RIBEIRO - jardim de Tormenta,
17, nos
queria ressaltar a religiosidade de sua personagem), boca do estômago,
dentes do
garfo, costas da cadeira, braços do sofá, pés da mesa, gastar rios de
dinheiro, vale
de lilgrimas, o sol da liberdade, os dias correm, a noite caiu.
b) Metonímia (translação de sentido
pela proximidade de idéias):
1) causa pelo efeito ou vice-versa
ou o produtor pelo objeto produzido:
um Rafael (por um quadro de Rafael), as pdlidas doenças (por doenças que
produzem
palidez), ganhar a vida (por meios que permitam viver), ler Machado de
Assis (i.é,
um livro escrito por M. de A.).
2) o tempo ou o lugar pelos seres que se acham no tempo ou lugar:
a posteridade (i.é, as pessoas do futuro), a nação (i.é, os componentes
da nação).
3) o continente pelo conteúdo ou vice-versa:
passe-me a farinha (Lé, a farinheira), comi dois pratos (i.é, a porção
da comida
que dois pratos continham).
4) o todo pela parte ou vice-versa:
diz a EscriPtura (i. é, um versículo da Escritura), encontrar um teto amigo
(i. é, uma
casa).
401
5) a matéria pelo objeto:
um níquel (i.é, moeda de níquel), uma prata (i.é, moeda de prata).
6) o lugar pelo produto ou características ou vice-versa:
jérsei (= tecido da cidade jersey), gaza (= tecido da cidade de Gaza),
havana (= charutos);
greve (as reuniões feitas na Place de Ia Grève).
7) o abstrato pelo concreto:
A virtude vence o crime (i. é, as pessoas virtuosas vencem os criminosos);
praticar
a caridade (= atos de caridade).
8) o sinal pela coisa significada ou vice-versa:
o trono (= o rei), o rei (= a realeza)
c)Braquilogia ou abreviação (as diversas acepções de um vocábulo devidas
à elipse do determinante):
dou-lhe a minha palavra (i.é, palavra de honra), vamos à cidade (i.é, ao
centro da
cidade), um possesso (i.é, pessoa possuída do dem6nio).
341
#
d) Eufemismo (translação de sentido
pela suavização da idéia):
1) para a morte:
finar-se, falecer, entregar a alma a Deus, dar o último suspiro
(literários), passar desta
a melhor, ir para a cidade dos pés juntos, dizer adeus ao mundo, esticar
as canelas,
desocupar o beco, bater as botas, etc. (estes populares).
2) para a bebida:
abrideira, dgua-que-gato (passarinho) -não-bebe, janudria.
O tabu lingüístico pode favorecer o aparecimento de expressões eufemísticas.
O medo de proferir palavras como diabo, demônio, satands, nos
leva a usar desfigurações voluntárias como diacho, diogo, demo, satã(').
e) Alterações semânticas por influéncia
de um fato de civilização
tonto (= louco), particípio do verbo tondere, por tonso, lembra-nos o tempo
em que
se rapava a cabeça aos loucos(2).
pagito (= indivíduo que não foi batizado) se prende à época inicial do
Cristianismo,
402
pois a Igreja fez uso especial do termo que tinha curso na linguagem
militar:
paganus, o civil, em oposição ao soldado (castrensis) passou a ser o
oposto a
christianus (cf. E. GAMILLSCHEG, Franzõsische Bedeutungslehre, 1951,
134).
cor(saber, guardar, ter de - = de memória) relembra-nos a época em que a
anatomia
grega fazia do coração a sede dos sentimentos, da inteligência, da
memória.
judiar (= zombar, atormentar) lembra-nos a época dos tormentos praticados ou
sofridos pelos judeus. A palavra judas (= homem mal vestido) é uma
aplicação
do nome próprio Judas a quem o povo atribui qualidades negativas.
calabrear (= misturar; confundir; mudar para pior; alterar vinhos) documenta
a
má fama em que eram tidos os calabreses, acrescida pela lenda popular
de que
Judas era natural da Calábria, no sul da Itália. Cf. artigo de L. Spitzer,
Boletim
de Filologia (Lisboa), V, 3-4, pág. 376.
A maneira aristocrática de ver as coisas é responsável pela mudança
de sentido de alguns vocábulos:
vilão (saído do latim villa = quinta, aldeia), de "camponès" passou a designar
"homem
grosseiro% "perverso", "infame".
De vez em quando surgem pessoas que querem ver expurgados dos
dicionários certos vocábulos depreciativos de povo (como judiar e outros).
É excesso de sentimento a que a História não se curva, nem o povo leva
em conta, porque, no uso do termo, não entra nas minúcias históricas do
pesquisador.
(1) R. F. MANsua ~os, Tabus Língüístícos, 1956, 76 e ss.
(2) Recente etimologia proposta pelo sueco GeNNA& TILANDER. Cf. nossa nota
em Revista
Brasileira de Filologia, vol. 6, tomo 1, junho de 1961, 142-144.
342
#
f) Etimologia popular ou associativa
É a tendência que o falante - culto ou inculto - revela em aproximar
um vocábulo de um determinado sentido.
Às vezes o vocábulo recebe novo matiz semántico sem que altere sua
forma. Famigerado, por exemplo, que significa célebre, notável, influenciado
pela idéia e semelhança morfológica de faminto, passa, na linguagem
popular, a este último sentido. Intemerato (= sem mancha, puro),
graças a temer, é considerado como sinônimo de intimorato; inconteste
(= sem testemunho) passa a sinônimo de incontestável; falaz (= falso,
403
enganador) é aproximado de falador.
Espécies de alteração semântica
A) Extensão do sentido;
fl) Enobrecimento do sentido;
C) Enfraquecimento do sentido.
A - Extemão do sentido
prédio (== propriedade rústica ou urbana inamovível) passou a designar
qualquer edifício sem referência ao solo.
espraiar (= jogar algo à praia) alargou o sentido como sinônimo de
"estender-se por larga área".
embarcar (= entrar na barca) significa hoje "entrar em qualquer
condução".
aliviar (= tornar mais leve uma carga) se diz hoje como igual a "minorar",
"diminuir", "abrandar", uma culpa, um mal, o tempo (a
chuva aliviou).
1 - Restrição ou especialização do sentido
a) fortuna (destino bom ou mau) especializa seu sentido na direção
positiva.
sucesso (acontecimento bom ou mau) passa a exprimir só o lado bom.
carta (= epístola) tinha em latim o sentido de qualquer livro, papel,
escrito.
britar significa "quebrar qualquer coisa", restringiu hoje o seu sentido
para "quebrar pedras".
b)abreviação ou condensação: um havana (= charuto de Havana); o
champanha (= o vinho de Champagne); um (a) jato (= avião a
jato).
343
#
homem.
2 - Plenitude do sentido
Um milhão de cruzeiros já é uma quantia; José mostrou-se um
B - Enobrecimento do sentido
emérito (aplicado ao funcionário que se aposentava) significa hoje distinguido,
ilustre.
marechal (= criado do cavalo) passou a indicar o posto elevado do
Exército.
pedagogo era o escravo que conduzia as crianças à escola: significou depois
o professor.
3 - Degradação do sentido
404
vilão (cf. acima).
libertino (==escravo liberto) passou a indicar o indivíduo devasso, sem
pudor.
libidinoso (= que segue seu capricho) significa hoje o dissoluto.
C - Enfraquecimento do sentido
O emprego contínuo de um vocábulo provoca a diminuição de sua
energia semântica, mormente nas expressões afetivas. Bajular era levar
alguém às costas, o que enfatizava a idéia de servidão que tinha o vocábulo
no início do seu emprego em expressões como "bajular o chefe".
Pequena nomenclatura
de outros aspectos semanticos
1) Polissemia. - É o fato de ter um vocábulo mais de uma significação:
Pensar ("pensar um assunto" e "pensar um ferimento"), manga Çm. de paletó",
o
fruto, forma do verbo mangar).
A polissemia é a base de muitos jogos de palavras e de qüiproquós:
- "A quem dói o dente deve doer a dentuça."
- "Homem de quem vos queixais?" (F. MANUEL DE MELLO, Feira de Anexins).
2) Homonímia. - É o fato de haver vocábulos que se pronunciam
da mesma maneira, mas que têm sentidos diferentes. Podem ter ou não a
344
I
t
I
#
mesma grafia. Os que se pronunciam da mesma maneira são homófonos,
e os que se grafam igualmente dizem-se homógrafos:
Lima a) fruto
{ b) ferramenta
Nora a) a mulher do filho em relação aos pais dele
b) aparelho para tirar água dos poços, rios, etc.
Coser : costurar
Cozer: cozinhar
Espiar: olhar
Expiar: pagar uma pena
seção, secção: divisão; repartição; parte de um todo
sessão : reunião
cessão : ato de ceder
405
3) Sinonímia. - É o fato de haver mais de um vocáb o co a
mesma ou quase a mesma significação:
casa, lar, morada, residência, mansão.
Um exame detido nos mostrará que a identidade dos sinônimos é
muito relativa; no uso (quer literário, quer popular) eles assumem sentidos
"ocasionais" que no contexto um não pode ser empregado pelo
outro sem que se quebre um pouco o matiz da expressão. Uma série sinonímica
apresenta-se-nos com pequenas gradações semánticas quanto a diversos
domínios: o sentido abstrato ou concreto; o valor literário ou
popular (fenecer / morrer); a maior ou menor intensidade de significação
(chamar / clamar / bradar / berrar); o aspecto cultural (escutar / auscultar)
e tantas outras.
4) Antonímia. - É o fato de haver vocábulos com sentidos op~s~to~s.
. vida /1 morte crente / descrente
Um mesmo vocábulo pode assumir um sentido favorável e outro
desfavorável. Este fato se dá com muita freqüência com as "voces mediae"
que exprimem, conforme o caso, uma alegria ou tristeza, um benefício
ou prejuízo, etc.: fortuna (boa ou má), sucesso (bom ou mau), augúrio,
sorte interesse (1).
Às vezes ocorre a antonímia porque o vocábulo apresenta valor ativo
e passivo:
alugar a) dar de aluguel
{ b) receber de aluguel
(1) Cf. K. NyRop, Grammaire Historique de [a Langue Franfaise, V
(S4mantique), 43.
345
#
emprestar 4) dar de empréstimo
b) receber de empréstimo
hóspede a) quem recebe a hospedagem
b) quem dá a hospedagem (hoje hospedeiro)
esmolar a) dar esmolas
b) receber esmolas
5) Paronímia. - É o fato de haver vocábulos parecidos na forma e
diferentes no sentido.
Os parônimos dão margem a freqüentes erros de impropriedade vocabular.
Iminente: pendente, próximo
para acontecer
Eminente : ilustre
Ratificar: confirmar
406
Retificar: corrigir
Descrição : ato de descreDiscrição : qualidade de quem
é discreto
Proscrever : proibir
Prescrever: aconselhar
Tráfego : trAnsito
Tráfico. comércio
Infringir : transgredir, violentar
Infligir: aplicar pena, castigo
Intimorato: destemido, intrépido
Intemerato: puro, imaculado
#
e
Otar
ido
VI - Noções elementares
de estilistica
A nova Estilistica. - A nova Estilistica, ou simplesmente Estilistica,
é a parte dos estudos da linguagem que se preocupa com o estilo.
Que é estilo na conceituação moderna - Entende-se por estilo o
conjunto de processos que fazem da língua representativa um meio de
exteriorização psíquica e apelo(').
Estifistica e Gramática. - A compreensão deste conceito de estilo
se fundamenta na lição de Ch. Bally, segundo a qual o que caracteriza o
estilo não é a oposição entre o individual e o coletivo, mas o contraste
entre o emocional e o intelectivo. É neste sentido que diferem Estilistica
(que estuda a língua afetiva) e Gramtítica (que trabalha no campo da
língua intelectiva).
Uma não é a negação da outra, nem uma tem por missão destruir o
que a outra, com orientação científica, tem podido construir. Ambas se
completam no estudo dos processos do material de que o gênero humano
se utiliza na exteriorização das idéias e sentimentos.
Estilística e a Retórica. - Tem-se apresentado a Estilística também
como a negação da antiga Retórica que predomina ainda na crítica tradicional
do estilo com suas múltiplas indagações literárias, históricas,
sociais,
filosóficas e tantos outros domínios que na obra se espalham através do
temperamento e atitude do escritor. Cabe aqui recordar as justas considerações
de Amado Alonso (2) " ... a estilística não pretende petulantemente
declarar caduca a crítica tradicional; reconhece seu alto valor e
407
aprende nela; sabe que na análise de obras de arte nem tudo termina com
(1) J- MATOSO CÂMARA Jr., Noçjes de Estilística (palestra patrocinada
PCIa CA£c, 1960,
ainda inédita).
(2) Matéria y Forma en Poesia, 103-104.
347
#
o prazer estético e que há valores culturais, sociais, ideológicos,
morais,
enfim, valores históricos que não pode nem quer desprezar. E com a mesma
se vê o que pretende e o seu valor: completar os estudos da crítica
tradicional fazendo agora entrar um aspecto que estava menosprezado.
E não apenas mais um aspecto, senão o aspecto básico e específico da
obra de arte, o que dá valor a todos os outros. Por isso a estilística,
sobre
estudar temas novos, continua estudando com igual amor todos os velhos,
apenas o faz do seu ponto de vista. Por exemplo, sempre se estudaram
as fontes de um autor ou de uma obra, ou - o que vale o mesmo - a
origem das idéias dominantes em um período literário. Porém realizou-se
isso por interesse histórico, para fixar procedências. Este é o ponto de
chegada da crítica tradicional. Para a estilística é o ponto de partida,
e
a si pergunta: que fez meu autor ou minha época com estas fontes ? Para
usar a velha comparação: estudando o mel, a crítica tradicional estabelece
em que flores e de que campos extraiu a abelha; a estílistíca se pergunta:
como resultou este produto heterogêneo com todas as suas procedências,
qual é a alquimia, que originais e triunfantes intenções lhe insuflaram
vida nova ? Ou voltando à comparação da estátua: a crítica tradicignal
estuda as canteiras donde procede o mármore; a estilística, que é que o
artista fez com ele".
Análise literária e análise estilística. - Da lição de Amado Alonso
se patenteia que não se há de confundir análise literária com análise
estilistica, pois que, trabalhando num mesmo trecho, têm preocupações
diferentes e utilizam ferramentas também diversas. Em que pese à autorídade
de nossos programas oficiais para ensino de Língua Portuguesa,
o que deve ser objeto da tarefa do professor de língua é a análise
estilística
(ainda que elementar, como reza a letra deste mesmo programa), e não
• análise literária, que é da alçada do professor de Literatura.
Ensinando-se
• língua portuguesa, nada mais natural do que, num texto literário ou
não, ressaltar o sistema expressivo e sua eficácia estética no idioma ou
nas particularidades idiomáticas de um autor literário ou de um simples
falante. Para a estilística, interessa tanto a depreensão dos traços
estilísticos
da língua oral como da escrita, do falante comum e do literato. Com
razão disse Vossler que na linguagem de um mendigo vagabundo há
gotinhas estilisticas da mesma natureza que todo o mundo expressional
de um Shakespeare.
408
Traços estilísticos. - O conjunto de particularidades do sistema
expressivo para eficácia estética recebe o nome de traços estilísticos.
São
numerosos os traços estilísticos - e há um avultado número deles cujo
valor ainda está pata ser analisado - em todos os compartimentos de um
idioma.
Cabe-nos agora indagar quando uma particularidade lingüística se nos
apresenta como traço estilístico. 'Já sabemos - ensina-nos J. Matoso
348
#
Câmara jr. (1) - que o traço estilístico não se trata de uma maneira de
dizer necessariamente pessoal; nem pelo fato de ser pessoal se tem necessariamente
um traço estilístico. Esta dupla consideração é tão importante
que hão de me relevar insistir um pouco mais. Para isso, peço desculpas
de me citar a mim mesmo e me reportar a um pequeno artigo que publiquei
há tempos na Revista do Livro sobre "A Coroa do Rubião": diz-nos
Machado de Assis, no Quincas Borba, que Rubião, demente, julgando-se
"imperador dos franceses" no momento da agonia, cingiu a "'coroa", que
não era sequer uma bacia, "onde se pudesse palpar a ilusão", "êle pegou
nada, ergueu nada e cingiu nada". O emprego de nada depois do verbo
sem se completar com um não antes do verbo, é uma maneira anômala
dei expressar a negação verbal em português. E é um traço estilísticonão
porque seja exclusivamente pessoal de Machado de Assis (quem nos
garante que outrem já não tinha feito isto ? - nem o escritor faz isto
sistematicamente), mas porque nesse dado contexto o emprego de nada
nessas condições tem um valor "estético", fazendo-nos ver dolorosamente
o gesto do pobre louco mercê do tratamento de nada não como mera
partícula negativa, mas como um
substantivo negativo - o oposto de
alguma coisa : a emoção do escritor e o seu apelo à nossa simpatia se
comunicam através desse emprego de nada, que é, pois, um emprego estilístico.
Ao contrário, quando José de Alencar acentuava a preposiçao
simples a, exibia um uso pessoal da língua literária (que era um erro do
ponto de vista de norma social vigente), mas não um traço estilístico,
pois
se circunscrevia ao domínio intelectivo (o escritor achava que assim devia
escrever por um raciocínio gramatical em falso); seria, ao contrário, um
traço estilístico se uma ou outra vez, apenas, aparecesse em seus textos
como recurso para insistir na preposição, dando-lhe uma tonicidade
excepcional".
Daí o erro dos que, pensando escrever bem, enxameiam suas páginas
das chamadas figuras de linguagem (pleonasmos, hipérboles, anacolutos,
metáforas, etc.). Essas figuras não se impõem "à outrance" às circunstâncias;
estas é que favorecem o aparecimento daquelas para fins estéticos.
Terá falhado na pesquisa estilística quem se contentar em dizer que há
anacoluto no derradeiro terceto desta conhecida jóia de Machado de Assis,
que é o soneto à Carolina:
"que eu, se tenho nos olhos mal-feridos
pensamentos de vida formulados,
409
são pensamentos idos e vividos".
O anacoluto ultrapassa os limites de uma simples figura, para ser um
eficaz recurso estético que põe diante de nossos olhos a profunda dor do
esposo que, pensando na companheira que se foi, não tem a paz interior
necessária para estruturar logicamente todo o tumulto de idéias que lhe
vai Walina.
(1 ) Na palestra citada.
349
#
Em suma a Estilística é o passo mais decisivo, no estudo de uma
língua, para a educação do sentimento estético,.,.
Traço estilístico e erro gramatical. - Não se há de entender queo
estilo seja sempre uma deformação da norma lingüística. Isto nos leva
à distinção entre traço estilístico e erro gramatical.
O traço estilístico pode ser um desvio ocasional de norma gramatical
vigente, mas se impõe pela sua intenção estética.
O erro gramatical é o desvio sem intenção estética.
Campo da Estilística. - O estudo da Estilística abarca, semelhante
à Gramática, todos os domínios do idioma. Lembremos a lição de Ch.
Bally: "Todos os fenômenos lingüísticos, desde os sons até as combinações
sintáticas mais complexas, podem revelar algum caráter fundamental da
língua estudada. Todos os fatos lingüísticos, sejam quais forem, podem
manifestar alguma parcela da ida do espírito e algum movimento da sensibílidade.
A estilística não é o estudo de uma parte da linguagem, mas o
é da linguagem inteira, observada de um ângulo particular. Nunca pretendi
(isto é para responder a umas críticas que me fizeram) que a linguagem
afetiva existe independentemente da linguagem intelectual, nem
que a estilística deva estudar a primeira excluindo a segunda; o que faz
é estudá-las ambas em suas relações recíprocas, e examinar em que proporção
se aliam para compor este ou aquele tipo de expressão"(').
Teremos assim os seguintes campos da Estilística:
1) fônica
Estilística 2) morfológica
3) sintática
4) semântica.
A ESTILíSTICA FÔNICA procura indagar o emprego do valor expressivo
dos sons: a harmonia imitativa, no amplo sentido do termo, É a fonética
expressiva de que falamos na parte inicial deste livro.
A ESTIUSTICA MORFOLóGICA sonda o uso expressivo das formas gramaficais.
Entre os usos expressivos deste campo lembraremos:
1) o plural de convite: põe-se o verbo no plural como que se quisesse
incentivar uma pessoa a praticar uma ação trabalhosa ou desagradável.
É o caso da mãe que diz à filhinha que insiste em não tomar o remédio:
Olha, filhinha, vamos tomar o remedinho.
410
2) o plural de modéstia: o autor, falando de si mesmo, poderá dizer:
Nós, ao escrevermos este livro, tivemos em mira dar novos horizontes
ao ensino
do idioma.
(1) L6 Langage et Ia Fie, 100.
350
#
-1 r
3) o emprego expressivo dos sufixos. (mormente os de gradação):
paizinho, mãezinha, poetastro, Padreco, Politicalha.
4) o emprego de tempos e modos verbais, como, por exemplo:
a) o presente pelo futuro para indicar desejo firme, fato categórico:
Amanhã eu vou ao cinema.
b) o imperfeito para traduzir pedido:
Eu queria um quilo de queijo (em vez do categórico e, às vezes, ameaçador
quero).
c)o presente pelo pretérito para emprestar à narração o ar de novidade
e poder comover o ouvinte:
Ai César invade a Gália.
5) a mudança de tratamento, de um período para outro, para indicar
mudança da situação psicológica entre falante e ouvinte, ou entre escritor
e leitor. No soneto última Folha, Casimiro de Abreu chama a Deus por
Meu Pai e ora o trata por tu, ora por vós. É que em Meu Pai o poeta vê
Deus como seu Intimo, ligado a êle tão intimamente que lhe cabe o tratamento
tu. Mas ao poeta Deus se apresentava também como o criador de
todas as coisas, o poder supremo a quem só podia caber a fórmula respeitosa
e cerimoniosa assumida por vós.
A ESTILISTICA SINTÁTICA procura explicar o valor expressivo das
construções:
1) na regência, como, por exemplo, o emprego do posvérbio;
2) na concordincia, como, por exemplo, na atraçjo, na silepse, no
infinitivo flexionado para realce da pessoa sobre a ação mesma;
3) na colocação dos termos na oração, na colocação de pronomes, etc.
4) no emprego expressivo das chamadas figuras de sintaxe.
A ESTILíSTICA SEMÂNTICA pesquisa:
1) a significação ocasional e expressiva de certos vocábulos
Você é um abacaxi.
411
Aquele aluno é um monstro.
Ele tem uns bons sessenta anos.
2) no emprego expressivo das chamadas figuras de palavras ou tropos
(metáfora, metonímia, etc.) e figuras de pensamento e sentimento (antítese,
eufemismo, hipérbole, etc.).
351
#
VII - Noções elementares
de versificação
Poesia e prosa. - Em sentido formal, chama-se poesia à forma de
expressão ordenada segundo certas regras e dividida em unidades rítmicas.
Prosa é a forma de expressão continuada. Embora a prosa também
possa ter ritmo, aqui ele é menos rigoroso que na poesia.
Verso é a unidade rítmica em cujos limites se acham as unidades de
sentido de que se compõe o poema.
Enjambement. - Do ponto de vista gráfico, recebe ainda o nome
de verso cada linha de que,consta o poema. Este último critério é falho,
porque nem sempre a unidade de sentido (unidade sintática) coincide
com os limites de uma linha de poema, nascendo a obrigatoriedade de
se ligar o verso ao verso seguinte, não se deixando, entretanto, de fazer
a pausa natural que separa um verso do outro. Este fenômeno recebe o
nome francês enjambement (que significa cavalgamento):
"Sonho profundo, 6 Sonho doloroso,
Doloroso e profundo Sentímentol
Vai, vai nas harpas trêmulas do vento
Chorar o teu mistério tenebroso" (CRUZ E SOUSA, Obras poéticas, 11, 63).
Versificação é a técnica de fazer versos ou de estudar-lhes os expedientes
rítmicos de que se constituem.
"Não se há de confundir versificação com poesia. A poesia é uni
dom : nasce-se poeta. A versifícação é uma arte: torna-se um versejador.
Grandes poetas, como Vigny, foram medíocres versejadores. Hábeis versejadores,
como Teodoro de Banville, não podem jamais ser chamados
poetas" (1).
(1) BRUNEAU-HRULLUY, Grammaire Frangaise, 431.
352
#
O ritmo poético, que na essência não difere das outras modalidades
de ritmo, se caracteriza pela repetição. O ritmo consiste na divisão
percep412
tivel do tempo e do espaço em intervalos iguais. Quando a poesia se constitui
de unidades rítmicas iguais, diz-se que a versificação é regular;
quando isto não ocorre, a versificação é irregular ou livre.
O ritmo poético utiliza recursos que nem sempre são coincidentes de
idioma para idioma.
Entre nós, por exemplo, não figura a quantidade, que é o alicerce da
versificação latina ou grega. A rima, por outro lado, que hoje nos é tão
familiar e querida, não constituía peça essencial da poesia até a Idade
Média latina.
Em português o ritmo poético é assegurado pela utilização dos seguintes
expedientes que se podém combinar de maneira variadíssima:
1) número fixo de sílabas;
2) distribuição das sílabas fortes (ou tônicas) e fracas (ou átonas);
3) cesura;
4) rima;
5) aliteraçáo;
6) encadeamento;
7) paralelismo.
O número fixo de sílabas coordenado com a distribuição das sílabas
fortes e fracas constitui um metro poético e o seu estudo recebe o nome
de métrica.
1 - NúMERO FIXO DE SILABAS
Como se contam as sílabas de um verso. - Na recitação a contagem
das sílabas se processa diferentemente da análise gramatical; nesta se
atenta para a sua representação na escrita enquanto naquela se busca a
realidade auditiva. No verso:
"É toda um hino: - esperança 1" (CASIMIRO DE ABREU, Obras, 97)
há sete sílabas para o poeta (este só conta até a última tônica) e dez
sílabas
para o gramático; aquele não profere o a final de toda, liga a consoante
d
a um, omite também o o final de hino e junta o n à sílaba inicial de
esperança:
A /to/ d(a)um /hi/ n(o):-es /pe/ ran/ça
1 2 3 4 5 6 7
Só se conta até a última sílaba tônica: versos agudos, graves e es.
drúxulos. - Uma das orientações que distinguem a contagem das sílabas
entre o poeta e o gramático, é que o primeiro, de acordo com orientação
353
#
divulgada por Antônio Feliciano de Castilho, no século xix, só leva em
conta até a última sílaba tônica, desprezando a átona ou as átonas finais.
Daí a divisão dos versos em agudos, graves ou esdrúxulos, conforme terminarem,
respectivamente, por vocábulos oxitonos, paroxítonos, como nos
413
seguintes versos, todos de dez sílabas.
"O padre não falou - mostrou-lhe o céu P' (C. Dr ABmu, Obras, 137) Agudo.
"Eu vi-a lacrimosa sobre as pe~ras" (ID., ibid., 106) Grave.
"Estátua da aflição aos pés dum túmulo V' (ID., ibid.) Endrúxulo.
Neste livro indicaremos a sílaba métrica pelo símbolo quando
for tônica poremos nele um acento tônico: ~, (1).
Fenômenos fonéticos correntes na leitura dos versos. - Na leitura
dos versos proferimos os vocábulos com as junções e as pausas que o falar
de todos os momentos conhece; por exagero, entretanto, tais fen(nnenos
fonéticos costumam ser explicados como "exigência da técnica versificatória".
Estes fenômenos são: 1) sinérese; 2) diérese; 3) elisão; 4) crase; 5)
ectlipse; e podem ocorrer uns dentro do mesmo vocábulo (intraverbais ou
internos) e outros pela junção de dois vocábulos (interverbais ou
externos).
SINÉRESE ou ditongação é a junção de vogais contínuas numa só sílaba
em virtude de uma das vogais passar a semivogal.
Na língua portuguesa moderna são passíveis de sinérese interna: "I)
,quaisquer encontros vocálicos átonos; 2) os encontros de uma vogal átona
:seguida de uma vogal tônica mais aberta, 3) os encontros de uma vogal
ltônica, seguida de uma vogal átona mais fechada. Em 1) tem-se como
iresultado um ditongo crescente, ou decrescente conforme o caso: trai-dor,
-cruel-da-de, poe-si-a. Em 2) o resultado é um ditongo crescente: fiel,
cruel,
iuar, feitos monossílabos; co-roa-da, feito trissílabo. - Em. 3) aparece
um
ditongo decrescente: caos, num monossílabo" (2).
A sinérese externa pode ocorrer quando, em vocábulos, contíguos, um
termina por vogal átona e o seguinte começa por vogal também átona:
"Lá,lno llpílran/ga Ido/ Bralsil /o/ MarIte".
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
A sinérese dos tipos 2) e 3) vistos acima, quando produz monossílabos,
resulta de, no grupo de força, o vocábulo passar a átono.
DIÉRESE é a dissolução de um ditongo em hiato.
(1) O emprego antigo e ainda corrente do mdcron (-) para as tónicas e
da braquia
(%i) para as átonas pode confundir os conceitos de quantidade e
Intensidade.
(2) J. MATOSO CÂMARA Jr., DiciondriO de Fátos Gramaticais, 191-2
354
#
(no caso de sé-lo usa-se o apóstrofo):
414
a
A diérese, que é sempre interna, é fenômeno hoje raro em poesia,
geralmente usado apenas para certos fins expressivos ou como expediente
para dar ao verso o número de sílabas exigidas:
"Pelsal-me es/ta/ bri/lhanjte aujré/ o/Ia /de /nulme..." (M. DE Assis).
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12
O movimento lento, proferindo auréola (au-ré-o-la) como vocábulo
de quatro sílabas, parece emprestar à situação o colosso do tamanho que
tinha o sol, em relação à simplicidade do vaga-lume.
ELISÃO ou sinalefa é a supressão de vogal átona final de um vocábulo
em virtude de o contíguo começar também por vogal.
A elisão da vogal átona final pode ou não ser indicada graficamente
Mas se forçose Vé deixar a pátria" (C. DE ABREU, ibid., 125).
"Mais rico e belo que os vergéis do sul (ID., ibid., 124).
Note-se também que a elisão pode abarcar mais de duas vogais.
Muitas vezes podemos ficar na escolha entre a existência de uma
sinérese ou de uma elisão, sabendo-se, entretanto, que, no Brasil, esta
é
menos freqüente que aquela.
CRASE é a fusão de dois ou mais sons iguais num só:
"Teu pensamento, como o sol que morre,
Há de cismando mergulhar-sç Sm mágoas" (C. DE ABREU, ibid, 125).
"Durante a noite quando o. orvalho desce" (ID., ibid, 144).
ECTLIPSE é a supressão da ressonáricia nasal de uma vogal final de
vocábulo para facilitar a sinérese ou a crase com a vogal contígua(').
ocorre com mais freqüência a ectlipse no final -em e na preposição
com. Neste último caso é comum ser indicada por apóstrofo, porque, a
rigor, a ectlipse não passa de uma elisão, considerado o vocábulo no seu
sentido mais geral (o Vocabulário oficial recomenda não usar apóstrofo:
coa, coas, co, cos):
"Co'as tranças presas na fita,
Co'as flores no samburá" (C. DE ABREu, 116).
É preciso insistir, mais uma vez, que os fenômenos fonéticos aqui
estudados só na mão do versejador são frios recursos de aumento ou diminuição
de sílabas para atender às exigências da técnica versificatória;
na
mão do verdadeiro poeta constituem intencionais e vigorosos elementos
(1) "Sem Imo, a sinérese é anómala, porque a ressonáncia nasal
corresponde a um travamento
da silaba e só as silabas terminadas por vogal são propriamente
livits e se prestam à
crase ou sinércee" (J. MAToso CA~A jr., Diciondrio de Fatos Gramaticais,
85).
415
355
#
do quadro que o artista deseja por diante de nossos olhos. O ritmo que
devemos imprimir ao verso, acelerado aqui, com pausas acolá, é uma como
harmonia imitativa das idéias que o poeta nos quer transmitir.
O ritmo e a pontuaÇSo do verso. - já acentuamos que nem sempre
a unidade de sentido do poema coincide com os limites de uma linha do
mesmo, o que nos mostra o erro daqueles que lêem verso fazendo longa
pausa no fim de cada um deles. Esta longa pausa só é lícita quando a
unidade sintática o exigir ou permitir. Em:
"Meus Amigos, Adeus - Verei fulgindo
A lua em campo azul, e o sol no ocaso
Tingir de fogo a implacidez das águas;
Verei hórridas trevas lento e lento
Descerem, como um crepe funerário
Em negro esquife, onde repoisa a morte" (G. DIAS, Obras, 1, 213),
se lê com breve pausa no fim dos versos 1, 2; 4, 5 (enjambement).
Às vezes se podem ligar fonemas de vocábulos separados por algum
sinal de pontuação ou, ao contrário, pode haver uma pausa sem que seja
indicada por sinal gráfico adequado, como nestes versos de dez sílabas:
"E eu, fitando-a, abençoava a vida" (C. DE ABREu, Obras, 279), lido:
E/ eu/ fi/tan/do-a alben/ço/a/va a /vi/da
1 2 3 4 5 o 7 8 9 10
"Ama-se a vida - a mocidade é crença". (ID., ibid., 144).
Expedientes mais raros na contagem das sílabas. - Ao lado dos
casos até aqui apontados, há outros de menos incidência, mas que merecem
nossa atenção. Lembraremos os três seguintes:
a)o movimento rítmico de um verso pode estar sob a influência do verso
anterior ou do seguinte, fazendo com que a vogal ou sílaba inicial de
um verso fique incorporada no verso precedente; isto vem explicar
a exatidão métrica de alguns versos aparentemente errados por se apresentarem
mais curtos do que deviam :
"Chorar a virgem formosa
Morta na flor dos anos" (C. DE ABREU, Obras, 83), que será lido:
Cho/rar/ a/ virlgeml for/mo/
1 2 3 4 5 6 7
sal mor/ta/ na/ flor/ dos /alnos
1 2 3 4 5 o 7
b) o silêncio ou pausa mais forte valendo
como sílaba:
"Às vezes, oh, sim, / derramam tIo fraco" (G. DIAS, Obras, 1, 68).
"O' céu era azul, / tão meigo e tão brando" (ID., ibid., 45).
são versos de onze sílabas aos qua~is a pausa intencional do poeta
(indicada
aqui por / ) vale por um sílaba'métrica.
416
356
#
c)a dissolução de um encontro consonántico pela intercalação de uma
vogal ( / i / ou / e / ), não indicada na escrita, fazendo da primeira
consoante uma sílaba à parte, o que revela uma tendência da pronúncia
brasileira corrente:
"Ninguém mais observa o tratado" (C. DIAs, Tabira) - Observa deve ser
lido
com quatro sílabas.
"Contudo os olhos Wignóbil pranto" (ID., Ijuca-Pirama) - ignóbil deve
ser
lido também com quatro sílabas.
2 - NúMERO FIXO DE SILABAS E PAUSAS
O número fixo de sílabas e pausas é o principal dos apoios rítmicos
do verso. O poeta tem a liberdade de não ficar, em todo o poema, preso
ao mesmo metro. No poema de Gonçalves Dias intitulado "Minha Vida
e Meus Amores" ocorre uma mudança de metro muito interessante. O
poeta vinha versejando em decassílabos acentuados na sexta sílaba ou na
quarta e oitava:
Outra vez que lá fui, que a vi, que a medo
Tema voz lhe escutei: - Sonhei contigo 1 -
Inefável prazer banhou meu peito,
Senti delícias; mas a sós comigo
Pensei - talvez 1 ~ e já não pude crê-lo.
De súbito, nos versos 67 e 68 faz cair as pausas na quarta e sétima
sílabas, aproximando o ritmo decassílabo do ritmo de onze sílabas, que
vai aparecer nos versos 70 e 71:
Ela tão meiga e tão cheia de encantos,
Ela tão nova, tão pura e tão bela
Amar-me 1 - Eu que sou?
Meus olhos enxergam, enquanto duvida
Minh'alma sem crença, de força exaurida,
já farta da vida,
Que amor não doirou (M. BANDEIRA, Poesia
e Prosa, 11, 127).
Na poesia A Tempestade, G. DIAS varia a medida de estrofe; a estrofe
começando por duas sílabas até chegar a onze, quando retorna num movimento
decrescente até voltar ao de duas sílabas. Com isto o poeta
quis-nos indicar mais vivamente "a aproximação gradativa da tempestade,
cuja maior fúria estoura na décima estrofe, para depois afastar-se pouco
a pouco" (M. BANDEIRA, ed. das Obras de G. DIAS, 11, 235).
Os versos em português variam, em geral, de uma a doze sílabas,
sendo raros os que ultrapassam este número. Para sua designação empre-
357
417
#
gam-se os nomes gregos denotativos de número prefixados ao elemento
-sílabo: mono- (um só), dis- (dois), tri- (três), tetra- (quatro), Penta-
(cinco), hexa- (seis), hepta- (sete), octo- (oito), enea- (nove), deca-
(dez),
hendeca- (onze), dodeca- (doze): monossílabo, dissílabo, trissílabo,
tetrassílabo
(também chamado quadrissílabo), pentassílabo (também.dito redondilha
maior ou só redondilha), octossílabo, eneassílabo, decassílabo
(também chamado heróico), hendecassílabo (também chamado de arte
maior) e dodecassílabo (ou também alexandrino, nome tirado das numerosas
composições medievais que cantavam os feitos do guerreiro Alexandre,
mormente o Poema de Alexandre, composto no sec. xii, por Alexandre
de Bernay e Lambert Licors).
Cesura. - Os versos longos, de ordinário a partir dos de dez sílabas,
apresentam uma pausa interna, chamada cesura, para ressaltar o movimento
rítmico, dividindo o verso em duas partes conhecidas pelo nome de
hemistíquios. A cesura pode ser uma pausa menor (não indicada por
sinal de pontuação), ou mais acentuada (indicada na escrita por sinal de
pontuação).
Versos de uma a doze sílabas. - Os versos de uma, duas e três sílabas
só têm uma sílaba forte:
a) MONOSSLABOS (rarissimos):
"quebra
quefina
reina
dança
sangue
goema..."
b) DissfLABos
c) TRISSILABOS:
(MÁRIO M ANDitADE apud M. BANDEARA, Versificação, 3242).
"Um raio
Fulgura
No espaço
Esparso
De luz" (G. DIAS, 11, 229)..
"Vem a aurora
Pressurosa,
418
Cor-de-rosa,
Que se cora
De carmim" (ID., ibid.).
358
I r
#
d)TETRASSíLABOS - apresentam os seguintes movimentos rítmicos principais:
"O sol desponta" (ID., ibid., 230).
2 - ,~ ,~ ,~ \:~Á
"Que entre verdores" (ID., ibid.).
3 - k~/ ,~ ,~ \::~
"Lá no horizonte" (ID., ibid.).
4 - \_~ ,~ \::~ \::~
"Salomé vinha" (apud M. BANDEIRA in'Versificaçtlo da Língua Portuguesa
in
Enciclopédia Delta-Larousse, IV, 3242).
C)PENTASSíLABOS - apresentam os seguintes movimentos rítmicos prin
cipais:
:~, "-Á ".Á ,~ ç~,
"Gados que pasceis" (CAMõEs apud SAID ALI, Versificação Portuguesa, 30).
2 - \-" ~~Á ,~ ,-Á x~í
"Um ponto aparece" (G. DIAS, ibid.).
3 - ,~ -,.Á \~/ %,~ \::~
"Não sou eu tão tola" (J. DE DEus apud SAm ALI, ibid.).
f)HEXASSILABOS - apresentam os seguintes movimentos rítmicos principais:
1 -- -., ~, ~Á \~, .-i \:~,
"Não solta a voz canora" (G. DIAS, ibid.).
,-, "-Á ~,
"Que um canto d'inspirado" (ID., ibid.).
,~ ~.-Á ç~Á \..Á \-./ \::~
"Como é fundo o sentir" (C. DE ABREu apud SAm ALI, ibid, 33).
4 - ,~ \_~ k~Á k-,i \,-Á \~i
"Pois permite e consente" (CAmõEs apud SAm ALI, ibid, 32).
5 - ç~, ".Á ,~ ~~Á -., ,~Á
419
"Tu já mataste a sede,
M~te-me a sede a,mim" (J. DE DEUS apud SAm ALI, ibid.).
o - ~-Á _~ .~ \~, .~ \~, -
"E à luz do luar incerto" (A. DE GUIMARÃEs apud J. MAToso CAmA", Gramdtica,
11, 149).
359
#
g)HEPTASSíLABOS - são os verbos mais usados e populares em português
e apresentam os seguintes movimentos rítmicos principais:
"Cresce a chuva, os rios crescern" (G. DIAS, ibid.).
2 - ~Á ,~ ,~ ç~ \,~ k-.,, ç~
"Fogem do vento que ruge" (ID., ibid.).
3 -
"Ardendo na usada sanha" (ID., ibid.).
4 ,-Á ,~ k~Á ,~ ~~ ~,~ \~
"Como ovelhas assustadas" (Ia, ibid.).
5 - ,~ "-Á ~~, \_~ ,~Á ,~ ~
"Que da praia arreda o mar" (ID., ibid.).
6 - ~~ k~ ,-Á \::~ X_~ ~-Á \,~
"É já torrente bravia" (ID., ibid.).
7 - \,~ ,~ ~Á \,~ - ,~ \,~ ,~
"Grossos troncos a boiar"
"Aqui nestas redondezas" (V. DE CARVALHo apud J. MATOSO CÂMARA, ibid.,
148).
)OCTOSSíLABO - apresentam os seguintes movimentos rítmicos principais:
"Demônios mil, que, ouvindo-as, digam" (R. CORREIA apud SAiD ALI, ibid.,
39).
2 - \,~ ,~ ~~ ~,~ \~j \,À ç:~
"Sabes tu de um poeta enorme" (M. DE Ases apud SAID ALI, ibid., 40).
"Roxas, brancas, rajadas, pretas" (ID., ibid.).
,--, ~~i
"Deixando a palhoça singela" (ID., ibid.).
5 -
- \-Á 1,.~ \..J \,~ k-1
420
"São Bom Jesus de MatozinhoV (A. DE GUIMARÃEs apud J. MATOSO CÁ
ibid, 150).
6 - ~-, \,~ ~.~ ,~ ,~ -., ,i ç~,
"Querem vè-lo no seu altar" (ID., ibid.).
7 - \-" \,~ \,~ -i \~'-/ ~~ ,~ \~i
"Para. ficar perto dos ninhos" (ID., ibid.).
8 - k~Á ',-Á \,~ k~i \.~ <~ \.i \~i
11 11
Alto, porém, tão alto soa (R. ConEIA apud SAiD ALI, ibid., 40).
360
#
i)ENEASSíLABOS - apresentam os seguintes movimentos rítmicos. principaís:
1 - _, ,~ \~, _i _, ~, _, \,~ ~~Á
"E no túrgido ocaso se avista" (G. DIAS, op. laud.).
"Além, nos mares tremulamente" (R. CORREIA apud J. MATOS0 CÂMARA JR.).
'Ma cor de uma menina sem vida" (A. GUIMA~ apud J. MATOSO CÂMARA,
ibid, 152).
3 -
4 - k:~i ,~ k~ ~~ \,~ k~ \-" ~,~ Ç~,
"Pobres de pobres são pobrezinhoV (G. JUNquEiRo apud SAID ALI, ibid.,
42).
"Dei-me ao relento, num mar de lua" (R. CORUJA apud SAID ALI, ibid.).
6 - ,~ ~, _Á \~, _, _, \::~ ,~ :~,
"Também outrora num mar de lua" (ID., ibid.).
7 - ~~Á \,~ ,~ ,-Á ç~/ ,.J ,~ \,-Á k~,
"Pobre lua nova, tão pequena" (A. GUIMARÃEs apud J. MATOS0 CÂMARA,
ibid.).
j)DEcAssíLABos - apresentam os seguintes movimentos rítmicos principais:
1 - ~.~ ~._Á \.~ \~Á \-" ".Á \.~ -/., k_~ \~Á
---Umsom longínquo cavernoso e ouco" (G. DIAS, ibid.).
2 - ,~ ".Á ~ \,~ \,~ \:~, ~,~ \-" _Á ~~Á
"Eis outro inda mais perto, iná mais rouco" (ID., ibid.).
\_, ~~Á ,~ <~ _, \~, .~ ,~ ~_, Ç~,
421
"Troveja, estoura, atroa; e dentro em pouco" (ID., ibid.).
"Rasga-se o negro bojo carregado" (ID., ibid.).
"E enquanto a luz do raio o sol roxeia" (ID., ibid.).
,_, .~ ~Á "-Á _, \~Á ,-, ,~ _, ~,
'.'Das ruínas completa o grande estrago" (ID., iNd.).
,,~ ,~ ,~ _, ,~, ~ .-, \~, ~.~ c,,
"O sonho passou. Traz magoado o rim" (M. BANDEIRA, Versificação, 3243).
,~Á ~.Á \,~ ,~ ~, ,~ ~~Á .~ ,~ -,Á
"Magoada a cabeça exposta à umidade" (ID., ibid.).
,,~ .., _, \:~, _, \.~ \~, .~ ~_, ç:~
"Doce repouso de minha lembrança" (CAmõEs apud M. BANDEIRA, ibid.).
361
#
1)HENDECASSíLABOS - apresentam os seguintes movimentos rítmicos
principais:
1 - ~_i 1~, ~_À ,~ ç~, .~ ,.i ~, ~ \_, \:~,
"Nos últimos cimos dos montes erguidos"
2 - \~i \_Á ,-Á _i k~i \,i %,~ ,~ k:~i \.-Á .~
"Ai 1 há quantos anos que eu parti chorando" (G. JUNQUEIRO, OS UMPICS,
117).
,.i \_Á ".Á _, ,~ ~~Á
"Deste meu saudoso, carinhoso lar I..." (ID., ibid.).
4 - \_i _i ç/~ \-i \~/ \,~ ~_Á \,~ \~ \_, \~Á
"Foi há vinte?... há trinta?... Nem eu sei já quandol..." (ID., ibid.).
m) DODECASSíLABOS - apresentam os seguintes movimentos rítmicos principais:
1 - -i \,~ Ç'_i ,,, "-Á ç:~ 1 \-., \_, ~ _Á _, \~i
'Já não fala Tupi no ulular da procela" (0. BILAc apud SAio ALI, ibid.,
56).
2 - , , \~_'
--- -,,, \.~ \:~/ ,~ <~ 1 \_, k::~ \~ \_~ \.J k~I
"E espalham tanto brilho as asas infinitas" (ID., ibid.).
3 - ,_i ,~ \::~ \_, ,~ ~~ 1 ,-Á ~~J ,-Á 6 ,J ç~,
"Como a faixa de luz que o povo hebreu guiava" (ID., ibid.).
4 - \,_Á ~~J ,~ ç~, ,~ k::~ 1 \,Á _, \::~ _J \_~ Ç'
"Teu pé também deixou um sinal neste solo" (ID., ibid.).
,5 - \~Á _, \-" \~, \_, \~, 1 <~, ,~ \,.i ç~, ~ ~i
"Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o dia" (ID., ibid.).
422
6 - \~Á \_Á \_À ,~ \_, \~i 1 ,~ \::~ ,J ç~/ k_, \~Á
"Súbito a nota extrema anseia, treme, rola" (C. ALvFs. Obras, 1, 115).
7 - ~~i \._, \~,, ,~i \_Á ~~, 1 ,-Á \,.Á \~/ ,~ k_, %~'J
"Noiva que espera o noivo e suspira em segredo" (BiLAc apud SAID ALI,
ibid.).
- 1---,1~, 1---,1~, 1---,1~, 1 1~Á 1---,1,Á 1~, 1---,1~,
"Em torno a cada ninho anda bailando uma asa" (Io., ibid.).
9 - \.-, ,~ \::~ -i k_~ \~, 1 \~, ,i _, ç:~ \_, ~~Á "Vês com olhos
do céu cousas que alo do mundo" (M. Dz Assis, ibid.).
10 - :~, ,~ _, ~, 1 :-', _, \~, \-., \.~ ~,
"Essa que ora nos céus anjos chamarn Leonora" (h)., ibid.).
11 - 1~, 1---,1~, 1---,1-1 1~, 1 \~,
"Casa, rico jardim, servas de toda a parte" (ID.. ibid.).
12 - ~~ ,~ \~ ,~ \,_Á \~À 1 \_~ \~Á \_i ~~ \,~
"Berço em que'se emplumou o meu primeiro idílio" (BiLAc. ibid.).
13 - \~í ,_Á k~Á ,~ ,..Á \~Á 1 .~ ,~ ~~ ,J ',-Á <~
"Passa um velho judeu, avarento e mesquinho" (G. JUNQUEMO, ibid.).
362
#
"A lei orgànica do alexandrino pode ser expressa em dois artigos:
1.0) quando a última palavra do primeiro verso de seis sílabas é grave
(1.0
hemistíquio), a primeira palavra do segundo deve começar por uma vogal
ou por um h; 2.0) a última palavra do primeiro verso nunca pode ser
esdrúxula. Claro está que, quando a última palavra do primeiro verso é
aguda, a primeira do segundo pode indiferentemente começar por qualquer
letra, vogal ou consoante.
Alguns poetas modernos, desprezando essa regra essenciall têm abolido
a tirania da cesura. Mas o alexandrino clássico, o verdadeiro, o legítimo,
é o que obedece a esses preceitos"(').
3 - RIMA: PERFEITA E IMPERFEITA(2)
Chama-se rima a igualdade ou semelhança de sons pertencentes ao
fim dos vocábulos, a partir da sua última vogal tônica.
Interna é a rima que se faz com o último vocábulo de um verso e
um vocábulo no interior do verso seguinte. Em Aventura Meridiana (Os
Amores de P. Ovídio Nasão, 63 e ss.), A. F. de Castilho, compondo quartetos
de versos alternados, de 12 e 6 sílabas, rima o 1.0 verso com a 2.a
sílaba do 2.0; o 2.0 com o 4.0; o 3.0 com a 2.a sílaba do 4.0; finalmente
variando o verso ora grave, ora agudo:
"Era na estiva quadra 1 Intenso meio dia
423
Pedia um respirar;
No meio do meu peito
Me deito a descansar.
janela entreaberta, esquiva ao sol fogoso,
Repouso ali mantém;
Luz como a de espessura
Escura ao quarto vem".
A rima pode ser perfeita ou imperfeita. Diz-se perfeita quando é com
pleta a identidade dos sons finais:
"É& engraçada e formosa
Como a rosa,
Como a rosa, em mês d'abril;
És como a nuvem doirada
Deslizada,
Deslizada em céus d'anil" (G. DiAs, Obras, 59).
Diz-se imperfeita aquela em que a identidade de sons finais não
completa. Ocorre a rima imperfeita quando:
(1) O. BILAC - G. PAssos, Tratado de Versificação, 68-69.
(2) Os versos que não rimam chamam-se soltos ou brancos.
363
#
a) se rima uma vogal de timbre aberto com outra de timbre fechado:
"Bailando no arj gemia inquieto vaga-lume:
- "Quem me dera que fosse aquela loura estrela
Que arde no eterno azul, como eterna vela!"
Muitas vezes a perfeição ou imperfeição da rima é relativa, conforme
a pronúncia padrão. No Brasil, por exemplo, constituem rimas perfeitas
as que se fazem entre certas vogais e ditongos (desejos com beijos; luz
com
azuis; atroz com heróis; vãs com mães; espirais com Satanás; bondoso~ com
repouso). Em Portugal é perfeita a rima entre mãe e também (ou tem,
etc.), prática que, por imitação literária, ocorre entre alguns de nossos
poetas românticos.
Rimas consoantes e toantes. - A rima se diz consoante quando tem
os mesmos sons a partir da última vogal tônica do verso, vaga-lume /
Toante é a rima feita apenas com a vogal tônica do verso
Disposição das rimas. - Quanto à maneira por que se dispõem nos
versos, as rimas podem ser emparelhadas, alternadas (ou cruzadas), opostas
Cada rima de uma estrofe é designada por uma letra maiúscula ou
minúscula do alfabeto, de modo que a sucessão de letras indica a sucessão
424
Assim no exemi)lo:
"Moços, quero, entre vós, falar à nossa terra
Somos sua esperança e o seu último amparo;
Em nosso corpo e em nosso espírito se encerra
a distribuição das rimas é representada pelo esquema abab (OU ABAB)
onde a indica a rima -erra (terra / encerra) e b a rima -aro (amparo
EMPARELHADAS são as que se sucedem duas a duas (o esquema é
#
"Numa vida anterior, fui um xeque macilento
E pobre... Eu galopava, o albornoz solto ao vento
Na soalheira candente; e, herói de vida obscura,
Possuía tudo: o espaço, um cavalo, e a bravura" (0. BILAc, Avatar).
ALTERNADAS (ou cruzadas) são as que se alternam, fazendo que o 1.0
verso rime com o 3.0 (e os demais ímpares) e o 2.0 com o 4.0 (e os demais
pares). Correspondem ao esquema abab:
"Ora (direis) ouvir estrelas1 Certo
Perdeste o sensol" E eu vos direi, no entanto
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto..." (0. BILAC)
OposTAs (ou enlaçadas) são as que se verificam em versos entre os
quais medeiam dois outros versos também rimados. Correspondem ao
esquema abba:
i
"Vai-se a primeira pomba despertada.
Vai-se outra mais.. Màs outra.. E enfim dezenas
MISTURADAS são aquelas em que a distribuição é livre. As rimas misconstância
vivacidade e sono-
"É meia noite... e rugindo
Passa triste a ventania,
Como um verbo da desgraça,
Como um grito de agonia.
E eu digo ao vento que pass
Onde ela está? Longe ou perto
Mas, como um hálito incerto,
425
Responde-me o eco ao longe.
"Oh ! minh'amante onde estás;.
Aliteração é o apoio rítmico que consiste em repetir fonemas en
vocábulos simetricamente dispostos. A aliteração nasce, em geral, de un
"A juruti suspira sobre as folhas secas" (C DE ABREU)
"É a perda dura dum futuro inteiro" (ID.).
"Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violoes, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vás, vulcanizadas" (CRUZ E SOUSA).
#
5 - ENCADEAMENTO
Encadeamento consiste na repetição simetricamente disposta de fonemas,
vocábulos, expressões ou um verso inteiro.
Foi recurso rítmico muitíssimo usado na poesia medieval e é freqüente
na poesia moderna em versos livres. Exemplos colhidos em
Augusto Frederico Schmidt:
"No entanto este motivo escondido existe.
Não vejo, esta tristeza, da saudade da que é sempre a Ausente
Nem da sua graça desaparecida_" (repetição de fonema)
"Pensei em mortos que morreram entre indiferentes.
Pensei nas velhas mulheres..." (repetição de palavra)
"No princípio foi um balanço contínuo e vagaroso,
Depois foi descendo uma sombra indistinta,
Um grande leito surgiu e lençóis brancos como espuma
No princípio foi um balanço contínuo e vagaroso" (repetição de verso).
6 - PARALELISMO
Paralelismo é a repetição de idéias através de expressões aproximadas:
"O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tetos negros do fim do mundo?
E o homem do leme disse, tremendo:
"EI-Rei Dom João Segundo 1"
"De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que veio e ouço?"
Disse o mostrengo, e rodou trés vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso:
"Quem vem poder o que eu só posso,
Que moro onde nunca ninguém me vime
426
E escorro os medos do mar sem fundo?"
E o homem do leme tremeu, e diste,
"EI-Rei Dom João Segundo 1" (F. PENCIA).
7 - ESTROFAryXO
O poema pode conter dois ou mais versos os quais se agrupam para
formar uma estrofe.
366
I
#
O costume tradicional é iniciar cada verso com letra maiúscula, qual-
-quer que seja a sua relação sintática. Pode-se, entretanto, por, no
início,
letra minúscula, conforme a sua relação sintática com o verso precedente.
As estrofes podem ser simples, compostas e livres.
SimpLu são as estrofes formadas de versos com a mesma medida.
ComposTAs são as aue encerram versos de diferentes medidas.
1~ são as que admitem versos de qualquer medida.
As estrofes de dois, três, quatro, cinco, seis, oito e dez versos recebem
-respectivamente os seguintes nomes especiais: dísticos, tercetos,
quadras
,(ou auartetos), quintilhas, sextilhas, oitavas e décimas. As estrofes
de sete
,e nove versos não têm nome especial.
8 - VERSO DE RITMO LIVRE
"O que chamamos impropriamente versos livres é uma série irregular
-de versos que tomados em separado são regulares"(').
i
O verso de ritmo livre não tem número regular de sílabas nem são
uniformes e coincidentes o número e a distribuicão das sílabas átonas
e
tônicas responsáveis pelo movimento rítmico.
O verso livre exige do poeta uma realização tão completa quanto o
1 verso regular. "À primeira vista, parece mais fácil de fazer do que
o verso
i
metrificado. Mas é engano. Basta dizer que no verso livre o poeta tem
de criar o seu ritmo sem auxílio de fora. É como o sujeito que solto
no
427
recesso da floresta deva achar o seu caminho e sem bússola, sem vozes
que
de longe o orientem, sem os grãozinhos de feijão da história de João
e
Maria. Sem dúvida não custa nada escrever um trecho de prosa e depois
distribuí-lo em linhas irregulares, obedecendo tão-somente às pausas
do
pensamento. Mas isso nunca foi verso livre... O modernismo teve isso
de catastrófico: trazendo Dara a nossa líneua o verso livre, deu a
todo o
mundo a ilusão de que uma série de linhas desiguais é poema"
"A recitação do verso, além dos requisitos exigidos para a da prosa,
exige uma gesticulação adequada, sem exagerós, um jogo fisionômico a rogiado
e que o recitalista não faça sentir demais a rima nem a cesura.
o caso dos versos livres modernos é preciso descobrir o ritmo e a
#
APÊNDICE
DOIS EXEMPLOS DE ANÁLISE ESTIÚSTICA
A título de meras sugestões aos leitores ainda não familiarizados com
as técnicas
da análise estilística, temos a satisfação de transcrever aqui dois
excertos assinados,
um por excelente mestre brasileiro, J. MAT~ CÂMARA JR., e outro pelo não
menos
distinto estudioso português, JACINTO DO PRADO, COELHO. Outras
interessantes amostras
pode o leitor curioso ver nos estudos de AUGUSTO MEYER, OTHON MOAcYR GARCIA
e uma plêiade de patrícios onde está indicada farta bibliografia
especializada.
1) Um soneto de António Nobre
O comentário de poemas será ainda, em grande parte, criação, inventiva,
uma série de desdobramentos psicológicos, evocações, associações
de
imagens, que mostram a personalidade do leitor a colaborar com simpatia
na obra do comentário. A visão de conjunto originária iluminará todo
o comentário. A linguagem será encarada, segundo quer Spitzer, como
floração da substância espiritual do poema. A divisão metodológica em
comentário ideológico e comentário de forma não me parece justa. O
poema deve ser olhado como um todo. A consideração das formas lingüísticas
conduzirá ao psicológico, e acompanhará o comentário da substância
do princípio ao fim. O que se pretende, em primeiro lugar, é que
* eu do leitor comungue no eu do poeta (e Berdiaeff mostrou muito bem
* impossibilidade desta comunicação por meios que não sejam de natureza
afetiva; pensar é objetivar, é separar). É claro que sem objetivação
não há critica. Mas no comentário de poemas a crítica aos pormenores
deve incluir-se num estado de adesão que permaneça durante o
428
comentário.
~ Tudo isto, eu sei, é muito difícil; nunca consegui realizá-lo
satisfatoriamente.
Dou, todavia, como exemplo, o comentário dum soneto que
tentei fazer segundo a orientação exposta. Começo pela introdução à
leitura:
"Antônio Nobre, não só pela concepção que teve da poesia, como pela
estranha riqueza da sua personalidade, é verdadeiramente um poeta moderno.
Se ainda vivesse, teria setenta e cinco anos. Talvez a sua presença
nos impedisse o convívio estreito com esse rapaz triste que escreveu o
Só,
o livro mais triste que há em Portugal. A sua presença física, torná-lo-ia,
porventura,* mais distante. Assim, porque morreu aos trinta e dois anos,
ficou sempre rapaz na nossa lembrança, de olhos doces, pálido, feições
finas, embrulhado numa capa de estudante, absorto como é sina dos poetas.
Quando ouvimos o tom lastimoso da sua voz, quando o sentimos tão
perto, os nossos braços procuram estender-se através da bruma que separa
368
I
#
as almas, para lhe darem finalmente, com piedade fraterna, o carinho que
pediu sem receber. Continua vivo a nosso lado, continua conversando,
obriga-nos, pelo tom das suas palavras, a ver o mundo como ele via, sentir
como ele sentia.
Mas não era assim, pela vida subjetiva, que Nobre queria viver.
Nobre foi um homem de desejo. Emigrou para um país diferente, recolheu-
se no sonho da infáncia, chegou a bendizer a velha, a senhora Morte,
apenas pela força do seu destino.
Antônio Nobre queria viver a nossa vida, queria ser como os outros
saudável e contente. Ambicionava uma purinha de cabelo negro e boca
vermelha. Confessou-nos o seu "ideal de parisiense": casa defronte do mar,
sardinha ao lume, economias no mealheiro, sendo possível, e mulher e
filhos. Nobre fora feito para este mundo, e só a doença o afastou dele.
O seu desespero dissolveu-se numa resignação de menino suave e obediente,
que se entretém com brinquedos de luxo. O seu brinquedo foi a
arte. Mas 'não somente um brinquedo: um meio de confissão, de transmissão
da sua humanidade confrangida. Por isso (pensando que ele
queria viver, e que morreu tão novo, tão triste, tão só) ouviremos sempre
com piedade a voz do seu lamento, e choro de quem já não espera nada,
mesmo o ópio do regresso, pela memória, aos tempos de criança:
Tombou da haste a flor da minha infância alada,
Murchou na jarra de oiro o púdico jasmim:
Voou aos altos céus a pomba enamorada
Que dantes estendia as asas sobre mim.
Julguei que fosse eterna a luz dessa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa visão de luar que vivia encantada
Num castelo ideal com torres de marfim 1
429
Mas hoje as pombas de oiro, aves da minha infância,
Que me enchiam de lua o coração, outrora,
Partiram e no céu evoam-se a distância 1
Debalde clamo e choro, erguendo aos céus meus ais:
Voltam na asa do vento os ais que a alma chora,
Elas, porém, Senhort elas não voltam mais...
Da leitura deste soneto fica-nos o travo da desilusão, a amargura de
perder o que nunca mais se recupera. As metáforas, cuja finura e cuja
riqueza nos impressionam, vêm transmitir uma visão encantada dos anos
da meninice. Segundo o poeta, a infincia é alada, tem asas, talvez porque
o pensamento infantil voa a cada instante para o reino da fantasia, talvez
porque a criança é um anjo, pela sua pureza, ainda visível da sua divisa.
Nobre escolheu uma flor, "um púdico jasmim", para simbolizar essa
candura perdida. O jasmim é branco, de perfume penetrante mas suave.
Também as crianças têm a graça, o perfume; a brancura da alma. O
369
#
adjetivo "pudico" estabeleceu, no espírito do poeta, a ligação entre a
flor
e a criança: ambos possuem a pudicícia, a castidade, a inocência.
Vejam em tudo isto a delicadeza da arte de Antônio Nobre. Ele pôs
de lado os processos declamatórios, a eloqüència rornáritica, os meios
diretos
e demasiado conhecidos. Para nos dizer que terminou o sonho da
sua meninice, a alegria da visão imaculada, Nobre fala-nos da flor que
também tombou da haste, do jasmim que murchou num vaso de oiro,
da pomba enamorada que se sumiu no azul e nunca mais voltou (lembramos
aqui as lindas asas brancas de Garrett, que ele batia para voar
ao céu).
Todo o soneto é construído sobre estas metáforas brilhantes, desde
as pombas de oiro às torres de marfim. Somos levados a aludir ao simbolismo
de Antônio Nobre, à preferência pela magia das insinuações indiretas,
Na verdade o simbolismo não passou, a princípio, duma reação
contra o processo parnasiano de mostrar as coisas, francamente, inteiramente,
dando-as pelo nome próprio, sem rodeio nem véu. Isso tirava ao
leitor o prazer de participar na criação.
"Nomear um objeto - escrevia Mallarmé em 1891 - é suprimir três
quartos do gozo do poema, que consiste na delícia de adivinhar pouco a
pouco; o sonho é sugerir o objeto. O uso perfeito deste mistério constitui
o símbolo: evocar lentamente um objeto para mostrar um estado de alma,
ou, inversamente, escolher um objeto e tirar dele um estado de alma por
uma série de decifrações". Estas palavras de Mallarmé (que foi o maior
dos poetas simbolistas franceses) quadram à poesia de Antônio Nobre; notamos,
porém, que, no soneto que hoje comentamos, não há imagens tão
ousadas ou alucinantes que revoltem o senso comum; pelo contrário, é
bem compreensível que se represente a candura da infincia por uma flor
branca, o mundo fantástico e hermético das crianças por um castelo de
marfim.
430
O que parece estranho é não ser uma dor humana, dilacerante como
a de Antônio Nobre, transmitida sem rodeios, no seu ímpeto de expansão,
desalinhada e convulsiva. Não há dúvida de que Nobre foi sempre sincero.
Desde pequeno, começou a meditar na morte, porque a esperava. Os prenúncios
da tuberculose vieram pouco depois dos vinte anos. E ele, que
já em criança pedia que, depois de morto, o embrulhassem num cobertor,
'porque tinha medo do frio do jazigo", depois começou a ver em todas as
coisas o riso macabro da morte-
Em tudo via a Velha, em tudo via a Morte;
Um berço que dormia era um caMo pra cova:
Via a Foice no Céu quando era Lua-Nova...
Antônio Nobre foi, portanto, um poeta espontáneo. Escreveu com o
sangue das suas veias. Mas não foi apenas um homem que sofreu, porque
fez dos pedaços da sua dor filigranas de beleza e harmonia. Ele próprio
370
#
disse uma vez: "A dor que dura sempre produz o prazer que não dura mais
que um momento". Esse momento de que fala Nobre é, sem dúvida,
o momento da criação poética, o momento da graça. O poeta depôs no
altar da Arte a sua humanidade passageira, que sangrava. Contempla-se
na própria imagem, acriançado e um pouco dáridi, saboreando as palavras,
procurando ritmos.
É notar como a palavra "lua" tem na sua poesia um halo especial de
associações de imagens. As palavras recebem das outras mais próximas
uma incidência de estímulos psicológicos que muitas vezes transfiguram.
Por isso 1ua% nos versos de Nobre Ç... aves. na minha infància
que me enchiam de lua o coração outrora") sugere-nos o mundo saudoso
e feminino do poeta, com as graças pálidas e os seus fantasmas adormecidos.
No último terceto, Nobre lança uma queixa dolorida e todavia humilde
e resignada:
Debalde clamo e choro, erguendo aos céus meus ais:
Voltam na asa do vento os ais que a alma chora.
Elas, porém, Senhor 1 elas não voltam mais...
Nobre não renega o Senhor, embora tenha clamado antes de chorar.
A rapidez saltitante do segundo verso, composto por palavras todas muito
curtas, parece trazer o eco dos ais do poeta, vindos nas asas do vento.
Voltam os ais que redobram a sua dor, mas não voltam as pombas de oiro
da sua infáncia alada. O último verso, mais de que a chave racional do
soneto, à maneira clássica, é uma frase sentimental: a primeira parte,
ascendente, é um grito de alma ("elas, porém, Senhor 1"); a segunda parte,
descendente, é um suspiro de aceitação ("elas não voltam mais").
Antônio Nobre conformou-se, acabou por amar a sua cruz. Conseguiu
tomar-se criança meiga e obediente, de olhos muito abertos, de
sorriso tão triste. O sorriso de quem fala de ir viajar, sequinho, para
o
sol-posto; o sorriso de quem pede que componham com jeito o travesseiro,
431
de modo que lhe faça bom encosto no caixão:
De modo que me faça bom encosto,
o travesseiro comporá com jeito,
E eu, tão feliz 1 Por não estar afeito,
Talvez este sorriso derive duma atitude premeditada, um último
"coquetismo" de moribundo que compõe o lençol, manda abrir a janela
e diz qualquer coisa infantil para distrair os outros da sua desgraça.
Talvez seja a última defesa de quem teve de entregar-se todo, esfarrapado
e sangrando, aos olhos da multidão compadecida".
JACINTO DO PRAW COELHO (A Educação
do Sentimento Poético, páge, 65-71).
371
#
2) Um soneto de Machado de Assi
A CAROLINA
... O estilo tem um cunho nitidamente quinhentista.
Sugere-o a formulação global, lingüística e rítmica, e sublinham-no
certos dados concretos, como, por exemplo, o qualificativo "malferidos",
aconselhado por Mário Barreto justamente por se casar ao seu ideal de
restauração da linguagem' clássica (1), a já citada locução de
"pensamentos
idos e vividos", e a pobreza das rimas dos tercetos em -ados e -idos, onde
se alinham fácil e espontaneamente particípios da 1.a conjugação e da
2.a.e 3.a :
Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.
O que, entretanto, mais aí nos deve interessar é a Iorma interna",
Sto é, o plano formal imanente no desdobramento das frases.
Para o soneto, a forma interna, assim concebida, se processa pela
concatenação de idéias, ascendentes em amplitude e intensidade, até o
coroamento de uma larga e culminante expressão final. É o que naturalmente
estava prefigurando no microcosmo da copla esparsa, de que
vimos provavelmente ter evoluído o soneto.
Em Bocage, esta estruturação chega muitas vezes ao uso de um único
período, que só na parte final apresenta as suas orações capitais. Um bom
exemplo é o soneto sobre a existência de Deus (2) onde vão-se anunciando
os fatos da natureza comprobatóríos, até se chegar à afirmação dessa existéncia
na base desses fatos -
432
tudo que há a confessar me obriga
- acrescentando-se o conceito de que tal existência se impõe à Razão, e
não apenas à Fé, pela evidência física e pela necessidade no plano moral,
o que tinha de ser o capital argumento para o iluminismo oitocentista:
E para crer num braço autor de tudo,
Que recompensa os bons, que os maus castiga,
Não só da Fé mas da Razão me ajudo.
(1) Waio BAnaTo, Novos Estudos da Língua Portuguesa, Rio, 1921, p. 364.
(2) Obras PodUcas de Bocage, ed. Tavares Cardoso e IrrnAo, Lisboa, 1902,
vol. 1, 234.
372
#
Esse plano formal interno pode, é verdade, oferecer a variante do chamado
'soneto elisabetano" (que praticou Shakespeare) (1) onde a três estrofes
de quatro versos, independentes entre si quanto à rima, se adjunge um
dístico final, que resume o pensamento anteriormente desenvolvido. Neste
particular, Antônio Nobre nos ilustra uma forma interna de soneto elisabetano
moldado na forma externa italiana, quando disjunge pela idéia
os dois versos finais do último terceto, neles resumindo todo o teor da
poesia, cujo pensamento se concluíra no décimo segundo verso:
õ virgens que passais ao sol poente,
Pelas estradas ermas a cantar,
Eu quero ouvir uma canção ardente
Que me transporte ao meu perdido lar.
Cantai-me nessa voz onipotente
* sol que venha aureolando o mar,
* fartura da seara reluzente,
* vinho, a graça, a formosura, o luar.
Cantai, cantai, as límpidas cantigas
Do fundo do meu lar desaterrai
Todas aquelas ilusões antigas,
Que eu vi morrer num sonho como um ai
õ suaves e frescas raparigas,
Adormecei-me nessa voz... Cantai 1(2)
Voltando, entretanto, a "A Carolina" de Machado de Assis, examinemos-
lhe a forma intérna na base das considerações acima feitas.
Não temos al, em verdade, um desdobramento de idéias cada vez mais
amplas e intensas até um clímax de versos finais.
o poeta combina pensamentos cognatos e paralelos, um nos quartetos,
outro no primeiro terceto, enquanto um terceiro pensamento, que
é a essência do pequeno poema, se consubstancia finalmente no último
terceto.
Recitemos a produção, comparando-a com o esquema assim depreendido:
A) Visita à sepultura com as idéias que acompanham esse gesto de saudade
e carinho: a evocação da felicidade e a afirmação de uma
lembrança e um afeto que não mais se apaga ou sequer desfalece:
433
Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração de companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.
(1) Sobre o soneto na literatura inglesa, consultar ENID H~ta, The Meters
of EngUM
Poetry, London, 1954; P. 186. es.
(2) ANTóNio Noeitz, Só, 3.a ed. (Aillaud e Bertrand), 1913, pág. 120.
373
#
B)Oferta de flores, como símbolo dessa saudade, que assim se concretiza
num gesto ritual:
Trago-te flores, restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
C)Finalmente, o conceito de que o poeta está morto para o mundo, e
a sua vida física se prolonga automaticamente pelo impulso adquirido
de uma força vital que desapareceu:
Que, se eu tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.
Mas não é tudo. Não se resume nesta análise o plano complexo do
soneto.
O poeta articulou sutilmente a parte C com a parte B, tirando-a da
expressão, aparentemente secundária, de que ele está tão morto quanto a
sua Carolina.
Digo "aparentemente secundária% porque o termo está colocado em
meio de frase e como primeiro elemento de um conjugado copulatívo, em
que predomina formalmente, portanto, o segundo qualificativo separados.
Há a intenção de provocar a perplexidade a posteriori do leitor, cuja
atenção desliza até separados e depois de aceitar essa idéia self-evídent,
há de retornar, sem querer, para o paradoxal adjetivo mortos, que o
antecede. "Mortos, por quê?" Assim concentrado num novo conceito,
que obviamente tem de intrigá-lo, está ele preparado para receber o impacto
de pensamento final, introduzido ao último terceto por um que de
valor causal.
Temos, assim, - não um desdobramento que regularmente vai ascendendo
para uma idéia ápice -, mas um primeiro pensamento concluso
(a evocação da felicidade perdida e a lembrança perene da mulher
amada), um segundo que o ilustra numa concretização simbólica, e, saindo
de um elemento aí lançado quase ao acaso, um pensamento final, que
434
transfigura o poema e lhe dá a substância definitiva.
É nesta forma interna e no seu contraste com o plano natural de um
soneto, que me parece estar, estilisticamente, a significação da pequena
jóia poética que acabamos de rapidamente apreciar.
JOAQUIM MATOSO CÂMARA jR. (Revista
do Livro, nP 5, págs. 71-73).
374